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jose ribeiro

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Espelho meu diz-me quem sou eu?

Acabou o teletrabalho e já pode sair. Finalmente! Sorri para o espelho, ajeita a gravata, mas de repente o cérebro prega-lhe uma partida. Que EU está ali reflectido? Um DIM? É isso mesmo que quer ser? Não saia já daqui, pare para pensar um pouco, no que vai dizer ao homem que vê reflectido no espelho.

A pandemia veio por a nu algumas fragilidades do sector da informação médica, na forma como interage com o seu cliente. O sempre desconhecido “carry over”, de braço dado com as perdas em vendas, podem levar as companhias a traçar cenários num futuro próximo, em que o nº de DIM’s seja reduzido e até dispensadas outras funções ou instalações, que o teletrabalho demonstrou serem supérfluos. Então, que vai dizer ao homem do espelho, que garantias lhe dá que é dos melhores ou até mesmo o melhor DIM e que vai continuar?

“Quando conseguir tudo que quer na luta pela vida e o mundo fizer de si rei por um dia, procure um espelho, … (1)

Todos sem excepção quando olham a imagem reflectida num espelho acabam por pensar serem os melhores, por vezes injustiçados pelo sistema ou até pouco bafejados pela sorte, como aquele nosso colega ou amigo.

… olhe para si mesmo e ouça o que aquele homem tem a dizer” (1), porque é bom que saiba que pode contornar a verdade ou omitir, mas isso de nada lhe vai servir, porque o homem reflectido no espelho, sabe tudo a seu respeito, o que pensa e faz, os seus desejos e ambições, as fraquezas e desilusões. Até sabe o DIM que é, o que na verdade faz, o que devia fazer e talvez não faça. E não acredite que tudo vai ficar bem, como é usual dizer hoje, porque o futuro não é apenas fruto do acaso.

Onde vai estar quando o amanhã chegar? Qual vai ser o veredicto que lhe vai calhar, se alguém, por força das consequências da pandemia, tiver de escolher?

O veredicto mais importante na sua vida será o do homem que o olha do espelho. Alguns podem julgá-lo modelo, considerá-lo um ser maravilhoso, mas ele dirá que você é apenas um impostor, se não puder fitá-lo dentro dos olhos. (1) e dizer-lhe a verdade que nem sempre quer ouvir. Deve aprender a ser o seu maior crítico e perceber que não deve continuar a ser o DIM que foi até aqui, porque tudo mudou e decerto não voltará a ser como antes.

A propósito disso, se é um DIM com mais de 3 anos num território, continue a olhar para o espelho e responda a este questionário, simples e objectivo, que o homem do espelho lhe faz. Mas não se esqueça de o fitar nos olhos quando responder.

Calculou a sua pontuação? Confira a sua média com a minha opinião e a que recolhi de alguns profissionais da IF; disseram-me que se um DIM não soubesse responder para 5 em todas as questões, mais valia sair.

Mas eu vendo muitas embalagens, diz você ao homem do espelho; mas nem sabes onde, nem porquê, responde-lhe ele naquele silêncio que o irrita. E o homem do espelho continua – sais de casa todos os dias para cumprir as marcações, numa rotina de atingir a média de visita, sem a preparar ou olhar para o que fizeste na última vez que lá foste.

Diz-me, há quanto tempo não sentes borboletas na barriga quando sais de uma visita porque sabes que vendeste uma solução para a saúde de alguém e não papagueaste uma espécie de texto de visita, que nem sabes de cor? Tens de mudar a tua postura, senão mudam-te, vaticinou o reflexo.

Há vontade para mudar?

Esta é a pergunta que deve fazer – há vontade para mudar e está à vontade para o fazer? Está na hora de fazer do seu reflexo, o profissional que ambiciona ser e que nas perguntas anteriores, responderia para 5 em todas. Há um conhecimento dentro de si que vai ajudar a sua vontade de mudar.

Ninguém melhor do que você conhece o seu cliente e por isso é tempo de fazer alguma coisa com esse conhecimento. Consegue perceber porque julga que determinados médicos são os seus melhores clientes? Sabe definir os critérios que fazem deles os principais a visitar? E esses critérios são válidos, comprovados ou apenas fruto do “achismo”, esse comportamento tão português? Vá, remexa lá no conhecimento que tem, meta as mãos na massa e peça ajuda ao crítico homem do espelho.

