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Farmacêutico

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Abriu-se a Caixa de Pandora para as Farmácias e para os Farmacêuticos. A pandemia veio acelerar o futuro deste sector e dos seus profissionais. Os CTT, os Bombêuticos, a Glovo e algumas farmácias, levam os medicamentos a casa do cidadão e desta forma, a ida à farmácia deixa de fazer sentido. Já sei, dir-me-ão, foi por causa do estado de emergência e que agora tudo vai voltar ao normal. Mas será mesmo assim?

Será que ainda quero ir à farmácia?

As farmácias on-line e a experiência retirada do estado de emergência com entregas ao domicílio via parceria CTT e ANF, são a prova que é possível entregar medicamentos ao doente sem a presença do farmacêutico. A maior parte do negócio da farmácia está no medicamento de prescrição, no doente crónico. Com a renovação electrónica da receita, na maioria dos casos pouco há a dizer que acrescente algum valor ao doente. A ANF ao implementar esta solução, decerto pensou no Day After, nas consequências. Com a entrega ao domicílio, será que ainda quero ir à farmácia?

A farmácia é um negócio

A justificação que o Farmacêutico está lá para ajudar o cidadão, esclarecendo dúvidas, porque é o primeiro profissional a quem o cidadão se dirige, inserido numa rede capilar que pode ajudar e contribuir para a Saúde em Portugal, já não serve como resposta.

A farmácia é um negócio e o cidadão paga o que compra, pelo que vai querer o serviço adaptado às suas necessidades, como o fez durante o confinamento. O que o cliente quer não é o mais importante? A farmácia não é um negócio?

João Gregório, farmacêutico, na sua dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Saúde, diz que “…o farmacêutico comunitário vive num dilema entre o negócio e o profissionalismo, entre os cuidados profissionais e informais e é o profissional de saúde cujo vencimento está mais dependente da venda de um produto, o que leva a que os farmacêuticos comunitários sejam vistos de forma ambígua pela população em geral, mantendo simultaneamente uma imagem de comerciante e profissional de saúde”.(1)

A escolha da farmácia é individual

O futuro da farmácia vai reflectir uma parte do futuro do SNS e da nossa saúde. A pandemia e o distanciamento social trouxeram o abrandamento do comércio tradicional e o protagonismo do e-commerce. As farmácias não vão escapar a esta tendência e é preciso não esquecer que a escolha da farmácia é individual, cada um escolhe onde quer ir, influenciado pela satisfação do serviço e pela distância a percorrer. E no e-commerce, na internet, não há longe nem distância, nem papel para o farmacêutico.

A e-pharmacy está atrasada

Gostem ou não a e-pharmacy está atrasada, já é e vai ser o futuro. Até podemos argumentar, em defesa do modelo de farmácia tradicional, que o farmacêutico faz a diferença, o que na verdade não faz tanto assim; segundo um estudo de Cavaco et al. (2), a percepção em 55% dos participantes é de que não existem grandes diferenças entre o atendimento ao balcão de farmacêuticos e técnicos de farmácia; pode haver estudos mais recentes que contradigam este, mas não será por aí que se define o futuro da farmácia e do farmacêutico, versus o e-commerce e a internet.

A partir do conforto de casa ou de outro qualquer lugar, através de aplicações móveis posso ter quase toda a farmacopeia, desde que tenha receita e dinheiro. Isto pode significar que o farmacêutico poderá abandonar definitivamente o trabalho de dispensa de medicamentos, para se dedicar em exclusivo à prestação de serviços farmacêuticos ou outro tipo de actividade. Mas onde?

Temos 24% das farmácias em insolvência

Onde ou até quando, porque há uma situação muito grave neste sector. Em Dezembro de 2019, 702 farmácias, 24% das farmácias do país, encontravam-se em situação de insolvência ou penhora, segundo o estudo a que o jornal Público faz referência. No artigo, a ANF veio apelar à intervenção urgente do Governo, solicitando que a comparticipação dos medicamentos aumente porque em 2017, na União Europeia, a comparticipação pública era de 79,3 % da despesa, enquanto em Portugal apenas em 66,3%. Isto significa que o doente tem de pagar mais do seu bolso. A ANF refere que a situação de crise é anterior à doença covid-19, mas que esta pandemia é uma nova ameaça ao futuro do sector. (3)

Em Abril de 2016, escrevi “quanto queres para fechar a tua farmácia”, (4), numa antevisão da crise, onde falava da concentração de farmácias. Resistir é evoluir?

