O seu investimento na leitura deste post é de 6 minutos

Vamos Meter Água na Saúde

Sim, meter água na saúde é exactamente o que queremos dizer.
Não podemos esquecer que “Os primeiros nove meses de 2015 foram os mais quentes alguma vez registados no planeta e Setembro foi mesmo o mais quente dos 1.629 meses registados, anunciou esta quarta-feira a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). (in Observador, 21 Outubro 2015). Quando estas alterações climáticas surgem, a água escasseia e torna-se o bem mais precioso e até nalgumas partes do mundo vale mais do que ouro, vale até a Vida.
Meter água na saúde não é propriamente fazer asneira ou fazer qualquer coisa de errado. Se água é vida, meter água na saúde é dar mais vida à Saúde. E em tempos de seca, imaginem a falta que a água faz.

O ano de 2015 foi também um ano de seca na saúde, onde o calor gerado pelos aumentos de custos, pela crise económica e pelo consumo dos anos anteriores, quase que secou por completo a fonte de água, usada para refrescar as necessidades do sector. Os exemplos da seca são vários e conhecidos e as consequências vão permanecer ainda algum tempo.
A analogia que fazemos com a água serve para ilustrar a razão de ser deste blog e a essência do Market Access que defendemos. Hoje, a busca do Santo Graal, não é mais do que a busca por uma fonte de água capaz de corrigir os efeitos da seca que se abateu sobre nós.

Lembro-me de em criança, no início da década de setenta numa aldeia perto de Castelo Branco, ver pela primeira vez um Vedor. Nas mãos calejadas pelo trabalho e pela idade, segurava um ramo verde em forma de um V, de uma árvore que não me lembro qual. De repente como por magia, o ramo mexeu-se e inclinou-se em direcção ao solo. “Aqui há água” sussurrou o homem perante o silêncio sorridente de todos os que na expectativa o seguiam. Hoje ainda ali existe um poço, que mesmo neste último Verão, tinha água para beber e regar aquela quinta onde a água era mais precisa.
Esta é a nossa tarefa como profissionais – saber utilizar a água com parcimónia e de forma consciente e talvez até encontrar formas de conseguir levar a água onde mais se necessita.

As Quintas da Saúde
Continuando com a analogia de meter água, suponhamos que o mercado ou o sector da Saúde é composto por cinco grandes Quintas, tipo latifúndio.

2016-01-14 13_18_59

A Quinta dos Recursos Humanos alberga todos os profissionais de saúde que em Portugal trabalham no SNS – médicos, enfermeiros, técnicos e todos as outras profissões que de alguma forma estão ligadas a todas as unidades de saúde e organismos tutelados pelo ministério da saúde. É muita gente nessa quinta e nem sempre se dão bem, onde as diferentes e diferenças de classes, criam barreiras e obstáculos por vezes difíceis de ultrapassar. Apesar de tudo é uma Quinta que tem os melhores profissionais de saúde que podemos ambicionar.
A Quinta dos Medicamentos e Dispositivos Médicos engloba todos os fármacos e dispositivos médicos comparticipados pelo Estado, em ambulatório ou no meio hospitalar. Nesta Quinta coabitam portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades e continentes; coabitam produtos inovadores e produtos que nalguns casos tem mais de 100 anos. As relações entre as diversas entidades são cordiais mas dentro de um código de conduta similar ao da guerra fria. Produz essencialmente medicamentos, tratamentos e dispositivos médicos e obviamente uma parte fundamental desta Quinta são as Farmácias, locais onde o utente levanta os seus medicamentos de prescrição.
A Quinta dos Meios Complementares de Diagnóstico e Tratamento, MCDT’s, (Análises Clínicas, Imagiologia e outros) é talvez a mais desconhecida de todos. Quase que passa despercebida mas sabe-se ou presume-se que detém uma grande importância. Confesso que não sabemos muito sobre esta quinta mas sabemos que não tem um ambiente tão pacífico como seria desejável. Produz essencialmente exames clínicos e de imagem para o diagnóstico.
Que grande Quinta esta, a da Organização do SNS. Neste edifício encontramos todas as entidades do Estado, que gerem e determinam a aplicação da política e da estratégia de Saúde. Aqui encontramos os CSP, a rede hospitalar, o Infarmed, a DGS, a ACSS, as ARS, a SPMS e outros organismos estatais. Nesta quinta produz-se a forma como estão organizados os cuidados, a saúde pública e as reformas que necessitam de ser feitas. Nesta Quinta arrumamos tudo o que não está nas outras.
Isolamos uma parte Quinta anterior numa nova, por entendermos que ela deve ser independente. Esta quinta Quinta deverá ser um exemplo de eficácia e também de independência de todas as outras.
É a Quinta das Tecnologias e Sistemas de Informação. O Futuro passa por aqui, com os registos dos utentes, da consulta, com a informação e o conhecimento que gera, os “outcomes” clínicos, o “Real World Evidence” e o “Big Data”. Quem detiver a informação detém o poder e de uma vez por todos não podemos ser juízes em causa própria ou seja produzir e controlar a informação que nos avalia e nos atribui financiamento.
Qualquer governo precisa muito do que esta Quinta produz, sob pena de a gestão e governo de todas as outras Quintas se tornar inviável se esta não funcionar de forma independente e cristalina. Ressalvar que esta Quinta detém a capacidade de interferir no desperdício em Saúde e por isso deve ser vista de forma independente e como o denominador comum mas autónoma de todas as outras.
Estas são as grandes Quintas da Saúde, que diariamente necessitam de nutrientes básicos como a inteligência, o conhecimento, a prática, o sentido de serviço público, muita coragem e resiliência, entre outros. Mas mesmo tendo os melhores nutrientes, se não houver água, não crescem nem produzem os cuidados de saúde que todos ambicionamos.

