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Estratégias de Saúde

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Há um perigo muito grande que se pode esconder no Day After e que começa a ser explorado por um sector político, cavalgando o efeito desta pandemia.

A excitação é imensa porque descobriram que um médico ou um enfermeiro vale mais do que um futebolista, mesmo quando na legislatura anterior e já nesta, os desvalorizaram tanto. Mas poderá ser demagogia minha, em tempo de guerra um soldado valer mais que um desportista, apesar de não compreender a razão de primeiro ter esgotado o papel higiénico e não os géneros alimentares.

Se é verdade que estes tempos vieram demonstrar  a importância de certas profissões, pouco valorizadas no passado recente, como todos os que trabalham no sector dos transportes e da distribuição, da limpeza, da agricultura, da segurança, entre outros, versus os banqueiros, advogados, gestores e em particular os políticos, também é verdade que este tipo de discurso é falso e ao mesmo tempo muito perigoso, porque é extremista e típico de sociedades totalitaristas, quer da direita, quer da esquerda.

A excitação é imensa porque o discurso do tal sector político, mais audível pelo controlo que têm nos meios de comunicação, aponta na direcção de querer reforçar o papel do Estado e cavalgando a pandemia, reclamar um modelo de sociedade mais comunista, ou seja, com mais intervenção do Estado.

O que todos desejamos nesta hora difícil, é que o Estado ajude as empresas, pague o ordenado a quem está em casa, dê dinheiro a todos. De repente viramos todos anticapitalistas, antiliberais, contra a lei da oferta e da proicura?

Não, pelo menos no que eu penso. Na verdade, perante uma guerra, perante uma crise, o mercado não funciona, a não ser o das armas e neste caso dos equipamentos médicos e de protecção ao vírus. E aí, o papel do Estado tem de vir ao de cima, porque esse é o seu papel durante as crises. Quando tudo voltar ao normal, as pessoas vão voltar a querer ganhar dinheiro, ter iniciativa privada, aumentar os seus rendimentos através do seu trabalho e esforço. E aí, o Estado se for dos bons, deve retirar-se para o seu papel de regulador e de controlador, assegurando algumas funções básicas.

A excitação desse lado político é imensa porque vão aproveitar para reclamar um SNS livre dos privados, das PPP’s e totalmente suportado pelo Estado – as consultas nos CSP, nos hospitais, os MCDT´s, a Imagiologia e os dispositivos médicos. E vão dar como exemplo, quem não é bom exemplo, como sejam os EUA. Quero comparar-me com os melhores e não com os piores.

Num país como Portugal, de baixo rendimento, com muita gente pobre e com idosos sem meios de subsistência, o Estado tem de assumir a protecção dos cidadãos e garantir o acesso à Saúde, de forma gratuita, tendencialmente. Quando olhamos para o passado verificamos que por razões diferentes, todos os partidos com assento na Assembleia da Républica, e reforço o significado de todos, desde o governo da Troika ou durante a gerigonça, delapidaram o SNS e retiraram cada vez mais investimento, num sector que necessita não apenas de mais dinheiro, mas de organização, liderança, combate ao desperdício e às ineficiências.

Como é que a direita explica ter ido mais longe do que a Troika exigia na saúde ou como é que e esquerda explica ter retirado e cativado dinheiro ao SNS? E como é que estes dois lados da questão explicam nunca terem feito uma reforma profunda no sector, começando pelos recursos humanos?

Fomos ao fundo com esta pandemia? Ainda não sei, mas sei que a Covid-19, veio demonstrar o quanto não estamos preparados, demonstrando a ineficiência do sistema político actual, digam lá o que disserem e confirmou que os políticos pensam mais na sua carreira, do que nos cidadãos que juraram servir.

A este propósito sabe-se que a Directora-geral da Saúde escocesa demitiu-se, depois de quebrar o isolamento; por cá, sob esta pandemia, políticos com muita responsabilidade mentiram aos portugueses sobre o material disponível para o combate à Covid-19, dirigentes da saúde que induziram a população com afirmações erradas e um jornalismo (quase todo), ao serviço da classe dirigente, verga-se ao politicamente correcto.

Numa publicação do Facebook no dia 7 de Abril, o antigo ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes, fala sobre “a importância de repensar o reforço global dos sistemas de saúde – que é importante ser feita em Portugal.” E de uma forma elegante diz que “As medidas de saúde pública poderão ter condicionamentos de ordem logística, mas nunca deverão ser desvalorizadas para justificar essas razões”. Uma afirmação tão verdadeira que embate de frente contra a verdade actualmente vigente.

Há uma verdade inequívoca que emerge desta pandemia – é importante num país como o nosso, a existência de um serviço público de saúde. Se não houvesse SNS acredito que a situação estaria muito pior. E convém esclarecer que o SNS não é propriedade ideológica da esquerda e o sistema privado de saúde, propriedade ideológica da direita. Esta temática leva-nos à questão sobre o papel que queremos para o Estado, na Saúde.

O Estado não existe como figura corpórea porque ele é composto por todas as instituições criadas e “dirigidas” através dos políticos que elegemos, num país onde a maioria dos portugueses não vota e os políticos eleitos, nada mais fazem do que lamentar a abstenção de forma muito pesarosa.

Ainda que não fosse preciso, este pandemia veio provar que o Estado falha em muita coisa relacionada com a Saúde; e só por isso temos o preço do álcool e das máscaras a serem comercializados 10, 20 ou 30 vezes o seu preço; o Estado falha e é por isso que temos o sistema privado de saúde e de MCDT’s a cobrar demais ao Estado; o Estado falha e é por isso que nem todos os funcionários desse mesmo Estado têm ADSE.

O Estado falha enquanto regulador, enquanto fiscalizador, enquanto promotor e como garante da Saúde dos cidadãos e dos profissionais que trabalham no sector.

A Covid-19 não prova apenas que o SNS faz falta, mas sim um sistema de saúde grátis para toda a população, que funcione em todas as dimensões e em que o modelo de financiamento não tenha de ser obrigatoriamente Beveridgiano.

A Covid-19 prova que sem iniciativa privada não íamos longe, porque o Estado não tem capacidade nem cérebros suficientes para encontrar soluções e que as parcerias com o sector empresarial são o caminho certo. E não digam que, se injectarmos mais dinheiro na investigação, não precisamos do privado. Não estamos na China. É lícito um cidadão investigador, com a coragem de arriscar, querer ganhar mais com o fruto do seu trabalho e não apenas a bolsa que o Estado lhe paga.