Ou evoluem ou não resistem

A evolução do sector pode ser mais rápida ou mais lenta, mas vai alterar-se. A e-pharmacy vai acontecer, ainda mais porque os proprietários das farmácias têm um dilema – ou evoluem ou não resistem.

A pressão do cliente, cada vez mais informado e já diferenciado tecnologicamente, vai no sentido de ter o serviço da farmácia, onde quer que esteja e as gerações mais velhas, em virtude da pandemia, perceberam bem a vantagem deste conceito. Claro que vai haver sempre quem acredite que o cliente vai querer voltar à farmácia, quem defenda que a farmácia virtual não pode vender para todo o lado, que, que…

Não digo que não continue a haver farmácias de rua, mas a concentração será inevitável e vai aumentar a intervenção da farmácia on-line, de cobertura nacional e aberta 24 horas, em 365 dias do ano. Se a entrega é feita pelos CTT, Uber, Glovo, Drones ou outro serviço qualquer, isso será sempre secundário, como se veio a provar agora durante a pandemia.

O modelo de negócio vai alterar-se

Este modelo, e-pharmacy, vai por pressão nos armazenistas, talvez privilegiar o DTP, (Direct to Pharmacy) e desta forma, a margem do grossista pode transitar para a farmácia ou para a Indústria Farmacêutica. A questão é que esta não será uma evolução lenta, mas precipitada pelo medo de uma nova pandemia que obrigará os detentores de farmácias a adaptar-se à possibilidade de “aviar as receitas” e entregar na casa do doente, tudo com a porta da farmácia fechada.

O modelo de negócio do proprietário altera-se, haverá menos farmácias e decerto quem vai ter a porta aberta terá também o seu negócio alicerçado na internet e na entrega ao domicílio.  E a ANF no meio disto tudo? Diversificar o seu negócio para além da sua actividade na formação, investigação entre tantas outras?

Tenho de ir à farmácia? Qual é a lógica?

O meu telefone toca e quando atendo, reconheço a voz, é a minha médica de família; baixo o som da televisão e recosto-me no cadeirão e por ali sou consultado, numa vídeo chamada, no consultório da minha casa. Passados uns minutos, o telefone notifica-me que tenho um SMS e confirmo a receita electrónica com a alteração da dosagem do medicamento que a médica referiu. Exacto. Agora só me resta sair de casa, pegar no carro e ir até à farmácia mais próxima…

Como? Então eu posso ser consultado pelo telefone e para comprar os remédios, tenho de ir à farmácia? Qual é a lógica?

Não há nenhum argumento que possa defender a ida à farmácia e nem a doce explicação que o farmacêutico verifica se está tudo ok com o receituário, avalia as interacções medicamentosas não vá haver um engano do médico ou do software que já verifica isso, é uma quimera, mas uma das negras.

As farmácias de rua vão desaparecer já? Acredito que não, como referi antes, mas os farmacêuticos, dos mais de 8.000 que trabalham em farmácia comunitária, têm de repensar o seu futuro. Mais de 8.000 que olham para o dia de amanhã com o cepticismo de viver num país de baixo rendimento, com uma economia em queda e num mundo onde a inteligência artificial e a telemedicina, aponta para a e-pharmacy.

Qual o futuro do farmacêutico?

The million-dollar question. A resposta é talvez um enorme problema da Ordem do Farmacêuticos, da relação com os seus associados e da forma como eles vêem e sentem o trabalho da Ordem na defesa do futuro dos profissionais que representa. Para onde pesa mais o binómio ANF/Ordem, num sector privado que vive dos dinheiros públicos, onde a ANF vai decerto continuar a gerir os pagamentos entre os SNS e as farmácias?

