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Política de Saúde

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Hoje 24 de Abril, vamos tratar os médicos e enfermeiros como tratamos Salgueiro Maia?

Salgueiro Maia, Capitão de Cavalaria, foi o herói do 25 de Abril de 1974. Tomou o Terreiro do Paço, travou as forças do regime e foi buscar Marcelo Caetano ao quartel do Carmo. Ele foi o Capitão da Liberdade, que a esquerda totalitária que ele ajudou a libertar, ostracizou apenas porque ele era um verdadeiro defensor da liberdade, daquela onde se é livre. Este é o exemplo da forma como tratamos os nossos soldados.

Como tratamos os nossos soldados em tempo de paz?

Portugal e alguns portugueses convivem mal com as Forças Armadas. Sabemos como tratamos todos os ex-combatentes da guerra colonial. Sabemos bem como os integramos, em particular todos os que ficaram com sequelas físicas e com stress pós-traumático. Infelizmente alguns políticos recorrem ao argumento ideológico, como se isso validasse o abandono, que eles e alguns partidos, condenaram todos os filhos da nação que combateram em nome de Portugal.  A forma como tratamos os nossos soldados em tempo de paz, define os governantes que temos e isso não abona em nosso favor, o povo que permite que isso aconteça. Temos vergonha dos símbolos da nação, a não ser que um treinador brasileiro, em nome de Portugal, peça a todos portugueses para erguer a bandeira das quinas em cada janela. Nessa altura, em nome do futebol, foi a bandeira do nosso orgulho.

Há bem pouco tempo, batemos palmas e alguns deixaram algumas lágrimas rolar pela face, em homenagem aos heróis, médicos e enfermeiros, que ainda hoje, por esta hora, combatem numa guerra para onde não desejaram ir. Mas tal como no passado, os soldados de hoje, não hesitam em ir combater, porque a guerra é justa. Saem de casa, deixando a família e vão cumprir a sua missão, honrando o juramento que fizeram. Recebem os maiores elogios do governo e ouvem o ministério dizer que não faltam equipamentos de protecção individual, quando surgem relatos da linha da frente que dizem o contrário.

Quanto custa um herói?

 O governo quer contratar para este combate, enfermeiros a quase 6,42 euros por hora. Ao jornal PÚBLICO, “o Ministério da Saúde afirmou que o Governo autorizou a contratação dos profissionais de saúde necessários à resposta do sistema para efeitos da prevenção, controlo e tratamento da infecção por novo coronavírus (covid-19). De acordo com a tutela, tais contratos, a termo resolutivo certo, por um período de quatro meses, podem ser eventualmente renovados, se necessário e segundo a Administração Central do Sistema de Saúde, 7,42 euros é o valor base/hora do enfermeiro em início de carreira, a que acresce eventuais suplementos que sejam devidos”. (1)

O nível de risco e perigo de morte é igual para todos?

Há mais algumas perguntas que devemos fazer. Quando as Forças Armadas portuguesas vão para um teatro de operações, recebem um subsídio de risco ou recebem um prémio ou incentivo? Um soldado do exército regular é igual a um Comando, a um Ranger, a um Fuzileiro ou a um Paraquedista? O nível de risco e perigo de morte é igual para todos?

Julgo saber o que está a ser pedido aos médicos e aos enfermeiros deste país e sei que nem todos estão na mesma situação, apesar de todos verem as suas vidas alteradas pelo estado de emergência e pela pandemia; eu sei que os cuidados hospitalares não são iguais aos cuidados de saúde primários e que num hospital há serviços mais na linha da frente que outros; mas sei que este é um tema que alguns não gostam que se fale, o das diferenças que muitos querem que sejam iguais. É preciso que este governo saiba diferenciar, saiba atribuir um subsídio de risco, um incentivo e reconheça que o Ministério da Saúde, tem uma política de recursos humanos errada faz muito tempo.

Como fará o governo para diferenciar estes heróis?

Tenho ideias sobre isso e já as discuti com alguns médicos e enfermeiros. Mas querem homenagear quem combateu esta pandemia? Com muito menos do que o que vão gastar nas comemorações do 25 de Abril? Sem o despudor com que a Ministra da Saúde, foi célere em louvar quem respondia a perguntas ao telefone e que ainda não louvou em despacho, quem está a combater? Convoquem todos os médicos, enfermeiros e outros profissionais que lidaram com os doentes na linha da frente e num local público façam uma homenagem em frente de todas as televisões, atribuindo aí sim, um louvor e um agradecimento público e sentido. Acham que vão fazer isto? Não, e isso vai fazer crescer uma fúria em quem lutou, dias a fio, para proteger os que os irão desprezar. E se essa fúria crescer?

A Fúria do Herói

John Rambo, que todos conhecemos, regressa da guerra e encontra no seu país, um ambiente hostil onde a paz se serve com violência. Condecorado com a Medalha de Honra, aclamado como herói, depressa é esquecido e desenquadrado, não sendo acolhido por aqueles por quem lutou e defendeu, quase perdendo a vida. E os que lhe bateram palmas, que o homenagearam, serão exactamente aqueles que um dia depois o vão esquecer e se possível atirá-lo para um gueto, onde os traumas, a pobreza e a solidão farão de selecção natural ou selecção mortal. Salgueiro Maia disse um dia – “Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir.” E os que lhe bateram palmas, que o homenagearam, que o aclamaram como herói, serão exactamente aqueles que um dia depois o vão esquecer e se possível atirá-lo para um gueto. Apenas a história lhe fará a justa homenagem, a mostrar a verdade dos factos que muitos teimam em enterrar.

Este governo pode destruir o SNS e reforçar o sistema privado, o NHS, o …

Rambo, o herói americano no fim do filme acabou preso, porque se defendeu de quem o maltratou. Salgueiro Maia, na vida real, morreu sem as honras que esta nação lhe devia ter prestado. Esta guerra vai acabar e os heróis de hoje, médicos e enfermeiros, vão ser tratados como sempre a esquerda tratou os heróis e os soldados deste país?

Se no Day After, não se pagar todas as horas extraordinárias feitas, se não se recompensar com um incentivo pelo combate; se no Day After, não se der descanso a quem esteve na linha da frente; se no Day After não se reformular os hospitais e com isso perceber como reorganizar os médicos e enfermeiros numa nova situação de guerra; se no Day After não se reformular profundamente o SNS, levando em consideração, a liderança, a mentalidade de comando controlo, os médicos e enfermeiros, a forma como os podemos diferenciar, as suas carreiras e remunerações, é muito provável que a fúria destes heróis os leve, não à prisão como o Rambo, mas a atirar a toalha ao chão, sair do SNS para o privado, para o NHS… Este governo, provocando a fúria aos seus heróis, pode destruir o SNS e prejudicar todos os portugueses.

Hoje 24 de Abril, pergunto se a esquerda do governo e a oposição no parlamento, vão tratar os médicos e enfermeiros como trataram Salgueiro Maia?

(1) https://www.publico.pt/2020/04/05/sociedade/noticia/covid19-governo-oferece-contratos-quatro-meses-642-euroshora-novos-enfermeiros-1911051

O título parece-vos uma brincadeira? Um dia a dor invadiu-me o braço e não resisti, fui ao Google e “garbage in, garbage out”, um sem número de diagnósticos surgiram em segundos. O Dr. Google é mais rápido, mais barato e evita muitas vezes uma ida ao consultório, quando temos apenas uma exacerbação da hipocondria que há em todos nós. E quando se é médico, com dúvidas, onde é que se vai? Também vão googlar?

Esta pandemia veio relevar um enorme problema dos enfermeiros e farmacêuticos, mas muito em particular de todos os médicos – na dúvida onde eles vão procurar ajuda? Podíamos dizer que a OMS ou a DGS são um farol, mas a verdade é que não o foram e os episódios das máscaras, dos testes, da cloroquina e até do ibuprofeno, são bem a prova disso. Não trago aqui esta questão apenas para criticar, porque não é esse o objectivo, mas por outro mais pertinente – perceber que os médicos, no que toca a adquirir novos conhecimentos, estão sozinhos em qualquer linha de combate onde se encontrem e não podem continuar assim. Na próxima pandemia, na próxima guerra tudo pode ser pior.

É a altura para a entrada em cena do Dr. WhatsApp. Grande parte dos médicos tem smartphones e estão ligados a colegas em grupos de WhatsApp, onde colocam questões aos seus pares, partilham casos clínicos e acima de tudo, nesta pandemia, partilham informação, dúvidas e soluções. Hoje, quase todos os médicos estão em pelo menos um grupo de WhatsApp e o outro, o Dr. Google não entra. Até as autoridades de saúde, usam o WhatsApp para partilhar, pressionar ou cascar nos dirigentes hospitalares e dos CSP.

É como se o Dr. WhatsApp esteja destinado ao incremento do conhecimento dos médicos e o Dr. Google para os doentes. Em conversa com alguns clínicos amigos neste tempo de pandemia, ouvi muitas vezes o comentário que receberam uma partilha num grupo, de um colega que conhece um colega italiano que está num hospital em Milão, que disse que lá usam isto ou aquilo para a Covid-19. Depois o grupo através do líder, o Dr. WhatsApp espalha por todos e desta forma, chega a um jornalista, a um grupo de Facebook e aí “viraliza” para Portugal, como verdade irrefutável, mais ainda assinada por um médico. “Corre “viralmente” nas redes sociais um relato de uma suposta médica a garantir que morreu o primeiro português infectado pelo Covid-19. Segundo a profissional, tratava-se de um homem de 60 anos internado no Curry Cabral. A informação está a ser veiculada através de um áudio de WhatsApp e já chegou a milhares de portugueses”, alerta a DGS, através de um comunicado no site oficial. (1)

Olhemos para o Dr. WhatsApp de uma outra forma. No já longínquo ano de 2017, a BMJ Innovations publicou um estudo, “WhatsApp Doc?” (2) onde se demonstrou uso generalizado do WhatsApp para comunicação entre os médicos. Segundo o WhatsApp Doc, 97% dos médicos do estudo enviam rotineiramente informações confidenciais do doente, sem obter o seu consentimento, apesar de, segundo o mesmo estudo, 68% dos médicos estarem preocupados em partilhar essas informações pelo WhatsApp. Esta dissonância cognitiva, diz o estudo, é preocupante e talvez reflicta as pressões da medicina moderna, que forçam os médicos a comportarem-se dessa maneira, apesar das questões legais.  No estudo pode ler-se que um telefone perdido é, portanto, uma possível violação de segurança de dados, mesmo que o médico em questão nunca tenha enviado informações; o preocupante é saber, através do mesmo estudo, que 30% dos estagiários perderam o telefone no último ano e 5% na última semana.

Acreditem, não vou aqui vender uma solução que destrone o WhatsApp ou até falar do tal regulamento, o GDPR, sobre os dados e a confidencialidade. Isso pode ser tema para o Direito e a Ética. Defendo que os médicos e os enfermeiros acreditam que o Dr. WhatsApp possa ser usado desde que os dados do doente sejam anonimizados. Como se prova pela sua utilização, os benefícios do Dr. WhatsApp vão muito além da mera comunicação; o que ele faz é partilhar conhecimento, conectar equipes, reduzir hierarquias e ajudar os doentes. O que fica aqui a ferver nas mãos de quem lidera o SNS e os médicos, é a forma como o conhecimento científico e clínico é partilhado nos dias de hoje. Pelo Dr. WhatsApp?

