O título parece-vos uma brincadeira? Um dia a dor invadiu-me o braço e não resisti, fui ao Google e “garbage in, garbage out”, um sem número de diagnósticos surgiram em segundos. O Dr. Google é mais rápido, mais barato e evita muitas vezes uma ida ao consultório, quando temos apenas uma exacerbação da hipocondria que há em todos nós. E quando se é médico, com dúvidas, onde é que se vai? Também vão googlar?

Esta pandemia veio relevar um enorme problema dos enfermeiros e farmacêuticos, mas muito em particular de todos os médicos – na dúvida onde eles vão procurar ajuda? Podíamos dizer que a OMS ou a DGS são um farol, mas a verdade é que não o foram e os episódios das máscaras, dos testes, da cloroquina e até do ibuprofeno, são bem a prova disso. Não trago aqui esta questão apenas para criticar, porque não é esse o objectivo, mas por outro mais pertinente – perceber que os médicos, no que toca a adquirir novos conhecimentos, estão sozinhos em qualquer linha de combate onde se encontrem e não podem continuar assim. Na próxima pandemia, na próxima guerra tudo pode ser pior.

É a altura para a entrada em cena do Dr. WhatsApp. Grande parte dos médicos tem smartphones e estão ligados a colegas em grupos de WhatsApp, onde colocam questões aos seus pares, partilham casos clínicos e acima de tudo, nesta pandemia, partilham informação, dúvidas e soluções. Hoje, quase todos os médicos estão em pelo menos um grupo de WhatsApp e o outro, o Dr. Google não entra. Até as autoridades de saúde, usam o WhatsApp para partilhar, pressionar ou cascar nos dirigentes hospitalares e dos CSP.

É como se o Dr. WhatsApp esteja destinado ao incremento do conhecimento dos médicos e o Dr. Google para os doentes. Em conversa com alguns clínicos amigos neste tempo de pandemia, ouvi muitas vezes o comentário que receberam uma partilha num grupo, de um colega que conhece um colega italiano que está num hospital em Milão, que disse que lá usam isto ou aquilo para a Covid-19. Depois o grupo através do líder, o Dr. WhatsApp espalha por todos e desta forma, chega a um jornalista, a um grupo de Facebook e aí “viraliza” para Portugal, como verdade irrefutável, mais ainda assinada por um médico. “Corre “viralmente” nas redes sociais um relato de uma suposta médica a garantir que morreu o primeiro português infectado pelo Covid-19. Segundo a profissional, tratava-se de um homem de 60 anos internado no Curry Cabral. A informação está a ser veiculada através de um áudio de WhatsApp e já chegou a milhares de portugueses”, alerta a DGS, através de um comunicado no site oficial. (1)

Olhemos para o Dr. WhatsApp de uma outra forma. No já longínquo ano de 2017, a BMJ Innovations publicou um estudo, “WhatsApp Doc?” (2) onde se demonstrou uso generalizado do WhatsApp para comunicação entre os médicos. Segundo o WhatsApp Doc, 97% dos médicos do estudo enviam rotineiramente informações confidenciais do doente, sem obter o seu consentimento, apesar de, segundo o mesmo estudo, 68% dos médicos estarem preocupados em partilhar essas informações pelo WhatsApp. Esta dissonância cognitiva, diz o estudo, é preocupante e talvez reflicta as pressões da medicina moderna, que forçam os médicos a comportarem-se dessa maneira, apesar das questões legais.  No estudo pode ler-se que um telefone perdido é, portanto, uma possível violação de segurança de dados, mesmo que o médico em questão nunca tenha enviado informações; o preocupante é saber, através do mesmo estudo, que 30% dos estagiários perderam o telefone no último ano e 5% na última semana.

Acreditem, não vou aqui vender uma solução que destrone o WhatsApp ou até falar do tal regulamento, o GDPR, sobre os dados e a confidencialidade. Isso pode ser tema para o Direito e a Ética. Defendo que os médicos e os enfermeiros acreditam que o Dr. WhatsApp possa ser usado desde que os dados do doente sejam anonimizados. Como se prova pela sua utilização, os benefícios do Dr. WhatsApp vão muito além da mera comunicação; o que ele faz é partilhar conhecimento, conectar equipes, reduzir hierarquias e ajudar os doentes. O que fica aqui a ferver nas mãos de quem lidera o SNS e os médicos, é a forma como o conhecimento científico e clínico é partilhado nos dias de hoje. Pelo Dr. WhatsApp?