Porque é que ouvimos dizer que faltam psicólogos, nutricionistas, médicos dentistas nos CSP e nunca ouvimos dizer que faltam farmacêuticos? Se há farmácias hospitalares que são do SNS, porque não há farmácias do SNS, nos ACES que são do SNS? Que fazer a cerca de 8.000 profissionais qualificados? Desistir e deixar tudo ao sabor dos políticos e da economia, uns que pouco ou nada sabem de saúde e outros que não a querem pagar? Há solução?

Tentei contribuir para a solução

Nunca desisti de tentar contribuir para a solução, porque sempre considerei ser um desperdício tanto farmacêutico em farmácias comunitárias; acredito que o papel do farmacêutico do século 21 deva ser outro, no serviço ao cidadão e ao sistema nacional de saúde.

Em Novembro de 2009, apresentei na Ordem dos Farmacêuticos, ao então recente bastonário eleito e à sua Direcção, o Projecto Farmacêutico de Família. Ouvi um silêncio profundo naquela sala, silêncio esse que se prolongou nos tempos seguintes. Fiquei incrédulo.

Mais tarde, em Fevereiro de 2017, já em plena crise do sector e das farmácias, apresentei a um alto dirigente da ANF, o projecto que apelidei de Farmácia do Futuro, que ainda tem como objectivo levar o farmacêutico e a farmácia, até junto do cidadão, em estreita relação com os CSP. Outra vez o silêncio, mas desta vez não fiquei incrédulo.

O Day After do Farmacêutico

O Day After do Farmacêutico? Incerteza. Acredito que o sector não vai voltar a ser mais como era, nem que termine o sistema de entregas ao domicílio. Não acredito que a e-pharmacy não aumente a sua penetração no mercado, uma decisão estratégica dos proprietários das farmácias, mas que afecta directamente os farmacêuticos. Como cidadão, preocupo-me por não darem um novo rumo a estes profissionais, que como já referi, estão muito desaproveitados e apertados no abraço amigo da OF, que defende os farmacêuticos e da ANF, que defende os proprietários.

As tricas entre médicos, enfermeiros e farmacêuticos não ajudam a encontrar uma solução, mesmo que nalguns locais e pontualmente, a colaboração possa existir, ainda que não seja fruto de um plano nacional em prol do cidadão, mas sim da iniciativa de alguns farmacêuticos que teimam em sair da farmácia, cansados do seu papel passivo.

Saiam fora da vossa zona de conforto, perdão, desconforto

Não sei se os projectos que apresentei em 2009 e em 2017, teriam tido sucesso, mas sei que nada foi feito de disruptivo pelo futuro de todos os que um dia escolheram ser farmacêuticas ou farmacêuticos. Que falta nos fazem a todos e não é na farmácia.

Pensem em quem conhecem e nunca vos ajudou e procurem quem não conhecem e que vos pode ajudar. Saiam fora da vossa zona de conforto, perdão, de desconforto e procurem a solução, porque se não forem vocês a liderar o caminho, mais ninguém o fará.

E para terminar, já pensaram se um governo de esquerda, (daqueles que não gostam dos privados na saúde e que se inspiram no hino da CGTP), um dia decidir retirar à ANF a gestão dos pagamentos entre os SNS e as farmácias, baixando assim ainda mais o custo com medicamentos e deixando que uma PHARMAZON qualquer se instale em virtude do crescimento do e-Pharmacy? Pensem, qual vai ser o futuro de 8.000 farmacêuticas e farmacêuticos? Está na hora de pensar e agir diferente. E muito pode ser feito…

(1) O farmacêutico comunitário em Portugal, 2020; dissertação para a obtenção do grau de mestre em saúde e

Desenvolvimento Junho, 2011; João Pedro Bernardo Gregório

(2) Cavaco, A. M. N. & Bates, I. P. 2007. Gauging Portuguese community pharmacy users’ perceptions (Abstract). Primary Health Care Research and Development, 8, 315-325

(3) https://www.publico.pt/2020/04/15/sociedade/noticia/covid19-rede-farmacias-risco-economico-associacao-nacional-farmacias-pede-intervencao-urgente-governo (4) https://marketaccessportugal.com/quanto-queres-para-fechares-a-tua-farmacia/

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