O problema da esquerda e da excitação em que estão agora, exponencia a ideia peregrina de que tudo na Saúde deve ser Estado, numa lógica em que um bom enfermeiro vai ganhar tanto como um mau enfermeiro, um bom médico vai ganhar tanto como um mau médico e por vezes são os maus que sobem à categoria superior e nunca, mas nunca são despedidos (a não ser que estejam numa USF e se oponham ao sistema).

Não há avaliação justa e coerente e a meritocracia é como um crime contra o Estado. Estamos há mais de 15 anos na reforma dos CSP e nunca vi avaliar uma unidade, repito avaliar e comparar com outras, quanto mais um profissional. Não, o IDG, os indicadores e a contratualização não servem para isso.

Depois da pandemia o SNS vai ficar ainda mais pobre e com alguns dos seus profissionais, para não dizer todos, cansados, doentes ou em recuperação, sem querer falar de um número, que hoje espero que seja muito pequeno, partiu para não mais voltar. Temos uma oportunidade para, não reformar, mas para construir um novo Sistema (e não serviço) Nacional de Saúde.

Por aqui, no Day After já começamos esta nossa pequena contribuição. O próximo post será sobre a saúde Pública, o que acreditamos ser o ponto de partida.  

Em jeito de reflexão, para acalmar a excitação deixo-vos um pequeno e enorme pensamento:

“Muitos olham para o empresário como o lobo a ser caçado; outros olham para ele como uma vaca a ser ordenhada; poucos são os que o vêem como o cavalo que puxa a carroça.” Winston Churchill

Estamos em Guerra e a história irá julgar-nos, como cidadãos, como empresas, instituições e governo por todas as atitudes e medidas tomadas e sobretudo por todas as que não foram, antes, durante e depois desta guerra contra o Corona vírus.

É sobre isto que vamos falar, passando por temas como

 Estamos em guerra? · Corona vírus. Podemos dizer que fomos apanhados de surpresa? · Guerra pressupõe um inimigo, certo? · Se esse inimigo mata, temos rapidamente de o identificar. Mas como? · O inimigo vai matar, mas vai ferir ainda mais portugueses. Que fazer? · Quem e como combatem os que estão na linha da frente? · E os Cuidados de Saúde Primários? · Se estamos em Guerra, onde está a War Room? · Pensou em Winston Churchill? · E os Serviço de Informações? · Comando Controlo? · Estado de Emergência 1? · Estado de Emergência 2? · Como alimentar a máquina de guerra? · Combatentes sem armas nem munições? · E no Hospital? · Na guerra a verdade é a primeira a morrer? · Depois como fica a verdade? · Nesta guerra ninguém mente? · The Day After

Estamos em guerra?

Esta tem sido a frase mais tenho ouvida a todos os comentadores, especialistas de saúde pública e em particular aos governantes, entre os apelos a ficar em casa e as desastrosas comunicações ao país sobre a evolução da doença.

Sou um cidadão, com uma idade mais perto dos sessenta do que dos cinquenta, tendo a meu cuidado permanente, duas pessoas que fazem parte do grupo de alto risco.  Assistem-me todas as razões para me interessar sobre o que dizem os especialistas em saúde pública e os governantes que lideram este processo; interessa-me muito e devia interessar a todos, porque o futuro, a nossa vida e a dos nossos, depende em muito do que dizem, do que dizem que fazem e do que na realidade fazem.

Há uma ideia que não me sai da cabeça e por isso questiono-me.

Corona vírus. Podemos dizer que fomos apanhados de surpresa?

Estamos em guerra contra um inimigo invisível. Mas ele é assim tão invisível?

Para o cidadão comum sim, mas para quem está à frente dos destinos de um país, no ministério da ciência, da economia ou da saúde, deve estar atento aos sinais e saber antecipar; os serviços de informação devem funcionar, tal como em tempo de guerra, mas fundamentalmente em tempo de paz, altura em que se evitam conflitos.

Não devia ser surpresa, porque desde Janeiro que sabíamos da China, depois Itália e da Espanha. E já histórico de outras ameaças no passado, com outros vírus.

Mas pasmem-se com o Polígrafo; “no dia 18 de Outubro de 2019, dezena e meia de tecnocratas de luxo ao serviço das mais altas esferas do regime neoliberal globalista reuniram-se num hotel de Nova Iorque para realizar “um exercício pandémico de alto nível designado como Event 201. O exercício consistiu na simulação de um surto de um novo coronavírus de âmbito mundial no qual, à medida que os casos e mortes se avolumam, as consequências tornam-se cada vez mais graves’ devido ‘ao crescimento exponencial semana a semana.” E a publicação conclui dizendo que “Os dons proféticos dos expoentes do neoliberalismo são, sem dúvida, admiráveis”.

Disseram Liberais? Já percebi porque é que o nosso governo não ligou nada. (1)

Guerra pressupõe um inimigo, certo?

Se temos um inimigo, temos de o conhecer – o Corona Vírus. Correcto, por isso devemos olhar para os países que ele invadiu, perceber o seu método de ocupação e letalidade. Quem devia fazer isto?

O Ministério da Saúde, a DGS, Direcção Geral de Saúde e os seus conselheiros, como o Conselho Nacional de Saúde e tantos outros especialistas em Saúde Pública que por ali gravitam.  E o que fizeram. Nada?

Pior, porque a DGS literalmente disse que o vírus não chegava a Portugal, não era facilmente transmissível de pessoa para pessoa e alguns especialistas em Saúde Publica afirmaram ser apenas uma gripe.

Mas não é a mesma DGS, a mesma Ministra, o mesmo Ministério, os mesmos especialistas, que agora nos vêm falar de guerra e de combate?

Dirão, a coisa evoluiu.

Se esse inimigo mata, temos rapidamente de o identificar. Mas Como?

Com testes, obviamente, muitos testes, testar, testar, testar. Foi isso que as nossas autoridades fizeram?

Não. Então como combater um inimigo que não vemos e não sabemos onde está?

O Comandante Supremo das Forças Armadas de Portugal, indirectamente diz que não interessa procurar o inimigo, ou seja, o Presidente de Portugal, diz que não vale a pena testar todos os portugueses, porque pode haver falsos negativos ou até gerar uma onde de falsa segurança;  o Presidente, o Governo, a Ministra da Saúde, a DGS e certos especialistas, não assumem os testes como arma fundamental. Incrível esta postura das autoridades.