Em Novembro de 2018, a propósito de um quase acidente aéreo nos céus de Portugal, perguntava, “Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor? (3)

Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…” (3)

O mais sabedor, o mais treinado, o melhor? Já não se trata da forma como vamos saber se um médico reúne estas características, mas sim, como é que um médico pode ser o mais sabedor, o mais treinado ou o melhor. Onde vai aprender, onde vai buscar o conhecimento de uma nova doença ou mesmo as últimas publicações científicas credíveis? Como o fez durante esta pandemia?

Onde vai aprender? Imaginem, um médico com 57 anos, saído da faculdade lá pelos finais dos anos 80, onde a internet era ainda um luxo, os portáteis e os telemóveis daqueles que hoje nos rimos no museu da pré-história da conectividade. Começou a trabalhar no SNS, num Centro de Saúde, antiga Caixa Previdência, numa altura em que era apenas mais um Clínico Geral, num sistema longe da reforma e a começar a cansar-se com os Regimes Remuneratórios Experimentais e outras deambulações reformistas, até à 1ª década do Seculo 21, onde abriu a 1ª USF. Política, luta de classes e acabou hoje como Especialista de Medicina Geral e Familiar. E claro está, a Reforma dos CSP na rua a todo o vapor, reforçando o termo vapor. Podia aqui mimetizar um especialista de outra qualquer especialidade médica ou cirúrgica, que nada seria diferente no final.

Meu Deus, como a ciência médica e farmacológica evoluiu desde o último ano da faculdade nos anos oitenta e da edição do Harrison com que fez o exame. Já se perguntou como chegou a este médico, (marido, pai de filhos, cuidador dos pais e outras coisas que qualquer ser humano tem de fazer para além do trabalho), toda evolução do conhecimento, que permite diagnosticar e tratar melhor os doentes, em que um deles pode ser você que lê estas palavras? Que fez a sua entidade patronal, o SNS, a sua Ordem Profissional, as ditas Sociedades Científicas; ou as associações políticas, como a USF-AN e as associativas como, a APMGF?

A resposta que encontra é sempre a mesma, nada. Se não for por iniciativa própria do medico, que dedicará parte do seu tempo a ler e pesquisar a inovação na sua área; ou de outra forma, aceitando os convites da Indústria Farmacêutica que suporta uma grande parte da dita formação, quer através de eventos próprios ou através dos congressos das sociedades científicas no país e no estrangeiro; se não for por estas vias, o médico terá muita dificuldade em adquirir conhecimento. Hoje com a internet, as redes sociais e o Dr. WhatsApp, tudo parece mais fácil, mas apenas parece, porque é preciso saber se é disponibilizado ao médico, o tempo de qualidade para se actualizar, para além de ter de saber separar o fake do real ou do correcto.

A digitalização e a inteligência artificial permitem aos médicos acederem a sites de outros médicos que partilham o “state of the art”, a cursos de e-learning, webinars e tantas outras formas de à distância, o médico poder optar por aprender. Poder optar…

Esta é a questão, optar ou não pelo aumento e actualização do conhecimento médico e farmacológico, depender de um simples se, se o médico quiser, num exercício ético do livre arbítrio. O que queremos no Day After, para os médicos do SNS, para os clínicos deste país? Actualizações do conhecimento via Dr. WhatsApp? Ou dotar o médico da possibilidade de actualizar os seus conhecimentos em todas as áreas do saber necessários e isso ser-lhe reconhecido na sua carreira? E se a Ordem dos Médicos reconhecesse determinadas formações, com créditos e cada médico necessitasse de todos os anos ter um número de créditos mínimo, actualizando o seu conhecimento em áreas científicas definidas previamente?

O estudo da BMJ Innovations afirma também que “90% dos médicos sentem que não poder fornecer o melhor atendimento clínico possível sem usar mensagens instantâneas”, o Dr. WhatsApp. Ou seja, são os médicos que reconhecem a necessidade de aprender mais, de partilhar conhecimentos, “peer to peer”, de poder serem médicos do século 21.

Se tiver de escolher um médico para o tratar, vai querer o Dr. Google, o Dr. WhatsApp ou um médico actualizado com os créditos da OM? Não é essa a responsabilidade do SNS e da Ordem? Ou vai esperar pela próxima pandemia? Os registos existentes da saúde de um cidadão são como a caixa negra de um avião; se ele sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada e aí não há Dr. Google ou Dr. WhatsApp…

(1) https://sol.sapo.pt/artigo/688882/dgs-desmente-audio-viral-de-alegada-medica-que-confirma-duas-mortes-pelo-covid-19

(2) O’Sullivan DM, et al. BMJ Innov 2017;3:238–239. doi:10.1136/bmjinnov-2017-000239

(3) https://marketaccessportugal.com/wp-content/uploads/2018/11/astana-SNS-plane.jpg

Será que há um conflito de gerações, na Saúde Pública? A pergunta vai muito para além da discussão em torno do uso de máscaras e da necessidade de testar. A dúvida instala-se quando a geração mais nova de médicos de Saúde Pública, SP, na televisão, defende o uso de máscaras e a necessidade de testar, enquanto alguns médicos de SP do antigamente, deixam sérias dúvidas e interrogações sobre o tema.

O que motivará esta diferença? O conceito de SP não deverá ser igual para as duas gerações? Ou o conceito de SP é outro que não a ciência e arte de prevenir doenças, prolongar a vida e promover a saúde através dos esforços organizados da sociedade?

Haverá paz depois do conflito?

Paz é sempre aquela sensação enganadora que fica entre duas guerras. Seja qual for o conflito e o que estamos a viver com a Covid-19 é um bom exemplo disso, terá mais ou menos baixas consoante o nível de preparação de um povo e dos seus governantes.

É verdade que nenhum país estava preparado para esta realidade e o tempo, a par da qualidade da resposta, geram outros conflitos que não devem ser calados ou esquecidos, como desculpa para a unidade nacional, em nome do politicamente correcto. Se assim fosse, provavelmente hoje seriamos todos nazis, porque mesmo em estado de emergência e com o medo do ataque das tropas de Hitler, o parlamento inglês discutiu aos gritos, contra a posição estratégica, mole e errada do governo inglês em relação ao avanço de Hitler, o que levou o primeiro-ministro Chamberlain a demitir-se e com isso, a chegada do líder, Winston Churchill. O que daí resultou está na História do mundo, que todos devíamos saber.

O Day After, a paz entre duas guerras

Acredito que o período pós-Covid-19, o Day After, vai estar repleto de conferências e de especialistas, (talvez até com os que tanto agora falharam), a falar e a filosofar sobre o futuro que queremos para as nossas instituições, para o nosso sistema de saúde e para a nossa sociedade.

Isso até fará sentido se todos os dados, factos e números foram, com toda a transparência, partilhados sem censura, para que possa ser feita uma análise crítica e fundamentada, sem os vieses dos ideólogos do regime.

Isto até fará sentido se de uma vez por todas, colocarmos os especialistas certos a liderar este processo e não os políticos ou os tais ideólogos de serviço, que nos trouxeram até aqui. Falo de dar destaque à geração de ouro dos médicos da Saúde Pública, uma especialidade que esteve até hoje desprezada.

Geração de Ouro da Saúde Pública

O cadinho onde se formaram estes jovens da SP, é repleto de conectividade, inteligência artificial, modelos matemáticos, trabalho em rede e em parceria com outros saberes, o que ajuda a superar de forma objectiva, organizada e participativa os desafios de um mundo em constante mudança, mas muito ameaçador para a saúde das populações.

Hoje é muito fácil ver na televisão um médico de SP e de repente esta especialidade assume um protagonismo que nunca teve.  E o conflito entre as gerações torna-se mais evidente, como nos apercebemos no diálogo sobre as máscaras, os testes e informação inicial sobre o vírus. Começa a ser evidente que as autoridades portuguesas, decidiram sobre modelos inadequados e pouco consentâneos com a realidade que vivemos, não olhando ao princípio base da Saúde Pública que é prevenir.

Não foi só a geração de ouro que levantou a voz contra. A este propósito, um antigo Ministro da Saúde e médico de Saúde Pública, pautou o seu discurso com moderação, mas com uma posição a favor das máscaras, dos testes, da declaração do Estado de Emergência e contra a decisão do Conselho Nacional de Saúde Pública, sobre o encerramento das escolas. Parece que não só a geração de ouro, mas também um dos seus mais proeminentes “treinadores”, não alinham com a tomada de decisão das autoridades de saúde.

Sabemos que no futuro, vamos precisar de autoridade e liderança nas batalhas e nas guerras que hão-de vir. Mas como vai ser o Day After para nós e para esta especialidade médica? A resposta a esta questão, deve interessar-nos a todos.

O meu interesse na Saúde Pública

Não vem só de agora. Há mais de 25 anos que trabalho na área da Saúde e a minha preocupação foi sempre a de perceber os fenómenos da doença e das populações. Com a chegada dos CSP, da governação e dos indicadores, a ausência da especialidade da Saúde Pública neste processo, sempre me complicou o pensamento. Prevenir, significa conhecer o que se quer prevenir e em quem; e para conhecer é preciso estudar e ir para o terreno. Quem poderá fazer isso?

A doença cardiovascular é e vai continuar a ser um flagelo em Portugal. Com o propósito de delinear uma política de conhecimento e prevenção desta doença, reuni em Março de 2014, num hotel em Cascais, mais de 150 médicos de Saúde Pública. Praticamente todos foram convidados e durante um dia, propus um programa e depois, em grupos de trabalho, discutiu-se os esqueletos no armário da SP e a forma de construir o futuro da especialidade.

Lembro-me que nessa altura, era já notório o conflito de gerações e a vontade que os novos médicos tinham de tomar conta dos destinos SP. Ainda lutei, por mais um tempo para não deixar perder o pouco que se tinha avançado, mas a verdade é que a dinâmica tombou no efeito que o tempo tem e nos corredores das unidades de saúde, onde a geração dos mais velhos fazia o que podia e sabia. O ónus da mudança ficava pelo Ministério e pela DGS.

Acreditar no Ministério da Saúde e na DGS?

Torna-se difícil acreditar no Ministério da Saúde, aceitar o que de lá se escuta, em particular com a ideologia desta equipa actual. Vejamos uma situação, (e não vou falar dos números, do boicote à verdade sobre o total de infectados, da lei da rolha…), mas de um caso pertinente para o Day After.

Em Setembro de 2011, foi publicado pela OMS, o documento “Strengthening public health capacities and services in Europe: a framework for action” (1). Neste documento, “ordenava-se que os estados membros, da Europa, formulassem uma proposta para nos respectivos países, haver “a new European policy for health, known as Health 2020”. Irónico, o 2020. Não percebi muito bem o que foi feito durante a Troika, (não encontrei informação sobre o tema), mas eis que em 2016, em plena geringonça, através do Despacho nº 11232/2016, (publicado no Diário da República, 2ª série, n.º 180, de 19 de Setembro), foi criada uma Comissão para a Reforma da Saúde Pública Nacional com vista a promover uma discussão abrangente da Reforma da Saúde Pública, com todos os seus actores.

