Os conceitos são já muito velhos e não sei se têm décadas, séculos ou milénios. Como alguns costumam dizer, no final do dia, o que mais quer ter na sua Companhia? Um grande Market Share no mercado ou ter um grande Share of Mind no seu cliente? E não, uma coisa não implica outra.
Aproxima-se o fim do ano de 2016 e é tempo de começar a pensar nos votos natalícios e nos desejos para 2017, caso queiramos mudar alguma coisa na vida.
O sector da saúde é muito complexo e de difícil compreensão. Mudar algo é difícil, não apenas pela falta de dinheiro, mas porque, por vezes não vemos os efeitos de resistência à mudança feita pelos “lobbies” políticos, corporativos e económicos, que actuam à frente dos nossos olhos.

Amnésia na Comissão Parlamentar de Saúde
Não me tomem por louco. Assisti ao debate no dia 19 de Outubro, na Comissão Parlamentar de Saúde, onde o respectivo Ministro foi chamado para explicar o famoso despacho 143/2016 de 28 de Setembro, referente às despesas dos hospitais e centros de saúde.
Pouco ou nada percebo de política ou mesmo de política de saúde e talvez por isso o fiz. Mas digo-vos que assisti durante mais de 3 horas, a um debate mau, demasiado mau para ser verdade. Gente maldisposta, por vezes até irritada, a falar por cima uns dos outros, com piadas sem gosto, “bocas” inoportunas, a tal ponto que me apeteceu desligar.
Vi e ouvi que todos os partidos da Comissão estão muito mal preparados e mais interessados em fazer política, do que discutir política de saúde em prol dos portugueses. Depois, em todas os partidos, uma amnésia quase total sobre as tomadas de posição assumidas na legislatura anterior. Esta forma de fazer política começa a não ser apreciada e é rejeitada pela mente de quem consegue pensar saúde.
Honra seja feita ao deputado do PSD, António Topa, que não sofreu amnésia alguma e que num acervo de coragem, deu o seu apoio ao Despacho, referindo que o seu objectivo é o de conter a despesa do SNS e dessa forma ajudar a cumprir as metas do déficit. De forma inteligente congratulou-se que agora, nesta legislatura, todos os partidos do parlamento estavam de acordo em conter a despesa.

Portugal é uma Burrolândia?
Senti que todos os partidos estavam mal preparados para enfrentar um Ministro que, no domínio da saúde e até da política, está sempre bem preparado.
O modo de fazer política usado por todas as bancadas nesta audiência, pode espelhar o “Market Share” de votos que tiveram nas últimas eleições, mas não expressa o “Share of Mind” que os portugueses vão construindo, longe das empresas de sondagens e dos meios de comunicação social e partidária.
Portugal não é uma “Burrolândia” e cada vez mais encontramos gente que não se revê na forma de fazer política, nos cabeçalhos das capas dos jornais e na conversa dos actuais políticos.

Dicotomia Market ou Mind
Há um enorme desencanto e desconfiança dos eleitores, em que nos governa e em quem faz oposição. Este desencanto pode vir a ter ou já tem consequências muito graves
Se o Brexit não serviu de exemplo, onde agora os ingleses já não querem sair da Europa, a vitória de Donald Trump, é o exemplo concreto da desilusão e da dicotomia Market ou Mind. É até o exemplo mais gritante, por ter acontecido na sociedade mais tecnológica, mais informada e mais avançada do mundo.
Hillary Clinton, ao que parece, conquistou bem o Market Share nas sondagens e nos Media. Donald Trump, ao que parece conquistou Share of Mind, na cabeça de quem vota. E quem vota não é o Market é a Mind. Imaginem quem ganhou.

Há vários tipos de Muros
Soam os sinos a rebate e todos temem pelo futuro. Claro, já ninguém acredita em quem nos quer impor referências ou ideias, sejam jornais, televisões, sondagens ou artistas de qualquer arte e que defendem uma causa. Quem ouve e quem lê, começa a saber pensar e a desdenhar o que ouve e vê, porque essas vozes são as do que hoje se designa como o “establishment”, que já enjoa.
Todos condenaram o Trump em quase todo o mundo livre. Todos escreveram nas redes sociais coisas incríveis sobre ele e sobre o que disse. Ressalvo apenas uma delas, a ideia de construir um muro na fronteira com o México.
Que horror, disseram muitos, condenável dizemos todos.
Muros! Mas na saúde quantos muros erguemos para controlar, em vez de inovar em processos que nos ajudem a melhorar o dia de amanhã? Não só os custos com os muros são elevados como acabam por pouco resolver, uma vez que é sempre possível escavar túneis, saltar o muro, rodeá-lo, …