O Governo de Portugal devia ter ido ao mercado, comprar testes e testar o maior nº possível de portugueses; se não há testes que cheguem, comprem, mas não nos mintam, em campanhas de desinformação, afirmando que não vale a pena testar, usar máscaras, luvas e outros equipamentos de protecção pessoal.

É incrível a irresponsabilidade de quem nos dirige nestes tempos de guerra, recusando seguir a sensatez das medidas de protecção, apenas porque não se prepararam e não reconheceram a ameaça atempadamente; mais do que as recomendações da OMS, vejam os factos da ciência e dos países que estão a ganhar esta guerra. O quadro seguinte não precisa de explicações.

https://www.maskssavelives.org/?fbclid=IwAR2NRLxegkZs5mm2t3RhJXeQhUbToahjfUxNteN3Lejv_YIEQhUjEp9je90

E este filme, dum pequeno país europeu é auto-explicativo.

O inimigo vai matar, mas vai ferir ainda mais portugueses. Que fazer?

Numa guerra, muitas vezes o inimigo não quer matar, mas ferir, porque ferir implica a utilização de meios de retaguarda, envolve mais gente para cuidar, obriga a gastos com meios de saúde, salvamento e transporte; e no fim, os feridos desmoralizam os que combatem e quem vê as consequências. E a moral de um povo cai por terra.

Era preciso desde a primeira hora, criar unidades especificas para tratar estes doentes, isolá-los quando identificados e avaliada a sua gravidade por profissionais habilitados.

Era preciso desde a primeira hora, retirar da zona de combate dos hospitais, quem nada lá estava a fazer, terminar com as consultas e não urgências e levar esses doentes que continuam a precisar de cuidados médicos para outros locais, outros hospitais não Covid-19; depois era preciso desde a primeira hora e por região, por ACES ou zona de influência dos centros hospitalares e com o apoio dos municípios, reservar locais e camas para os doentes feridos pelo corona vírus.

Foi isso que se fez? Não e a região norte é bem o espelho dessa situação, inicialmente uma das mais afectadas. Não houve um real plano de emergência e liderança no processo. Quem tomou decisões, não ouviu os médicos e os enfermeiros que estavam na linha da frente, apesar dos apelos insistentes dos Bastonários.

Doente com Covid-19 confirmado e sintomatologia já preocupante (não defino os critérios médicos para isso) deve ser levado para locais específicos e tratado por equipas especializadas, protegidas e com material de combate adequado; quem não tem Covid-19 deve continuar a ser tratado em hospitais e unidades de saúde, onde não circulem doentes confirmados. Por isso testar a população era e continua a ser fundamental para saber, onde se esconde o inimigo e para não o trazer para dentro das nossas linhas defensivas.

Quem e como combatem os que estão na linha da frente?

Sejamos claros. Ninguém estava preparado para esta guerra.

Não vou falar das nossas Forças Armadas, pequenas e mal equipadas, desmanteladas ao longo dos anos de democracia por sucessivos governos e por racionais de esquerda pouco concordantes com organizações de comando controlo.

As Forças Armadas são compostas por três ramos – Exército, Marinha e Força Aérea; façamos a analogia com os Cuidados de Saúde Primários, Hospitais e Cuidados Continuados/Paliativos.

Tomemos como exemplo o ramo do Exército, com diversas Armas – Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Administração Militar, Engenharia e Transmissões; dentro destas Armas, temos o exército regular, os Comandos e os Rangers, estes últimos designados por tropas especiais. Podia continuar a analogia com o sistema de saúde, mas julgo não ser preciso.

Numa guerra, todos têm a sua função e será óbvio que as operações mais importantes onde é necessário um ataque preciso e letal, sejam efectuadas pelas tropas especiais, mais bem equipadas e preparadas.

Actualmente qualquer militar tem na sua farda, joelhos e cotovelos protegidos, capacete, armas de defesa e ataque, óculos protectores, coletes de protecção, munições… no fundo o que equivaleria nos médicos, enfermeiros e outros técnicos que estão na linha da frente, a fatos de protecção, máscaras, viseiras e luvas, substituídas sempre que necessário, ao longo do dia.

Foi isso que aconteceu nesta guerra, nos nossos hospitais? No início são muitos os relatos que nos dizem que as nossas tropas, os médicos e enfermeiros da linha da frente, foram abandonados, sem liderança, sem equipamentos de protecção, ou seja, sem meios de combate em número suficiente. Mas há quem negue isto e faça dos médicos e enfermeiros, mentirosos.

Alguém treinou os nossos médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde para combater nesta guerra? Não e na verdade a liderança do combate e a aquisição do conhecimento científico, foi feita na comunicação social, nos painelistas, nas redes sociais e na desinformação emanada pela DGS e autoridades de Saúde – o exemplo dos testes, do uso das máscaras e luvas, sobre o ibuprofeno, …

E os Cuidados de Saúde Primários?

Total desorientação nos primeiros tempos. Lembram-se de doentes fechados nas casas de banho?

Recordo o do Dia D, o desembarque na Normandia. Foi uma operação que levou meses a preparar, mas que teve em consideração quase todos os pormenores, menos as vicissitudes do mar e do clima.

Nos CSP temos mais de 10.000 profissionais entre médicos, enfermeiros e outros combatentes. E a verdade foi que estes combatentes foram literalmente abandonados ao destino e à sorte do Corona Vírus, com toda a desinformação, uma linha de apoio que não funcionava e sem orientações precisas, deixando-os abandonados e unicamente assistidos pela circulação de informação em grupos de colegas no WhatsApp.  

O Dia D resultou porque tinha três coisas fundamentais – soldados, equipamento e liderança. Nesta guerra que estamos a travar temos apenas uma coisa – soldados empenhados e que juraram um dia, lutar até ao fim para salvar vidas.

Se estamos em Guerra, onde está a War Room, a Sala de Guerra?

Não está. Onde está a liderança? Não está. Onde está a comunicação? Não está.

Combater numa guerra não é para a população civil, mas para militares, profissionais treinados para agir sob pressão, em teatros de guerra e destruição.

Se estamos num cenário de guerra, então é bom que se assuma que liderar o combate numa guerra não é para políticos sem preparação, em que muitos nunca lideraram equipas, nunca trabalharam sem ser nas fileiras do partido e que chegaram a cargos políticos sem formação em liderança e condução de pessoas em situações de crise.