Boa, disse eu na altura. Este despacho foi antecedido de uma documento “Nova ambição para a Saúde Pública focada em serviços locais” (2), publicado em Junho de 2016, onde mais ou menos, lá estava a ideia explicada. Foi logo feita uma comissão, constituída por 33 membros, para levar a cabo que o despacho pedia. (3)

Há o registo de várias reuniões e em Março de 2017, passados 9 meses, são publicadas 5 páginas com o título de “Comissão para a Reforma da Saúde Pública Nacional, 1º Relatório Intercalar” que basicamente nos diz que é difícil o entendimento na Comissão e por isso “foi decidido por unanimidade segmentar esta em três subcomissões”. (4)

Esperei outros relatórios, procurei, mas nada mais encontrei. Ainda que possa estar a cometer um erro por desconhecimento de outros documentos oriundos desta dita comissão, publicados algures, a verdade é que a dita reforma, reformou-se e ficou por aqui.

A reforma da Saúde Pública, ficou por ali?

Sim ficou, mas voltou em plena pandemia, a meio do mês de Fevereiro de 2020.

O Despacho n.º 2288/2020, (publicado no Diário da República n.º 34/2020, Série II de 2020-02-18), cria a Comissão para a Elaboração da Proposta de Reforma da Saúde Pública e Sua Implementação. (5)

Outra vez? Outra comissão para o mesmo? Esperem, há uma diferença, esta comissão é liderada por outra pessoa, fica activa por um ano, conta com pelo menos 38 pessoas e tem um prazo máximo de 180 dias a contar da sua nomeação, para apresentar ao Secretário de Estado, uma proposta final para uma Lei da Saúde Pública.

Perdeu-se tanto tempo e nada surgiu

O documento da OMS é de 2011, a primeira Comissão empossada em 2016 e agora uma nova ou a segunda, em 2020. Estamos a falar de quase 10 anos, para que os políticos e os responsáveis da saúde fizessem algo que juraram ao tomar posse – proteger os cidadãos, porque o objectivo de quem governa a área é também o da protecção, promoção da saúde e prevenção da doença.

Quase 10 anos onde se perdeu tanto tempo e nada surgiu.

Uma empresa privada, em 10 anos quase que investiga e comercializa um novo medicamento, desenha, desenvolve e implementa dezenas de projectos… uma empresa privada tem de pagar ordenados, prémios, vender mais do que a concorrência, pagar as suas obrigações, dar lucro aos seus accionistas ou donos, inovar, estar na vanguarda e não procrastinar…

O problema das Comissões em Saúde

Ao longo da minha vida profissional já vi isto acontecer inúmeras vezes e a técnica é sempre a mesma. É preciso fazer algo de muito importante, mas na verdade eu não quero que aconteça porque quero continuar a mandar nisto tudo e não deixar que os ventos de mudança, corram comigo daqui.

Não tomo uma posição pública de estar contra, mas induzo quem pode a fazer uma comissão para discutir o tema e preparar uma solução. O ideal mesmo é ela representar os mais variados sectores, até os mais inverosímeis e se possível ter muita gente com posições antagónicas, onde até as ideologias se sobreponham ao interesse público. O resultado será sempre o mesmo, nada acontece.

Existe um problema e ele tem de ser resolvido. A solução é mais uma comissão? O Ministério da Saúde e o seu Governo, precisaram de chegar a Fevereiro para perceber que a Saúde Pública estava em “estado de standby”?

O Day After já começou. Mas deve começar sem olhar para a especialidade e para o que deve ser o trabalho dos médicos de Saúde Pública?

Especialidade de SP, o MI-6 ou a CIA da Saúde?

É mais do que óbvio que Portugal precisa de uma entidade de Saúde Pública, sólida, bem estruturada e acima de tudo, independente do governo, com separação de poderes, que seja capaz de dizer a verdade e ter a capacidade de reagir em situações de “conflito”, em estados que ameaçam a saúde e a vida dos portugueses; uma entidade que seja capaz de liderar a resposta numa ameaça como a que hoje vivemos, que possa ter um sistema de informação fidedigno e capaz de informar tantos os decisores como quem combate no terreno.

Mas dirão, isso não é a DGS? Não, como já se provou em todos os aspectos.

Conflitos deste tipo, pandemias e ameaças virais ou bacteriológicas vão ser mais frequentes e por isso faz todo o sentido ter um MI-6, (Military Intelligence interna e externa) ou uma CIA, (Central Intelligence Agency) para a Saúde, ou em português, um Serviço de Inteligência em Saúde, SIS. (vamos ter de lhe dar outro nome)

Sacrilégio, dirá porventura a esquerda e nem sei o que opinará a direita.

Em Portugal há um Tribunal Constitucional que fiscaliza a constitucionalidade das leis e dos decretos-leis. A Justiça é mais importante que a Saúde? Se um dia perdermos uma guerra, para que serviu ter um TC e não ter um SIS para a Saúde?

Faz sentido isto do SIS?

Todo o sentido. Querem combater uma nova ameaça com os erros do passado, com as estruturas do passado, com as armas do passado e com a não informação do passado?

Devemos inovar e fazer uma disrupção no sistema de saúde. Mantemos a DGS melhorando-a; mantemos o INSA, aumentando a sua intervenção e desta forma engrandecemos o seu objectivo.

Uma das missões do SIS, será a de reforçar as unidades de Saúde Pública nos CSP (em breve voltarei a este tema); e implementar de uma vez por todas, a Saúde Pública Hospitalar, (6,7), tema “debatido” na Acta Médica, 2015 e num parecer da Ordem dos Médicos em 2014 – deve-se voltar a discutir este assunto e perceber que o hospital é um local fundamental de Saúde Pública.  

Faz todo o sentido isto do SIS, porque se alguma coisa esta pandemia veio mostrar é que o sistema de Saúde Pública não tem liderança, não tem coordenação entre os diversos níveis de cuidados, a informação não flui de forma útil a que o combate possa ser eficaz e eficiente. Esta liderança deve sair da esfera política e ideológica, local onde hoje se encontra. Coloquem a Saúde dos portugueses acima de todas as coisas.

Como se pode montar este SIS e como o financiar? Deixo essas respostas para outro post para não tornar este muito extenso.

Será que há um conflito de gerações, na Saúde Pública?

Acabo como comecei. Há conflito? Há gerações?

Não conheço os números em 2019, mas citando os autores André Peralta-Santos e Bernardo Gomes (7), há um “envelhecimento da especialidade de Saúde Pública – em 2011, 87% dos especialistas tinha mais de 50 anos – fenómeno alimentado por uma elevada taxa de desistência da especialidade. Este gap geracional torna as mudanças no perfil da especialidade mais difíceis de concretizar, agravado pela falta de especialistas a assegurar funções nas USP, sobretudo se for pretendido alargar a abrangência da especialidade.” 

Sim temos de olhar porque parece-me, como cidadão, que há um conflito de gerações na Saúde Pública, que provavelmente ultrapassa a idade e o conhecimento e aterra nas áreas ideológicas e políticas.

Termino com um desafio em que muito acredito. Aproveito o que foi escrito no artigo anterior, onde acrescento ao grupo, os cidadãos interessados “Instamos todos os especialistas em saúde pública, internos e outros colegas a contribuírem para esta discussão, com a certeza que o futuro Sistema de Saúde em Portugal encerra muitos desafios, em que os MSP podem fazer parte da solução.”

Podem fazer? Não, são mesmo o começo da solução. Ou continuamos com um problema?  

(1)http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/171770/RC62wd12rev1-Eng.pdf?ua=1

(2) https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/nova-ambicao-para-a-saude-publica-focada-em-servicos-locais-pdf.aspx

(3) https://www.dgs.pt/saude-publica1/reforma-da-saude-publica.aspx

(4) https://www.dgs.pt/ficheiros-de-upload-2013/sp-1-relatorio-comissao-para-a-reforma-da-saude-publica-nacional-pdf.aspx

(5)https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/129295741/details/4/maximized?serie=II&parte_filter=31&day=2020-02-18&date=2020-02-01&dreId=129295675

(6) https://ordemdosmedicos.pt/criacao-de-servicos-de-saude-publica-em-estabelecimentos-hospitalares/ (7) http://www.actamedicaportuguesa.com/info/ahead_of_print/5926_AOP.pdf

Há um perigo muito grande que se pode esconder no Day After e que começa a ser explorado por um sector político, cavalgando o efeito desta pandemia.

A excitação é imensa porque descobriram que um médico ou um enfermeiro vale mais do que um futebolista, mesmo quando na legislatura anterior e já nesta, os desvalorizaram tanto. Mas poderá ser demagogia minha, em tempo de guerra um soldado valer mais que um desportista, apesar de não compreender a razão de primeiro ter esgotado o papel higiénico e não os géneros alimentares.

Se é verdade que estes tempos vieram demonstrar  a importância de certas profissões, pouco valorizadas no passado recente, como todos os que trabalham no sector dos transportes e da distribuição, da limpeza, da agricultura, da segurança, entre outros, versus os banqueiros, advogados, gestores e em particular os políticos, também é verdade que este tipo de discurso é falso e ao mesmo tempo muito perigoso, porque é extremista e típico de sociedades totalitaristas, quer da direita, quer da esquerda.

A excitação é imensa porque o discurso do tal sector político, mais audível pelo controlo que têm nos meios de comunicação, aponta na direcção de querer reforçar o papel do Estado e cavalgando a pandemia, reclamar um modelo de sociedade mais comunista, ou seja, com mais intervenção do Estado.

O que todos desejamos nesta hora difícil, é que o Estado ajude as empresas, pague o ordenado a quem está em casa, dê dinheiro a todos. De repente viramos todos anticapitalistas, antiliberais, contra a lei da oferta e da proicura?

Não, pelo menos no que eu penso. Na verdade, perante uma guerra, perante uma crise, o mercado não funciona, a não ser o das armas e neste caso dos equipamentos médicos e de protecção ao vírus. E aí, o papel do Estado tem de vir ao de cima, porque esse é o seu papel durante as crises. Quando tudo voltar ao normal, as pessoas vão voltar a querer ganhar dinheiro, ter iniciativa privada, aumentar os seus rendimentos através do seu trabalho e esforço. E aí, o Estado se for dos bons, deve retirar-se para o seu papel de regulador e de controlador, assegurando algumas funções básicas.

A excitação desse lado político é imensa porque vão aproveitar para reclamar um SNS livre dos privados, das PPP’s e totalmente suportado pelo Estado – as consultas nos CSP, nos hospitais, os MCDT´s, a Imagiologia e os dispositivos médicos. E vão dar como exemplo, quem não é bom exemplo, como sejam os EUA. Quero comparar-me com os melhores e não com os piores.

Num país como Portugal, de baixo rendimento, com muita gente pobre e com idosos sem meios de subsistência, o Estado tem de assumir a protecção dos cidadãos e garantir o acesso à Saúde, de forma gratuita, tendencialmente. Quando olhamos para o passado verificamos que por razões diferentes, todos os partidos com assento na Assembleia da Républica, e reforço o significado de todos, desde o governo da Troika ou durante a gerigonça, delapidaram o SNS e retiraram cada vez mais investimento, num sector que necessita não apenas de mais dinheiro, mas de organização, liderança, combate ao desperdício e às ineficiências.

Como é que a direita explica ter ido mais longe do que a Troika exigia na saúde ou como é que e esquerda explica ter retirado e cativado dinheiro ao SNS? E como é que estes dois lados da questão explicam nunca terem feito uma reforma profunda no sector, começando pelos recursos humanos?

Fomos ao fundo com esta pandemia? Ainda não sei, mas sei que a Covid-19, veio demonstrar o quanto não estamos preparados, demonstrando a ineficiência do sistema político actual, digam lá o que disserem e confirmou que os políticos pensam mais na sua carreira, do que nos cidadãos que juraram servir.

