Não há Burnout nos Médicos de Família? Parece que não!
Tema muito actual, mas sobre o Burnout dos médicos, sinto-me como alguém que entra numa sala às escuras. De repente, a luz acende-se e “pumba”, estou no meio de um ringue de boxe. Sem mais delongas, levo um murro no estômago, acompanhado da notícia que 60% dos médicos estão em Burnout. Ainda sem ar no peito, recebo um Uppercut dizendo que estamos a rebentar com o SNS e que os médicos é que suportam tudo. Fui de imediato ao chão e a luz apagou-se de novo. Fiquei outra vez às escuras.
Isto do Burnout queimou-me todo.

Saber qual o Burnout é vital
O tema deste post deve ser tratado, com luvas de pelica, sob pena de ser criticado, mesmo sem ser lido. Há muitas sensibilidades em jogo e fundamentalmente muita política e interesses corporativos. Mas como cidadão, este assunto é de extrema importância. Daí o querer saber e ter conhecimento sobre este assunto. Eu diria que este assunto é de importância máxima para todos os portugueses que vão ao médico.
Acrescente-se ainda o facto de ter como amigos, muitas médicas e médicos, com quem falo sobre este assunto. Alguns estão no SNS, outros na privada.
Saber qual o Burnout é vital para todos, em especial quando ouvimos dizer coisas estranhas sobre a Saúde.

Estamos a rebentar com isto tudo da Saúde
Lemos e ouvimos isto. Em menos de 7 dias, a 29 de Novembro e a 3 de Dezembro, foram apresentados dois estudos sobre o Burnout dos médicos e sobre o “Burnout” do SNS. A entidade promotora foi a Ordem dos Médicos no “Burnout na Classe Médica, Estudo Nacional” e o Conselho Nacional do Sul, CRS, da Ordem dos Médicos, no estudo “História do Serviço Nacional de Saúde em Portugal: a saúde e a força de trabalho, do Estado Novo aos nossos dias”. Excelente, é preciso estudar seriamente estas coisas.

As parangonas nos jornais sobre o 1º estudo diziam que a “Falta de condições de trabalho e de recursos, leva 66% dos médicos à exaustão”. Olhei para os títulos no iPad e guardei na cloud para ler mais tarde, com mais atenção.
Os títulos dos jornais sobre o 2º estudo são mais sensacionalistas e característicos, ao dizer que “Estamos a rebentar com o Serviço Nacional de Saúde”.
Começo por este segundo que foi o último a ser apresentado.

O SNS AC/DC
Não tenho o estudo nem acesso a ele. O CRS dispõe de um número limitado de exemplares para serem oferecidos aos médicos e como não sou médico, não posso solicitar a publicação, ler e ter uma opinião crítica.
Na notícia do Tempo Medicina, (1), está um link para um vídeo que o CRS disponibiliza. No YouTube, em vez de um vídeo, assisti a dois, 42 mais 30, num total de 70 minutos de puro desperdício de tempo. No vídeo maior, Renato Guedes perde-se na metodologia, no INE e em nada de concreto, deixando para o fim uma confusão de slides, em maior número do que o tempo que tinha, até que uma voz acaba com a apresentação.
Uma ideia que deixou, curiosa, logo no slide do índice, a saúde Antes da revolução dos Cravos e o SNS Depois da revolução dos Cravos. O SNS AC/DC.

Partidarite Aguda
Raquel Varela, nos 30 minutos do seu vídeo, falou sem slides. Falou, vagueou pelo SNS, contou uma ou duas histórias e com a sua intervenção, senti uma visão muito forçada pelas ideias políticas e por uma certa partidarite aguda.
Ao que parece, no estudo a que TVI24 teve acesso, a senhora ataca o PSD, o PP e o PS. Depois, ataca os hospitais SA/EPE e os Centros de Saúde, que na sua opinião, já não dão resposta e não servem os trabalhadores. Bonito.
No fim da sua intervenção, todos bateram muitas palmas, pelo que presumi terem percebido. Eu não percebi pelo que não posso bater palmas. Reforço a minha posição, quando li o que a imprensa escreveu sobre o estudo.

Crítica e Contraditório
Ter opinião crítica e direito ao contraditório. Como não tenho o estudo, recorro a quem leu e emitiu essa crítica, que li no Expresso de 26 de Novembro de 2016.
A historiadora afirma que “estamos pior” e o responsável da Ordem, prefere falar no “risco de termos dois tipos de assistência: para ricos e para os mais pobres”. Bem diferente e revelador.
Pedro Pita Barros não concorda com as conclusões. “A comparação entre 2013 e 2015 mostra uma maior procura das respostas do sector público nos cuidados primários, o que dificilmente se pode ver como um sistema dual ou como a destruição do SNS”, afirma Pita Barros.

Alexandre Lourenço, APAH, nega o impacto negativo apontado à solução EPE. “Não é o modelo que promove a competição entre os prestadores, mas as regras de funcionamento do sistema.” Além disso, “o modelo de competição entre hospitais instituído este ano tem toda a potencialidade para trazer benefícios; a competição por acesso e qualidade é um ganho, não uma perda”.
Será que o que cito, reforça a ideia que a historiadora tem uma visão forçada pela partidarite aguda, criando um soundbyte errado? Por exemplo, relacionar as conclusões este estudo como explicação para a existência de Burnout?

