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Hoje 24 de Abril, vamos tratar os médicos e enfermeiros como tratamos Salgueiro Maia?

Salgueiro Maia, Capitão de Cavalaria, foi o herói do 25 de Abril de 1974. Tomou o Terreiro do Paço, travou as forças do regime e foi buscar Marcelo Caetano ao quartel do Carmo. Ele foi o Capitão da Liberdade, que a esquerda totalitária que ele ajudou a libertar, ostracizou apenas porque ele era um verdadeiro defensor da liberdade, daquela onde se é livre. Este é o exemplo da forma como tratamos os nossos soldados.

Como tratamos os nossos soldados em tempo de paz?

Portugal e alguns portugueses convivem mal com as Forças Armadas. Sabemos como tratamos todos os ex-combatentes da guerra colonial. Sabemos bem como os integramos, em particular todos os que ficaram com sequelas físicas e com stress pós-traumático. Infelizmente alguns políticos recorrem ao argumento ideológico, como se isso validasse o abandono, que eles e alguns partidos, condenaram todos os filhos da nação que combateram em nome de Portugal.  A forma como tratamos os nossos soldados em tempo de paz, define os governantes que temos e isso não abona em nosso favor, o povo que permite que isso aconteça. Temos vergonha dos símbolos da nação, a não ser que um treinador brasileiro, em nome de Portugal, peça a todos portugueses para erguer a bandeira das quinas em cada janela. Nessa altura, em nome do futebol, foi a bandeira do nosso orgulho.

Há bem pouco tempo, batemos palmas e alguns deixaram algumas lágrimas rolar pela face, em homenagem aos heróis, médicos e enfermeiros, que ainda hoje, por esta hora, combatem numa guerra para onde não desejaram ir. Mas tal como no passado, os soldados de hoje, não hesitam em ir combater, porque a guerra é justa. Saem de casa, deixando a família e vão cumprir a sua missão, honrando o juramento que fizeram. Recebem os maiores elogios do governo e ouvem o ministério dizer que não faltam equipamentos de protecção individual, quando surgem relatos da linha da frente que dizem o contrário.

Quanto custa um herói?

 O governo quer contratar para este combate, enfermeiros a quase 6,42 euros por hora. Ao jornal PÚBLICO, “o Ministério da Saúde afirmou que o Governo autorizou a contratação dos profissionais de saúde necessários à resposta do sistema para efeitos da prevenção, controlo e tratamento da infecção por novo coronavírus (covid-19). De acordo com a tutela, tais contratos, a termo resolutivo certo, por um período de quatro meses, podem ser eventualmente renovados, se necessário e segundo a Administração Central do Sistema de Saúde, 7,42 euros é o valor base/hora do enfermeiro em início de carreira, a que acresce eventuais suplementos que sejam devidos”. (1)

O nível de risco e perigo de morte é igual para todos?

Há mais algumas perguntas que devemos fazer. Quando as Forças Armadas portuguesas vão para um teatro de operações, recebem um subsídio de risco ou recebem um prémio ou incentivo? Um soldado do exército regular é igual a um Comando, a um Ranger, a um Fuzileiro ou a um Paraquedista? O nível de risco e perigo de morte é igual para todos?

Julgo saber o que está a ser pedido aos médicos e aos enfermeiros deste país e sei que nem todos estão na mesma situação, apesar de todos verem as suas vidas alteradas pelo estado de emergência e pela pandemia; eu sei que os cuidados hospitalares não são iguais aos cuidados de saúde primários e que num hospital há serviços mais na linha da frente que outros; mas sei que este é um tema que alguns não gostam que se fale, o das diferenças que muitos querem que sejam iguais. É preciso que este governo saiba diferenciar, saiba atribuir um subsídio de risco, um incentivo e reconheça que o Ministério da Saúde, tem uma política de recursos humanos errada faz muito tempo.

Como fará o governo para diferenciar estes heróis?

Tenho ideias sobre isso e já as discuti com alguns médicos e enfermeiros. Mas querem homenagear quem combateu esta pandemia? Com muito menos do que o que vão gastar nas comemorações do 25 de Abril? Sem o despudor com que a Ministra da Saúde, foi célere em louvar quem respondia a perguntas ao telefone e que ainda não louvou em despacho, quem está a combater? Convoquem todos os médicos, enfermeiros e outros profissionais que lidaram com os doentes na linha da frente e num local público façam uma homenagem em frente de todas as televisões, atribuindo aí sim, um louvor e um agradecimento público e sentido. Acham que vão fazer isto? Não, e isso vai fazer crescer uma fúria em quem lutou, dias a fio, para proteger os que os irão desprezar. E se essa fúria crescer?

