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Política de Saúde

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A propósito do incidente com o avião da Air Astana nos céus de Lisboa, olhando para a acção dos meios de socorro e em particular dos pilotos dos F-16 de Portugal, fiquei a pensar no que esperamos, dos aviões e dos pilotos – todos nas melhores condições, as aeronaves mais modernas e os pilotos, mais bem preparados e melhor treinados.
A propósito do tema, ouvi alguém dizer que não voa em companhias Low Cost e que prefere as companhias aéreas de bandeira…

Mayday, Mayday, Mayday
O que se passou foi muito grave, um avião desgovernado, uma aeronave cujo os pilotos não tinham forma de a controlar, porque os comandos não obedeciam. O perigo espreitou sobre Lisboa e podia ter acontecido uma enorme catástrofe, sem que ninguém a pudesse evitar. Perante o perigo e o Mayday, repetido três vezes, entraram em acção profissionais experientes e treinados, controladores aéreos, militares da Marinha e da Força Aérea e todos os meios de socorro em terra. Num ápice dois F-16 levantaram de Leiria e em 7 minutos estavam sobre Lisboa, tendo como missão ajudar o avião em perigo. Pode-se consultar as notícias, mas de facto os dois caças foram os olhos e o radar de um avião fora de controlo.
Desta vez, não aconteceu nenhuma catástrofe e ao que parece, é de enaltecer a preparação e o profissionalismo de todos, em particular dos pilotos.

Principal elemento de controlo da aeronave – o piloto
A formação de profissionais ligados à aeronáutica, envolve programas certificados e reconhecidos pelas autoridades competentes, tanto nacionais como internacionais, para melhorar de forma contínua, os níveis de segurança. Como exemplo, a norte-americana FAA, Federal Aviation Administration, exige uma certificação que obedece aos mais altos critérios, estabelecidos com a indústria de aviação e com o público.
Os rigorosos programas de formação já prevêem o uso de simuladores e outras novas tecnologias, às quais os pilotos são submetidos regularmente e só podem voar mediante níveis mínimos de aprovação nessas formações.
À medida que aumenta o número de voos, o número de falhas também tende a aumentar e sendo o erro humano actualmente a principal causa de acidentes ou incidentes, os simuladores e legislação associada na formação de pilotos, contribuem para elevar os padrões de segurança na aeronáutica, já por si muito rigorosos.
A ética de trabalho de algumas companhias, aponta para que não basta ter-se o treino apropriado, mas é também necessário estar psicologicamente apto.
Esta problemática leva-nos ao principal elemento de controlo da aeronave – o piloto. Mesmo com os equipamentos mais modernos e com a tecnologia mais avançada, nada substitui a interpretação e a decisão do homem, sobretudo em cenários imprevistos. O erro do piloto tem de facto um impacto maior e mais mediático, do que o de qualquer outro elemento ligado à aviação.

Como se sentiria ao entrar dentro da aeronave?
Imagine que tem de fazer uma viagem urgente e no embarque, fica a saber que o comandante e o seu co-piloto, ambos com mais de 50 anos, têm alcançado os valores mínimos indispensáveis nos simuladores de voo, para além de que o avião, estacionado na placa tem aspecto sujo e descuidado. Será que tem a manutenção em dia?
A tripulação chegou e reparou que cada tripulante caminhava sozinho e cabisbaixo, com um ar triste e preocupado, parecendo-lhes que estavam em Burnout, tal o cansaço expresso nas caras cerradas. Além do mais, chove e troveja no aeroporto de partida e no de chegada.
Ironicamente, lembra-se que leu num artigo, que o erro piloto/meteorologia representa a terceira causa maior na classe de acidentes aéreos.
Como se sente ao entrar dentro do avião? Já não entrava? Teme pela sua vida?