O que se quer esconder, sobre e sob o Burnout?
O estudo sobre o Burnout teve outra apresentação e direito a um documento (3) que se pode retirar do site da Ordem dos Médicos. Muito bem.
Li as notícias, li o estudo e quando cheguei ao fim, fiquei como uma sensação estranha. Faltava qualquer coisa, ou melhor faltava muita coisa. E o martelo na minha cabeça começou a perguntar e ainda pergunta, porquê, porque falta tanta coisa? Porque se omite tanta informação? O que se quer esconder, sobre e sob o Burnout?

Começo pela “metodologia” de apresentação. Num estudo destes, começa-se por apresentar o questionário enviado. Depois, discute-se sempre a amostra e como ela é caracterizada. Não basta dizer que são quase 10.000 médicos, uma das maiores participações neste tipo de estudos, porque ficamos às escuras. Porque se omitiu o questionário e a amostra?

Seria expectável para mim avaliar subgrupos, como por exemplo, as especialidades médicas e as cirúrgicas; perceber se era possível avaliar o Burnout dos médicos que fazem urgências; relacionar a falta de médicos com o Burnout elevado, como seja, o exemplo dos Estomatologistas, onde há muito poucos no SNS; e qual o peso que o Burnout desta especialidade tem, nos 66% que estão num nível elevado de Exaustão Emocional.

Não há Burnout nos Médicos de Família?
Pois, parece que não há.
O Burnout do Médicos de Família não interessa e o estudo não se refere nunca a esta especialidade, que representa cerca de 12% dos médicos em Portugal. Mas mais importante do que a percentagem é o facto de serem a base dos CSP, das USFs e UCSPs. Não parece estranho não haver uma única referência a esta especialidade? Provavelmente o resultado do Burnout dos Médicos de Família neste estudo, vai incomodar muita gente e por isso é melhor não dizer nada, omitir e talvez assim passe despercebido. E o martelo volta a perguntar, porquê?
Apenas pergunto por mais uma especialidade importante, a Medicina Interna. Nada?

Alguém vai esclarecer
No documento aparece referência a um contacto para esclarecimentos adicionais sobre instrumentos de medida e métodos de análise, cujo email é, [email protected] Foi isso que fiz e deixo o essencial que escrevi.
“Pretendia saber qual a amostra do estudo, ou seja, a sua caracterização por idade, sexo, especialidade médica, ARS de trabalho, local de trabalho, USF ou UCSP e anos de prática clínica…”
“Será possível ter um quadro completo dos valores por especialidade onde será importante perceber em particular a Medicina Geral e Familiar, por idades, sexo, tempo de prática clínica e ARS de trabalho? Será possível ter estes dados, revelando se o médico exerce numa USF ou numa UCSP?”
Eu sei que as minhas perguntas não são sobre instrumentos de medida e métodos de análise.

Não damos esclarecimentos
A resposta. “O documento partilhado actualmente não é o documento final. A Ordem dos Médicos irá receber um documento final com muito mais informação nomeadamente sobre as especialidades. No entanto, não será possível detalhar esse tal ranking em cruzamento com outras variáveis como idade, sexo e outras porque o número de médicos em cada célula de análise seria insuficiente para uma análise representativa e poderia levar a conclusões erróneas.
A preocupação da equipa foi criar uma amostra representativa ao nível do país e das secções regionais da OM e não ao nível das regiões do país. Não foi recolhida aliás nenhuma informação sobre a zona do país de cada médico (a não ser informação sobre a Secção Regional a que pertence) por questões de garantia de anonimato e confidencialidade.
Finalmente, todos estes dados e este relatório final são ou serão pertença da Ordem dos Médicos que foi quem encomendou e pagou o estudo.
Nesse sentido, só poderá ser a Ordem a disponibilizá-los a partir de agora.”
Quanto a isto, fiquei esclarecido. Vou no entanto escrever ao CRS, pedindo mais informação.

E os Jornalistas?
Os jornalistas presentes não tiveram as mesmas dúvidas? Que inquérito explica os resultados e que amostra foi considerada? Quais as suas características? Não sentiram curiosidade pelo Burnout dos Médicos de Família, ou mesmo a Medicina Interna?
Na verdade, são estes jornalistas que informam o grande público e que fazem parte da construção da opinião dos cidadãos. Eu sei que ninguém se interessa por Saúde, mas a verdade é que há sempre alguém que lê e que não acha normal os jornalistas limitarem-se a escrever o que vem nos dossiers de imprensa ou nos comunicados das agências de comunicação…

Informação é poder, por isso não o percam.
Estes estudos não foram publicados e nem sei se o irão ser. Para bem de todos deviam. Como podemos avaliar o trabalho da Ordem e dos Médicos?
Como é que as entidades promotoras ficam na fotografia? Informação é poder e por isso não o querem perder?
Como poderemos ter pensamento crítico, ser cidadãos interessados na Saúde, aumentar a literacia e conhecer o estado dos nossos médicos, se a informação e o conhecimento são sonegados e a comunicação dos resultados, meticulosamente trabalhada para não dizer nada do que interessa?
Estas omissões servem algum interesse, decerto.

O Burnout dos portugueses, com estas coisas, vai aumentando.

 

 

A imagem cartoon utilizado neste post foi retirada de Will you burn out? Fiona Taylor, 19 Nov 2005, BMJ Careers

(1) http://www.tempomedicina.com/noticias/31838

(2) http://www.tempomedicina.com/noticias/31866

(3) https://www.ordemdosmedicos.pt/send_file.php?tid=ZmljaGVpcm9z&did=b06f50d1f89bd8b2a0fb771c1a69c2b0

(4) https://www.ordemdosmedicos.pt/send_file.php?tid=ZmljaGVpcm9z&did=2321994d85d661d792223f647000c65f

Escreva Um Comentário

Pin It