A Fúria do Herói

John Rambo, que todos conhecemos, regressa da guerra e encontra no seu país, um ambiente hostil onde a paz se serve com violência. Condecorado com a Medalha de Honra, aclamado como herói, depressa é esquecido e desenquadrado, não sendo acolhido por aqueles por quem lutou e defendeu, quase perdendo a vida. E os que lhe bateram palmas, que o homenagearam, serão exactamente aqueles que um dia depois o vão esquecer e se possível atirá-lo para um gueto, onde os traumas, a pobreza e a solidão farão de selecção natural ou selecção mortal. Salgueiro Maia disse um dia – “Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir.” E os que lhe bateram palmas, que o homenagearam, que o aclamaram como herói, serão exactamente aqueles que um dia depois o vão esquecer e se possível atirá-lo para um gueto. Apenas a história lhe fará a justa homenagem, a mostrar a verdade dos factos que muitos teimam em enterrar.

Este governo pode destruir o SNS e reforçar o sistema privado, o NHS, o …

Rambo, o herói americano no fim do filme acabou preso, porque se defendeu de quem o maltratou. Salgueiro Maia, na vida real, morreu sem as honras que esta nação lhe devia ter prestado. Esta guerra vai acabar e os heróis de hoje, médicos e enfermeiros, vão ser tratados como sempre a esquerda tratou os heróis e os soldados deste país?

Se no Day After, não se pagar todas as horas extraordinárias feitas, se não se recompensar com um incentivo pelo combate; se no Day After, não se der descanso a quem esteve na linha da frente; se no Day After não se reformular os hospitais e com isso perceber como reorganizar os médicos e enfermeiros numa nova situação de guerra; se no Day After não se reformular profundamente o SNS, levando em consideração, a liderança, a mentalidade de comando controlo, os médicos e enfermeiros, a forma como os podemos diferenciar, as suas carreiras e remunerações, é muito provável que a fúria destes heróis os leve, não à prisão como o Rambo, mas a atirar a toalha ao chão, sair do SNS para o privado, para o NHS… Este governo, provocando a fúria aos seus heróis, pode destruir o SNS e prejudicar todos os portugueses.

Hoje 24 de Abril, pergunto se a esquerda do governo e a oposição no parlamento, vão tratar os médicos e enfermeiros como trataram Salgueiro Maia?

(1) https://www.publico.pt/2020/04/05/sociedade/noticia/covid19-governo-oferece-contratos-quatro-meses-642-euroshora-novos-enfermeiros-1911051

O título parece-vos uma brincadeira? Um dia a dor invadiu-me o braço e não resisti, fui ao Google e “garbage in, garbage out”, um sem número de diagnósticos surgiram em segundos. O Dr. Google é mais rápido, mais barato e evita muitas vezes uma ida ao consultório, quando temos apenas uma exacerbação da hipocondria que há em todos nós. E quando se é médico, com dúvidas, onde é que se vai? Também vão googlar?

Esta pandemia veio relevar um enorme problema dos enfermeiros e farmacêuticos, mas muito em particular de todos os médicos – na dúvida onde eles vão procurar ajuda? Podíamos dizer que a OMS ou a DGS são um farol, mas a verdade é que não o foram e os episódios das máscaras, dos testes, da cloroquina e até do ibuprofeno, são bem a prova disso. Não trago aqui esta questão apenas para criticar, porque não é esse o objectivo, mas por outro mais pertinente – perceber que os médicos, no que toca a adquirir novos conhecimentos, estão sozinhos em qualquer linha de combate onde se encontrem e não podem continuar assim. Na próxima pandemia, na próxima guerra tudo pode ser pior.

É a altura para a entrada em cena do Dr. WhatsApp. Grande parte dos médicos tem smartphones e estão ligados a colegas em grupos de WhatsApp, onde colocam questões aos seus pares, partilham casos clínicos e acima de tudo, nesta pandemia, partilham informação, dúvidas e soluções. Hoje, quase todos os médicos estão em pelo menos um grupo de WhatsApp e o outro, o Dr. Google não entra. Até as autoridades de saúde, usam o WhatsApp para partilhar, pressionar ou cascar nos dirigentes hospitalares e dos CSP.