Enfarte: risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país
Já dentro do avião, (afinal entrou), recebeu das mãos de uma hospedeira, agora sorridente, o jornal Público. Nervoso, desfolhou sem ler e na página 10, o título chamou-o à atenção – Enfarte, risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país. (1)

O texto do jornal afirma que, “Os doentes com enfarte agudo do miocárdio que são tratados em hospitais públicos das regiões de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo ou do Algarve têm um maior risco de mortalidade do que os que são assistidos em unidades do Norte do país. Um risco que chega a ser 30% superior quando se comparam os resultados de milhares de pacientes tratados em hospitais do Sul com os que foram assistidos em unidades do Norte, concluiu a investigadora Mariana Lobo num estudo desenvolvido no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) e que integra a sua tese de doutoramento. São resultados que sugerem que os cuidados de saúde prestados a pacientes que sofreram enfartes agudos de miocárdio não são semelhantes em todo o território nacional e que devem agora ser investigados para se perceber o que está na base desta heterogeneidade”.

Como somos tratados nos Cuidados de Saúde Primários?
Pousou o jornal e ficou a pensar que os cuidados secundários em Portugal não são todos iguais, o que constitui um problema grave e complexo. Se o azar lhe batesse à porta e tivesse de embarcar na doença cardiovascular, o que sentia se fosse levado para um hospital da ARS LVT? Que lhe iria acontecer? Faria parte desses 30%?
Decerto que o enfarte, um enorme expoente da doença cardiovascular, está muito relacionado com os hábitos de vida das pessoas e claro, com a forma como são tratados nos Cuidados de Saúde Primários, ex-libris do SNS, tão famosos por serem a porta de entrada no sistema.
Enquanto o seu pensamento deambulava, o pássaro de ferro aterrou com alguns solavancos, por meio de uma chuva copiosa. Finalmente respirou aliviado quando sentiu que o avião se imobilizou na placa, junto à manga.
A caminho do hotel ligou a um amigo Cardiologista de Coimbra, que em resposta às suas questões sobre a notícia do Jornal e a forma como os portugueses estavam a ser tratados nos CSP, lhe disse que enviava um estudo para poder ler.

Um anexo chamado Dysis
O sonar do smartphone indicou-lhe a recepção de um email que trazia um anexo chamado Dysis, (2), nome de um estudo epidemiológico, realizado em 12 países da Europa, incluindo Portugal.
No nosso país foram recrutados 916 doentes, a maioria, 82,4%, provenientes dos Cuidados de Saúde Primários; 66,7%, apresentava risco elevado de desenvolver complicações cardiovasculares e 30% tinha doença cardiovascular pré-existente. Independentemente do risco, verificou-se que a maioria dos doentes, 73,1%, usava uma dose de estatinas de baixa potência.
Nas conclusões pode ler-se num português cauteloso, que mais de metade dos doentes tinham um elevado risco cardiovascular, mas que, apesar desse risco, os médicos prescreveram-lhes estatinas de baixa potência! Referiu ainda que, será fundamental avaliar as verdadeiras razões para a reduzida eficiência do tratamento com estatinas, “no mundo real” da prática clínica diária, sobretudo tendo em consideração que se trata de uma classe de fármacos com elevada eficácia. E em jeito de conselho, outra vez de forma cuidada, concluem que é importante reavaliar as doses dos medicamentos utilizados, reconsiderando a utilização de uma terapêutica mais intensiva e até combinada.
Quem fez o estudo aconselha os médicos a rever a prática clínica, que parece desajustada, considerando fundamental a reavaliação das estratégias terapêuticas que permitem reduzir a morbilidade e a mortalidade da doença cardiovascular.

Como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros
Se há um conselho para os médicos reverem o que sabem sobre a forma como tratam a doença cardiovascular, surge a pergunta óbvia. Na próxima consulta na USF, questiona-se se aquele ou aquela médica, está por dentro do state of the art? Será que periodicamente faz reciclagem de conhecimentos? É avaliado em simuladores? E quem se responsabiliza por isso? O Ministério? A Ordem dos Médicos?
O que é mais importante para si, o piloto do avião ou o seu médico? Dirão alguns que não se pode comparar. Claro que não…
O incidente da Air Astana sobre Lisboa fez-me pensar em segurança e como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros.
As companhias aéreas, trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todos os funcionários sabem disso antes de se candidatarem e não ficam surpresos quando são chamados para trabalhar nos fins de semana ou nos feriados. Já os hospitais, as USF’s ou UCSP, trabalham de forma diferente nos fins de semana. Muitos médicos e outros profissionais trabalham apenas durante a semana. E isto, não é um erro do nosso sistema de saúde?

A comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros?
A Federal Aviation Administration, FAA exige que todas as companhias aéreas dos EUA estudem os incidentes ou acidentes de aviação – não importando qual companhia aérea esteja envolvida, para que todos possam aprender com os aspectos positivos e negativos de cada acidente aéreo. As companhias aéreas devem estar no caminho certo, porque os acidentes aéreos são extremamente raros.
E a comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros? Ou não há erros? Como aprende com os estudos, como o Dysis? E como se põe em prática, os novos conhecimentos? Já se questionou sobre isso?
Só há erro médico nos hospitais e nas cirurgias? E nos CSP? Como é abordada a Doença Crónica, a Doença Cardiovascular? Será que os indicadores de contratualização reflectem o viver dos portugueses?

A ciência do incerto e a arte da probabilidade
O Professor José Fragata em 2014, escreve com o Dr. Luís Martins, o Erro Médico em Medicina, editado pela Almedina. Diz o autor que “O exercício da Medicina, outrora baseado na tradicional relação hipocrática médico-doente, evoluiu para a prestação de cuidados de Saúde exercida por seres humanos, naturalmente falíveis, mas operando hoje no seio de organizações complexas e com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Esta mudança associada à natureza marcadamente incerta da biologia do Homem doente, cria um enorme potencial para a ocorrência de erros. A Medicina Clínica é hoje, mais do que nunca, a “ciência do incerto e a arte da probabilidade” Osler.
O autor afirma que os Erros da Medicina, são a ponte de um enorme iceberg oculto, referindo ainda os conflitos éticos em torno do Erro e ainda, o tratamento jurídico que deverá ser dado ao Erro Médico, na sua distinção fundamental com a negligência.
E tal como as companhias aéreas, “a fiabilidade e a qualidade de uma organização médica residem fundamentalmente no modo como sabe lidar com os seus erros, minimizando as suas consequências e aprendendo a preveni-los.”

Quem queria para piloto?
Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor?
Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?
Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…

José Ribeiro

(1) – https://www.publico.pt/2018/10/08/sociedade/noticia/doentes-com-enfarte-tem-maior-risco-de-morte-se-forem-tratadas-em-hospitais-do-sul-1846497
(2) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21425743

O Infarmed na invicta. Que desastre político…
Há uma enorme lição a retirar deste episódio e de todos os que já aconteceram nesta legislatura. A política é tão traiçoeira como infame, mas não podemos esquecer que não existe política, mas políticos, homens e mulheres que com as suas atitudes e acções determinam o que ela é, através da ética e da moral, se é que estes valores podem ser colocados na maioria dos políticos.
Ouço dizer que o Ministro da Saúde está muito fragilizado com todas as questões e contestações que estão a acontecer no sector. Está?

Acredito que se possa pensar assim e até dar crédito às vozes que no interior do partido socialista querem entregar o Ministro, à Santa Inquisição da fogueira partidária.
Podemos acreditar em quem, para se valorizar e não sair da ribalta, lance ideias de que há grupos de pressão, personalidades que crepitam no purgatório do adultério político e lançam para o inferno da imprensa, “soundbytes” que mantêm essas pessoas, naquele lugar que apenas a falsa importância que acham ter, lhes confere. Mas vamos por partes.