A este propósito sabe-se que a Directora-geral da Saúde escocesa demitiu-se, depois de quebrar o isolamento; por cá, sob esta pandemia, políticos com muita responsabilidade mentiram aos portugueses sobre o material disponível para o combate à Covid-19, dirigentes da saúde que induziram a população com afirmações erradas e um jornalismo (quase todo), ao serviço da classe dirigente, verga-se ao politicamente correcto.

Numa publicação do Facebook no dia 7 de Abril, o antigo ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes, fala sobre “a importância de repensar o reforço global dos sistemas de saúde – que é importante ser feita em Portugal.” E de uma forma elegante diz que “As medidas de saúde pública poderão ter condicionamentos de ordem logística, mas nunca deverão ser desvalorizadas para justificar essas razões”. Uma afirmação tão verdadeira que embate de frente contra a verdade actualmente vigente.

Há uma verdade inequívoca que emerge desta pandemia – é importante num país como o nosso, a existência de um serviço público de saúde. Se não houvesse SNS acredito que a situação estaria muito pior. E convém esclarecer que o SNS não é propriedade ideológica da esquerda e o sistema privado de saúde, propriedade ideológica da direita. Esta temática leva-nos à questão sobre o papel que queremos para o Estado, na Saúde.

O Estado não existe como figura corpórea porque ele é composto por todas as instituições criadas e “dirigidas” através dos políticos que elegemos, num país onde a maioria dos portugueses não vota e os políticos eleitos, nada mais fazem do que lamentar a abstenção de forma muito pesarosa.

Ainda que não fosse preciso, este pandemia veio provar que o Estado falha em muita coisa relacionada com a Saúde; e só por isso temos o preço do álcool e das máscaras a serem comercializados 10, 20 ou 30 vezes o seu preço; o Estado falha e é por isso que temos o sistema privado de saúde e de MCDT’s a cobrar demais ao Estado; o Estado falha e é por isso que nem todos os funcionários desse mesmo Estado têm ADSE.

O Estado falha enquanto regulador, enquanto fiscalizador, enquanto promotor e como garante da Saúde dos cidadãos e dos profissionais que trabalham no sector.

A Covid-19 não prova apenas que o SNS faz falta, mas sim um sistema de saúde grátis para toda a população, que funcione em todas as dimensões e em que o modelo de financiamento não tenha de ser obrigatoriamente Beveridgiano.

A Covid-19 prova que sem iniciativa privada não íamos longe, porque o Estado não tem capacidade nem cérebros suficientes para encontrar soluções e que as parcerias com o sector empresarial são o caminho certo. E não digam que, se injectarmos mais dinheiro na investigação, não precisamos do privado. Não estamos na China. É lícito um cidadão investigador, com a coragem de arriscar, querer ganhar mais com o fruto do seu trabalho e não apenas a bolsa que o Estado lhe paga.

O problema da esquerda e da excitação em que estão agora, exponencia a ideia peregrina de que tudo na Saúde deve ser Estado, numa lógica em que um bom enfermeiro vai ganhar tanto como um mau enfermeiro, um bom médico vai ganhar tanto como um mau médico e por vezes são os maus que sobem à categoria superior e nunca, mas nunca são despedidos (a não ser que estejam numa USF e se oponham ao sistema).

Não há avaliação justa e coerente e a meritocracia é como um crime contra o Estado. Estamos há mais de 15 anos na reforma dos CSP e nunca vi avaliar uma unidade, repito avaliar e comparar com outras, quanto mais um profissional. Não, o IDG, os indicadores e a contratualização não servem para isso.

Depois da pandemia o SNS vai ficar ainda mais pobre e com alguns dos seus profissionais, para não dizer todos, cansados, doentes ou em recuperação, sem querer falar de um número, que hoje espero que seja muito pequeno, partiu para não mais voltar. Temos uma oportunidade para, não reformar, mas para construir um novo Sistema (e não serviço) Nacional de Saúde.

Por aqui, no Day After já começamos esta nossa pequena contribuição. O próximo post será sobre a saúde Pública, o que acreditamos ser o ponto de partida.  

Em jeito de reflexão, para acalmar a excitação deixo-vos um pequeno e enorme pensamento:

“Muitos olham para o empresário como o lobo a ser caçado; outros olham para ele como uma vaca a ser ordenhada; poucos são os que o vêem como o cavalo que puxa a carroça.” Winston Churchill

Estamos em Guerra e a história irá julgar-nos, como cidadãos, como empresas, instituições e governo por todas as atitudes e medidas tomadas e sobretudo por todas as que não foram, antes, durante e depois desta guerra contra o Corona vírus.

É sobre isto que vamos falar, passando por temas como

 Estamos em guerra? · Corona vírus. Podemos dizer que fomos apanhados de surpresa? · Guerra pressupõe um inimigo, certo? · Se esse inimigo mata, temos rapidamente de o identificar. Mas como? · O inimigo vai matar, mas vai ferir ainda mais portugueses. Que fazer? · Quem e como combatem os que estão na linha da frente? · E os Cuidados de Saúde Primários? · Se estamos em Guerra, onde está a War Room? · Pensou em Winston Churchill? · E os Serviço de Informações? · Comando Controlo? · Estado de Emergência 1? · Estado de Emergência 2? · Como alimentar a máquina de guerra? · Combatentes sem armas nem munições? · E no Hospital? · Na guerra a verdade é a primeira a morrer? · Depois como fica a verdade? · Nesta guerra ninguém mente? · The Day After

Estamos em guerra?

Esta tem sido a frase mais tenho ouvida a todos os comentadores, especialistas de saúde pública e em particular aos governantes, entre os apelos a ficar em casa e as desastrosas comunicações ao país sobre a evolução da doença.

Sou um cidadão, com uma idade mais perto dos sessenta do que dos cinquenta, tendo a meu cuidado permanente, duas pessoas que fazem parte do grupo de alto risco.  Assistem-me todas as razões para me interessar sobre o que dizem os especialistas em saúde pública e os governantes que lideram este processo; interessa-me muito e devia interessar a todos, porque o futuro, a nossa vida e a dos nossos, depende em muito do que dizem, do que dizem que fazem e do que na realidade fazem.

Há uma ideia que não me sai da cabeça e por isso questiono-me.

Corona vírus. Podemos dizer que fomos apanhados de surpresa?

Estamos em guerra contra um inimigo invisível. Mas ele é assim tão invisível?

Para o cidadão comum sim, mas para quem está à frente dos destinos de um país, no ministério da ciência, da economia ou da saúde, deve estar atento aos sinais e saber antecipar; os serviços de informação devem funcionar, tal como em tempo de guerra, mas fundamentalmente em tempo de paz, altura em que se evitam conflitos.

Não devia ser surpresa, porque desde Janeiro que sabíamos da China, depois Itália e da Espanha. E já histórico de outras ameaças no passado, com outros vírus.

Mas pasmem-se com o Polígrafo; “no dia 18 de Outubro de 2019, dezena e meia de tecnocratas de luxo ao serviço das mais altas esferas do regime neoliberal globalista reuniram-se num hotel de Nova Iorque para realizar “um exercício pandémico de alto nível designado como Event 201. O exercício consistiu na simulação de um surto de um novo coronavírus de âmbito mundial no qual, à medida que os casos e mortes se avolumam, as consequências tornam-se cada vez mais graves’ devido ‘ao crescimento exponencial semana a semana.” E a publicação conclui dizendo que “Os dons proféticos dos expoentes do neoliberalismo são, sem dúvida, admiráveis”.

Disseram Liberais? Já percebi porque é que o nosso governo não ligou nada. (1)

Guerra pressupõe um inimigo, certo?

Se temos um inimigo, temos de o conhecer – o Corona Vírus. Correcto, por isso devemos olhar para os países que ele invadiu, perceber o seu método de ocupação e letalidade. Quem devia fazer isto?

O Ministério da Saúde, a DGS, Direcção Geral de Saúde e os seus conselheiros, como o Conselho Nacional de Saúde e tantos outros especialistas em Saúde Pública que por ali gravitam.  E o que fizeram. Nada?

Pior, porque a DGS literalmente disse que o vírus não chegava a Portugal, não era facilmente transmissível de pessoa para pessoa e alguns especialistas em Saúde Publica afirmaram ser apenas uma gripe.

Mas não é a mesma DGS, a mesma Ministra, o mesmo Ministério, os mesmos especialistas, que agora nos vêm falar de guerra e de combate?

Dirão, a coisa evoluiu.

Se esse inimigo mata, temos rapidamente de o identificar. Mas Como?

Com testes, obviamente, muitos testes, testar, testar, testar. Foi isso que as nossas autoridades fizeram?

Não. Então como combater um inimigo que não vemos e não sabemos onde está?

O Comandante Supremo das Forças Armadas de Portugal, indirectamente diz que não interessa procurar o inimigo, ou seja, o Presidente de Portugal, diz que não vale a pena testar todos os portugueses, porque pode haver falsos negativos ou até gerar uma onde de falsa segurança;  o Presidente, o Governo, a Ministra da Saúde, a DGS e certos especialistas, não assumem os testes como arma fundamental. Incrível esta postura das autoridades.

O Governo de Portugal devia ter ido ao mercado, comprar testes e testar o maior nº possível de portugueses; se não há testes que cheguem, comprem, mas não nos mintam, em campanhas de desinformação, afirmando que não vale a pena testar, usar máscaras, luvas e outros equipamentos de protecção pessoal.

É incrível a irresponsabilidade de quem nos dirige nestes tempos de guerra, recusando seguir a sensatez das medidas de protecção, apenas porque não se prepararam e não reconheceram a ameaça atempadamente; mais do que as recomendações da OMS, vejam os factos da ciência e dos países que estão a ganhar esta guerra. O quadro seguinte não precisa de explicações.

https://www.maskssavelives.org/?fbclid=IwAR2NRLxegkZs5mm2t3RhJXeQhUbToahjfUxNteN3Lejv_YIEQhUjEp9je90

E este filme, dum pequeno país europeu é auto-explicativo.

O inimigo vai matar, mas vai ferir ainda mais portugueses. Que fazer?

Numa guerra, muitas vezes o inimigo não quer matar, mas ferir, porque ferir implica a utilização de meios de retaguarda, envolve mais gente para cuidar, obriga a gastos com meios de saúde, salvamento e transporte; e no fim, os feridos desmoralizam os que combatem e quem vê as consequências. E a moral de um povo cai por terra.

Era preciso desde a primeira hora, criar unidades especificas para tratar estes doentes, isolá-los quando identificados e avaliada a sua gravidade por profissionais habilitados.

Era preciso desde a primeira hora, retirar da zona de combate dos hospitais, quem nada lá estava a fazer, terminar com as consultas e não urgências e levar esses doentes que continuam a precisar de cuidados médicos para outros locais, outros hospitais não Covid-19; depois era preciso desde a primeira hora e por região, por ACES ou zona de influência dos centros hospitalares e com o apoio dos municípios, reservar locais e camas para os doentes feridos pelo corona vírus.

Foi isso que se fez? Não e a região norte é bem o espelho dessa situação, inicialmente uma das mais afectadas. Não houve um real plano de emergência e liderança no processo. Quem tomou decisões, não ouviu os médicos e os enfermeiros que estavam na linha da frente, apesar dos apelos insistentes dos Bastonários.