É como se o Dr. WhatsApp esteja destinado ao incremento do conhecimento dos médicos e o Dr. Google para os doentes. Em conversa com alguns clínicos amigos neste tempo de pandemia, ouvi muitas vezes o comentário que receberam uma partilha num grupo, de um colega que conhece um colega italiano que está num hospital em Milão, que disse que lá usam isto ou aquilo para a Covid-19. Depois o grupo através do líder, o Dr. WhatsApp espalha por todos e desta forma, chega a um jornalista, a um grupo de Facebook e aí “viraliza” para Portugal, como verdade irrefutável, mais ainda assinada por um médico. “Corre “viralmente” nas redes sociais um relato de uma suposta médica a garantir que morreu o primeiro português infectado pelo Covid-19. Segundo a profissional, tratava-se de um homem de 60 anos internado no Curry Cabral. A informação está a ser veiculada através de um áudio de WhatsApp e já chegou a milhares de portugueses”, alerta a DGS, através de um comunicado no site oficial. (1)

Olhemos para o Dr. WhatsApp de uma outra forma. No já longínquo ano de 2017, a BMJ Innovations publicou um estudo, “WhatsApp Doc?” (2) onde se demonstrou uso generalizado do WhatsApp para comunicação entre os médicos. Segundo o WhatsApp Doc, 97% dos médicos do estudo enviam rotineiramente informações confidenciais do doente, sem obter o seu consentimento, apesar de, segundo o mesmo estudo, 68% dos médicos estarem preocupados em partilhar essas informações pelo WhatsApp. Esta dissonância cognitiva, diz o estudo, é preocupante e talvez reflicta as pressões da medicina moderna, que forçam os médicos a comportarem-se dessa maneira, apesar das questões legais.  No estudo pode ler-se que um telefone perdido é, portanto, uma possível violação de segurança de dados, mesmo que o médico em questão nunca tenha enviado informações; o preocupante é saber, através do mesmo estudo, que 30% dos estagiários perderam o telefone no último ano e 5% na última semana.

Acreditem, não vou aqui vender uma solução que destrone o WhatsApp ou até falar do tal regulamento, o GDPR, sobre os dados e a confidencialidade. Isso pode ser tema para o Direito e a Ética. Defendo que os médicos e os enfermeiros acreditam que o Dr. WhatsApp possa ser usado desde que os dados do doente sejam anonimizados. Como se prova pela sua utilização, os benefícios do Dr. WhatsApp vão muito além da mera comunicação; o que ele faz é partilhar conhecimento, conectar equipes, reduzir hierarquias e ajudar os doentes. O que fica aqui a ferver nas mãos de quem lidera o SNS e os médicos, é a forma como o conhecimento científico e clínico é partilhado nos dias de hoje. Pelo Dr. WhatsApp?

Em Novembro de 2018, a propósito de um quase acidente aéreo nos céus de Portugal, perguntava, “Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor? (3)

Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…” (3)

O mais sabedor, o mais treinado, o melhor? Já não se trata da forma como vamos saber se um médico reúne estas características, mas sim, como é que um médico pode ser o mais sabedor, o mais treinado ou o melhor. Onde vai aprender, onde vai buscar o conhecimento de uma nova doença ou mesmo as últimas publicações científicas credíveis? Como o fez durante esta pandemia?

Onde vai aprender? Imaginem, um médico com 57 anos, saído da faculdade lá pelos finais dos anos 80, onde a internet era ainda um luxo, os portáteis e os telemóveis daqueles que hoje nos rimos no museu da pré-história da conectividade. Começou a trabalhar no SNS, num Centro de Saúde, antiga Caixa Previdência, numa altura em que era apenas mais um Clínico Geral, num sistema longe da reforma e a começar a cansar-se com os Regimes Remuneratórios Experimentais e outras deambulações reformistas, até à 1ª década do Seculo 21, onde abriu a 1ª USF. Política, luta de classes e acabou hoje como Especialista de Medicina Geral e Familiar. E claro está, a Reforma dos CSP na rua a todo o vapor, reforçando o termo vapor. Podia aqui mimetizar um especialista de outra qualquer especialidade médica ou cirúrgica, que nada seria diferente no final.