Afinal sempre há um Diabo
O sector do medicamento é um dos maiores “parceiros” na saúde, um dos maiores fornecedores e também, com base na dívida, um dos maiores credores. Como é que os governos lidam com estes senhores, tendo como objectivo pagar menos?
Ao pontapé e à paulada, ou melhor dizendo, erguendo muros de toda a espécie, controlando-os de todas as forma e feitios, segregando-os e fazendo deles o Diabo do sistema, quando afinal de contas ouvimos dizer que o Diabo não anda à solta. O acto de diabolizar é feito por qualquer governo, de qualquer quadrante, de qualquer coligação.
A ultima aparição do Demo veio através de uma notícia da SIC no dia 21 de Outubro, sobre um laboratório farmacêutico, sobre disfunções sexuais, sobre uma sociedade científica e uns milhões para cá e para lá. A peça jornalística que passou em prime-time estava “errada”, foi superficial, fez mal as contas e apenas pretendeu enganar quem a ouviu, deixando o “soundbyte” habitual que a Indústria Farmacêutica é um Diabo à solta…

Mudar comportamentos? Não, é muito caro.
No sector da saúde, a política do medicamento tem sido restritiva para as companhias farmacêuticas, sem que se perceba realmente o que se ganha com isso, uma vez que os custos e a dívida continuam a aumentar.
Claro que concordo em baixar os custos, mas os governos olham apenas para o lado onde o único objectivo é diminui-lo a qualquer preço.
A noticia do DN(1) de 12 de Novembro, diz algo que já se sabia. O Infarmed pressiona para baixar 20% os preços de medicamentos já aprovados, porque há marcas com preços mais baixos.
Exige-se cada vez mais ao sector farmacêutico sem que se demonstre e se pratique uma nova forma de com a IF alcançar uma melhor saúde. Nessa cruzada para dar cabo deste Diabo, perdem o foco e não aproveitam outras oportunidades que as companhias farmacêuticas podem gerar para o país e para os portugueses.
O custo com o desperdício e com a “não adesão”, ou como melhor diz o meu amigo João, com a não “persistência terapêutica”, envolvem milhões de euros que se podiam poupar.
Baixar o preço ou taxar as vendas com “cap’s” ou impostos, é mais fácil do que mudar os comportamentos, dos políticos da saúde, da IF, dos médicos, dos enfermeiros, dos farmacêuticos, dos doentes e dos cidadãos. É mais fácil, é mais rápido e não é tão caro.

Derrubamos os Muros?
Os muros deitam-se abaixo com soluções inovadoras, trabalhando em parceria com as companhias farmacêuticas, criando sinergias, regulando o acesso ao médico, de forma a que todos possam sentir que ganham, com benefícios claros para o doente e o cidadão.
Todos gostamos de citar grandes pensadores. Mas é só isso mesmo, citar. “Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criámos.” Einstein terá dito mais ou menos isto.
Há um velho problema que continua todos os anos e que decerto não se pode resolver apenas com as mesmas soluções que são sempre aplicadas. A despesa com a saúde continua a aumentar e os culpados são os de sempre, os medicamentos e as companhias farmacêuticas.

Calçar os sapatos dos outros
Uma empresa quer sempre aumentar o Market Share de Vendas. O Governo quer aumentar o Market Share de votos. Mas, enquanto quisermos Market Share, quer de votos quer de vendas e não o Share of Mind dos portugueses ou dos médicos e doentes, vamos continuar a avançar de costas voltadas e em atropelos constantes.
Há duas lições que de forma humilde, retiro do que aconteceu no Brexit do Reino Unido e nas presidenciais dos EUA.
A lição número 1, diz-me que não basta dizer o que se pensa, é preciso votar e votar com consciência, com o sentido do que temos em mente.
A lição número 2, tão difícil quanto a primeira, diz-me é preciso mudar a forma de fazer política e inovar nas soluções sem medo do “establishment”.
Para já não podemos voltar a votar, mas podemos mudar e inovar sem medo. Volto ao deputado António Topa. A esquerda enquanto coligação governativa apoia um Despacho, que se fosse feito pelo anterior governo, faria cair o “Carmo e a Trindade”, na forma de greves e sei lá mais o quê.
Todos devem trocar de sapatos. Já se viu que a esquerda ao calçar os sapatos dos outros, dos que nos governam, provoca calos e sapos. O que não se faz pelo Market Share.

Todas estas palavras são porque o Trump ganhou pelo Share of Mind. A única hipótese de termos melhor saúde é compreender o problema que representa, não apenas pelos votos ou porque somos de um partido, mas pela pensamento esclarecido, que clarifica algumas mentes, e provoca a mudança no sentido positivo.
É preciso inovar nas soluções para mudar para melhor. Começamos já em 2017? Temos ideias, mas como não pertencemos ao “establishment” morrem por aqui.
Mas votamos…

(1) http://www.dn.pt/portugal/interior/infarmed-pressiona-laboratorios-para-baixarem-preco-de-remedios-5493633.html

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