Desculpem não publicar hoje a 2ª parte do post “Substituir o DIM pelo Digital é Bullshit”, mas a relevância de outro acontecimento, obrigou-me a dedicar este post à USF inaugurada com pompa e circunstância, na baixa de Lisboa, no dia 17 de Novembro.
O coordenador frisou as características únicas da instituição. “Criámos uma USF só com médicos recém-especialistas e sem visitas de «delegados de informação médica”. Além do mais, o tema tem tudo a ver com o digital.

Podem ler a notícia completa em http://www.tempomedicina.com/noticias/31807. O curioso desta inauguração efectuada por tão ilustres entidades é admissível, depois de estar tanto tempo à espera e obviamente por estarmos já em campanha eleitoral.
“Esta USF também é simbólica por ser um espaço de inclusão”, foram palavras proferidas na inauguração. Parece-me bem.
Martino Gliozzi, o simbólico coordenador italiano da USF da Baixa, num país e num sistema de saúde que demonstra integração e tolerância, “quer ainda «ultrapassar as barreiras e preconceitos que existem entre as várias classes profissionais, médicos, enfermeiros e secretariado clínico» e «num mundo onde ainda existe a xenofobia» trabalhar numa USF que pretende ser «uma ilha de tolerância». Também me parece bem.
E como corolário de querer acabar com as barreiras entre classes profissionais, contribuir para extinguir a xenofobia e defender a intolerância, na inauguração anuncia impedir que uma classe profissional possa entrar na USF que coordena, com base num preconceito e numa demonstração clara de intolerância.
Simbolicamente foi erguido um muro, numa época em que parece todos sermos contra este tipo de coisas, apesar de acontecerem todos os dias. Acredito até haver muitos que regozijem com esta atitude. Só que desta feita, o muro não é no México ou a intolerância noutro ponto do mundo, é aqui bem perto de nós, na capital de Portugal e ainda com o beneplácito das autoridades presentes.

Agora vou fazer um pequeno exercício de negação.
Não, isto é somente nesta USF, eventualmente noutra no centro do país e não vai ter continuidade noutras unidades do SNS.
Não, os Delegados de Informação Médica não têm de se preocupar porque em breve o BE e o PCP virão a público defender os direitos destes trabalhadores exercerem a sua profissão.
Não, os preconceitos da diabolização da IF e dos seus DIM’s vão acabar.
Não, virão a público médicos, farmacêuticos e outros profissionais de saúde e até doentes que reconhecem o papel da Investigação, defender o papel do DIM e da IF.
Sim, chega de negação. Vamos lá aceitar.

A equação da saúde tem uma variável que se chama IF. Podem querer anulá-la, reduzi-la, limitar a sua acção ou no limite, tendê-la para zero, mas a verdade é que esta variável será sempre de por em evidência e esperemos que a própria não se queira anular.
A notícia desta USF passaria despercebida se não fosse o momento em que vivemos. Quando não houver mais indústria para culpar, médicos como este ou outros que defendem o mesmo, vão culpar quem? Ou o seu mundo fica perfeito?
Vou citar um senhor, Ben Goldacre que em tempos escreveu um livro com o título “Farmacêuticos da Treta”, editado pela Bizâncio. “Presentemente, quando um académico ou um médico nos diz que trabalha para a indústria farmacêutica, fá-lo muitas vezes com algum embaraço. Quero trabalhar num mundo onde médicos e académicos se possam sentir activamente optimistas quanto a colaborar com a indústria para melhorar os tratamentos e os doentes. Isso exigirá mudanças de monta e algumas delas têm tardado muito a chegar”.

Mudança. A palavra chave.
Não me vou alongar muito no tema, porque temos feito isso neste blog e muito menos falar no que a IF investe na formação, em estudos, actividades com doentes ou outra qualquer coisa, porque é exactamente por tudo isto que é atacada.
A tutela deve regular a actividade da IF e isso não significa cortar o acesso, mas antes de mais promover as boas práticas e a interacção com quem queira fazer que a medicina do dia-a-dia, possa demonstrar a evidência e resultados.
A IF como um todo, deve caminhar na defesa da sua reputação e demonstrar o seu papel na sociedade. Deve afastar-se das práticas que lhe conferem essa reputação duvidosa e defender a estreita colaboração com os médicos e os doentes.
Podemos sempre pensar que o que aconteceu na USF da Baixa é um acto isolado e não falar deste tema, acreditando que nada vai acontecer. Mas vai, a não ser que alguém cumpra o seu papel.