Meu Deus, como a ciência médica e farmacológica evoluiu desde o último ano da faculdade nos anos oitenta e da edição do Harrison com que fez o exame. Já se perguntou como chegou a este médico, (marido, pai de filhos, cuidador dos pais e outras coisas que qualquer ser humano tem de fazer para além do trabalho), toda evolução do conhecimento, que permite diagnosticar e tratar melhor os doentes, em que um deles pode ser você que lê estas palavras? Que fez a sua entidade patronal, o SNS, a sua Ordem Profissional, as ditas Sociedades Científicas; ou as associações políticas, como a USF-AN e as associativas como, a APMGF?

A resposta que encontra é sempre a mesma, nada. Se não for por iniciativa própria do medico, que dedicará parte do seu tempo a ler e pesquisar a inovação na sua área; ou de outra forma, aceitando os convites da Indústria Farmacêutica que suporta uma grande parte da dita formação, quer através de eventos próprios ou através dos congressos das sociedades científicas no país e no estrangeiro; se não for por estas vias, o médico terá muita dificuldade em adquirir conhecimento. Hoje com a internet, as redes sociais e o Dr. WhatsApp, tudo parece mais fácil, mas apenas parece, porque é preciso saber se é disponibilizado ao médico, o tempo de qualidade para se actualizar, para além de ter de saber separar o fake do real ou do correcto.

A digitalização e a inteligência artificial permitem aos médicos acederem a sites de outros médicos que partilham o “state of the art”, a cursos de e-learning, webinars e tantas outras formas de à distância, o médico poder optar por aprender. Poder optar…

Esta é a questão, optar ou não pelo aumento e actualização do conhecimento médico e farmacológico, depender de um simples se, se o médico quiser, num exercício ético do livre arbítrio. O que queremos no Day After, para os médicos do SNS, para os clínicos deste país? Actualizações do conhecimento via Dr. WhatsApp? Ou dotar o médico da possibilidade de actualizar os seus conhecimentos em todas as áreas do saber necessários e isso ser-lhe reconhecido na sua carreira? E se a Ordem dos Médicos reconhecesse determinadas formações, com créditos e cada médico necessitasse de todos os anos ter um número de créditos mínimo, actualizando o seu conhecimento em áreas científicas definidas previamente?

O estudo da BMJ Innovations afirma também que “90% dos médicos sentem que não poder fornecer o melhor atendimento clínico possível sem usar mensagens instantâneas”, o Dr. WhatsApp. Ou seja, são os médicos que reconhecem a necessidade de aprender mais, de partilhar conhecimentos, “peer to peer”, de poder serem médicos do século 21.

Se tiver de escolher um médico para o tratar, vai querer o Dr. Google, o Dr. WhatsApp ou um médico actualizado com os créditos da OM? Não é essa a responsabilidade do SNS e da Ordem? Ou vai esperar pela próxima pandemia? Os registos existentes da saúde de um cidadão são como a caixa negra de um avião; se ele sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada e aí não há Dr. Google ou Dr. WhatsApp…

(1) https://sol.sapo.pt/artigo/688882/dgs-desmente-audio-viral-de-alegada-medica-que-confirma-duas-mortes-pelo-covid-19

(2) O’Sullivan DM, et al. BMJ Innov 2017;3:238–239. doi:10.1136/bmjinnov-2017-000239

(3) https://marketaccessportugal.com/wp-content/uploads/2018/11/astana-SNS-plane.jpg

A propósito do incidente com o avião da Air Astana nos céus de Lisboa, olhando para a acção dos meios de socorro e em particular dos pilotos dos F-16 de Portugal, fiquei a pensar no que esperamos, dos aviões e dos pilotos – todos nas melhores condições, as aeronaves mais modernas e os pilotos, mais bem preparados e melhor treinados.
A propósito do tema, ouvi alguém dizer que não voa em companhias Low Cost e que prefere as companhias aéreas de bandeira…

Mayday, Mayday, Mayday
O que se passou foi muito grave, um avião desgovernado, uma aeronave cujo os pilotos não tinham forma de a controlar, porque os comandos não obedeciam. O perigo espreitou sobre Lisboa e podia ter acontecido uma enorme catástrofe, sem que ninguém a pudesse evitar. Perante o perigo e o Mayday, repetido três vezes, entraram em acção profissionais experientes e treinados, controladores aéreos, militares da Marinha e da Força Aérea e todos os meios de socorro em terra. Num ápice dois F-16 levantaram de Leiria e em 7 minutos estavam sobre Lisboa, tendo como missão ajudar o avião em perigo. Pode-se consultar as notícias, mas de facto os dois caças foram os olhos e o radar de um avião fora de controlo.
Desta vez, não aconteceu nenhuma catástrofe e ao que parece, é de enaltecer a preparação e o profissionalismo de todos, em particular dos pilotos.