Não se chamam “Nimbostratus” ou “Cumulonimbus”
É então preciso levar água a estas Quintas. Mas de onde pode vir? Do subsolo? Da chuva? De uma fonte? Quando olhamos para o alto vemos um sistema de nuvens carregadas do líquido precioso. Ainda no campo da analogia, não se chamam “Nimbostratus” ou “Cumulonimbus” mas simplesmente Orçamento Geral do Estado para a Saúde, que sabemos sempre como começa, mas nunca como acaba.

2016-01-16 03_34_50

E da nuvem do orçamento sai uma tubagem directa a uma estação elevatória que distribui a água para as diferentes Quintas, sabendo que as necessidades de água, variam de Quinta para Quinta. A verdade é que em cada sistema de financiamento, perdão fornecimento de água, existe uma torneira que antecede a entrada na Quinta e que permite a alguém, controlar o fluxo, caso seja esse o objectivo. Desta forma, pode reduzir-se ou cortar a água para uma e manter o financiamento para outra ou mesmo outras. A decisão cabe a quem está nas nuvens, pelas razões que entender.
Cada Quinta tem na verdade dois níveis de água – o mínimo e o necessário. Obviamente que em tempos de “vacas gordas”, pode continuar a financiar-se a água até a níveis para além dos necessários, ainda que isso não signifique maior produção ou mesmo melhorias na eficácia e na eficiência. Ao contrário, hoje é comum ouvir que nos últimos anos atingiram-se valores mínimos e até abaixo dos mínimos, pondo em risco a prestação de cuidados. Há muitos exemplos pelo país mas decerto que esses exemplos não têm origem somente na falta de água.

É certo que as necessidades de cada Quinta não são todas iguais e por isso pode-se perguntar, quem determina os valores dos níveis para cada Quinta? Ou será que a utilização e a forma como cada Quinta gere o seu financiamento, como cada profissional ou utente utiliza o que recebe, não interfere com a oscilação dos valores entre o “Necessário” e o “Mínimo”?
Será que falar sobre estes assuntos sendo matéria melindrosa, não deve ficar confinada à elite que geriu, que gere ou que vai gerir a Saúde em Portugal?
Não me parece, porque foi também esse silêncio e desinteresse que nos trouxe até aqui. Todos temos responsabilidade pelo que utilizamos no SNS. Uma coisa estupidamente simples e que pode levar a poupanças – porque não ligamos para a Linha 24 em vez desse simples telefonema, vamos logo para a urgência do hospital?

O depósito dos Anónimos recebe 300 mil euros por hora
O sistema de saúde, pela complexidade e natureza do seu trabalho, pode originar práticas prejudiciais aos seus objectivos finais. Isso é compreensível mas acredito que o problema da Saúde não está apenas na escassez de financiamento, mas também no desperdício que se produz. Continuando na senda de Jacques de la Palice, antes de associar os problemas da Saúde à falta de financiamento, pergunto se podemos aperfeiçoar os recursos já existentes, através de, por exemplo, melhores práticas de gestão?

2016-01-18 07_40_01

Desperdício é algo que ninguém gosta de ouvir falar. Mas a verdade é que ele existe em todas as Quintas do SNS e as torneiras estão constantemente abertas, vertendo para um grande depósito, que obviamente que não é de ninguém ou se quisermos é de anónimos.
Pergunto-me se o desperdício em saúde beneficia alguém? Porque se beneficia, então é corrupção e temos um caso de Polícia. Acredito maioritariamente que não beneficia alguém em particular e que se deve muito a uma inadequação de recursos, a deficiências em processos, métodos e práticas e até a uma inadequação da oferta e da produção. Mas também muito do desperdício é originado por problemas de organização e gestão da rede do SNS e não apenas da produção de um cuidado de saúde. A água evapora-se por entre corredores e gabinetes…
O desperdício traduz-se em custos excessivos, no trabalho dos profissionais, na capacidade dos serviços médicos, na utilização de materiais, no fornecimento de serviços e até no factor tempo/espera. Haverá decerto outros custos com o desperdício mas estes são decerto significativos para todos perdermos muito dinheiro.

