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A propósito do incidente com o avião da Air Astana nos céus de Lisboa, olhando para a acção dos meios de socorro e em particular dos pilotos dos F-16 de Portugal, fiquei a pensar no que esperamos, dos aviões e dos pilotos – todos nas melhores condições, as aeronaves mais modernas e os pilotos, mais bem preparados e melhor treinados.
A propósito do tema, ouvi alguém dizer que não voa em companhias Low Cost e que prefere as companhias aéreas de bandeira…

Mayday, Mayday, Mayday
O que se passou foi muito grave, um avião desgovernado, uma aeronave cujo os pilotos não tinham forma de a controlar, porque os comandos não obedeciam. O perigo espreitou sobre Lisboa e podia ter acontecido uma enorme catástrofe, sem que ninguém a pudesse evitar. Perante o perigo e o Mayday, repetido três vezes, entraram em acção profissionais experientes e treinados, controladores aéreos, militares da Marinha e da Força Aérea e todos os meios de socorro em terra. Num ápice dois F-16 levantaram de Leiria e em 7 minutos estavam sobre Lisboa, tendo como missão ajudar o avião em perigo. Pode-se consultar as notícias, mas de facto os dois caças foram os olhos e o radar de um avião fora de controlo.
Desta vez, não aconteceu nenhuma catástrofe e ao que parece, é de enaltecer a preparação e o profissionalismo de todos, em particular dos pilotos.

Principal elemento de controlo da aeronave – o piloto
A formação de profissionais ligados à aeronáutica, envolve programas certificados e reconhecidos pelas autoridades competentes, tanto nacionais como internacionais, para melhorar de forma contínua, os níveis de segurança. Como exemplo, a norte-americana FAA, Federal Aviation Administration, exige uma certificação que obedece aos mais altos critérios, estabelecidos com a indústria de aviação e com o público.
Os rigorosos programas de formação já prevêem o uso de simuladores e outras novas tecnologias, às quais os pilotos são submetidos regularmente e só podem voar mediante níveis mínimos de aprovação nessas formações.
À medida que aumenta o número de voos, o número de falhas também tende a aumentar e sendo o erro humano actualmente a principal causa de acidentes ou incidentes, os simuladores e legislação associada na formação de pilotos, contribuem para elevar os padrões de segurança na aeronáutica, já por si muito rigorosos.
A ética de trabalho de algumas companhias, aponta para que não basta ter-se o treino apropriado, mas é também necessário estar psicologicamente apto.
Esta problemática leva-nos ao principal elemento de controlo da aeronave – o piloto. Mesmo com os equipamentos mais modernos e com a tecnologia mais avançada, nada substitui a interpretação e a decisão do homem, sobretudo em cenários imprevistos. O erro do piloto tem de facto um impacto maior e mais mediático, do que o de qualquer outro elemento ligado à aviação.

Como se sentiria ao entrar dentro da aeronave?
Imagine que tem de fazer uma viagem urgente e no embarque, fica a saber que o comandante e o seu co-piloto, ambos com mais de 50 anos, têm alcançado os valores mínimos indispensáveis nos simuladores de voo, para além de que o avião, estacionado na placa tem aspecto sujo e descuidado. Será que tem a manutenção em dia?
A tripulação chegou e reparou que cada tripulante caminhava sozinho e cabisbaixo, com um ar triste e preocupado, parecendo-lhes que estavam em Burnout, tal o cansaço expresso nas caras cerradas. Além do mais, chove e troveja no aeroporto de partida e no de chegada.
Ironicamente, lembra-se que leu num artigo, que o erro piloto/meteorologia representa a terceira causa maior na classe de acidentes aéreos.
Como se sente ao entrar dentro do avião? Já não entrava? Teme pela sua vida?

Enfarte: risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país
Já dentro do avião, (afinal entrou), recebeu das mãos de uma hospedeira, agora sorridente, o jornal Público. Nervoso, desfolhou sem ler e na página 10, o título chamou-o à atenção – Enfarte, risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país. (1)

O texto do jornal afirma que, “Os doentes com enfarte agudo do miocárdio que são tratados em hospitais públicos das regiões de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo ou do Algarve têm um maior risco de mortalidade do que os que são assistidos em unidades do Norte do país. Um risco que chega a ser 30% superior quando se comparam os resultados de milhares de pacientes tratados em hospitais do Sul com os que foram assistidos em unidades do Norte, concluiu a investigadora Mariana Lobo num estudo desenvolvido no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) e que integra a sua tese de doutoramento. São resultados que sugerem que os cuidados de saúde prestados a pacientes que sofreram enfartes agudos de miocárdio não são semelhantes em todo o território nacional e que devem agora ser investigados para se perceber o que está na base desta heterogeneidade”.

