O seu investimento na leitura deste post é de 4 minutos

O Market Access Portugal tem despertado interesse, que tem vindo a aumentar, junto a todos os que se interessam pelas questões da Saúde e do SNS. Recebemos com frequência, emails com opiniões e textos que nos pedem para publicar. Nem sempre o fazemos, mas sempre que o conteúdo se enquadra na linha editorial, ponderamos a sua inclusão no blog.
Rafael Bernardes é estudante do 3º ano do curso de licenciatura em Enfermagem, na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. Escreveu um artigo sobre o Serviço Nacional de Saúde, em particular sobre a Enfermagem. Achamos pertinente o tema e mais ainda por ter sido escrito por um jovem de 22 anos. Obrigado Rafael.

MAS, QUE “RAIO DE COISAS” FAZEM OS ENFERMEIROS?!

p13 enf

Do Público, li uma entrevista feita a Ara Darzi, director do Instituto de Inovação em Saúde Global do Imperial College de Londres, do dia 21 de Junho. O título que o jornal escolheu para a resumir foi “Há muitas tarefas que os médicos podem transferir para os enfermeiros”. E eu pergunto-me: “Mas, que raio de coisas fazem os enfermeiros?!”
De uma forma geral, parece correcto afirmar que, até prova em contrário, os enfermeiros cuidam. E não é isso que os médicos fazem também? Então, que fazem os enfermeiros diferente dos médicos? É aquela pergunta óbvia, mas que ninguém sabe responder. E as mães também não cuidam? Então porque é que é preciso tirar um curso de 4 anos, árduo aliás, para se aprender a cuidar?

Da entrevista:

  1. “É preciso dar mais a fazer aos enfermeiros e aos próprios doentes, senão os sistemas de saúde entram em ruptura”.

Já tínhamos ouvido falar em ruptura, pela boca da bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, que dizia, em Maio, que o “Serviço Nacional de Saúde” estava por um fio (http://observador.pt/2016/05/12/bastonaria-da-ordem-dos-enfermeiros-servico-nacional-saude-esta-um-fio/). A razão para isso, dizia, era a falta de enfermeiros, exemplificada pela situação de um serviço, onde um enfermeiro tinha de assumir, sozinho, um turno com 55 pessoas.
Ouvimos agora, um novo tipo de ruptura, já não do SNS, mas dos sistemas de saúde, e por razões diferentes: má organização e distribuição de tarefas.
Ara Darzi percorre um caminho interessante, acerca da distribuição e delegação de tarefas:

raf 1

Depois dos especialistas, entramos nos cuidados de saúde primários (CSP) e aí permanecemos. É um contexto muito particular e cada vez mais tendencioso. O paradigma tem vindo a mudar e a descentralização hospitalar podia ser vantajosa, mas, em Portugal, joga-se mais com a qualidade da carteira, do que com a qualidade da saúde.
Ara Darzi introduz o seguinte termo: “doentes-peritos”, que é muito perigoso para alguns, e amedronta outros. Repare-se que, um doente-perito é já um especialista na área que lhe compete e, neste caso, é ser doente. Para que quer um doente deste género, um médico ou um enfermeiro? Do primeiro precisa para que lhe passe medicamentos e do segundo precisa para… sinceramente, fiquei alguns minutos a pensar o que escrever aqui. Para que precisa do segundo? O médico já lhe prescreve o que necessita, a seguir é continuar a fazer “das suas”. A pessoa é quem melhor conhece a forma como responde à doença e a melhor forma de gerir essa resposta.
Um diabético, para continuarmos nas doenças crónicas e nos CSP, marca uma consulta no seu centro de saúde e, sem saber, acaba de se inscrever, não em uma, mas em duas consultas: uma com o enfermeiro de família, essa figura mítica, e outra com o médico de família, essa figura lendária. Para quê? O enfermeiro avalia-lhe o peso, a tensão arterial, faz uma série de perguntas, escreve o que tem de escrever no computador e “despacha” o doente para o médico. Este revê o que o enfermeiro fez, se é que não o vai repetir, e prescreve. Faz outra série de perguntas, introduz um termo científico nas notas, e diz adeus ao doente. Em uma hora, o doente foi alvo de uma série de intervenções, mais de metade das quais podia ter feito sozinho. Mas, claro, o SNS trata os seus doentes como crianças. E, por isso, continua obsoleto.

  1. “É preciso mudar hierarquias, mudar equilíbrios, é um processo que leva tempo.”