Mas o que é muito dinheiro? Vale mesmo a pena preocupar-nos com o desperdício? É provável que o depósito dos anónimos não seja assim tão grande!
Quando se lê sobre esta matéria, começamos a perceber que o desperdício em saúde é um tema comum a todos neste planeta. A Pricewaterhouse num relatório de 2010, “The price of excess, Identifying waste in healthcare spending”, aponta para 1,2 a 2,2 triliões de dólares, ou seja, mais de metade da despesa em saúde, como desperdício global anual no sistema de saúde dos EUA. Outro exemplo vem do tão nosso querido NHS, que lançou um programa de redução desperdício entre 2011 e 2015 com o objectivo de poupar de 20 milhões de libras por ano, ou seja cerca de 5% do orçamento. E em Portugal qual o valor em questão?
A RTP, a 2 de Junho de 2013 veicula a notícia de que “O desperdício anual do sector da Saúde situa-se entre mil a três mil milhões de euros. Isto significa, mais de 300 mil euros por hora.”
Afinal o depósito dos anónimos é mesmo muito grande e o desperdício devia originar um desígnio nacional – o combate à sua eliminação total. O combate ao desperdício tem sido centrado mais na corrupção e nos últimos anos tem sido noticia os resultados alcançados.
Citando o actual Ministro da Saúde, no Dia Internacional Contra a Corrupção, num artigo do Diário de Noticias do dia 9 de Dezembro de 2015, ficamos a saber que “A última contabilidade feita em Julho, ainda com o anterior ministro, dava conta de 416 processos de combate à fraude enviados para investigação nos últimos três anos, com valores de fraude superiores a 370 milhões de euros. Na altura Paulo Macedo admitiu que o valor da fraude poderia ser superior e chegar aos 6% do total da despesa em saúde.”
Quando penso nestes números interrogo-me se no sistema privado de Saúde, o desperdício atinge estas percentagens. Depois penso no sistema dos EUA e reforço a ideia que é transversal e provavelmente característico da própria actividade.

Vamos meter água na Saúde (privada)
A ideia de meter água na saúde não acaba aqui e estaria incompleta se não abordasse o fluxo de água que sai da nuvem de todos nós para o sistema privado.

2016-01-14 12_56_44

Outro tema melindroso nos tempos actuais, mas na verdade este financiamento existe e é necessário. A relação entre o sistema público e o privado pode ser cada vez mais estreita e se for feita de forma clara e objectiva, pode ser benéfica para todos e até ajudar no combate ao desperdício como um todo. Muito se tem dito sobre as PPP da Saúde, mas elas existem e fazem um trabalho fundamental no acesso á saúde em Portugal.

“More with the same not more of the same.”
Não, não é tempo de julgar políticas ou culpar o passado pelos efeitos no presente, quando sabemos que muito do que hoje sucede tem raízes ainda no século passado e no ADN dos portugueses.
O ano de 2016 é tão bom como outro qualquer, para encetarmos uma mudança nos comportamentos em relação ao SNS e ao que por cá se pratica. É necessário um novo rumo e uma nova cultura. Na altura, da leitura que fiz do “The King’s Fund’s 2010 Report, Improving NHS Productivity”, ficou-me retida na cabeça uma frase – “more with the same not more of the same.” Não é uma questão de ser difícil, mas uma questão de Coragem.
Quando olhamos para este boneco das Quintas, ou melhor para o boneco do Sistema e para o seu financiamento, percebemos que falta dinheiro nalguns sectores mas, fundamentalmente falta gestão, liderança, controlo e eliminação do desperdício. Parafraseando Peter Drucker, devemos “doing things right” e “doing the right things”. E isto será difícil se o nosso pensamento não evoluir e pensar de forma diferente, para não fazermos sempre o mesmo. Os tempos obrigam-nos a quebrar as fronteiras do classicismo e olhar para o modelo do SNS, perceber que mudanças lhe podemos operar e compreender a forma de poder injectar água no sistema, mesmo que seja em pequenas bolsas de água. Criar formas de financiamento para além do orçamento é um desafio dos tempos modernos.

2016-01-14 12_53_59

O papel de quem está no sistema e estabelece relações comerciais como SNS deve mudar e perceber que pode contribuir para injectar financiamento sem ser à base de cortes no preço ou nas quantidades, ou na mão-de-obra barata que muitas vezes não funciona. O desafio está em criar e efectivar parcerias claras e benéficas para todos. É a isto que nos referimos quando dizemos vamos lá meter água na saúde. É possível, se começarmos a pensar de forma diferente e perceber se não o fizermos, o controlo dos custos vai continuar a ser feito á custa dos mesmos e das formas que todos conhecemos. Para isso os mesmos também devem mudar a forma de pensar e de agir na Saúde.
É isso que define o acesso ao mercado da saúde – uma nova acção e uma nova inteligência. O nosso contributo começa aqui.

1 Comentário

  1. Excelente análise da realidade do estado da saúde em Portugal. Acredito que qualquer “pessoa de bem” depois de ler só pode concordar, mas afinal, como em todos os outros sectores, cada um defende apenas os interesses particulares da sua quinta…
    Infelizmente existem muito poucos “visionarios” entre os nossos gestores que tenham a coragem de pensar no longo prazo, isso poderia comprometer os resultados e prémios do ano…

Escreva Um Comentário

Pin It