Como somos tratados nos Cuidados de Saúde Primários?
Pousou o jornal e ficou a pensar que os cuidados secundários em Portugal não são todos iguais, o que constitui um problema grave e complexo. Se o azar lhe batesse à porta e tivesse de embarcar na doença cardiovascular, o que sentia se fosse levado para um hospital da ARS LVT? Que lhe iria acontecer? Faria parte desses 30%?
Decerto que o enfarte, um enorme expoente da doença cardiovascular, está muito relacionado com os hábitos de vida das pessoas e claro, com a forma como são tratados nos Cuidados de Saúde Primários, ex-libris do SNS, tão famosos por serem a porta de entrada no sistema.
Enquanto o seu pensamento deambulava, o pássaro de ferro aterrou com alguns solavancos, por meio de uma chuva copiosa. Finalmente respirou aliviado quando sentiu que o avião se imobilizou na placa, junto à manga.
A caminho do hotel ligou a um amigo Cardiologista de Coimbra, que em resposta às suas questões sobre a notícia do Jornal e a forma como os portugueses estavam a ser tratados nos CSP, lhe disse que enviava um estudo para poder ler.

Um anexo chamado Dysis
O sonar do smartphone indicou-lhe a recepção de um email que trazia um anexo chamado Dysis, (2), nome de um estudo epidemiológico, realizado em 12 países da Europa, incluindo Portugal.
No nosso país foram recrutados 916 doentes, a maioria, 82,4%, provenientes dos Cuidados de Saúde Primários; 66,7%, apresentava risco elevado de desenvolver complicações cardiovasculares e 30% tinha doença cardiovascular pré-existente. Independentemente do risco, verificou-se que a maioria dos doentes, 73,1%, usava uma dose de estatinas de baixa potência.
Nas conclusões pode ler-se num português cauteloso, que mais de metade dos doentes tinham um elevado risco cardiovascular, mas que, apesar desse risco, os médicos prescreveram-lhes estatinas de baixa potência! Referiu ainda que, será fundamental avaliar as verdadeiras razões para a reduzida eficiência do tratamento com estatinas, “no mundo real” da prática clínica diária, sobretudo tendo em consideração que se trata de uma classe de fármacos com elevada eficácia. E em jeito de conselho, outra vez de forma cuidada, concluem que é importante reavaliar as doses dos medicamentos utilizados, reconsiderando a utilização de uma terapêutica mais intensiva e até combinada.
Quem fez o estudo aconselha os médicos a rever a prática clínica, que parece desajustada, considerando fundamental a reavaliação das estratégias terapêuticas que permitem reduzir a morbilidade e a mortalidade da doença cardiovascular.

Como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros
Se há um conselho para os médicos reverem o que sabem sobre a forma como tratam a doença cardiovascular, surge a pergunta óbvia. Na próxima consulta na USF, questiona-se se aquele ou aquela médica, está por dentro do state of the art? Será que periodicamente faz reciclagem de conhecimentos? É avaliado em simuladores? E quem se responsabiliza por isso? O Ministério? A Ordem dos Médicos?
O que é mais importante para si, o piloto do avião ou o seu médico? Dirão alguns que não se pode comparar. Claro que não…
O incidente da Air Astana sobre Lisboa fez-me pensar em segurança e como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros.
As companhias aéreas, trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todos os funcionários sabem disso antes de se candidatarem e não ficam surpresos quando são chamados para trabalhar nos fins de semana ou nos feriados. Já os hospitais, as USF’s ou UCSP, trabalham de forma diferente nos fins de semana. Muitos médicos e outros profissionais trabalham apenas durante a semana. E isto, não é um erro do nosso sistema de saúde?

A comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros?
A Federal Aviation Administration, FAA exige que todas as companhias aéreas dos EUA estudem os incidentes ou acidentes de aviação – não importando qual companhia aérea esteja envolvida, para que todos possam aprender com os aspectos positivos e negativos de cada acidente aéreo. As companhias aéreas devem estar no caminho certo, porque os acidentes aéreos são extremamente raros.
E a comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros? Ou não há erros? Como aprende com os estudos, como o Dysis? E como se põe em prática, os novos conhecimentos? Já se questionou sobre isso?
Só há erro médico nos hospitais e nas cirurgias? E nos CSP? Como é abordada a Doença Crónica, a Doença Cardiovascular? Será que os indicadores de contratualização reflectem o viver dos portugueses?