Uma última palavra ao DIM. Se outras razões não houvesse para mudar, esta já era suficiente para quererem evoluir e perceber que o Delegado de antigamente já não existe. Evoluir significa perceber que serão cada vez menos e que os menos que ficarem terão de saber cada vez mais, não só de medicamentos e das suas doenças, como de digital, politica de saúde, acesso, …

Estaremos por aqui para ajudar no que for preciso. É preciso mudar o tal “Mindset” …

2 Comentários

  1. João Miranda Reply

    Li com atenção o post do José Ribeiro e não pude deixar de fazer estes comentários., porque que trabalhei 30 anos a exercer a profissão de DIM na IF e como cidadão.
    O livro de Ben Goldacre tem como título “Farmacêuticas da Treta” e retrata na perfeição (na minha opinião) o mundo e o ambiente em que a IF se movimenta e que todos nós conhecemos e sabemos que existe.
    O J. Ribeiro, escreve a determinada altura que “A IF como um todo, deve caminhar na defesa da sua reputação e demonstrar o seu papel na sociedade. Deve afastar-se das práticas que lhe conferem essa reputação duvidosa e defender a estreita colaboração com os médicos e os doentes.” E é aqui que reside o problema da relação da IF, as instituições de saúde e os doentes.
    A IF tem como objectivo o lucro (elevado) e de forma rápida e utiliza todo o tipo de métodos para que isso seja assim. É evidente que os atropelos, o infringir de regras básicas, a falta de preparação por parte de muitos dim’s e toda a pressão que existe nas estruturas dos laboratórios para que os objectivos sejam alcançados, se traduzem em resultados pouco lisonjeiros para a IF.
    A selvajaria nas relações profissionais dentro da IF contribuem igualmente para esses atropelos e não cumprimento de regras básicas, pois a necessidade de mostrar trabalho a isso obriga. E por muito que nos custe, a culpa do erguer destes muros, é da IF e em particular dos dim’s. Quem não se recorda, quando há poucos anos atrás começaram as grandes limitações à visita médica e os dim’s juntamente com as direcções dos laboratórios, em vez de se juntarem e exigirem direitos e respeito pelo seu trabalho, fizeram esperas aos médicos nos parques de estacionamento, entravam nos centros de saúde e hospitais sem pasta para não serem identificados e tantos outros esquemas, para no fim do dia enviar um relatório com 8, 9, 10 e mais visitas. Cheguei a ouvir da boca duma imbecil chefe de vendas, respostas como esta: A média de visitas tem que ser cumprida, como, não me interessa, nem que tenham que ir para a porta dos médicos. E esta infeliz e triste realidade repete-se por toda a IF
    E não podemos esquecer que a classe médica está farta dos dim’s, do assédio permanente, do repetir de frases feitas e nomes de medicamentos até à exaustão.
    Os dim’s continuam a prevaricar, a não respeitar regras tão básicas, como esperar pelo fim das consultas para fazer a visita ao médico. Continuam a não respeitar regras entre dim’s.
    A IF foi inovadora há 25 anos atrás nos métodos de marketing e vendas, mas com o passar do tempo cristalizou e deixou que a incompetência e a prepotência se tornassem métodos tidos como eficazes.
    Termino com a ideia de que a mudança tem que começar na IF e tem que ser profunda, com a mudança de pessoas, de mentalidades e de que o caminho se faz lado a lado e não apenas à custa do estado, dos doentes, dos médicos e das instituições de saúde, apenas numa direcção: a do lucro.
    Como alguém escreveu: NUNCA É TARDE PARA RECOMEÇAR. PIOR QUE ERRAR É NÃO QUERER MUDAR!

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