Principal elemento de controlo da aeronave – o piloto
A formação de profissionais ligados à aeronáutica, envolve programas certificados e reconhecidos pelas autoridades competentes, tanto nacionais como internacionais, para melhorar de forma contínua, os níveis de segurança. Como exemplo, a norte-americana FAA, Federal Aviation Administration, exige uma certificação que obedece aos mais altos critérios, estabelecidos com a indústria de aviação e com o público.
Os rigorosos programas de formação já prevêem o uso de simuladores e outras novas tecnologias, às quais os pilotos são submetidos regularmente e só podem voar mediante níveis mínimos de aprovação nessas formações.
À medida que aumenta o número de voos, o número de falhas também tende a aumentar e sendo o erro humano actualmente a principal causa de acidentes ou incidentes, os simuladores e legislação associada na formação de pilotos, contribuem para elevar os padrões de segurança na aeronáutica, já por si muito rigorosos.
A ética de trabalho de algumas companhias, aponta para que não basta ter-se o treino apropriado, mas é também necessário estar psicologicamente apto.
Esta problemática leva-nos ao principal elemento de controlo da aeronave – o piloto. Mesmo com os equipamentos mais modernos e com a tecnologia mais avançada, nada substitui a interpretação e a decisão do homem, sobretudo em cenários imprevistos. O erro do piloto tem de facto um impacto maior e mais mediático, do que o de qualquer outro elemento ligado à aviação.

Como se sentiria ao entrar dentro da aeronave?
Imagine que tem de fazer uma viagem urgente e no embarque, fica a saber que o comandante e o seu co-piloto, ambos com mais de 50 anos, têm alcançado os valores mínimos indispensáveis nos simuladores de voo, para além de que o avião, estacionado na placa tem aspecto sujo e descuidado. Será que tem a manutenção em dia?
A tripulação chegou e reparou que cada tripulante caminhava sozinho e cabisbaixo, com um ar triste e preocupado, parecendo-lhes que estavam em Burnout, tal o cansaço expresso nas caras cerradas. Além do mais, chove e troveja no aeroporto de partida e no de chegada.
Ironicamente, lembra-se que leu num artigo, que o erro piloto/meteorologia representa a terceira causa maior na classe de acidentes aéreos.
Como se sente ao entrar dentro do avião? Já não entrava? Teme pela sua vida?

Enfarte: risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país
Já dentro do avião, (afinal entrou), recebeu das mãos de uma hospedeira, agora sorridente, o jornal Público. Nervoso, desfolhou sem ler e na página 10, o título chamou-o à atenção – Enfarte, risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país. (1)

O texto do jornal afirma que, “Os doentes com enfarte agudo do miocárdio que são tratados em hospitais públicos das regiões de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo ou do Algarve têm um maior risco de mortalidade do que os que são assistidos em unidades do Norte do país. Um risco que chega a ser 30% superior quando se comparam os resultados de milhares de pacientes tratados em hospitais do Sul com os que foram assistidos em unidades do Norte, concluiu a investigadora Mariana Lobo num estudo desenvolvido no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) e que integra a sua tese de doutoramento. São resultados que sugerem que os cuidados de saúde prestados a pacientes que sofreram enfartes agudos de miocárdio não são semelhantes em todo o território nacional e que devem agora ser investigados para se perceber o que está na base desta heterogeneidade”.

Como somos tratados nos Cuidados de Saúde Primários?
Pousou o jornal e ficou a pensar que os cuidados secundários em Portugal não são todos iguais, o que constitui um problema grave e complexo. Se o azar lhe batesse à porta e tivesse de embarcar na doença cardiovascular, o que sentia se fosse levado para um hospital da ARS LVT? Que lhe iria acontecer? Faria parte desses 30%?
Decerto que o enfarte, um enorme expoente da doença cardiovascular, está muito relacionado com os hábitos de vida das pessoas e claro, com a forma como são tratados nos Cuidados de Saúde Primários, ex-libris do SNS, tão famosos por serem a porta de entrada no sistema.
Enquanto o seu pensamento deambulava, o pássaro de ferro aterrou com alguns solavancos, por meio de uma chuva copiosa. Finalmente respirou aliviado quando sentiu que o avião se imobilizou na placa, junto à manga.
A caminho do hotel ligou a um amigo Cardiologista de Coimbra, que em resposta às suas questões sobre a notícia do Jornal e a forma como os portugueses estavam a ser tratados nos CSP, lhe disse que enviava um estudo para poder ler.

