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– Zé, sou um médico do século 21, em plena era digital. Por isso, o que é que me pode dizer um Delegado de Informação Médica? Consigo ter toda a informação no meu smartphone, ou no tablet e com isso aceder a grupos fechados de colegas para discutir a evidência científica, o “state of the art” e até a experiência de cada um. Tenho à distância de um “click”, casos clínicos, meta-analises e as mais recentes “reviews” das sociedades científicas. Delegados de propaganda, era no teu tempo. Agora já não são precisos.

Na mesa os restantes sorriram, olharam para mim e reiteraram a opinião do colega que falou. Eram cerca de 10 jovens médicos que entraram no SNS nos últimos 5/7 anos. Juntei-os à volta da mesa de jantar para discutir e conversar sobre o papel da IF e dos Delegados, nos tempos actuais.

– Meus caros deixem que vos diga que vocês olham para a prática da Medicina, em pleno século 21, como os vossos pares olharam nas duas últimas décadas do século passado. Mas nessa altura eles não tinham acesso à web e à informação, como hoje vocês têm.

Provavelmente vocês olham para o doente como se ele fosse exactamente o mesmo analfabeto científico, quando na verdade, muitos deles entram pelo vosso consultório em busca de ajuda, afogados no mar de informação da mesma Web onde vocês andam. E se calhar, agarram-se aos resultados e até aos “outliers” de alguns dos estudos que vocês também leram, na expectativa que estejam mais actualizados. Chegam até vós para receber um pouco de esperança e conforto, ou uma direcção, um caminho a percorrer para controlarem a doença que têm.

– Sim é verdade Zé, nisso dos doentes até podes ter razão. Andamos a correr contra o tempo que não temos para ver mais utentes. Mas o que ganhamos em falar com o Delegado do Laboratório A, B ou C, quando não temos tempo?

– O engraçado, Bernardo, é que vocês olham para os Delegados de Informação Médica, exactamente da mesma forma que a maioria dos laboratórios que lhes pagam olham – como Delegados do século passado, a fazer exactamente a mesma visita médica que se fazia anteriormente. E eles olham para vocês como sempre olharam para os médicos, como se ainda estivessem na década de 90/00, antes da crise da IF e da económica.

– Oh Zé, mas a quem é que tu chamas Delegado? Aos de uma marca de genéricos que nos vêm dizer que o dele é mais barato, quando depois tudo é trocado na farmácia? – perguntou a Joana.

– Sim, esse também é um Delegado. Na verdade, ele é uma consequência da política errada de genéricos, que os sucessivos governos seguiram – respondeu a Ana, espantando-me com a resposta.

– Não. O Zé acha que os Delegados são mais aqueles das multinacionais de investigação, que lançam produtos novos, porque os dos genéricos já não nos visitam – respondeu a rir o João, médico há mais de 5 anos.

– Sim, mas depois também há marcas diferentes do mesmo medicamento. E vêm-nos dizer que a marca deles até é melhor – acrescentou a Margarida.

– Isso é mesmo uma cena muita marada. Se a gente receita por DCI, não percebo essa coisa das marcas – disse o Pedro, o mais novo deles todos.

– Detesto quando alguns Delegados me perguntam o que uso nesta ou naquela situação. Não gosto que me influenciem e admito não querer discutir o que prescrevo com ninguém que não seja médico – disparou a Maria, sempre calma.

– Maria, a tua liberdade de prescrição, já era. Esqueces-te que temos as Guidelines e as Noc’s que nos orientam em certas patologias – retorquiu o Gonçalo.

– E os indicadores de contratualização, as listas com o que gastamos por mês, para além da pressão para usar genéricos – continuou a Sofia.

– Somos médicos sem tempo para Delegados. Quando precisamos de informação consultamos a internet e num “click” ficamos “Up to date”.

– Somos médicos, sem tempo para sermos médicos – sentenciou o Bernardo.

Sorri e o meu cérebro desligou um pouco porque estes jovens estavam entusiasmados com o tema. A discussão estava mesmo acesa e obviamente este jantar para tomar o pulso a esta nova geração de profissionais dos CSP, não podia estar a correr melhor.

Senti-me como um peixe dentro de água, no meio de um cardume que se movimentava rapidamente e pelos vistos sabedor do que fazia, mas que se deslocava em círculos, em torno do mesmo lugar, ora com mais raio, ora com menos.

Seguiam-se uns aos outros, como elementos de uma tribo ou de um cardume, sem ninguém perguntar para que direcção e qual o objectivo que os fazia nadar nas águas conturbadas da Saúde. E, na realidade, ainda que mais “digitálicos e webeanos” que os colegas de outras gerações, faziam exactamente o que os mais antigos fizeram no seu tempo, ou seja, estavam no mar e nem sentiam as ondas.

Entravam para o sistema e rapidamente eram fagocitados. E então, aquela vontade de mudar o mundo e de fazer parte da revolução da Saúde, desvanecia-se no cansaço, no “burnout”, nos ideais desfeitos de serem Médicos, convertidos em peças de uma organização financeira, pouco humanista e muito imperfeita, segundo a opinião de muitos.

– Zé não dizes nada? – perguntou o Bernardo, interrompendo os meus pensamentos.

– Claro que digo meus caros.