A pergunta era “E como reagiram os médicos a estas transferências [de tarefas]?”, e a resposta foi “não gostaram nada, no início, mas adaptaram-se”.
Supostamente, o SNS está ao serviço da população e não ao contrário. Não são as pessoas que estão ao serviço dos médicos ou enfermeiros, mas sim o contrário. Falo em “pessoas”, porque não se recorre ao SNS só quando se está doente, porque a saúde mantém-se e a doença previne-se. Este é o interesse, em princípio, de uma pessoa comum. O problema do mau uso dos serviços de saúde é uma questão tenebrosa.
Se devia ser assim, então as hierarquias e os equilíbrios mencionados por Ara Darzi deviam cursar deste modo:

raf 2

E, por isso, é que diz: “É preciso dar aos doentes a mesma informação que os médicos têm. É preciso tornar o processo transparente. Não se pode implementar a liberdade de escolha sem ter qualidade e transparência”.
A roupagem actual quase que obriga a pessoa a entregar-se nas mãos de um especialista que, ok!, concordamos que é um cuidado, não melhor, nem mais eficaz, porque depende do caso, mas que consegue responder de uma forma diferente aos problemas. Mas, então, falemos em cuidados agudos, que vai dar ao mesmo. A pessoa atira-se directamente para dentro de um hospital. Depois, a hierarquia coloca o médico de família como o pináculo do dia-a-dia de uma pessoa: “o meu médico de família isto; o meu médico de família aquilo; o meu médico de família e eu”. E, no final, vem o enfermeiro que parece que até é um excesso. Sabe-se lá porque é que aparece.
A seta abre o leque. A pessoa deverá conhecer que recursos existem, e ter o conhecimento necessário para escolher o que acha melhor. Sabe que há médicos e há enfermeiros e, aqui entre nós, também há psicólogos, farmacêuticos, fisioterapeutas, dentistas.
E é disto que os médicos tanto fogem. Que não sejam eles a escolher o hospital para a pessoa; que não sejam eles a forjar o melhor tratamento para a pessoa; que não sejam eles a decidir que medicamento prescrever; que não sejam eles… que não sejam eles…
Só se pede uma colaboraçãozinha entre pessoa e profissional de saúde. A ver se resulta em alguma coisa.

E os enfermeiros? Que raio de coisas, afinal, fazem eles?! No meio disto tudo… ninguém sabe.

 

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/muito-do-que-os-medicos-faziam-passou-a-ser-feito-por-enfermeiros-1735845

 

5 Comentários

  1. Sugiro-lhe uma coisa: fazer um estágio de observação num serviço de um hospital e entenderá o que não se preocupou minimamente para entender nada do que se passa à sua volta no SNS.
    Uma mãe cuida de um filho não precisa de formação (algumas, pois hoje em dia também existem formações para pais, afinal a ciência/psicologia/saúde da criança evolui, sabia?) mas uma pessoa doente com vários riscos, precisará quem cuide dele, e para isso é necessário formação. Uma comparação muito lamentável!
    Acredito que quando é atendida numa CSP e não entenda papeis, funções, entre outras, claro porque não pergunta, não pesquisa ou simplesmente é mais fácil supor e julgar de modo superficial, porque provavelmente não observa apenas olha.
    Este artigo não critica nem analisa nada simplesmente é vazio, pois não tem conhecimento de causa para o poder faze.

    • Caríssima Ana,
      Muito boa tarde.

      Em primeiro lugar, muito obrigado pelo seu comentário! Enquanto aluno, todos os contributos me são muito caros, dado que enriquecem a minha aprendizagem.

      Não irei tecer uma resposta esmiuçada ao mesmo, mas apenas dar-lhe uma informação, a qual lhe interessa, pelo que disse na primeira e na última frase do seu comentário.
      Antes disso, agradecer-lhe, também, a sugestão que faz: fazer um estágio de observação num serviço hospitalar.
      Felizmente, o curso de Licenciatura em Enfermagem ainda oferece aos seus alunos, no currículo, Ensinos Clínicos obrigatórios, sem os quais o aluno reprova. Partilho consigo uma alegria, para que, se quiser, também se alegre comigo: passei a todos os estágios até agora, sendo que no 1º semestre do 3º ano, o estágio é de observação. E, veja a coincidência, foi num hospital!

      Pelo que referi acima, julgo que, ainda que sendo aluno (de acordo!), tenho algum “conhecimento de causa”, como a Ana o chamou.

      Já agora, a “comparação lamentável” que menciona, vinha apenas introduzir alguma daquela retórica grega, através da ironia. Obviamente que eu não sou um Sócrates, um Platão ou um Aristóteles, mas (outra alegria), também consegui passar a Língua Portuguesa na escola.

      Mais uma vez, muito obrigado pelo comentário.
      Melhores cumprimentos,
      Rafael Bernardes

  2. Sr Enfermeiros, calma, Peace and Love please! Isto aqui todos temos um bocadinho de razão e um bocadinho de falta de visão.

    O que eu diria é que, não se pode generalizar. Há doentes que têm perfil para ser peritos, outros que pelas variadíssimas razões nem capacidades têm para acertar com as tomas da sua medicação (ainda que venha escrito detalhadamente nas caixas), outros que têm capacidade e que simplesmente gostam de ser cuidados e que alguém os monitorize, outros que são mais que capaz mas têm aversão a tudo o que se relacione com saúde.