Arrumados que estão os adjectivos
Assisti no dia 19 de Setembro à entrevista que o Prof. Adalberto Campos Fernandes, concedeu ao jornalista Vítor Gonçalves da RTP3. Ouvi várias vozes elogiar o Ministro e criticar o jornalista, dizendo estar mal preparado, que não sabia ler os números publicados, que… Ou seja, implicitamente estavam a dizer que o Ministro esteve bem, mas que o “bem”, foi concedido e originado pela má preparação do jornalista.
O jornalista em questão é um excelente profissional. Estando bem preparado, essas vozes são injustas, não somente para o referido jornalista, mas também para o entrevistado, que tecnicamente é o melhor que já tivemos, um político experiente, com grande poder de comunicação e uma capacidade impar de argumentação.
Arrumados que estão os adjectivos, o que devemos dizer, é que apesar do jornalista ter a lição estudada, toda a estratégia que preparou, foi desmontada pelo Ministro, com um discurso verdadeiro, objectivo e honesto; assumiu os erros, afirmou que nem tudo está bem, desmentiu veementemente os tais “soundbytes da política”, disse que podemos e devemos melhorar, não mentiu e disse que a sua governação é das mais difíceis que já houve, pelo legado do anteriores governos, do PSD e do PS.

O mérito do Ministro não advém do demérito do jornalista
Esta atitude nunca esperada de um político, ainda mais de um Ministro, atirou por terra toda a estratégia do jornalista, não preparado para uma honestidade e franqueza nas respostas.
Desculpem-me todos os que deram os parabéns ao Ministro, ressalvando a não preparação do jornalista. Façam-lhe as honras, mas não desvalorizem o jornalista, que em cada resposta que recebia, perdia a oportunidade de mais 3 perguntas agressivas.
O mérito do Ministro não advém do demérito do jornalista, mas sim do muito que sabe sobre saúde e de fazer política, de forma diferente.
E comparem; comparem com o antigo Ministro Moita de Macedo, como diz um médico jornalista que muito estimo. Campos Fernandes dá o corpo às balas, é ele que fala sempre ou quase sempre; Paulo Macedo enviava o seu fiel Secretário de Estado, Leal da Costa, que apanhou tanto que já não sentia dor política alguma.

A Troika do Ministro da Finanças
Para todos os que criticam os ministros, saibam que invariavelmente, neste ou noutro governo, eles começam sempre em condições lastimáveis. O ministro anterior, começou com um grande buraco financeiro na Saúde e com a Troika; o actual começou com um grande buraco financeiro na Saúde e com a geringonça.
Um tirou as 35 horas, outro teve de as dar; o anterior deu mais dinheiro e quarenta horas aos médicos, o actual resiste a dar as 35 horas sem retirar o valor das 40.
Um teve a Troika como defesa, outro apenas os resultados e exageros da Troika.
Um não teve dinheiro e outro também não tem.
Um desculpou-se com a Troika e até a ultrapassou; e o outro com a Troika do Ministro da Finanças, Mário Centeno.

O 1º ministro deste governo deve…
Espera aí. O actual Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes não se desculpou com o Ministro das Finanças, por não lhe dar dinheiro para a Saúde e até disse que somos todos Centeno, o que lhe valeu um coro de assobios e um catrefada de balas na sua direcção.
Deu o corpo às balas, não mandou o Secretário de Estado falar e defendeu o seu governo como uma equipa, não exigindo dinheiro às finanças e mostrando solidariedade para com o 1º ministro, mesmo até no triste episódio do Infarmed.
O 1º ministro deste governo deve muito ao seu Ministro da Saúde; deve-lhe a coerência e a lealdade; deve-lhe muito pela fidelidade demonstrada neste episódio rocambolesco do Infarmed, pela figura que teve de fazer nas entrevistas e na Assembleia da Republica.
Deve-lhe muito por não bater com a porta e demitir-se, quanto Centeno diz que há má gestão na Saúde e não lhe dá uma lição de política e de sentido de Estado, não originando dessa forma, uma crise governamental.
O 1º ministro deste governo deve muito ao seu Ministro da Saúde, mais até do que possa imaginar. Se um dia lhe vai pagar? Vamos ver qual a sua lealdade para com um dos seus ministros mais importantes.