Doente com Covid-19 confirmado e sintomatologia já preocupante (não defino os critérios médicos para isso) deve ser levado para locais específicos e tratado por equipas especializadas, protegidas e com material de combate adequado; quem não tem Covid-19 deve continuar a ser tratado em hospitais e unidades de saúde, onde não circulem doentes confirmados. Por isso testar a população era e continua a ser fundamental para saber, onde se esconde o inimigo e para não o trazer para dentro das nossas linhas defensivas.

Quem e como combatem os que estão na linha da frente?

Sejamos claros. Ninguém estava preparado para esta guerra.

Não vou falar das nossas Forças Armadas, pequenas e mal equipadas, desmanteladas ao longo dos anos de democracia por sucessivos governos e por racionais de esquerda pouco concordantes com organizações de comando controlo.

As Forças Armadas são compostas por três ramos – Exército, Marinha e Força Aérea; façamos a analogia com os Cuidados de Saúde Primários, Hospitais e Cuidados Continuados/Paliativos.

Tomemos como exemplo o ramo do Exército, com diversas Armas – Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Administração Militar, Engenharia e Transmissões; dentro destas Armas, temos o exército regular, os Comandos e os Rangers, estes últimos designados por tropas especiais. Podia continuar a analogia com o sistema de saúde, mas julgo não ser preciso.

Numa guerra, todos têm a sua função e será óbvio que as operações mais importantes onde é necessário um ataque preciso e letal, sejam efectuadas pelas tropas especiais, mais bem equipadas e preparadas.

Actualmente qualquer militar tem na sua farda, joelhos e cotovelos protegidos, capacete, armas de defesa e ataque, óculos protectores, coletes de protecção, munições… no fundo o que equivaleria nos médicos, enfermeiros e outros técnicos que estão na linha da frente, a fatos de protecção, máscaras, viseiras e luvas, substituídas sempre que necessário, ao longo do dia.

Foi isso que aconteceu nesta guerra, nos nossos hospitais? No início são muitos os relatos que nos dizem que as nossas tropas, os médicos e enfermeiros da linha da frente, foram abandonados, sem liderança, sem equipamentos de protecção, ou seja, sem meios de combate em número suficiente. Mas há quem negue isto e faça dos médicos e enfermeiros, mentirosos.

Alguém treinou os nossos médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde para combater nesta guerra? Não e na verdade a liderança do combate e a aquisição do conhecimento científico, foi feita na comunicação social, nos painelistas, nas redes sociais e na desinformação emanada pela DGS e autoridades de Saúde – o exemplo dos testes, do uso das máscaras e luvas, sobre o ibuprofeno, …

E os Cuidados de Saúde Primários?

Total desorientação nos primeiros tempos. Lembram-se de doentes fechados nas casas de banho?

Recordo o do Dia D, o desembarque na Normandia. Foi uma operação que levou meses a preparar, mas que teve em consideração quase todos os pormenores, menos as vicissitudes do mar e do clima.

Nos CSP temos mais de 10.000 profissionais entre médicos, enfermeiros e outros combatentes. E a verdade foi que estes combatentes foram literalmente abandonados ao destino e à sorte do Corona Vírus, com toda a desinformação, uma linha de apoio que não funcionava e sem orientações precisas, deixando-os abandonados e unicamente assistidos pela circulação de informação em grupos de colegas no WhatsApp.  

O Dia D resultou porque tinha três coisas fundamentais – soldados, equipamento e liderança. Nesta guerra que estamos a travar temos apenas uma coisa – soldados empenhados e que juraram um dia, lutar até ao fim para salvar vidas.

Se estamos em Guerra, onde está a War Room, a Sala de Guerra?

Não está. Onde está a liderança? Não está. Onde está a comunicação? Não está.

Combater numa guerra não é para a população civil, mas para militares, profissionais treinados para agir sob pressão, em teatros de guerra e destruição.

Se estamos num cenário de guerra, então é bom que se assuma que liderar o combate numa guerra não é para políticos sem preparação, em que muitos nunca lideraram equipas, nunca trabalharam sem ser nas fileiras do partido e que chegaram a cargos políticos sem formação em liderança e condução de pessoas em situações de crise.

Nessa Sala de Guerra deve haver médicos, enfermeiros, farmacêuticos e tantos outros profissionais, consoante as necessidades do combate.  

Lembram-se dos fogos em Portugal? Lembram-se de Tancos? Lembram-se do que sucedeu às Forças Armadas em Portugal? Devolveram-nos a liberdade e os políticos portugueses, com medo dos militares, quase que extinguiram as Forças Armadas, sujeitando-os a uma humilhação sem precedentes.

Pensou em Winston Churchill?

E bem, porque ele foi político, mas foi um oficial que combateu na 1ª Grande Guerra.

Sem a capacidade de liderança, nem humildade dos políticos em o reconhecer, não temos uma Sala de Guerra, comandada pelo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, líder das tropas no terreno, em conjunto com o 1º Ministro, líder do governo que suporta a guerra e que se deve preocupar com a recuperação da economia e com o combate político na Europa.

E o Serviço de Informações?

Este serviço é fundamental e deve reunir peritos de medicina, estatística e de saúde pública, entre outros. A ideia é reunir aqui, todo o “state of the art” da pandemia, estar em contacto com o mesmo departamento de outros países e garantir que temos a última informação e capacidade analítica para gerar informação fidedigna para que, na Sala de Guerra, se possa traçar o plano mais eficaz para a pandemia e os combates que se travam em cada região.

Dou como exemplo algo de muito simples – será que em todas as frentes de combate, ou seja, em todos os hospitais, o protocolo utilizado com os doentes é o mesmo, incluindo procedimentos médicos e terapêutica medicamentosa?

É certo que precisamos de ventiladores, mas será que todos os que devem saber, sabem utilizar estes aparelhos? E nas unidades de cuidados intensivos, devemos aumentar as camas, mas temos equipas devidamente treinadas para elas?

Não, este serviço não é a linha de apoio ao médico que o ministério montou, que a maioria das vezes, segundo informação de quem para lá ligava, não funcionava. E pergunto, a esse propósito, o que fez com que a ministra atribuísse um louvor em Diário da Républica?

A critica não tem a ver com os médicos que participaram e foram louvados, mas na atitude da ministra de não louvar os médicos e enfermeiros da linha, não telefónica, mas da linha da frente de combate, um por um. Mais uma vez o discernimento e a liderança em questão.

Comando Controlo?

Todos devem agir sob lógica de comando controlo, um plano traçado para vencer o inimigo. O Comandante das forças, deve estar rodeado da informação correcta que vem do terreno, numa cadeia de comando vertical e silenciosa, onde a imprensa serve o combate que se trava e não faz parte dos que atrapalham o combate, com reportagens idiotas e informação não confirmada, comentada por quem de saúde nada sabe.

Deve conhecer-se as forças no terreno, as necessidades das populações e de forma ímpar, graduar como oficiais que juram obediência ao Comando de Portugal, médicos e enfermeiros civis, os profissionais que trabalham na linha da frente de uma dada região, auxiliados por um oficial militar que responde à cadeia de comando, partilhando a informação correcta e actualizada e não a bagunçada que todos os dias vemos com os números da DGS e do Ministério da Saúde.

Depois, libertem os médicos de família dos CSP para tratar doentes e para isso coloquem-nos a atender doentes e retirem-lhes toda a burocracia e os telefonemas que não sejam de utentes; juntamente aos administrativos de cada unidade e do ACES, juntem militares no apoio a essas funções burocráticas, mas fundamentais.

Isto é impossível, isto atropela a Constituição poderão dizer. Vamos precisar de chegar ao Estado de Sítio para chamar os militares e colocar a hierarquia militar a comandar os destinos do país?

Se perdermos tempo com estas discussões, vamos deixar morrer médicos, enfermeiros e muitos portugueses. Mas depois, não nos venham dizer como se fossemos idiotas, que estamos em guerra, em estado de emergência, mas que não querem agir como tal.

Estado de emergência 1?

É importante continuar em Estado de Emergência, mas é ainda mais importante que ele sirva não apenas para manter as pessoas em casa, mas para conseguir proteger as que mais precisam e os que precisam de trabalhar.

A este propósito da protecção dos mais necessitados, fiquei incrédulo, quando ouvi a ministra dizer sobre os idosos em lares privados ” Estas instituições têm de ter um plano de contingência, que implica que tinham de ter pensado, porque essa informação foi disseminada há dias ou até semanas, como deviam preparar-se para uma situação deste tipo”.

Preparar-se para uma situação deste tipo? A arrogância como foi dito faz-me perguntar se o governo, o ministério e a DGS, não se deviam ter preparado melhor, ter um plano de contingência, que implica que tinham de ter pensado antecipadamente, porque a informação sobre o Corona Vírus foi disseminada desde Janeiro? Incrível a desfaçatez política e ideológica.

Num país idoso, as autoridades acordarem só agora para os lares? Quando se vão lembrar dos Cuidados Continuados e dos Paliativos?

O Estado de Emergência implementa-se para nos proteger da pandemia, mas será que nos protege de quem diz proteger-nos, será que nos protege das políticas erráticas e incoerentes? Recordo apenas que o 1º Ministro e muitos outros, não queriam ir para Estado de Emergência e na votação na Assembleia da República, houve até quem se abstivesse.

Estado de emergência 2?

Continuando na lógica dos políticos coerentes, houve partidos que continuaram a abster-se e outros que mudaram o sentido de voto, da concordância para a abstenção e pasme-se da abstenção para contra. Como é possível, colocar argumentos perante a vida das pessoas, a vida de um país?

Neste Estado de Emergência 2, o 1º Ministro já está a favor e até agravou as medidas. O que o fez mudar? A saúde ou a economia?

Agravar as medidas é a única hipótese de não fazer colapsar o SNS que está muito perto disso e do burnout de quem está na linha da frente. O Presidente no seu discurso mostrou o quadro negro que se avizinha; o discurso do 1º Ministro, do Ministério da Saúde e da DGS, com a conversa da curva em planalto, transmitem uma sensação de que está tudo controlado passando uma sensação de segurança, a meu ver falsa.

Como alimentar a máquina de guerra?

São muitos os exemplos da resistência francesa na 2ª guerra mundial, que dinamitava as linhas de comboio que transportavam munições, gasolina e mantimentos para os soldados alemães que combatiam na Bélgica, no Inverno duro e fatal.

Que fazemos para proteger quem deve assegurar o abastecimento de todas as cadeias de distribuição, os supermercados, as forças de segurança, recolha do lixo…?

Que fazemos para assegurar que as fábricas, os agricultores e todos os que contribuem para a a nossa vida em quarentena, possam trabalhar e saber que as suas famílias estão em segurança?

Já falei dos materiais de protecção e de ventiladores, algo muito falado em toda a comunicação e redes sociais. E os medicamentos?

A grande parte dos medicamentos e dos seus princípios activos, têm origem na produção da China e da India. Com o fecho de fronteiras, com as consequências da pandemia, o transporte via terrestre sofreu uma procura sem precedentes.

Será que o governo e o Infarmed já reuniram com a Apifarma e com a Apogen, para garantir stock suficiente de medicamentos? Falo de antihipertensores, estatinas, anticoagulantes, antidiabéticos e outros medicamentos para a doença crónica?

Já pensarem em abrir uma para garantir que os medicamentos possam chegar a Portugal atempadamente? Acreditamos se nos disserem que sim?

O apelo à via verde foi formulado pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao verificarem-se constrangimentos nas fronteiras europeias. Não façam nada e depois queiram continuar a combater.