    Aliás, nem lhe chamaria doentes, chamaria utentes! Eu sou enfermeira, utente e mãe de um doente crónico. Honestamente? Precisei e preciso de tudo: da minha formação em enfermagem geral, da especialidade em saúde materna, do mestrado em investigação, dos sites e blogues de mães, dos livros e artigos médicos, também preciso das equipas médicas com quem lido (não passar receitas – aliás os medicamentos cá de casa não necessitam de receita médica) para monitorizar e avaliar a sua condição, para me darem a conhecer a sua experiência e me ajudarem a decidir o que é melhor para nós. Sim, a decisão final é sempre do utente. E também preciso dos meus colegas enfermeiros… Que me puncionam o rapaz sempe que uma análise é necessária (e é tantas vezes… e ele é tão difícil…), que me fazem uma análise do seu desenvolvimento e vêm para além do seu problema de saúde, que nos fazem educação para a saúde (porque lá por ser enfermeira não sei tudo!) e me ajudam a ser mãe a cuidar do meu pequeno o melhor possível. Quem disse que as mães não precisam de formação?

    Sublinho que deveríamos depositar mais responsabilidade nos utente na gestão da sua saúde, tornando-os peritos ou “mimados”, ou aquilo que eles quiserem, a sua responsabilidade seria a sua escolha. Claro que dentro dos limites e regras inerentes. Não vou agora ali fazer o almocinho à D. Gracinda porque ela precisa de uma alimentação equilibrada mas não quer cozinhar, nem autorizar que o Sr Fonseca seja intervencionado ao rim esta tarde apesar de ter comido um cozido à portuguesa ao almoço apenas porque ele entende que quer correr o risco.

    Mas Rafael… quanto a si não sei, eu faço muita muita coisa, e não lido com doentes, na maioria são mulheres saudáveis! Mas entre monitorizar a gravidez normal (e intervenções inerentes), preparar as utentes para a gravidez e o parto, detectar os desvios da normalidade, monitorizar trabalho de parto, assisti-las na dor, desconforto (e às vezes até uma coisa simples como um copo de água) e na alegria de receberem os seus bebés nos braços. Mais uma vez… eu acho que faço muita coisa. E não descrevi metade. E sabe como é que eu sei que faço MESMO muita coisa? Mensagens, postais, cartas, flores, visitas, chocolates… e mais que tudo isso, o sorriso nos lábios quando voltam e me perguntam se sou eu que vou vigiar a nova gravidez.

    Todos os “actores” do SNS, políticos, médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos, fisioterapeutas, blablabla, têm de trabalhar em cooperação (e não a ver quem é que faz mais ou menos ou quem tem poder e quem não tem), cuidar dos seus utentes e usarem eficazmente os seus recursos. Assim talvez consigamos alguma coisa.

    E no meio de tudo isto perdi bem mais do que 4 minutos!

    • Rafael Bernardes Reply

      Caríssima Enfª Vanessa,
      Muito boa tarde,
      E muito obrigado pelo seu comentário!
      Desde cedo, os meus pais e os meus professores sempre me disseram: almeja a perfeição! Tinha de dar o máximo e o melhor! Tirar as melhores notas e não consentir com os erros. Isto não é cegueira, mas é aversão ao “mal feito”; ao “medíocre”. Se alguma fez falhassse, não fazia mal, mas que não me contentasse com isso!
      Ora, ter um “bocadinho de razão” e um “bocadinho de falta de visão”, para mim, não é boa política. Se andarmos todos aos “bocadinhos”, ninguém progride. Talvez por isso, é que o SNS está como está. Todos sabem um bocadinho de tudo, todos fazem um bocadinho de tudo: o enfermeiro quer um bocadinho do que o médico faz, o médico quer um bocadinho do que o enfermeiro faz, os farmacêuticos um bocadinho das coisas do enfermeiro, até que, no final, ninguém sabe quem faz o quê. Porque, de facto, que “raio de coisas fazem os enfermeiros”?
      Não se trata, a meu ver, de fazer muitas coisas, como a Enfª refere, e que acredito que faça. Parabéns pelo seu trabalho – a dedicação com as mães. Parabéns pela sua própria dedicação enquanto mãe – com o seu filho. Mas, depois de tudo isso, trata-se de perceber o que é que faz o enfermeiro, com todas essas coisas.
      Sobre ter perdido mais do que quatro minutos, lamento. Mas, nós só garantimos que a leitura demore esse tempo. O investimento em comentários tem um custo acrescido.
      Disponível para o que quiser,
      Melhores cumprimentos,
      Rafael Bernardes

  3. Rafael Bernardes Reply

    João Coelho,
    Muito boa tarde,

    De facto, tentei ironizar o melhor que pude. Às vezes, o resultado não é o melhor.
    Obrigado pelo seu comentário! E obrigado pela sugestão!

    Melhores cumprimentos,
    Rafael Bernardes

Escreva Um Comentário

Pin It