Já estou a ser destratado
Por esta altura já estou a ser destratado por parecer defender o actual Ministro da Saúde, quando estou apenas a defender a sua postura e integridade política.
Outro qualquer, como muitos de nós, atirava a toalha ao chão e dizia ao colega Centeno, “Não somos todos Centeno. Faz tu melhor pela saúde, esquece a Europa e trata dos portugueses”.
Basta perceber as greves, umas oriundas da zona laranja e outras oriundas da zona vermelha. Mas a vergonha maior é o que se passa com os Enfermeiros, que já não sabem em quem confiar, tal é a guerra entre sindicatos.
O que me faz falar deste Ministro antes que a campanha eleitoral comece de forma mais declarada, é tentar perceber porque aceita, sem claudicar, as balas do PC e do BE, do PSD e do PP, dos próprios que nomeia, com rajadas dos enfermeiros, dos médicos e de todos os que trabalham no sector?
É o tacho, dirão uns, o dinheiro, dirão outros, os interesses dos privados, ainda outros…
A sério?
Será a história a fazer justiça à sua governação e daqui a um ano faremos as contas da saúde em Portugal, antes e depois do seu Ministério.
O ano de 2019, vem com eleições e um novo orçamento de Estado. É bom saber para onde vai o dinheiro do próximo OGE e o que propõem os partidos para a Saúde dos portugueses. Para já, o que já ouvimos e vimos de alguns partidos não parece nada promissor.

Os médicos são funcionários públicos de terceira
A greve dos professores passava nas noticias, numa televisão durante a pausa para café, de um workshop onde participava com vários médicos. Com um café na mão, a conversa foi parar aos professores, “esses privilegiados” e ao Ministro da Saúde. As balas sibilavam…
“Nós os médicos somos funcionários públicos de terceira e o Ministro nada faz. Trabalhamos 40 horas enquanto os professores, esses privilegiados, trabalham 35 horas e nesse horário incluem o tempo para preparar aulas, avaliar cada vez menos alunos, porque diminuem os alunos por turma…
Eu como médica hospitalar trabalho mais de 50 horas por semana e quando chega a hora de sair do hospital, se ainda houver doentes não saio, porque não deixo de os consultar. Mas a maior parte das vezes, não posso ver os doentes porque a funcionária administrativa diz-me, “Doutora já está na hora, tenho de sair”, com ainda meia dúzia de doentes na sala.
Fico com um olhar perdido, sem saber o que fazer. E pergunto-me, porque é que sou médica? O que faz o meu Ministro que é medico e já foi administrador hospitalar?”

A disparar para a pessoa errada
O som contínuo das balas a serem disparadas era ensurdecedor, mas o silêncio acabou por cair, não por que quisessem, mas porque tinham de mudar os carregadores.
Foi então que um médico internista, na casa dos 50 e muitos, de cabelo curto e barba branca aparada, disparou com a voz calma.
– Estão a disparar para a pessoa errada. A culpa não é do Ministro da Saúde.
Vocês tropeçam todos os dias na incompetência, em colegas e outros técnicos de saúde que não sabem o que fazem e não fazem o que devem.
Como vocês sabem, ninguém lhes diz nada, não são substituídos nem despedidos. Podiam dar o lugar a quem quer trabalhar em prol da saúde e do doente. Colegas, é o privilégio de ser funcionário público, sindicalizado em sindicatos dominados pela esquerda.
Vejam a moça do Bloco, a Catarina Martins, que avisa somente aprovar o Orçamento de Estado, quando contarem o tempo de serviço dos professores, congelado ao longo de nove anos. Porque é que só fala dos Professores? Então os médicos e os enfermeiros não contam?
É sobre estes políticos que devem metaforicamente disparar, porque querem dominar o país através dos sindicatos e do interesse de partidos minoritários e totalitaristas.

Reforma profunda no aparelho do Estado
Precisamos de uma reforma profunda no aparelho do Estado e começar a avaliar os funcionários públicos, os professores, médicos, enfermeiros, técnicos e todos os outros. Mas uma avaliação séria, feita, por entidades independentes e não somente pelos colegas, alunos ou até utentes. Não cumprem à primeira? Ser-lhe-á dado uma segunda oportunidade e quem não evoluir, é despedido e dá lugar a quem quer trabalhar.
O modelo de organização e financiamento do SNS está morto. Não vai haver mais dinheiro no futuro, pelo que devemos optimizar os recursos humanos e eliminar o desperdício gerado por este modelo organizacional. Se não o fizermos, o SNS implode e a saúde vai piorar, porque todos vão querer mais e melhor, mesmo quando não vai haver dinheiro para a pagar.
– Mas como é que tu fazes isso? perguntou uma colega mais nova.

