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Há poucos dias recebi no meu email esta missiva.

“Chamo-me Ana Maria Sousa, sou enfermeira e gostava de escrever no seu blog, Market Access Portugal. Talvez o maior desafio seja responder à pergunta ‘como que será o enfermeiro do futuro?’”

É preciso coragem e para escrever sob anonimato e ter a capacidade para evitar que a nossa escrita não seja um mero destilar de fel, político, social e profissional. Apesar de vivermos num país livre, a liberdade de pensamento não é tolerada, quando se é funcionário público ou mesmo empregado de uma empresa privada.

Escondidos atrás de uma parede ideológica ou atrás de um biombo carreirista, está sempre um colega pronto a ajudar-nos a cair, para servirmos de plataforma à sua ascensão. Os que assim julgam o nosso pensar são presididos pela estupidez e não por um colectivo de inteligência e tolerância. Talvez um dia…

Acedemos a publicar porque percebemos a razão do anonimato. Esperamos que o contributo seja importante para todos. Aqui fica o primeiro post.

2016-03-15 11_35_29

Como ficamos depois de um tsunami

Sinto-me um pouco cansada de ouvir a expressão tão banal quanto perversa: “não sabes o que faz uma enfermeira? Devias passar umas noites internado no Hospital…!”

Uma profissão e, por conseguinte, os seus profissionais, vale mais ou vale menos do que aquilo que lhes pagam à hora.

Fruto de uma híper preocupação individualista em detrimento da colectiva, tendemos a relacionar reconhecimento social apenas como remuneração.

Se atentássemos às remunerações no início de actividade profissional de um engenheiro, um advogado ou de um porteiro, constatamos que sendo inclusivamente inferiores às de um enfermeiro, não são determinantes para o que se entende por reconhecimento profissional.

Assim, considero que as remunerações colectivas, isto é, as que de alguma forma dependem de uma definição nacional padronizada, estão sujeitas a factores económicos, financeiros e políticos que muitas vezes se afastam positiva ou negativamente do valor específico e único do profissional que virá a exercer a função a remunerar.

Deixemos por agora a questão da capacidade individual do enfermeiro para ‘vender’ os seus serviços/cuidados como profissional liberal.

Centremo-nos em factores que podem incrementar o reconhecimento e valorização profissionais. O que poderá contribuir para identificar o valor dos cuidados de Enfermagem?

Diria que numa primeira fase, eventualmente de forma muito redutora, os cuidados de enfermagem terão tanto mais valor, quanto mais problemas resolverem às pessoas que recebem/usufruem esses mesmos cuidados. A percepção da pessoa/doente de que as enfermeiras lhes resolvem problemas de saúde/doença terá um impacto no ‘valor’ a pagar para a resolução desses problemas. Não fossem as questões associadas à história caritativa/religiosa da nossa profissão, bem como à dificuldade de definição do «bem saúde», teríamos o problema (do valor) resolvido.

Importa também referir que a percepção que as pessoas em geral têm sobre um grupo profissional é de extrema relevância para a concretização do ‘tal valor’ dos respectivos profissionais.

Ora, estas duas componentes, por um lado o contributo individual de cada enfermeira e por outro, a percepção global da sociedade sobre o nosso valor, são mediados pelo papel/acção das estruturas socioprofissionais que nos representam, em concreto Ordem e Sindicatos.

Se existir na sociedade a percepção que determinado grupo profissional ‘é bom’, e se lhe juntarmos acção concertada dos sindicatos/ordem, mais tarde ou mais cedo ‘água mole em pedra dura, tanto bate…”. Contudo, se a percepção e a acção forem de sentidos diferentes “…nunca mais fura”!

As recentes declarações sobre eutanásia, da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros (eleita à segunda volta por 4509 votos contra 3677 do outro candidato, de entre 67916 enfermeiras que poderíamos ter votado, eleita, portanto com 88% de abstenção e como tal a Bastonária de todas nós) não passaram despercebidas, e não fora a mudança de Presidente da Republica ainda hoje se falaria desse tsunami…

Devo referir que em quase 20 anos de exercício profissional nunca assisti, nem tive conhecimento da prática de eutanásia em unidades de saúde em Portugal. Assisti e tive/tenho conhecimento de um sem número de pessoas/famílias que precisam de cuidados em fim de vida e não têm acesso a esses cuidados.

Sei também que muitas de nós acompanhamos as pessoas no final das suas vidas, momentos que como sabemos são de um desgaste emocional atroz, sem que nos seja prestado apoio competente e estruturado.

A morte de um doente é para nós enfermeiras, um tsunami emocional. A morte, mesmo que prevista, chega com uma força avassaladora, leva-nos aquela vida, e nós que ‘sobrevivemos’ olhamos à volta e deparamo-nos com um rasto de destruição. Neste cenário de desesperança cada familiar combalido, atordoado e frágil é um náufrago para resgatar. Para o trazer de volta à vida. Como enfermeiras, encaramos a morte como parte da vida, independentemente dos credos ou religiões, significados ou convicções. Se preparamos a mãe para o nascimento do filho, mais tarde preparamos o filho para a morte da mãe. E quanto vale estar de noite na morte com quem morre(u)? Haja Valor…

Talvez um dos desafios para o futuro seja reforçar a capacidade de comunicar o que de bem fazemos. Por vezes na simplicidade em que o fazemos, mas com os impactos que nós, enfermeiras, tão bem conhecemos. Com assertividade, verdade e sem sensacionalismos bacocos.

A imprudência de principiante com que se ‘diz’, desculpem ‘insinua’, desculpem novamente ‘se desmente’ que em Portugal se pratica eutanásia por baixo do pano, tem danos colaterais numa profissão difíceis de calcular. Claro que estão por aí os ‘seguidores cegos’, alguns dos 4509, a aplaudir o arrojo das declarações da dita e das confissões seguintes de outros tantos incautos.

A respeito de visibilidade e tempo de antena desta índole, os advogados também já fizeram a sua travessia do deserto, e quando vislumbraram o oásis do parlamento europeu empurraram (votaram) todos no dromedário…, mas este foi lá, atestou de água e voltou!

 

Ana Maria, Enfermeira

1 Comentário

  1. Obrigado Ana Maria.
    E bom saber que alguns de nós continuam com alguma clavidência.
    Enfermeiros não necessitam de se comparar com ninguém, principalmente se primarmos pelo profissionalismo de excelência. A aposta futura é essa demostrar o quanto a nossa profissão é única e que advoga por todos, sem ela todos ficaríamos desprotegidos e vulneráveis.
    A maturidade na enfermagem portuguesa não pode continuar com bate bocas ou representada por quem conseguiu numa entrevista por em causa anos de investimento na nossa valorização profissional.
    Os enfermeiros de futuro apesar de todas as contrariedades inerentes á nossa profissão, deviam de ser mais proactivo e fazem com que quem nos represente tenho um papel determinante no demonstrar á sociedade civil o que é ” ser enfermeiro em Portugal “.
    Desejo a todos os enfermeiros portugueses um futuro de reconhecimento profissional, e que esse futuro não seja longo.

    Ana Maria ( nome real ) orgulhosamente enfermeira á 27 anos

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