Um anexo chamado Dysis
O sonar do smartphone indicou-lhe a recepção de um email que trazia um anexo chamado Dysis, (2), nome de um estudo epidemiológico, realizado em 12 países da Europa, incluindo Portugal.
No nosso país foram recrutados 916 doentes, a maioria, 82,4%, provenientes dos Cuidados de Saúde Primários; 66,7%, apresentava risco elevado de desenvolver complicações cardiovasculares e 30% tinha doença cardiovascular pré-existente. Independentemente do risco, verificou-se que a maioria dos doentes, 73,1%, usava uma dose de estatinas de baixa potência.
Nas conclusões pode ler-se num português cauteloso, que mais de metade dos doentes tinham um elevado risco cardiovascular, mas que, apesar desse risco, os médicos prescreveram-lhes estatinas de baixa potência! Referiu ainda que, será fundamental avaliar as verdadeiras razões para a reduzida eficiência do tratamento com estatinas, “no mundo real” da prática clínica diária, sobretudo tendo em consideração que se trata de uma classe de fármacos com elevada eficácia. E em jeito de conselho, outra vez de forma cuidada, concluem que é importante reavaliar as doses dos medicamentos utilizados, reconsiderando a utilização de uma terapêutica mais intensiva e até combinada.
Quem fez o estudo aconselha os médicos a rever a prática clínica, que parece desajustada, considerando fundamental a reavaliação das estratégias terapêuticas que permitem reduzir a morbilidade e a mortalidade da doença cardiovascular.

Como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros
Se há um conselho para os médicos reverem o que sabem sobre a forma como tratam a doença cardiovascular, surge a pergunta óbvia. Na próxima consulta na USF, questiona-se se aquele ou aquela médica, está por dentro do state of the art? Será que periodicamente faz reciclagem de conhecimentos? É avaliado em simuladores? E quem se responsabiliza por isso? O Ministério? A Ordem dos Médicos?
O que é mais importante para si, o piloto do avião ou o seu médico? Dirão alguns que não se pode comparar. Claro que não…
O incidente da Air Astana sobre Lisboa fez-me pensar em segurança e como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros.
As companhias aéreas, trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todos os funcionários sabem disso antes de se candidatarem e não ficam surpresos quando são chamados para trabalhar nos fins de semana ou nos feriados. Já os hospitais, as USF’s ou UCSP, trabalham de forma diferente nos fins de semana. Muitos médicos e outros profissionais trabalham apenas durante a semana. E isto, não é um erro do nosso sistema de saúde?

A comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros?
A Federal Aviation Administration, FAA exige que todas as companhias aéreas dos EUA estudem os incidentes ou acidentes de aviação – não importando qual companhia aérea esteja envolvida, para que todos possam aprender com os aspectos positivos e negativos de cada acidente aéreo. As companhias aéreas devem estar no caminho certo, porque os acidentes aéreos são extremamente raros.
E a comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros? Ou não há erros? Como aprende com os estudos, como o Dysis? E como se põe em prática, os novos conhecimentos? Já se questionou sobre isso?
Só há erro médico nos hospitais e nas cirurgias? E nos CSP? Como é abordada a Doença Crónica, a Doença Cardiovascular? Será que os indicadores de contratualização reflectem o viver dos portugueses?

A ciência do incerto e a arte da probabilidade
O Professor José Fragata em 2014, escreve com o Dr. Luís Martins, o Erro Médico em Medicina, editado pela Almedina. Diz o autor que “O exercício da Medicina, outrora baseado na tradicional relação hipocrática médico-doente, evoluiu para a prestação de cuidados de Saúde exercida por seres humanos, naturalmente falíveis, mas operando hoje no seio de organizações complexas e com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Esta mudança associada à natureza marcadamente incerta da biologia do Homem doente, cria um enorme potencial para a ocorrência de erros. A Medicina Clínica é hoje, mais do que nunca, a “ciência do incerto e a arte da probabilidade” Osler.
O autor afirma que os Erros da Medicina, são a ponte de um enorme iceberg oculto, referindo ainda os conflitos éticos em torno do Erro e ainda, o tratamento jurídico que deverá ser dado ao Erro Médico, na sua distinção fundamental com a negligência.
E tal como as companhias aéreas, “a fiabilidade e a qualidade de uma organização médica residem fundamentalmente no modo como sabe lidar com os seus erros, minimizando as suas consequências e aprendendo a preveni-los.”