O SNS, já não resiste a comportamentos do passado
Com o que ninguém quer ouvir, através de um Bloco Central, livre da esquerda comunista e bloquista, que com os seus objectivos sindicalistas, travam a comparação, a avaliação e a evolução. O SNS, já não resiste a comportamentos do passado.
– Isso nunca vai acontecer em Portugal. Todos querem ser poder.
Vêm aí eleições. Querem uma nova geringonça? Olhem para o país e para os partidos que temos, para além do PS, do PC e do BE. O que é o PP? E onde vai parar o PSD?
A ferida no SNS é profunda e todos sabemos bem que cada onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Precisamos de estabilidade, de mostrar aos portugueses, maioritariamente uma população idosa, que vamos construir um programa de Saúde que dure pelo menos duas legislaturas e que terá um orçamento plurianual, para suprir as necessidades mais imediatas e ir fazendo face ao necessário.
Quatro anos não é suficiente para reconstruir o SNS que queremos, que precisamos, universal e gratuito, com regras bem estabelecidas e a funcionar 24 horas por dia, onde eliminaremos o desperdício de recursos humanos, de MCDT e medicamentos, de dispositivos médicos e de tantos outros custos financeiros e desperdício, que deitam abaixo a sustentabilidade do SNS.
– Isso é uma utopia.
Utopia? Utópico é pensar que assim sobreviveremos e que todos os portugueses terão acesso aos cuidados de saúde que precisam.
Porquê insistir num modelo de governação e de politica de saúde que nos conduziu ao estado onde nos encontramos? É impossível progredir sem mudança e aqueles que não mudam o seu pensar, não conseguem inovar, evoluir ou mudar o que quer que seja.

Inovar no SNS
O futuro não pode ser mais adiado. Inovar no SNS é construir um acordo sectorial na saúde, entre os partidos que mais portugueses representam; depois com muita coragem, começar e finalizar uma reforma e uma renovação profunda na função pública.
Porque não começou a reforma hospitalar? Por falta de dinheiro ou por questões ideológicas da geringonça? E uma reforma séria nos Cuidados de Saúde Primários? Pelas mesmas razões?
Mas quem pode gerir uma coligação destas na Saúde? Com o incansável Prof. Marcelo, como moderador?
Quem tem a experiência de aguentar com as diatribes de uma geringonça, levar com as balas de todos os quadrantes e mesmo assim, mostrar uma lealdade ímpar para com o Governo da Republica?

Espero que não vá embora do país…
Um dia, no famoso contexto diabólico, Passos Coelho afirmou “Ah, com certeza passaria a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Se pudéssemos todos, sem dinheiro, devolver salários, pensões, impostos e no fim as contas batessem todas certo, isso seria fantástico.”
“Afinal, o anterior líder do PSD prometeu votar em qualquer um destes partidos se um conjunto de pressupostos se cumprissem. Cumpriram-se. Agora só falta saber onde é que Passos Coelho vai pôr a cruzinha: se no PS, no BE ou na CDU.” (1)
Não estou de acordo com Passos Coelho, porque nunca votaria no PS, no Bloco ou no PC. Mas votaria em pessoas e se o actual ministro integrar o elenco da saúde, vou ter mesmo de pensar muito bem.
Quanto a este Ministro, espero que não vá embora do país…

(1) https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/porque-e-que-passos-coelho-vai-ter-votar-no-ps-nas-proximas-eleicoes-5766303.html

O BCP quer dominar o SNS.
Não é para admirar, uma vez que o sector da Saúde é um dos mais importantes em Portugal, para onde todos os interesses políticos e económicos convergem. O ano de 2019 aproxima-se e os vários actos eleitorais que nele vão ter lugar, obrigam a consumar o assalto a este sector, iniciado já há muito tempo. Aproxima-se uma batalha sem tréguas, porque na luta pelos votos, vale tudo.
Este é na actualidade, o sector mais importante e o BCP sabe isso muito bem.