Nessa Sala de Guerra deve haver médicos, enfermeiros, farmacêuticos e tantos outros profissionais, consoante as necessidades do combate.  

Lembram-se dos fogos em Portugal? Lembram-se de Tancos? Lembram-se do que sucedeu às Forças Armadas em Portugal? Devolveram-nos a liberdade e os políticos portugueses, com medo dos militares, quase que extinguiram as Forças Armadas, sujeitando-os a uma humilhação sem precedentes.

Pensou em Winston Churchill?

E bem, porque ele foi político, mas foi um oficial que combateu na 1ª Grande Guerra.

Sem a capacidade de liderança, nem humildade dos políticos em o reconhecer, não temos uma Sala de Guerra, comandada pelo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, líder das tropas no terreno, em conjunto com o 1º Ministro, líder do governo que suporta a guerra e que se deve preocupar com a recuperação da economia e com o combate político na Europa.

E o Serviço de Informações?

Este serviço é fundamental e deve reunir peritos de medicina, estatística e de saúde pública, entre outros. A ideia é reunir aqui, todo o “state of the art” da pandemia, estar em contacto com o mesmo departamento de outros países e garantir que temos a última informação e capacidade analítica para gerar informação fidedigna para que, na Sala de Guerra, se possa traçar o plano mais eficaz para a pandemia e os combates que se travam em cada região.

Dou como exemplo algo de muito simples – será que em todas as frentes de combate, ou seja, em todos os hospitais, o protocolo utilizado com os doentes é o mesmo, incluindo procedimentos médicos e terapêutica medicamentosa?

É certo que precisamos de ventiladores, mas será que todos os que devem saber, sabem utilizar estes aparelhos? E nas unidades de cuidados intensivos, devemos aumentar as camas, mas temos equipas devidamente treinadas para elas?

Não, este serviço não é a linha de apoio ao médico que o ministério montou, que a maioria das vezes, segundo informação de quem para lá ligava, não funcionava. E pergunto, a esse propósito, o que fez com que a ministra atribuísse um louvor em Diário da Républica?

A critica não tem a ver com os médicos que participaram e foram louvados, mas na atitude da ministra de não louvar os médicos e enfermeiros da linha, não telefónica, mas da linha da frente de combate, um por um. Mais uma vez o discernimento e a liderança em questão.

Comando Controlo?

Todos devem agir sob lógica de comando controlo, um plano traçado para vencer o inimigo. O Comandante das forças, deve estar rodeado da informação correcta que vem do terreno, numa cadeia de comando vertical e silenciosa, onde a imprensa serve o combate que se trava e não faz parte dos que atrapalham o combate, com reportagens idiotas e informação não confirmada, comentada por quem de saúde nada sabe.

Deve conhecer-se as forças no terreno, as necessidades das populações e de forma ímpar, graduar como oficiais que juram obediência ao Comando de Portugal, médicos e enfermeiros civis, os profissionais que trabalham na linha da frente de uma dada região, auxiliados por um oficial militar que responde à cadeia de comando, partilhando a informação correcta e actualizada e não a bagunçada que todos os dias vemos com os números da DGS e do Ministério da Saúde.

Depois, libertem os médicos de família dos CSP para tratar doentes e para isso coloquem-nos a atender doentes e retirem-lhes toda a burocracia e os telefonemas que não sejam de utentes; juntamente aos administrativos de cada unidade e do ACES, juntem militares no apoio a essas funções burocráticas, mas fundamentais.

Isto é impossível, isto atropela a Constituição poderão dizer. Vamos precisar de chegar ao Estado de Sítio para chamar os militares e colocar a hierarquia militar a comandar os destinos do país?

Se perdermos tempo com estas discussões, vamos deixar morrer médicos, enfermeiros e muitos portugueses. Mas depois, não nos venham dizer como se fossemos idiotas, que estamos em guerra, em estado de emergência, mas que não querem agir como tal.

Estado de emergência 1?

É importante continuar em Estado de Emergência, mas é ainda mais importante que ele sirva não apenas para manter as pessoas em casa, mas para conseguir proteger as que mais precisam e os que precisam de trabalhar.

A este propósito da protecção dos mais necessitados, fiquei incrédulo, quando ouvi a ministra dizer sobre os idosos em lares privados ” Estas instituições têm de ter um plano de contingência, que implica que tinham de ter pensado, porque essa informação foi disseminada há dias ou até semanas, como deviam preparar-se para uma situação deste tipo”.

Preparar-se para uma situação deste tipo? A arrogância como foi dito faz-me perguntar se o governo, o ministério e a DGS, não se deviam ter preparado melhor, ter um plano de contingência, que implica que tinham de ter pensado antecipadamente, porque a informação sobre o Corona Vírus foi disseminada desde Janeiro? Incrível a desfaçatez política e ideológica.

Num país idoso, as autoridades acordarem só agora para os lares? Quando se vão lembrar dos Cuidados Continuados e dos Paliativos?

O Estado de Emergência implementa-se para nos proteger da pandemia, mas será que nos protege de quem diz proteger-nos, será que nos protege das políticas erráticas e incoerentes? Recordo apenas que o 1º Ministro e muitos outros, não queriam ir para Estado de Emergência e na votação na Assembleia da República, houve até quem se abstivesse.

Estado de emergência 2?

Continuando na lógica dos políticos coerentes, houve partidos que continuaram a abster-se e outros que mudaram o sentido de voto, da concordância para a abstenção e pasme-se da abstenção para contra. Como é possível, colocar argumentos perante a vida das pessoas, a vida de um país?

Neste Estado de Emergência 2, o 1º Ministro já está a favor e até agravou as medidas. O que o fez mudar? A saúde ou a economia?

Agravar as medidas é a única hipótese de não fazer colapsar o SNS que está muito perto disso e do burnout de quem está na linha da frente. O Presidente no seu discurso mostrou o quadro negro que se avizinha; o discurso do 1º Ministro, do Ministério da Saúde e da DGS, com a conversa da curva em planalto, transmitem uma sensação de que está tudo controlado passando uma sensação de segurança, a meu ver falsa.

Como alimentar a máquina de guerra?

São muitos os exemplos da resistência francesa na 2ª guerra mundial, que dinamitava as linhas de comboio que transportavam munições, gasolina e mantimentos para os soldados alemães que combatiam na Bélgica, no Inverno duro e fatal.