A ciência do incerto e a arte da probabilidade
O Professor José Fragata em 2014, escreve com o Dr. Luís Martins, o Erro Médico em Medicina, editado pela Almedina. Diz o autor que “O exercício da Medicina, outrora baseado na tradicional relação hipocrática médico-doente, evoluiu para a prestação de cuidados de Saúde exercida por seres humanos, naturalmente falíveis, mas operando hoje no seio de organizações complexas e com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Esta mudança associada à natureza marcadamente incerta da biologia do Homem doente, cria um enorme potencial para a ocorrência de erros. A Medicina Clínica é hoje, mais do que nunca, a “ciência do incerto e a arte da probabilidade” Osler.
O autor afirma que os Erros da Medicina, são a ponte de um enorme iceberg oculto, referindo ainda os conflitos éticos em torno do Erro e ainda, o tratamento jurídico que deverá ser dado ao Erro Médico, na sua distinção fundamental com a negligência.
E tal como as companhias aéreas, “a fiabilidade e a qualidade de uma organização médica residem fundamentalmente no modo como sabe lidar com os seus erros, minimizando as suas consequências e aprendendo a preveni-los.”

Quem queria para piloto?
Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor?
Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?
Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…

José Ribeiro

(1) – https://www.publico.pt/2018/10/08/sociedade/noticia/doentes-com-enfarte-tem-maior-risco-de-morte-se-forem-tratadas-em-hospitais-do-sul-1846497
(2) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21425743

Lê-se em 5 minutos

Um DIM (A) visita um médico num hospital. Durante a visita o médico diz ao DIM estar a organizar uma reunião científica que vai juntar o serviço e os médicos de família da área de influência do hospital e solicita-lhe apoio para a elaboração da mesma. No final da visita o DIM envia ao seu Chefe um mail a comunicar o sucedido, dizendo que se trata de uma boa oportunidade.

O Chefe recebe o mail e ao perceber a importância reencaminha o mail para o PM, com conhecimento do Chefe Nacional de Vendas, pedindo a colaboração do Marketing.

O PM ao receber este mail, concorda com a oportunidade e envia mail ao MSL (departamento médico), solicitando apoio na elaboração da reunião, colocando Director de Marketing e Director Médico em cópia. O MSL decide visitar o médico para se inteirar do âmbito da reunião e discute com ele o modelo. De seguida envia mail ao PM a propor um modelo de reunião e a propor uma visita conjunta ao médico para optimizar alguns aspectos.

Acabou a Silly Season?
Ontem o jornal Público diz peremptoriamente que as “Prendas a governantes não podem ser superiores a 150 euros”.
Segundo a mesma fonte, “O Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira um código de conduta para os membros do Governo, de acordo com o qual os governantes passam a estar impedidos de receber prendas ou convites de valor superior a 150 euros. Este limite pode, porém, ser excedido quando se trate de despesas de representação.”

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Não, não sou eu que o digo, apenas ouvi dizer que “Os médicos caíram nas mãos da indústria farmacêutica e isso deve-se em parte ao marketing desenvolvido pelas empresas, a alguma falta de honestidade e ao facto de os médicos aspirarem ter uma casa na praia…”. Mas quem disse isto, em Março de 2016?

E disse mais, referindo que falava sobre a realidade do seu país, onde os médicos aspiram ter uma casa na praia em particular na zona de Santander, a zona mais bonita e apetecível para esse efeito.

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Walking Dead. É isso que os Delegados são?

A pergunta da Maria surpreendeu pela ironia. Na verdade, a comparação do DIM a um Walking Dead não era totalmente descabida. Na série da AMC, o Walking Dead é um sobrevivente ao apocalipse. Com conhecimentos limitados sobre o que aconteceu, procuram um lugar seguro e uma solução para a doença que transforma todos os que são mordidos em zombies e tentam ultrapassar os desafios do dia-a-dia num mundo hostil praticamente dominado por mortos-vivos.

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– Zé, sou um médico do século 21, em plena era digital. Por isso, o que é que me pode dizer um Delegado de Informação Médica? Consigo ter toda a informação no meu smartphone, ou no tablet e com isso aceder a grupos fechados de colegas para discutir a evidência científica, o “state of the art” e até a experiência de cada um. Tenho à distância de um “click”, casos clínicos, meta-analises e as mais recentes “reviews” das sociedades científicas. Delegados de propaganda, era no teu tempo. Agora já não são precisos.

Na mesa os restantes sorriram, olharam para mim e reiteraram a opinião do colega que falou. Eram cerca de 10 jovens médicos que entraram no SNS nos últimos 5/7 anos. Juntei-os à volta da mesa de jantar para discutir e conversar sobre o papel da IF e dos Delegados, nos tempos actuais.

– Meus caros deixem que vos diga que vocês olham para a prática da Medicina, em pleno século 21, como os vossos pares olharam nas duas últimas décadas do século passado. Mas nessa altura eles não tinham acesso à web e à informação, como hoje vocês têm.

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