Os tempos mudam, mas há coisas que parecem não mudar. Estou farto da discussão de ter ou não médico de família, de quantos utentes cada médico deve ter e de estar meses à espera de uma consulta da clínica geral ou de outra especialidade.
Que acesso à saúde queremos? Vivemos em que século? Afinal de contas a tecnologia é apenas uma coisa para colocar nos planos que se fazem que nem servem para inglês ver ou podemos efectivamente ajudar as pessoas com o melhor da tecnologia?
Por mim, começava por acabar com as USF’s e com Médicos de Família, de uma vez por todas.

Camisola às riscas vermelhas e brancas, gorro com as mesmas cores, calças azuis, bengala e óculos redondos. Não estou a falar de nenhum adepto de uma equipa de futebol, nem do equipamento dum praticante de ski, mas sim de um personagem bem conhecido de uma série de livros de banda desenhada, que proporciona aos leitores o desafio de procurar o “Wally” no meio de desenhos multicoloridos e com muitas semelhanças entre os vários personagens, dificultando assim o objectivo de encontrá-lo.

Ao procurar o “Wally” não consigo deixar de pensar que o “Wally” representa um qualquer cidadão que todos dizem dever estar no centro do sistema. Mas nos livros, “Wally” raramente está no centro, confundindo-se com os demais e encontrando-se bem escondido algures descentrado no desenho.

E o cidadão? Está no centro do sistema ou, à semelhança do “Wally”, também está encoberto pelos outros e afastado do centro?

Sente-se para ler. Não se começa a falar de Política de Saúde apenas em 5 minutos.

Há 43 anos atrás, na noite do 25 de Abril, não sei se o Capitão Salgueiro Maia dormiu. Esta noite não dormi. Escrevi sobre Política de Saúde, em sua homenagem.
A década de 70 estava a terminar e Portugal fervilhava no cadinho da liberdade. No liceu D. Dinis, em Lisboa, célebre pelas reuniões gerais de alunos e cenas de pancadaria entre a direita e esquerda, havia uma disciplina de Introdução à Política. Nela definiu-se “Política, como a arte de enganar os homens”. Nunca mais me esqueci.
Será que a Política de Saúde é a arte de enganar os doentes?

É usual dizer-se que um Hospital é como um Porta-Aviões. E sou quase levado a concordar com esta afirmação. Mas quando penso melhor, a única coisa comparável é a grandeza, quer em dimensão quer em recursos humanos – o maior barco na frota naval e o maior centro de cuidados num sistema de saúde. Depois, um Hospital é tão diferente de um Porta-Aviões. Mas, reside na nossa cabeça o sonho de queremos que o hospital fosse um porta aviões. Será mesmo assim?

Acredito que poucos vão ler este artigo, porque o título não é nada sexy. Falo de medição dos cuidados de saúde baseada em valor, um tema fundamental para quem está no mercado da saúde ou presta cuidados de saúde.
O futuro aconteceu, em dois dias de chuva, ali para os lados da Nova Business School em Lisboa. Cerca de 500 pessoas que ouviram ideias e experiências sobre cuidados de saúde baseados em valor. Fantástico.
Mas não será uma quimera em Portugal?

Um «risco» real resultante de uma boa intenção

A propósito da tomada de posse do novo bastonário da Ordem dos Médicos e do conteúdo do seu discurso de abertura, José Antunes, Director do Jornal Tempo Medicina, solicitou-me a publicação no blog de um texto da sua autoria. Agradecemos desde já a oportunidade de poder publicar este contributo tão actual e que vale a pena ler.

Desculpem não publicar hoje a 2ª parte do post “Substituir o DIM pelo Digital é Bullshit”, mas a relevância de outro acontecimento, obrigou-me a dedicar este post à USF inaugurada com pompa e circunstância, na baixa de Lisboa, no dia 17 de Novembro.
O coordenador frisou as características únicas da instituição. “Criámos uma USF só com médicos recém-especialistas e sem visitas de «delegados de informação médica”. Além do mais, o tema tem tudo a ver com o digital.

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