Que fazemos para proteger quem deve assegurar o abastecimento de todas as cadeias de distribuição, os supermercados, as forças de segurança, recolha do lixo…?

Que fazemos para assegurar que as fábricas, os agricultores e todos os que contribuem para a a nossa vida em quarentena, possam trabalhar e saber que as suas famílias estão em segurança?

Já falei dos materiais de protecção e de ventiladores, algo muito falado em toda a comunicação e redes sociais. E os medicamentos?

A grande parte dos medicamentos e dos seus princípios activos, têm origem na produção da China e da India. Com o fecho de fronteiras, com as consequências da pandemia, o transporte via terrestre sofreu uma procura sem precedentes.

Será que o governo e o Infarmed já reuniram com a Apifarma e com a Apogen, para garantir stock suficiente de medicamentos? Falo de antihipertensores, estatinas, anticoagulantes, antidiabéticos e outros medicamentos para a doença crónica?

Já pensarem em abrir uma para garantir que os medicamentos possam chegar a Portugal atempadamente? Acreditamos se nos disserem que sim?

O apelo à via verde foi formulado pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao verificarem-se constrangimentos nas fronteiras europeias. Não façam nada e depois queiram continuar a combater.

Combatentes sem armas nem munições?

Este é um assunto sério. Provavelmente o governo já pediu à Apifarma e à Apogen, através do Infarmed, para as companhias farmacêuticas reforçarem o stock de medicamentos, de forma a que nada falte. E provavelmente assume-se como um Pilatos, lavando as mãos se alguma coisa falhar, para depois apontar o dedo à IF.

Pensem comigo – as fábricas recebem dois pedidos, um para Portugal e outro para a Alemanha; ainda que haja solidariedade europeia, o lote alemão é muito maior do que o português, logo vai primeiro; depois, não têm que fazer embalagens pequenas, de 10 ou 16 comprimidos que nunca se vendem e são destruídas sendo a IF taxada com isso; depois, sim depois, não têm que por uma etiqueta com o preço, coisa única na Europa, só feita em Portugal; depois nos quarteis generais das companhias fazem-se contas para não se despedir pessoas, neste período de crise mundial, o esforço que o governo português pede aos laboratórios ainda será taxado com um imposto especial, para além dos impostos normais que as empresas têm. Então, de novo a pergunta – as fábricas recebem dois pedidos, um para Portugal e outro para a Alemanha. Para onde fabricam primeiro?

Reúnam de verdade com a Apifarma e a Apogen, aproveitem este momento para extinguir alguns dos disparates existentes com a política do medicamento em Portugal e depois exijam à IF o esforço de guerra.

Uma coisa vos digo – se faltarem medicamentos, o governo e a esquerda vão apontar o dedo aos laboratórios e nada será tão falso.

E no hospital?

Pior, se não houver a dita via verde. Na verdade, pelas lei da contratação pública, o hospital adjudica a uma companhia e essa, logisticamente prepara o stock para o fornecimento de um ano; todos os outros concorrentes saem do jogo, porque não vão ter produto, uma vez que perderam o concurso.

Com a dependência da Índia (já em lock out) e da China, se a Europa não tiver esta via verde, arriscamos um colapso a um outro nível, o da falta de medicamentos hospitalares.

Em tempo de guerra, este fornecimento tem de ser assegurado e o governo devia já ter reunido com os representantes das companhias farmacêuticas, não por email, mas na Sala de Guerra e nós, os cidadãos devíamos estar informados dos esforços conjuntos, de forma a ficarmos descansados e acreditar que tudo está a ser feito. Mas se alguma coisa correr mal a este nível, eu sei qual vai ser a verdade que abrirá os telejornais – Indústria Farmacêutica não cumpre com os contratos e é responsável pela falta de medicação hospitalar, ao que a esquerda vai apontar o dedo e clamar castigos.    

Na guerra, a verdade é a primeira a morrer?

Li há poucos dias no DN e cito “no filme Uma Questão de Honra, o personagem interpretado pelo Jack Nicholson grita “tu não sabes lidar com a verdade”. Lembrei-me disso ao ouvir alguns apelos para que se diga sempre a verdade sobre a real situação da pandemia. Isto tem uma razão de ser: quem os faz sabe que há uma enorme probabilidade de isso não acontecer. O crescimento do problema trará também acrescidas dificuldades de comunicação e de julgamento sobre o que será melhor ou não dizer às pessoas. Não poucas vezes as autoridades vão confrontar-se com o dilema de dizer a verdade, omitir ou, pura e simplesmente, mentir.

Por muito que custe, dizer sempre a verdade, nestas circunstâncias, pode não ser o melhor para a comunidade. Convém lembrar que até as mais avançadas democracias liberais prevêem a possibilidade de censura em situações-limite.

A questão é: será que os portugueses vão continuar a conseguir lidar com a verdade de uma forma serena?”

Uma coisa é não dizer tudo, outra é omitir, outra é mentir, outra é dizer disparates. Quando tudo isto se liga à falta de liderança e à politiquice de políticos maus, a pandemia será muito complicada de debelar.

Omitam, mintam, disparatem e um dia destes, os confrontos na rua, de quem viu os seus morrer, de quem não tem trabalho, dinheiro e futuro próximo, vão acontecer.

Depois como fica a verdade?

Será aí que vamos para Estado de Sítio e chamamos a tropa?

Escuto o Presidente da Republica, o 1º Ministro, a Directora da DGS, a  Ministra da Saúde e comentadores arregimentados que, que apesar das mortes e do número de infectados aumentar, não falta material onde é preciso, não faltam testes e os testes não devem ser feitos a todos, as máscaras de protecção não são para usar por todos e o malabarismo dos números são apenas confusões momentâneas ou esquecimentos de última hora.

No último domingo assisti a um célebre comentador da noite televisiva, que tem sempre informação privilegiada, dizer com enfase que está tudo a correr bem e que vão já ser feitos 10.000 testes nos lares de idosos, uma excelente medida. Não é mentira, mas o que diz não contribui para a verdade, porque o que ele devia dizer-nos com a sua informação privilegiada, é porque não se fazem a todos os portugueses e porque só agora os lares de idosos.

Não me pergunto de quem vem a informação privilegiada que tem, mas antes porque vem?