Combatentes sem armas nem munições?

Este é um assunto sério. Provavelmente o governo já pediu à Apifarma e à Apogen, através do Infarmed, para as companhias farmacêuticas reforçarem o stock de medicamentos, de forma a que nada falte. E provavelmente assume-se como um Pilatos, lavando as mãos se alguma coisa falhar, para depois apontar o dedo à IF.

Pensem comigo – as fábricas recebem dois pedidos, um para Portugal e outro para a Alemanha; ainda que haja solidariedade europeia, o lote alemão é muito maior do que o português, logo vai primeiro; depois, não têm que fazer embalagens pequenas, de 10 ou 16 comprimidos que nunca se vendem e são destruídas sendo a IF taxada com isso; depois, sim depois, não têm que por uma etiqueta com o preço, coisa única na Europa, só feita em Portugal; depois nos quarteis generais das companhias fazem-se contas para não se despedir pessoas, neste período de crise mundial, o esforço que o governo português pede aos laboratórios ainda será taxado com um imposto especial, para além dos impostos normais que as empresas têm. Então, de novo a pergunta – as fábricas recebem dois pedidos, um para Portugal e outro para a Alemanha. Para onde fabricam primeiro?

Reúnam de verdade com a Apifarma e a Apogen, aproveitem este momento para extinguir alguns dos disparates existentes com a política do medicamento em Portugal e depois exijam à IF o esforço de guerra.

Uma coisa vos digo – se faltarem medicamentos, o governo e a esquerda vão apontar o dedo aos laboratórios e nada será tão falso.

E no hospital?

Pior, se não houver a dita via verde. Na verdade, pelas lei da contratação pública, o hospital adjudica a uma companhia e essa, logisticamente prepara o stock para o fornecimento de um ano; todos os outros concorrentes saem do jogo, porque não vão ter produto, uma vez que perderam o concurso.

Com a dependência da Índia (já em lock out) e da China, se a Europa não tiver esta via verde, arriscamos um colapso a um outro nível, o da falta de medicamentos hospitalares.

Em tempo de guerra, este fornecimento tem de ser assegurado e o governo devia já ter reunido com os representantes das companhias farmacêuticas, não por email, mas na Sala de Guerra e nós, os cidadãos devíamos estar informados dos esforços conjuntos, de forma a ficarmos descansados e acreditar que tudo está a ser feito. Mas se alguma coisa correr mal a este nível, eu sei qual vai ser a verdade que abrirá os telejornais – Indústria Farmacêutica não cumpre com os contratos e é responsável pela falta de medicação hospitalar, ao que a esquerda vai apontar o dedo e clamar castigos.    

Na guerra, a verdade é a primeira a morrer?

Li há poucos dias no DN e cito “no filme Uma Questão de Honra, o personagem interpretado pelo Jack Nicholson grita “tu não sabes lidar com a verdade”. Lembrei-me disso ao ouvir alguns apelos para que se diga sempre a verdade sobre a real situação da pandemia. Isto tem uma razão de ser: quem os faz sabe que há uma enorme probabilidade de isso não acontecer. O crescimento do problema trará também acrescidas dificuldades de comunicação e de julgamento sobre o que será melhor ou não dizer às pessoas. Não poucas vezes as autoridades vão confrontar-se com o dilema de dizer a verdade, omitir ou, pura e simplesmente, mentir.

Por muito que custe, dizer sempre a verdade, nestas circunstâncias, pode não ser o melhor para a comunidade. Convém lembrar que até as mais avançadas democracias liberais prevêem a possibilidade de censura em situações-limite.

A questão é: será que os portugueses vão continuar a conseguir lidar com a verdade de uma forma serena?”

Uma coisa é não dizer tudo, outra é omitir, outra é mentir, outra é dizer disparates. Quando tudo isto se liga à falta de liderança e à politiquice de políticos maus, a pandemia será muito complicada de debelar.

Omitam, mintam, disparatem e um dia destes, os confrontos na rua, de quem viu os seus morrer, de quem não tem trabalho, dinheiro e futuro próximo, vão acontecer.

Depois como fica a verdade?

Será aí que vamos para Estado de Sítio e chamamos a tropa?

Escuto o Presidente da Republica, o 1º Ministro, a Directora da DGS, a  Ministra da Saúde e comentadores arregimentados que, que apesar das mortes e do número de infectados aumentar, não falta material onde é preciso, não faltam testes e os testes não devem ser feitos a todos, as máscaras de protecção não são para usar por todos e o malabarismo dos números são apenas confusões momentâneas ou esquecimentos de última hora.

No último domingo assisti a um célebre comentador da noite televisiva, que tem sempre informação privilegiada, dizer com enfase que está tudo a correr bem e que vão já ser feitos 10.000 testes nos lares de idosos, uma excelente medida. Não é mentira, mas o que diz não contribui para a verdade, porque o que ele devia dizer-nos com a sua informação privilegiada, é porque não se fazem a todos os portugueses e porque só agora os lares de idosos.

Não me pergunto de quem vem a informação privilegiada que tem, mas antes porque vem?

E questiono-me se no fim, quando a pandemia acabar e fizermos as contas às consequências, que vão pensar todos os que julgaram importante não dizer a verdade e contribuir para um estado de obnubilação da realidade?

Nesta guerra, ninguém mente?

Nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém. A frase não é minha, mas do PR, a figura mais elevada da nação e o Comandante Supremo das nossas Forças Armadas. Mas recordo uma promessa que ele fez nos incêndios a um velhote que acabou por falecer sem ver a promessa…

Os números do Covid-19 entre mortos, infectados e em teste são verdadeiros? Não, não são porque não há teste para todos, os testes que são pedidos demoram, os números são desconexos de um dia para o outro, os doentes são dados como curados sem fazerem teste de negatividade; e não digo mais sobre os números e a verdade deles.

O Secretario de Estado da Saúde, afirma que “neste momento não haverá ninguém sem médico de família, garantidamente. Mesmo as faixas mais vulneráveis da população, como migrantes ou refugiados, vão ficar abrangidos por esta situação e todos eles terão direito à sua assistência e ao seu médico de família”.

A sério? Andamos anos para resolver este problema e agora fica resolvido? E querem que se acredite? Ou aumentamos a lista de inscritos por médico e os doentes têm médico, mas não têm consulta?

The Day After

A lógica que muitos utilizam para que primeiro devemos combater o vírus e que sobre as eventuais falhas teremos tempo para falar, no tempo certo, é errada e perigosa. Isto significa que podíamos corrigir a tempo, mas que insistimos em deixar estar pessoas a dirigir os destinos da nossa vida.

Quantas mais pessoas precisam de morrer para que a ideia idiota do politicamente correcto caia de vez? Quando a morte bater na porta de um amigo ou familiar, como vai pensar? E se fosse consigo?

Há quem diga agora que a primeira regra é não embirrarmos uns com os outros. A sério? Então devemos aceitar como carneiros acéfalos, todos os disparates que nos dizem?

Havemos de ouvir os ideólogos do regime actual dizer que Portugal fez um excelente trabalho, dar vivas ao SNS, afirmar que as duas senhoras são heroínas, o que já acontece como ouvi na Sic Notícias, que conseguimos números diferentes do resto da Europa e que afinal a estratégia portuguesa foi um sucesso, admirada por todos na Europa. Mas Portugal também é diferente, está longe de tudo, só tem uma fronteira, estamos em época baixa de turismo, …

A verdade que não morre mesmo, é que estamos longe, muito longe do fim da pandemia e nada abona em nosso favor.

Aprendi que este vírus enganou as autoridades de saúde portuguesas, que se regeram por opiniões de quem menosprezou a evidência, a mesma evidência que depois utilizaram para justificar a desconsideração inicial pelo vírus. Perante a declaração de pandemia, continuaram a assobiar para o lado, na doce esperança de que o vírus não nos contagiasse, nem às pessoas nem à economia. Todos ouvimos as recomendações iniciais do Conselho Nacional de Saúde.  Um desastre completo.

A arrogância política de afirmar que “a meio da batalha, não se mudam os generais”, é a mesma arrogância que leva a despedir por telefone na véspera, um comandante com provas dadas, no meio de uma batalha sem precedentes na história da humanidade.  

E não se despede quem devia, quem não preparou o país. É bom que essas pessoas não precisem de receber um telefonema para sair, mas que saiam pelo seu pé, quanto antes.

É bom que todos nos lembremos disso no Day After, na hora de decidirmos o rumo do país.

O Day After vai definir de que matéria somos feitos. É disso que iremos falar.

 (1)

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/em-outubro-de-2019-realizou-se-um-exercicio-de-simulacao-de-um-surto-de-coronavirus-em-nova-iorque?fbclid=IwAR2NRLxegkZs5mm2t3RhJXeQhUbToahjfUxNteN3Lejv_YIEQhUjEp9je90

A propósito do incidente com o avião da Air Astana nos céus de Lisboa, olhando para a acção dos meios de socorro e em particular dos pilotos dos F-16 de Portugal, fiquei a pensar no que esperamos, dos aviões e dos pilotos – todos nas melhores condições, as aeronaves mais modernas e os pilotos, mais bem preparados e melhor treinados.
A propósito do tema, ouvi alguém dizer que não voa em companhias Low Cost e que prefere as companhias aéreas de bandeira…

Mayday, Mayday, Mayday
O que se passou foi muito grave, um avião desgovernado, uma aeronave cujo os pilotos não tinham forma de a controlar, porque os comandos não obedeciam. O perigo espreitou sobre Lisboa e podia ter acontecido uma enorme catástrofe, sem que ninguém a pudesse evitar. Perante o perigo e o Mayday, repetido três vezes, entraram em acção profissionais experientes e treinados, controladores aéreos, militares da Marinha e da Força Aérea e todos os meios de socorro em terra. Num ápice dois F-16 levantaram de Leiria e em 7 minutos estavam sobre Lisboa, tendo como missão ajudar o avião em perigo. Pode-se consultar as notícias, mas de facto os dois caças foram os olhos e o radar de um avião fora de controlo.
Desta vez, não aconteceu nenhuma catástrofe e ao que parece, é de enaltecer a preparação e o profissionalismo de todos, em particular dos pilotos.

Principal elemento de controlo da aeronave – o piloto
A formação de profissionais ligados à aeronáutica, envolve programas certificados e reconhecidos pelas autoridades competentes, tanto nacionais como internacionais, para melhorar de forma contínua, os níveis de segurança. Como exemplo, a norte-americana FAA, Federal Aviation Administration, exige uma certificação que obedece aos mais altos critérios, estabelecidos com a indústria de aviação e com o público.
Os rigorosos programas de formação já prevêem o uso de simuladores e outras novas tecnologias, às quais os pilotos são submetidos regularmente e só podem voar mediante níveis mínimos de aprovação nessas formações.
À medida que aumenta o número de voos, o número de falhas também tende a aumentar e sendo o erro humano actualmente a principal causa de acidentes ou incidentes, os simuladores e legislação associada na formação de pilotos, contribuem para elevar os padrões de segurança na aeronáutica, já por si muito rigorosos.
A ética de trabalho de algumas companhias, aponta para que não basta ter-se o treino apropriado, mas é também necessário estar psicologicamente apto.
Esta problemática leva-nos ao principal elemento de controlo da aeronave – o piloto. Mesmo com os equipamentos mais modernos e com a tecnologia mais avançada, nada substitui a interpretação e a decisão do homem, sobretudo em cenários imprevistos. O erro do piloto tem de facto um impacto maior e mais mediático, do que o de qualquer outro elemento ligado à aviação.