Engraçado que todos se calaram, fixando o topo da mesa, o lugar onde me sentaram. Será que era um privilégio das barbas e cabelos brancos?

– Eu sei que vocês andaram anos a estudar, que juraram por Hipócrates e que hoje são médicos, muito orgulhosos do percurso que fizeram. E têm razões para isso.

Mas já se questionaram sobre o que significa ser Médico de Família, hoje, em 2016?

Olhei para eles e percebi que o silêncio podia ser por acharem que a pergunta era de algibeira, ou outra hipótese, completamente despropositada.

– Quando eu comecei, nos finais dos anos oitenta, a doença aguda predominava sobre a doença crónica. Vivia-se um tempo em que o médico era o bastião da ciência e da cultura, a tal ponto que na sociedade portuguesa, a grande maioria dos doentes quase que não se atrevia a questionar o seu médico.

Praticava-se uma medicina baseada no médico, baseada na causa-efeito, onde o que o médico faz é sintetizar os sinais e sintomas que o doente experiencia, numa patologia que tem um determinado código da OMS. É a visão biomédica a dominar a prática clínica, onde a centralização no papel do médico ainda se mantém, até aos dias de hoje.

O doente tem um papel diríamos, mais passivo no controlo da sua saúde, limitando-se a procurar sempre que precisa, um profissional que se responsabiliza pela “cura” do problema biológico da sua saúde, através de conselhos, medicamentos e em última instância, cirurgia.

Estávamos no apogeu do modelo biomédico, apesar de em 1978, numa conferência em Alma Ata, sobre os Cuidados de Saúde Primários, defender-se a definição de saúde da OMS, como o “completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade”.

A Carta de Ottawa em Novembro de 1986, diz que o modelo de saúde a utilizar, vai muito para além da concepção biológica e bioquímica, estende a evolução do modelo não só dos médicos para outros profissionais de saúde, mas também, para o próprio cidadão. É o tal empowerment que todos falam.

Na prática, o médico deixa de estar no centro do sistema para lá colocar, para já, o cidadão, se ele souber lá estar. Pelo menos é o que todos apregoam – o doente no centro do sistema.

Mas então, estarão vocês médicos preparados para isto?

Olharam uns para os outros, mas deram-me o silêncio como resposta.

– Meus Caros, o papel do Médico de Família é muito difícil. Se ele for mantido e desenvolvido, o Médico de Família deverá vir a ser o mais instruído de todos os médicos do SNS. Isso eleva-vos a posição, mas também a responsabilidade.

E hoje vocês não podem ser apenas médicos. O modelo que se preconiza no horizonte, a par com a pressão financeira e as necessidades do doente, obriga-vos a ser verdadeiros gestores da doença e da saúde, de forma a que o doente certo, tenha no tempo certo, o medicamento certo. Hoje vocês devem ser gestores de profissão e médicos como carreira.

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– Chegou a altura de estarem na floresta, conhecerem a sua verdadeira dimensão, quantas espécies de árvores lá existem e em que estadio de desenvolvimento se encontram. Chega de verem apenas a casca da árvore que têm pela frente. Conheçam bem as partes que fazem o todo.

Dou-vos um exemplo. Em finais de 2015 efectuamos um trabalho de consultoria nalguns ACES, com as Unidades Coordenadores Funcionais da Diabetes. O objectivo foi o de ajudar a elaborar o Plano de Acção da Unidade. Analisamos os dados fornecidos pelo ACES e apresentamos à equipa, que desconhecia a realidade da sua própria região.

Peguei no meu iPad e fui buscar um slide que lhes mostrei.

– Os vosso colegas desconheciam o todo e nem tinham a noção da realidade da unidade deles.

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– Vejam os resultados e avaliem o nº de diabéticos diagnosticados versus o nº de utentes existentes; vejam a prevalência da diabetes das USF, nas caixas a verde e das UCSP nas caixas a dourado. Comparem a performance dos dois tipos de unidades.

Foram passando o iPad por todos e vi os olhos perscrutarem o écran, talvez na procura de explicações imediatas.

– Mas Zé, nos não temos tempo para fazer estas análises e trabalhar os dados.

– A crise económica de 2008 acelerou o apocalipse, o fim do modelo anterior de relação entre os médicos e doentes, entre médicos e a IF e de todos com a tutela.

Muitos delegados e outros profissionais da IF ficaram pelo caminho e outros, numa espécie de letargia pós-apocalíptica, numa espécie de coma, onde efectuam o que sempre fizeram.

É preciso despertar para uma nova era, onde vocês terão de gerir uma equipa de saúde, onde até a IF, com alguns delegados, façam parte da construção da saúde do amanhã, numa parceria transparente e livre dos ónus do passado.

– Isso lembra-me a série Walking Dead. É isso que os novos delegados são? – perguntou a Maria.

– Mas Zé. Há delegados em Portugal que sejam capazes de fazer isso? Ou que queiram fazer isto? – questionou o Pedro.

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A resposta para a Temporada 2…

1 Comentário

  1. Jose faria Lourenço Reply

    Muito interessante o texto.É arealidade dos tempos foi tudo muito rápido o doente passou a ser uma peça da engrenagem.É a visão economicista da medicina e da sua desumanidade.

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