E questiono-me se no fim, quando a pandemia acabar e fizermos as contas às consequências, que vão pensar todos os que julgaram importante não dizer a verdade e contribuir para um estado de obnubilação da realidade?

Nesta guerra, ninguém mente?

Nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém. A frase não é minha, mas do PR, a figura mais elevada da nação e o Comandante Supremo das nossas Forças Armadas. Mas recordo uma promessa que ele fez nos incêndios a um velhote que acabou por falecer sem ver a promessa…

Os números do Covid-19 entre mortos, infectados e em teste são verdadeiros? Não, não são porque não há teste para todos, os testes que são pedidos demoram, os números são desconexos de um dia para o outro, os doentes são dados como curados sem fazerem teste de negatividade; e não digo mais sobre os números e a verdade deles.

O Secretario de Estado da Saúde, afirma que “neste momento não haverá ninguém sem médico de família, garantidamente. Mesmo as faixas mais vulneráveis da população, como migrantes ou refugiados, vão ficar abrangidos por esta situação e todos eles terão direito à sua assistência e ao seu médico de família”.

A sério? Andamos anos para resolver este problema e agora fica resolvido? E querem que se acredite? Ou aumentamos a lista de inscritos por médico e os doentes têm médico, mas não têm consulta?

The Day After

A lógica que muitos utilizam para que primeiro devemos combater o vírus e que sobre as eventuais falhas teremos tempo para falar, no tempo certo, é errada e perigosa. Isto significa que podíamos corrigir a tempo, mas que insistimos em deixar estar pessoas a dirigir os destinos da nossa vida.

Quantas mais pessoas precisam de morrer para que a ideia idiota do politicamente correcto caia de vez? Quando a morte bater na porta de um amigo ou familiar, como vai pensar? E se fosse consigo?

Há quem diga agora que a primeira regra é não embirrarmos uns com os outros. A sério? Então devemos aceitar como carneiros acéfalos, todos os disparates que nos dizem?

Havemos de ouvir os ideólogos do regime actual dizer que Portugal fez um excelente trabalho, dar vivas ao SNS, afirmar que as duas senhoras são heroínas, o que já acontece como ouvi na Sic Notícias, que conseguimos números diferentes do resto da Europa e que afinal a estratégia portuguesa foi um sucesso, admirada por todos na Europa. Mas Portugal também é diferente, está longe de tudo, só tem uma fronteira, estamos em época baixa de turismo, …

A verdade que não morre mesmo, é que estamos longe, muito longe do fim da pandemia e nada abona em nosso favor.

Aprendi que este vírus enganou as autoridades de saúde portuguesas, que se regeram por opiniões de quem menosprezou a evidência, a mesma evidência que depois utilizaram para justificar a desconsideração inicial pelo vírus. Perante a declaração de pandemia, continuaram a assobiar para o lado, na doce esperança de que o vírus não nos contagiasse, nem às pessoas nem à economia. Todos ouvimos as recomendações iniciais do Conselho Nacional de Saúde.  Um desastre completo.

A arrogância política de afirmar que “a meio da batalha, não se mudam os generais”, é a mesma arrogância que leva a despedir por telefone na véspera, um comandante com provas dadas, no meio de uma batalha sem precedentes na história da humanidade.  

E não se despede quem devia, quem não preparou o país. É bom que essas pessoas não precisem de receber um telefonema para sair, mas que saiam pelo seu pé, quanto antes.

É bom que todos nos lembremos disso no Day After, na hora de decidirmos o rumo do país.

O Day After vai definir de que matéria somos feitos. É disso que iremos falar.

 (1)

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/em-outubro-de-2019-realizou-se-um-exercicio-de-simulacao-de-um-surto-de-coronavirus-em-nova-iorque?fbclid=IwAR2NRLxegkZs5mm2t3RhJXeQhUbToahjfUxNteN3Lejv_YIEQhUjEp9je90

A propósito do incidente com o avião da Air Astana nos céus de Lisboa, olhando para a acção dos meios de socorro e em particular dos pilotos dos F-16 de Portugal, fiquei a pensar no que esperamos, dos aviões e dos pilotos – todos nas melhores condições, as aeronaves mais modernas e os pilotos, mais bem preparados e melhor treinados.
A propósito do tema, ouvi alguém dizer que não voa em companhias Low Cost e que prefere as companhias aéreas de bandeira…

Mayday, Mayday, Mayday
O que se passou foi muito grave, um avião desgovernado, uma aeronave cujo os pilotos não tinham forma de a controlar, porque os comandos não obedeciam. O perigo espreitou sobre Lisboa e podia ter acontecido uma enorme catástrofe, sem que ninguém a pudesse evitar. Perante o perigo e o Mayday, repetido três vezes, entraram em acção profissionais experientes e treinados, controladores aéreos, militares da Marinha e da Força Aérea e todos os meios de socorro em terra. Num ápice dois F-16 levantaram de Leiria e em 7 minutos estavam sobre Lisboa, tendo como missão ajudar o avião em perigo. Pode-se consultar as notícias, mas de facto os dois caças foram os olhos e o radar de um avião fora de controlo.
Desta vez, não aconteceu nenhuma catástrofe e ao que parece, é de enaltecer a preparação e o profissionalismo de todos, em particular dos pilotos.

Principal elemento de controlo da aeronave – o piloto
A formação de profissionais ligados à aeronáutica, envolve programas certificados e reconhecidos pelas autoridades competentes, tanto nacionais como internacionais, para melhorar de forma contínua, os níveis de segurança. Como exemplo, a norte-americana FAA, Federal Aviation Administration, exige uma certificação que obedece aos mais altos critérios, estabelecidos com a indústria de aviação e com o público.
Os rigorosos programas de formação já prevêem o uso de simuladores e outras novas tecnologias, às quais os pilotos são submetidos regularmente e só podem voar mediante níveis mínimos de aprovação nessas formações.
À medida que aumenta o número de voos, o número de falhas também tende a aumentar e sendo o erro humano actualmente a principal causa de acidentes ou incidentes, os simuladores e legislação associada na formação de pilotos, contribuem para elevar os padrões de segurança na aeronáutica, já por si muito rigorosos.
A ética de trabalho de algumas companhias, aponta para que não basta ter-se o treino apropriado, mas é também necessário estar psicologicamente apto.
Esta problemática leva-nos ao principal elemento de controlo da aeronave – o piloto. Mesmo com os equipamentos mais modernos e com a tecnologia mais avançada, nada substitui a interpretação e a decisão do homem, sobretudo em cenários imprevistos. O erro do piloto tem de facto um impacto maior e mais mediático, do que o de qualquer outro elemento ligado à aviação.