Como se sentiria ao entrar dentro da aeronave?
Imagine que tem de fazer uma viagem urgente e no embarque, fica a saber que o comandante e o seu co-piloto, ambos com mais de 50 anos, têm alcançado os valores mínimos indispensáveis nos simuladores de voo, para além de que o avião, estacionado na placa tem aspecto sujo e descuidado. Será que tem a manutenção em dia?
A tripulação chegou e reparou que cada tripulante caminhava sozinho e cabisbaixo, com um ar triste e preocupado, parecendo-lhes que estavam em Burnout, tal o cansaço expresso nas caras cerradas. Além do mais, chove e troveja no aeroporto de partida e no de chegada.
Ironicamente, lembra-se que leu num artigo, que o erro piloto/meteorologia representa a terceira causa maior na classe de acidentes aéreos.
Como se sente ao entrar dentro do avião? Já não entrava? Teme pela sua vida?

Enfarte: risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país
Já dentro do avião, (afinal entrou), recebeu das mãos de uma hospedeira, agora sorridente, o jornal Público. Nervoso, desfolhou sem ler e na página 10, o título chamou-o à atenção – Enfarte, risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país. (1)

O texto do jornal afirma que, “Os doentes com enfarte agudo do miocárdio que são tratados em hospitais públicos das regiões de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo ou do Algarve têm um maior risco de mortalidade do que os que são assistidos em unidades do Norte do país. Um risco que chega a ser 30% superior quando se comparam os resultados de milhares de pacientes tratados em hospitais do Sul com os que foram assistidos em unidades do Norte, concluiu a investigadora Mariana Lobo num estudo desenvolvido no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) e que integra a sua tese de doutoramento. São resultados que sugerem que os cuidados de saúde prestados a pacientes que sofreram enfartes agudos de miocárdio não são semelhantes em todo o território nacional e que devem agora ser investigados para se perceber o que está na base desta heterogeneidade”.

Como somos tratados nos Cuidados de Saúde Primários?
Pousou o jornal e ficou a pensar que os cuidados secundários em Portugal não são todos iguais, o que constitui um problema grave e complexo. Se o azar lhe batesse à porta e tivesse de embarcar na doença cardiovascular, o que sentia se fosse levado para um hospital da ARS LVT? Que lhe iria acontecer? Faria parte desses 30%?
Decerto que o enfarte, um enorme expoente da doença cardiovascular, está muito relacionado com os hábitos de vida das pessoas e claro, com a forma como são tratados nos Cuidados de Saúde Primários, ex-libris do SNS, tão famosos por serem a porta de entrada no sistema.
Enquanto o seu pensamento deambulava, o pássaro de ferro aterrou com alguns solavancos, por meio de uma chuva copiosa. Finalmente respirou aliviado quando sentiu que o avião se imobilizou na placa, junto à manga.
A caminho do hotel ligou a um amigo Cardiologista de Coimbra, que em resposta às suas questões sobre a notícia do Jornal e a forma como os portugueses estavam a ser tratados nos CSP, lhe disse que enviava um estudo para poder ler.

Um anexo chamado Dysis
O sonar do smartphone indicou-lhe a recepção de um email que trazia um anexo chamado Dysis, (2), nome de um estudo epidemiológico, realizado em 12 países da Europa, incluindo Portugal.
No nosso país foram recrutados 916 doentes, a maioria, 82,4%, provenientes dos Cuidados de Saúde Primários; 66,7%, apresentava risco elevado de desenvolver complicações cardiovasculares e 30% tinha doença cardiovascular pré-existente. Independentemente do risco, verificou-se que a maioria dos doentes, 73,1%, usava uma dose de estatinas de baixa potência.
Nas conclusões pode ler-se num português cauteloso, que mais de metade dos doentes tinham um elevado risco cardiovascular, mas que, apesar desse risco, os médicos prescreveram-lhes estatinas de baixa potência! Referiu ainda que, será fundamental avaliar as verdadeiras razões para a reduzida eficiência do tratamento com estatinas, “no mundo real” da prática clínica diária, sobretudo tendo em consideração que se trata de uma classe de fármacos com elevada eficácia. E em jeito de conselho, outra vez de forma cuidada, concluem que é importante reavaliar as doses dos medicamentos utilizados, reconsiderando a utilização de uma terapêutica mais intensiva e até combinada.
Quem fez o estudo aconselha os médicos a rever a prática clínica, que parece desajustada, considerando fundamental a reavaliação das estratégias terapêuticas que permitem reduzir a morbilidade e a mortalidade da doença cardiovascular.

Como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros
Se há um conselho para os médicos reverem o que sabem sobre a forma como tratam a doença cardiovascular, surge a pergunta óbvia. Na próxima consulta na USF, questiona-se se aquele ou aquela médica, está por dentro do state of the art? Será que periodicamente faz reciclagem de conhecimentos? É avaliado em simuladores? E quem se responsabiliza por isso? O Ministério? A Ordem dos Médicos?
O que é mais importante para si, o piloto do avião ou o seu médico? Dirão alguns que não se pode comparar. Claro que não…
O incidente da Air Astana sobre Lisboa fez-me pensar em segurança e como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros.
As companhias aéreas, trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todos os funcionários sabem disso antes de se candidatarem e não ficam surpresos quando são chamados para trabalhar nos fins de semana ou nos feriados. Já os hospitais, as USF’s ou UCSP, trabalham de forma diferente nos fins de semana. Muitos médicos e outros profissionais trabalham apenas durante a semana. E isto, não é um erro do nosso sistema de saúde?

A comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros?
A Federal Aviation Administration, FAA exige que todas as companhias aéreas dos EUA estudem os incidentes ou acidentes de aviação – não importando qual companhia aérea esteja envolvida, para que todos possam aprender com os aspectos positivos e negativos de cada acidente aéreo. As companhias aéreas devem estar no caminho certo, porque os acidentes aéreos são extremamente raros.
E a comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros? Ou não há erros? Como aprende com os estudos, como o Dysis? E como se põe em prática, os novos conhecimentos? Já se questionou sobre isso?
Só há erro médico nos hospitais e nas cirurgias? E nos CSP? Como é abordada a Doença Crónica, a Doença Cardiovascular? Será que os indicadores de contratualização reflectem o viver dos portugueses?

A ciência do incerto e a arte da probabilidade
O Professor José Fragata em 2014, escreve com o Dr. Luís Martins, o Erro Médico em Medicina, editado pela Almedina. Diz o autor que “O exercício da Medicina, outrora baseado na tradicional relação hipocrática médico-doente, evoluiu para a prestação de cuidados de Saúde exercida por seres humanos, naturalmente falíveis, mas operando hoje no seio de organizações complexas e com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Esta mudança associada à natureza marcadamente incerta da biologia do Homem doente, cria um enorme potencial para a ocorrência de erros. A Medicina Clínica é hoje, mais do que nunca, a “ciência do incerto e a arte da probabilidade” Osler.
O autor afirma que os Erros da Medicina, são a ponte de um enorme iceberg oculto, referindo ainda os conflitos éticos em torno do Erro e ainda, o tratamento jurídico que deverá ser dado ao Erro Médico, na sua distinção fundamental com a negligência.
E tal como as companhias aéreas, “a fiabilidade e a qualidade de uma organização médica residem fundamentalmente no modo como sabe lidar com os seus erros, minimizando as suas consequências e aprendendo a preveni-los.”

Quem queria para piloto?
Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor?
Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?
Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…

José Ribeiro

(1) – https://www.publico.pt/2018/10/08/sociedade/noticia/doentes-com-enfarte-tem-maior-risco-de-morte-se-forem-tratadas-em-hospitais-do-sul-1846497
(2) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21425743

O Infarmed na invicta. Que desastre político…
Há uma enorme lição a retirar deste episódio e de todos os que já aconteceram nesta legislatura. A política é tão traiçoeira como infame, mas não podemos esquecer que não existe política, mas políticos, homens e mulheres que com as suas atitudes e acções determinam o que ela é, através da ética e da moral, se é que estes valores podem ser colocados na maioria dos políticos.
Ouço dizer que o Ministro da Saúde está muito fragilizado com todas as questões e contestações que estão a acontecer no sector. Está?

Acredito que se possa pensar assim e até dar crédito às vozes que no interior do partido socialista querem entregar o Ministro, à Santa Inquisição da fogueira partidária.
Podemos acreditar em quem, para se valorizar e não sair da ribalta, lance ideias de que há grupos de pressão, personalidades que crepitam no purgatório do adultério político e lançam para o inferno da imprensa, “soundbytes” que mantêm essas pessoas, naquele lugar que apenas a falsa importância que acham ter, lhes confere. Mas vamos por partes.

Arrumados que estão os adjectivos
Assisti no dia 19 de Setembro à entrevista que o Prof. Adalberto Campos Fernandes, concedeu ao jornalista Vítor Gonçalves da RTP3. Ouvi várias vozes elogiar o Ministro e criticar o jornalista, dizendo estar mal preparado, que não sabia ler os números publicados, que… Ou seja, implicitamente estavam a dizer que o Ministro esteve bem, mas que o “bem”, foi concedido e originado pela má preparação do jornalista.
O jornalista em questão é um excelente profissional. Estando bem preparado, essas vozes são injustas, não somente para o referido jornalista, mas também para o entrevistado, que tecnicamente é o melhor que já tivemos, um político experiente, com grande poder de comunicação e uma capacidade impar de argumentação.
Arrumados que estão os adjectivos, o que devemos dizer, é que apesar do jornalista ter a lição estudada, toda a estratégia que preparou, foi desmontada pelo Ministro, com um discurso verdadeiro, objectivo e honesto; assumiu os erros, afirmou que nem tudo está bem, desmentiu veementemente os tais “soundbytes da política”, disse que podemos e devemos melhorar, não mentiu e disse que a sua governação é das mais difíceis que já houve, pelo legado do anteriores governos, do PSD e do PS.

O mérito do Ministro não advém do demérito do jornalista
Esta atitude nunca esperada de um político, ainda mais de um Ministro, atirou por terra toda a estratégia do jornalista, não preparado para uma honestidade e franqueza nas respostas.
Desculpem-me todos os que deram os parabéns ao Ministro, ressalvando a não preparação do jornalista. Façam-lhe as honras, mas não desvalorizem o jornalista, que em cada resposta que recebia, perdia a oportunidade de mais 3 perguntas agressivas.
O mérito do Ministro não advém do demérito do jornalista, mas sim do muito que sabe sobre saúde e de fazer política, de forma diferente.
E comparem; comparem com o antigo Ministro Moita de Macedo, como diz um médico jornalista que muito estimo. Campos Fernandes dá o corpo às balas, é ele que fala sempre ou quase sempre; Paulo Macedo enviava o seu fiel Secretário de Estado, Leal da Costa, que apanhou tanto que já não sentia dor política alguma.

A Troika do Ministro da Finanças
Para todos os que criticam os ministros, saibam que invariavelmente, neste ou noutro governo, eles começam sempre em condições lastimáveis. O ministro anterior, começou com um grande buraco financeiro na Saúde e com a Troika; o actual começou com um grande buraco financeiro na Saúde e com a geringonça.
Um tirou as 35 horas, outro teve de as dar; o anterior deu mais dinheiro e quarenta horas aos médicos, o actual resiste a dar as 35 horas sem retirar o valor das 40.
Um teve a Troika como defesa, outro apenas os resultados e exageros da Troika.
Um não teve dinheiro e outro também não tem.
Um desculpou-se com a Troika e até a ultrapassou; e o outro com a Troika do Ministro da Finanças, Mário Centeno.