Em Novembro de 2018, a propósito de um quase acidente aéreo nos céus de Portugal, perguntava, “Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor? (3)

Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…” (3)

O mais sabedor, o mais treinado, o melhor? Já não se trata da forma como vamos saber se um médico reúne estas características, mas sim, como é que um médico pode ser o mais sabedor, o mais treinado ou o melhor. Onde vai aprender, onde vai buscar o conhecimento de uma nova doença ou mesmo as últimas publicações científicas credíveis? Como o fez durante esta pandemia?

Onde vai aprender? Imaginem, um médico com 57 anos, saído da faculdade lá pelos finais dos anos 80, onde a internet era ainda um luxo, os portáteis e os telemóveis daqueles que hoje nos rimos no museu da pré-história da conectividade. Começou a trabalhar no SNS, num Centro de Saúde, antiga Caixa Previdência, numa altura em que era apenas mais um Clínico Geral, num sistema longe da reforma e a começar a cansar-se com os Regimes Remuneratórios Experimentais e outras deambulações reformistas, até à 1ª década do Seculo 21, onde abriu a 1ª USF. Política, luta de classes e acabou hoje como Especialista de Medicina Geral e Familiar. E claro está, a Reforma dos CSP na rua a todo o vapor, reforçando o termo vapor. Podia aqui mimetizar um especialista de outra qualquer especialidade médica ou cirúrgica, que nada seria diferente no final.

Meu Deus, como a ciência médica e farmacológica evoluiu desde o último ano da faculdade nos anos oitenta e da edição do Harrison com que fez o exame. Já se perguntou como chegou a este médico, (marido, pai de filhos, cuidador dos pais e outras coisas que qualquer ser humano tem de fazer para além do trabalho), toda evolução do conhecimento, que permite diagnosticar e tratar melhor os doentes, em que um deles pode ser você que lê estas palavras? Que fez a sua entidade patronal, o SNS, a sua Ordem Profissional, as ditas Sociedades Científicas; ou as associações políticas, como a USF-AN e as associativas como, a APMGF?

A resposta que encontra é sempre a mesma, nada. Se não for por iniciativa própria do medico, que dedicará parte do seu tempo a ler e pesquisar a inovação na sua área; ou de outra forma, aceitando os convites da Indústria Farmacêutica que suporta uma grande parte da dita formação, quer através de eventos próprios ou através dos congressos das sociedades científicas no país e no estrangeiro; se não for por estas vias, o médico terá muita dificuldade em adquirir conhecimento. Hoje com a internet, as redes sociais e o Dr. WhatsApp, tudo parece mais fácil, mas apenas parece, porque é preciso saber se é disponibilizado ao médico, o tempo de qualidade para se actualizar, para além de ter de saber separar o fake do real ou do correcto.

A digitalização e a inteligência artificial permitem aos médicos acederem a sites de outros médicos que partilham o “state of the art”, a cursos de e-learning, webinars e tantas outras formas de à distância, o médico poder optar por aprender. Poder optar…

Esta é a questão, optar ou não pelo aumento e actualização do conhecimento médico e farmacológico, depender de um simples se, se o médico quiser, num exercício ético do livre arbítrio. O que queremos no Day After, para os médicos do SNS, para os clínicos deste país? Actualizações do conhecimento via Dr. WhatsApp? Ou dotar o médico da possibilidade de actualizar os seus conhecimentos em todas as áreas do saber necessários e isso ser-lhe reconhecido na sua carreira? E se a Ordem dos Médicos reconhecesse determinadas formações, com créditos e cada médico necessitasse de todos os anos ter um número de créditos mínimo, actualizando o seu conhecimento em áreas científicas definidas previamente?

O estudo da BMJ Innovations afirma também que “90% dos médicos sentem que não poder fornecer o melhor atendimento clínico possível sem usar mensagens instantâneas”, o Dr. WhatsApp. Ou seja, são os médicos que reconhecem a necessidade de aprender mais, de partilhar conhecimentos, “peer to peer”, de poder serem médicos do século 21.

Se tiver de escolher um médico para o tratar, vai querer o Dr. Google, o Dr. WhatsApp ou um médico actualizado com os créditos da OM? Não é essa a responsabilidade do SNS e da Ordem? Ou vai esperar pela próxima pandemia? Os registos existentes da saúde de um cidadão são como a caixa negra de um avião; se ele sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada e aí não há Dr. Google ou Dr. WhatsApp…

(1) https://sol.sapo.pt/artigo/688882/dgs-desmente-audio-viral-de-alegada-medica-que-confirma-duas-mortes-pelo-covid-19

(2) O’Sullivan DM, et al. BMJ Innov 2017;3:238–239. doi:10.1136/bmjinnov-2017-000239

(3) https://marketaccessportugal.com/wp-content/uploads/2018/11/astana-SNS-plane.jpg

jose ribeiro
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