Como se sentiria ao entrar dentro da aeronave?
Imagine que tem de fazer uma viagem urgente e no embarque, fica a saber que o comandante e o seu co-piloto, ambos com mais de 50 anos, têm alcançado os valores mínimos indispensáveis nos simuladores de voo, para além de que o avião, estacionado na placa tem aspecto sujo e descuidado. Será que tem a manutenção em dia?
A tripulação chegou e reparou que cada tripulante caminhava sozinho e cabisbaixo, com um ar triste e preocupado, parecendo-lhes que estavam em Burnout, tal o cansaço expresso nas caras cerradas. Além do mais, chove e troveja no aeroporto de partida e no de chegada.
Ironicamente, lembra-se que leu num artigo, que o erro piloto/meteorologia representa a terceira causa maior na classe de acidentes aéreos.
Como se sente ao entrar dentro do avião? Já não entrava? Teme pela sua vida?

Enfarte: risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país
Já dentro do avião, (afinal entrou), recebeu das mãos de uma hospedeira, agora sorridente, o jornal Público. Nervoso, desfolhou sem ler e na página 10, o título chamou-o à atenção – Enfarte, risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país. (1)

O texto do jornal afirma que, “Os doentes com enfarte agudo do miocárdio que são tratados em hospitais públicos das regiões de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo ou do Algarve têm um maior risco de mortalidade do que os que são assistidos em unidades do Norte do país. Um risco que chega a ser 30% superior quando se comparam os resultados de milhares de pacientes tratados em hospitais do Sul com os que foram assistidos em unidades do Norte, concluiu a investigadora Mariana Lobo num estudo desenvolvido no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) e que integra a sua tese de doutoramento. São resultados que sugerem que os cuidados de saúde prestados a pacientes que sofreram enfartes agudos de miocárdio não são semelhantes em todo o território nacional e que devem agora ser investigados para se perceber o que está na base desta heterogeneidade”.

Como somos tratados nos Cuidados de Saúde Primários?
Pousou o jornal e ficou a pensar que os cuidados secundários em Portugal não são todos iguais, o que constitui um problema grave e complexo. Se o azar lhe batesse à porta e tivesse de embarcar na doença cardiovascular, o que sentia se fosse levado para um hospital da ARS LVT? Que lhe iria acontecer? Faria parte desses 30%?
Decerto que o enfarte, um enorme expoente da doença cardiovascular, está muito relacionado com os hábitos de vida das pessoas e claro, com a forma como são tratados nos Cuidados de Saúde Primários, ex-libris do SNS, tão famosos por serem a porta de entrada no sistema.
Enquanto o seu pensamento deambulava, o pássaro de ferro aterrou com alguns solavancos, por meio de uma chuva copiosa. Finalmente respirou aliviado quando sentiu que o avião se imobilizou na placa, junto à manga.
A caminho do hotel ligou a um amigo Cardiologista de Coimbra, que em resposta às suas questões sobre a notícia do Jornal e a forma como os portugueses estavam a ser tratados nos CSP, lhe disse que enviava um estudo para poder ler.

Um anexo chamado Dysis
O sonar do smartphone indicou-lhe a recepção de um email que trazia um anexo chamado Dysis, (2), nome de um estudo epidemiológico, realizado em 12 países da Europa, incluindo Portugal.
No nosso país foram recrutados 916 doentes, a maioria, 82,4%, provenientes dos Cuidados de Saúde Primários; 66,7%, apresentava risco elevado de desenvolver complicações cardiovasculares e 30% tinha doença cardiovascular pré-existente. Independentemente do risco, verificou-se que a maioria dos doentes, 73,1%, usava uma dose de estatinas de baixa potência.
Nas conclusões pode ler-se num português cauteloso, que mais de metade dos doentes tinham um elevado risco cardiovascular, mas que, apesar desse risco, os médicos prescreveram-lhes estatinas de baixa potência! Referiu ainda que, será fundamental avaliar as verdadeiras razões para a reduzida eficiência do tratamento com estatinas, “no mundo real” da prática clínica diária, sobretudo tendo em consideração que se trata de uma classe de fármacos com elevada eficácia. E em jeito de conselho, outra vez de forma cuidada, concluem que é importante reavaliar as doses dos medicamentos utilizados, reconsiderando a utilização de uma terapêutica mais intensiva e até combinada.
Quem fez o estudo aconselha os médicos a rever a prática clínica, que parece desajustada, considerando fundamental a reavaliação das estratégias terapêuticas que permitem reduzir a morbilidade e a mortalidade da doença cardiovascular.

Como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros
Se há um conselho para os médicos reverem o que sabem sobre a forma como tratam a doença cardiovascular, surge a pergunta óbvia. Na próxima consulta na USF, questiona-se se aquele ou aquela médica, está por dentro do state of the art? Será que periodicamente faz reciclagem de conhecimentos? É avaliado em simuladores? E quem se responsabiliza por isso? O Ministério? A Ordem dos Médicos?
O que é mais importante para si, o piloto do avião ou o seu médico? Dirão alguns que não se pode comparar. Claro que não…
O incidente da Air Astana sobre Lisboa fez-me pensar em segurança e como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros.
As companhias aéreas, trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todos os funcionários sabem disso antes de se candidatarem e não ficam surpresos quando são chamados para trabalhar nos fins de semana ou nos feriados. Já os hospitais, as USF’s ou UCSP, trabalham de forma diferente nos fins de semana. Muitos médicos e outros profissionais trabalham apenas durante a semana. E isto, não é um erro do nosso sistema de saúde?

A comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros?
A Federal Aviation Administration, FAA exige que todas as companhias aéreas dos EUA estudem os incidentes ou acidentes de aviação – não importando qual companhia aérea esteja envolvida, para que todos possam aprender com os aspectos positivos e negativos de cada acidente aéreo. As companhias aéreas devem estar no caminho certo, porque os acidentes aéreos são extremamente raros.
E a comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros? Ou não há erros? Como aprende com os estudos, como o Dysis? E como se põe em prática, os novos conhecimentos? Já se questionou sobre isso?
Só há erro médico nos hospitais e nas cirurgias? E nos CSP? Como é abordada a Doença Crónica, a Doença Cardiovascular? Será que os indicadores de contratualização reflectem o viver dos portugueses?