O 1º ministro deste governo deve…
Espera aí. O actual Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes não se desculpou com o Ministro das Finanças, por não lhe dar dinheiro para a Saúde e até disse que somos todos Centeno, o que lhe valeu um coro de assobios e um catrefada de balas na sua direcção.
Deu o corpo às balas, não mandou o Secretário de Estado falar e defendeu o seu governo como uma equipa, não exigindo dinheiro às finanças e mostrando solidariedade para com o 1º ministro, mesmo até no triste episódio do Infarmed.
O 1º ministro deste governo deve muito ao seu Ministro da Saúde; deve-lhe a coerência e a lealdade; deve-lhe muito pela fidelidade demonstrada neste episódio rocambolesco do Infarmed, pela figura que teve de fazer nas entrevistas e na Assembleia da Republica.
Deve-lhe muito por não bater com a porta e demitir-se, quanto Centeno diz que há má gestão na Saúde e não lhe dá uma lição de política e de sentido de Estado, não originando dessa forma, uma crise governamental.
O 1º ministro deste governo deve muito ao seu Ministro da Saúde, mais até do que possa imaginar. Se um dia lhe vai pagar? Vamos ver qual a sua lealdade para com um dos seus ministros mais importantes.

Já estou a ser destratado
Por esta altura já estou a ser destratado por parecer defender o actual Ministro da Saúde, quando estou apenas a defender a sua postura e integridade política.
Outro qualquer, como muitos de nós, atirava a toalha ao chão e dizia ao colega Centeno, “Não somos todos Centeno. Faz tu melhor pela saúde, esquece a Europa e trata dos portugueses”.
Basta perceber as greves, umas oriundas da zona laranja e outras oriundas da zona vermelha. Mas a vergonha maior é o que se passa com os Enfermeiros, que já não sabem em quem confiar, tal é a guerra entre sindicatos.
O que me faz falar deste Ministro antes que a campanha eleitoral comece de forma mais declarada, é tentar perceber porque aceita, sem claudicar, as balas do PC e do BE, do PSD e do PP, dos próprios que nomeia, com rajadas dos enfermeiros, dos médicos e de todos os que trabalham no sector?
É o tacho, dirão uns, o dinheiro, dirão outros, os interesses dos privados, ainda outros…
A sério?
Será a história a fazer justiça à sua governação e daqui a um ano faremos as contas da saúde em Portugal, antes e depois do seu Ministério.
O ano de 2019, vem com eleições e um novo orçamento de Estado. É bom saber para onde vai o dinheiro do próximo OGE e o que propõem os partidos para a Saúde dos portugueses. Para já, o que já ouvimos e vimos de alguns partidos não parece nada promissor.

Os médicos são funcionários públicos de terceira
A greve dos professores passava nas noticias, numa televisão durante a pausa para café, de um workshop onde participava com vários médicos. Com um café na mão, a conversa foi parar aos professores, “esses privilegiados” e ao Ministro da Saúde. As balas sibilavam…
“Nós os médicos somos funcionários públicos de terceira e o Ministro nada faz. Trabalhamos 40 horas enquanto os professores, esses privilegiados, trabalham 35 horas e nesse horário incluem o tempo para preparar aulas, avaliar cada vez menos alunos, porque diminuem os alunos por turma…
Eu como médica hospitalar trabalho mais de 50 horas por semana e quando chega a hora de sair do hospital, se ainda houver doentes não saio, porque não deixo de os consultar. Mas a maior parte das vezes, não posso ver os doentes porque a funcionária administrativa diz-me, “Doutora já está na hora, tenho de sair”, com ainda meia dúzia de doentes na sala.
Fico com um olhar perdido, sem saber o que fazer. E pergunto-me, porque é que sou médica? O que faz o meu Ministro que é medico e já foi administrador hospitalar?”

A disparar para a pessoa errada
O som contínuo das balas a serem disparadas era ensurdecedor, mas o silêncio acabou por cair, não por que quisessem, mas porque tinham de mudar os carregadores.
Foi então que um médico internista, na casa dos 50 e muitos, de cabelo curto e barba branca aparada, disparou com a voz calma.
– Estão a disparar para a pessoa errada. A culpa não é do Ministro da Saúde.
Vocês tropeçam todos os dias na incompetência, em colegas e outros técnicos de saúde que não sabem o que fazem e não fazem o que devem.
Como vocês sabem, ninguém lhes diz nada, não são substituídos nem despedidos. Podiam dar o lugar a quem quer trabalhar em prol da saúde e do doente. Colegas, é o privilégio de ser funcionário público, sindicalizado em sindicatos dominados pela esquerda.
Vejam a moça do Bloco, a Catarina Martins, que avisa somente aprovar o Orçamento de Estado, quando contarem o tempo de serviço dos professores, congelado ao longo de nove anos. Porque é que só fala dos Professores? Então os médicos e os enfermeiros não contam?
É sobre estes políticos que devem metaforicamente disparar, porque querem dominar o país através dos sindicatos e do interesse de partidos minoritários e totalitaristas.

Reforma profunda no aparelho do Estado
Precisamos de uma reforma profunda no aparelho do Estado e começar a avaliar os funcionários públicos, os professores, médicos, enfermeiros, técnicos e todos os outros. Mas uma avaliação séria, feita, por entidades independentes e não somente pelos colegas, alunos ou até utentes. Não cumprem à primeira? Ser-lhe-á dado uma segunda oportunidade e quem não evoluir, é despedido e dá lugar a quem quer trabalhar.
O modelo de organização e financiamento do SNS está morto. Não vai haver mais dinheiro no futuro, pelo que devemos optimizar os recursos humanos e eliminar o desperdício gerado por este modelo organizacional. Se não o fizermos, o SNS implode e a saúde vai piorar, porque todos vão querer mais e melhor, mesmo quando não vai haver dinheiro para a pagar.
– Mas como é que tu fazes isso? perguntou uma colega mais nova.

O SNS, já não resiste a comportamentos do passado
Com o que ninguém quer ouvir, através de um Bloco Central, livre da esquerda comunista e bloquista, que com os seus objectivos sindicalistas, travam a comparação, a avaliação e a evolução. O SNS, já não resiste a comportamentos do passado.
– Isso nunca vai acontecer em Portugal. Todos querem ser poder.
Vêm aí eleições. Querem uma nova geringonça? Olhem para o país e para os partidos que temos, para além do PS, do PC e do BE. O que é o PP? E onde vai parar o PSD?
A ferida no SNS é profunda e todos sabemos bem que cada onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Precisamos de estabilidade, de mostrar aos portugueses, maioritariamente uma população idosa, que vamos construir um programa de Saúde que dure pelo menos duas legislaturas e que terá um orçamento plurianual, para suprir as necessidades mais imediatas e ir fazendo face ao necessário.
Quatro anos não é suficiente para reconstruir o SNS que queremos, que precisamos, universal e gratuito, com regras bem estabelecidas e a funcionar 24 horas por dia, onde eliminaremos o desperdício de recursos humanos, de MCDT e medicamentos, de dispositivos médicos e de tantos outros custos financeiros e desperdício, que deitam abaixo a sustentabilidade do SNS.
– Isso é uma utopia.
Utopia? Utópico é pensar que assim sobreviveremos e que todos os portugueses terão acesso aos cuidados de saúde que precisam.
Porquê insistir num modelo de governação e de politica de saúde que nos conduziu ao estado onde nos encontramos? É impossível progredir sem mudança e aqueles que não mudam o seu pensar, não conseguem inovar, evoluir ou mudar o que quer que seja.

Inovar no SNS
O futuro não pode ser mais adiado. Inovar no SNS é construir um acordo sectorial na saúde, entre os partidos que mais portugueses representam; depois com muita coragem, começar e finalizar uma reforma e uma renovação profunda na função pública.
Porque não começou a reforma hospitalar? Por falta de dinheiro ou por questões ideológicas da geringonça? E uma reforma séria nos Cuidados de Saúde Primários? Pelas mesmas razões?
Mas quem pode gerir uma coligação destas na Saúde? Com o incansável Prof. Marcelo, como moderador?
Quem tem a experiência de aguentar com as diatribes de uma geringonça, levar com as balas de todos os quadrantes e mesmo assim, mostrar uma lealdade ímpar para com o Governo da Republica?

Espero que não vá embora do país…
Um dia, no famoso contexto diabólico, Passos Coelho afirmou “Ah, com certeza passaria a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Se pudéssemos todos, sem dinheiro, devolver salários, pensões, impostos e no fim as contas batessem todas certo, isso seria fantástico.”
“Afinal, o anterior líder do PSD prometeu votar em qualquer um destes partidos se um conjunto de pressupostos se cumprissem. Cumpriram-se. Agora só falta saber onde é que Passos Coelho vai pôr a cruzinha: se no PS, no BE ou na CDU.” (1)
Não estou de acordo com Passos Coelho, porque nunca votaria no PS, no Bloco ou no PC. Mas votaria em pessoas e se o actual ministro integrar o elenco da saúde, vou ter mesmo de pensar muito bem.
Quanto a este Ministro, espero que não vá embora do país…

(1) https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/porque-e-que-passos-coelho-vai-ter-votar-no-ps-nas-proximas-eleicoes-5766303.html

O BCP quer dominar o SNS.
Não é para admirar, uma vez que o sector da Saúde é um dos mais importantes em Portugal, para onde todos os interesses políticos e económicos convergem. O ano de 2019 aproxima-se e os vários actos eleitorais que nele vão ter lugar, obrigam a consumar o assalto a este sector, iniciado já há muito tempo. Aproxima-se uma batalha sem tréguas, porque na luta pelos votos, vale tudo.
Este é na actualidade, o sector mais importante e o BCP sabe isso muito bem.

Os tempos mudam, mas há coisas que parecem não mudar. Estou farto da discussão de ter ou não médico de família, de quantos utentes cada médico deve ter e de estar meses à espera de uma consulta da clínica geral ou de outra especialidade.
Que acesso à saúde queremos? Vivemos em que século? Afinal de contas a tecnologia é apenas uma coisa para colocar nos planos que se fazem que nem servem para inglês ver ou podemos efectivamente ajudar as pessoas com o melhor da tecnologia?
Por mim, começava por acabar com as USF’s e com Médicos de Família, de uma vez por todas.

Camisola às riscas vermelhas e brancas, gorro com as mesmas cores, calças azuis, bengala e óculos redondos. Não estou a falar de nenhum adepto de uma equipa de futebol, nem do equipamento dum praticante de ski, mas sim de um personagem bem conhecido de uma série de livros de banda desenhada, que proporciona aos leitores o desafio de procurar o “Wally” no meio de desenhos multicoloridos e com muitas semelhanças entre os vários personagens, dificultando assim o objectivo de encontrá-lo.

Ao procurar o “Wally” não consigo deixar de pensar que o “Wally” representa um qualquer cidadão que todos dizem dever estar no centro do sistema. Mas nos livros, “Wally” raramente está no centro, confundindo-se com os demais e encontrando-se bem escondido algures descentrado no desenho.

E o cidadão? Está no centro do sistema ou, à semelhança do “Wally”, também está encoberto pelos outros e afastado do centro?

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