Quem queria para piloto?
Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor?
Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?
Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…

José Ribeiro

(1) – https://www.publico.pt/2018/10/08/sociedade/noticia/doentes-com-enfarte-tem-maior-risco-de-morte-se-forem-tratadas-em-hospitais-do-sul-1846497
(2) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21425743

Lê-se em 5 minutos

Um DIM (A) visita um médico num hospital. Durante a visita o médico diz ao DIM estar a organizar uma reunião científica que vai juntar o serviço e os médicos de família da área de influência do hospital e solicita-lhe apoio para a elaboração da mesma. No final da visita o DIM envia ao seu Chefe um mail a comunicar o sucedido, dizendo que se trata de uma boa oportunidade.

O Chefe recebe o mail e ao perceber a importância reencaminha o mail para o PM, com conhecimento do Chefe Nacional de Vendas, pedindo a colaboração do Marketing.

O PM ao receber este mail, concorda com a oportunidade e envia mail ao MSL (departamento médico), solicitando apoio na elaboração da reunião, colocando Director de Marketing e Director Médico em cópia. O MSL decide visitar o médico para se inteirar do âmbito da reunião e discute com ele o modelo. De seguida envia mail ao PM a propor um modelo de reunião e a propor uma visita conjunta ao médico para optimizar alguns aspectos.

Acabou a Silly Season?
Ontem o jornal Público diz peremptoriamente que as “Prendas a governantes não podem ser superiores a 150 euros”.
Segundo a mesma fonte, “O Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira um código de conduta para os membros do Governo, de acordo com o qual os governantes passam a estar impedidos de receber prendas ou convites de valor superior a 150 euros. Este limite pode, porém, ser excedido quando se trate de despesas de representação.”

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Não, não sou eu que o digo, apenas ouvi dizer que “Os médicos caíram nas mãos da indústria farmacêutica e isso deve-se em parte ao marketing desenvolvido pelas empresas, a alguma falta de honestidade e ao facto de os médicos aspirarem ter uma casa na praia…”. Mas quem disse isto, em Março de 2016?

E disse mais, referindo que falava sobre a realidade do seu país, onde os médicos aspiram ter uma casa na praia em particular na zona de Santander, a zona mais bonita e apetecível para esse efeito.

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Walking Dead. É isso que os Delegados são?

A pergunta da Maria surpreendeu pela ironia. Na verdade, a comparação do DIM a um Walking Dead não era totalmente descabida. Na série da AMC, o Walking Dead é um sobrevivente ao apocalipse. Com conhecimentos limitados sobre o que aconteceu, procuram um lugar seguro e uma solução para a doença que transforma todos os que são mordidos em zombies e tentam ultrapassar os desafios do dia-a-dia num mundo hostil praticamente dominado por mortos-vivos.

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– Zé, sou um médico do século 21, em plena era digital. Por isso, o que é que me pode dizer um Delegado de Informação Médica? Consigo ter toda a informação no meu smartphone, ou no tablet e com isso aceder a grupos fechados de colegas para discutir a evidência científica, o “state of the art” e até a experiência de cada um. Tenho à distância de um “click”, casos clínicos, meta-analises e as mais recentes “reviews” das sociedades científicas. Delegados de propaganda, era no teu tempo. Agora já não são precisos.

Na mesa os restantes sorriram, olharam para mim e reiteraram a opinião do colega que falou. Eram cerca de 10 jovens médicos que entraram no SNS nos últimos 5/7 anos. Juntei-os à volta da mesa de jantar para discutir e conversar sobre o papel da IF e dos Delegados, nos tempos actuais.

– Meus caros deixem que vos diga que vocês olham para a prática da Medicina, em pleno século 21, como os vossos pares olharam nas duas últimas décadas do século passado. Mas nessa altura eles não tinham acesso à web e à informação, como hoje vocês têm.

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