A ciência do incerto e a arte da probabilidade
O Professor José Fragata em 2014, escreve com o Dr. Luís Martins, o Erro Médico em Medicina, editado pela Almedina. Diz o autor que “O exercício da Medicina, outrora baseado na tradicional relação hipocrática médico-doente, evoluiu para a prestação de cuidados de Saúde exercida por seres humanos, naturalmente falíveis, mas operando hoje no seio de organizações complexas e com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Esta mudança associada à natureza marcadamente incerta da biologia do Homem doente, cria um enorme potencial para a ocorrência de erros. A Medicina Clínica é hoje, mais do que nunca, a “ciência do incerto e a arte da probabilidade” Osler.
O autor afirma que os Erros da Medicina, são a ponte de um enorme iceberg oculto, referindo ainda os conflitos éticos em torno do Erro e ainda, o tratamento jurídico que deverá ser dado ao Erro Médico, na sua distinção fundamental com a negligência.
E tal como as companhias aéreas, “a fiabilidade e a qualidade de uma organização médica residem fundamentalmente no modo como sabe lidar com os seus erros, minimizando as suas consequências e aprendendo a preveni-los.”

Quem queria para piloto?
Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor?
Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?
Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…

José Ribeiro

(1) – https://www.publico.pt/2018/10/08/sociedade/noticia/doentes-com-enfarte-tem-maior-risco-de-morte-se-forem-tratadas-em-hospitais-do-sul-1846497
(2) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21425743

Os tempos mudam, mas há coisas que parecem não mudar. Estou farto da discussão de ter ou não médico de família, de quantos utentes cada médico deve ter e de estar meses à espera de uma consulta da clínica geral ou de outra especialidade.
Que acesso à saúde queremos? Vivemos em que século? Afinal de contas a tecnologia é apenas uma coisa para colocar nos planos que se fazem que nem servem para inglês ver ou podemos efectivamente ajudar as pessoas com o melhor da tecnologia?
Por mim, começava por acabar com as USF’s e com Médicos de Família, de uma vez por todas.

É usual dizer-se que um Hospital é como um Porta-Aviões. E sou quase levado a concordar com esta afirmação. Mas quando penso melhor, a única coisa comparável é a grandeza, quer em dimensão quer em recursos humanos – o maior barco na frota naval e o maior centro de cuidados num sistema de saúde. Depois, um Hospital é tão diferente de um Porta-Aviões. Mas, reside na nossa cabeça o sonho de queremos que o hospital fosse um porta aviões. Será mesmo assim?

Leva uns 7 minutos a ler.

Retomamos o tema do “Serviço  Nacional de Saúde” (SNS) que, no fundo, é sempre a base para muitas das nossas discussões.

Sendo que, o primeiro artigo, publicado no final de Setembro, incidia, de uma forma geral, sobre a estrutura e a dinâmica do SNS, este segundo pretende, agora, especificar um ou outro aspecto que considero mais importante.

No Reino Unido, ao contrário dos países do centro da Europa, os impostos financiam um serviço nacional de saúde, com uma prestação maioritariamente pública e, esta forma de captar recursos, influenciou países como Portugal e Espanha.

Em conjunto, lê-se mais rápido.

O conhecimento progride e, de uma forma geral, nunca imprime o erro no que lhe precedeu. O que ocorre e, isto sim é certo, é uma actualização do conhecimento passado. O que era, passa a ser um pouco melhor; mais eficaz; mais rentável.

           O conceito de “equipas multidisciplinares” implica um certo desprendimento de posições conservadoras. Mas, isto não significa que a moderna visão dos cuidados de saúde, se manifeste reaccionária à anterior.

Lê-se em 5 minutos

 

Uma das metas de todos os governos tem sido providenciar Médico de Família (MF) a todos os portugueses (naturalmente excluindo todos aqueles que não o desejam).

Actualmente, segundo o portal do SNS, faltam 539 MF a nível nacional, sendo que o maior problema se encontra na ARS LVT.

Para que se possa olhar para este problema de uma forma global interessa também reter que segundo o mesmo portal, até 2020 aposentar-se-ão 1220 MF e o nº de Internos de MGF será, no mesmo período, de 2148.

Fazendo as contas por ano, facilmente se conclui que só em 2018 a balança ficará equilibrada, isto é, o nº de internos será suficiente para ultrapassar o défice actual de 539 MF ao qual se junta o nº de médicos que se aposentarão (este cenário poderá alterar-se se outras medidas adicionais forem tomadas).

Lê-se em 6 minutos.

Caríssimo bastonário da Ordem dos Médicos,

         Prof. Dr. José Manuel Silva,

            Obrigado pelo seu texto de opinião acerca da Linha de Saúde24.

            Sou um estudante da Licenciatura em Enfermagem e tenho muito a aprender consigo. Mas, pelo que referiu no seu texto, tenho algo a dizer, dado que usei já, pelo menos uma vez, a Saúde24. Vi-me, assim, intimidado com o seu texto, ao sugerir o “fim tranquilo” deste recurso.

            Passo a explicar a minha indignação.

Lê-se em 5 minutos

 

China. 500 a.C.

Um experiente general, de seu nome Sun Tzu, ao serviço do seu rei, no fim de mais uma batalha ganha, olha para o seu exército, provavelmente muito semelhante ao que podemos observar pelos exemplares de terracota que hoje admiramos e começa a escrever um livro que mudaria a forma como ainda hoje olhamos para a guerra. Não seria fácil a escrita em papiro, mas a sua vontade e resiliência, permitiu que a sua sabedoria e experiência se tornassem no seu maior legado que viria a tornar-se uma fonte de inspiração para militares e imagine-se para milhares de pessoas e empresas que veem nesta obra uma fonte de ensinamentos de estratégia para a guerra, seja ela militar ou comercial.

Por exemplo, a sua leitura tornou-se obrigatória para os militares chineses para passar nos exames necessários para nomeação imperial a posições militares e mais recentemente, nos Estados Unidos, após a guerra Vietnam, todos os oficiais eram obrigados a fazer uma apresentação sobre esta obra (in Wikipédia).

Mas o que tem afinal “A Arte da Guerra”(1) de tão importante e que levou já milhões de pessoas a lê-lo e a seguir os seus ensinamentos?

A resposta está na própria capa do livro: “Mais de 2.000 anos de estratégia aplicados à empresa”.

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