Meter as mãos no conhecimento, é segmentar

A segmentação é o cérebro do Marketing.  O conhecimento que um DIM tem do seu painel, é uma mina de ouro e diamantes, que necessita de ser cavada e, entre o falso ouro e o falso diamante, encontrar as gemas únicas e as pepitas mais valiosas. Isto significa que nem todos os médicos são para serem visitados e de uma vez por todas, perceber que segmentar significa escolher com critérios que nada têm de emocional ou relacional, mas sim critérios mensuráveis e possíveis de evoluir.

É provável que do seu painel de 250 a 300 médicos, considere que apenas 1/5 sejam os clínicos com que se deve preocupar. Porquê apenas 1/5? De todo os processos de segmentação em que participei, com critérios que afastam a relação e perfeitamente mensuráveis, este valor tem sido uma constante, diria um padrão.

A segmentação é uma mina

Onde começa a segmentação? Começa em si, porque o DIM devia ser a única fonte de informação fiável sobre o cliente. Diga lá ao homem do espelho o que sabe sobre o Dr. José Antunes, que vai visitar hoje?  E você diz-lhe que “ele é meu amigo, já o conheço há muito anos, é do Sporting, recebe sempre bem, mas no fim da consulta, simpático, concorda sempre comigo e acho que prescreve os meus produtos, não todos, mas pelo menos dois …” e o homem do espelho dá um salto e interrompe-te.

– Eu não quero saber disso, o que quero saber é o tipo de doente que tem, o que faz com ele, como o controla e o porquê das suas opções terapêuticas; quero que perguntes quais as dificuldades que tem no seu dia-a-dia e quais os doentes que o deixam em maior cuidado, …  e não me respondas que não sabes, porque andas na zona há muito tempo e pouco ou mais vendes do que o ano passado, num médico que dizes ser teu amigo. Estás dentro da mina e só vês o ouro dos tolos e diamantes que são apenas de quartzo rosa.

Os diamantes são raros, mas eternos

Segmentar significa procurar e encontrar diamantes ou ouro entre a quantidade enorme de pedras e terra que se encontra na mina. É difícil encontrar uma pedra, por vezes envolta em terra e ver nela um diamante, investir tempo e usar a técnica certa para a lapidar e torná-la uma jóia que dura para sempre.

Esse é o trabalho de um DIM e não o que a maioria faz, debitando visitas a todos os médicos e cumprindo marcações, sabendo que as vendas vão surgir, ou porque espera que o seu espelho venda, ou porque sendo especialista não se consegue saber as vendas no trabalho num hospital, que debita doentes para toda uma região.

Vai insurgir-se contra isto? O homem do espelho sabe que é muitas vezes assim e já cá andamos todos há muito tempo. Não engane o seu reflexo, porque ele é o único que vai ficar sempre consigo, que sabe tudo de si, que quer que mude, que evolua. Amanhã quando entrar na mina saiba o que fazer, se vale a pena continuar a explorá-la e não tenha medo de a abandonar se for preciso, apenas porque um dia lá muito atrás, encontrou umas pequenas pepitas.

As minas não são todas iguais

Qual o efeito que uma mina tem nos diamantes e no ouro que por lá se formam? O que sabe da USF ou da UCSP, onde vai visitar os médicos? Que sabe da população que ela serve e qual a importância de saber os resultados dos indicadores de contratualização, o IDG da unidade? O que é o IDG? Pois, diz-lhe o homem do espelho.

A qualidade do ouro e das pedras preciosas, é diferente de continente para continente e as suas origens, Africa, América do Sul, Ásia ou Europa, determinam o seu valor. Porventura julga que uma USF ou UCSP, se estiver na ARS do Norte, tem o mesmo valor, quando comparada com uma da ARS do Centro ou uma da ARS LVT?

Que interessa isso se você só visita médicos? E é aqui que o homem do espelho se exalta e lhe diz – Tu podes continuar a querer ser DIM e deixares a tua vida nas mãos da sorte, mas eu quero evoluir, continuar a trabalhar e por isso vais ter de mudar.

Evoluir é mudar para não ser mudado

Será previsível que no Day After, fruto da pandemia, as companhias percebam que nem todos os médicos devem ser visitados e que por isso o nº de DIM’s possa ser reduzido e as suas competências alteradas? O que vai fazer para poder evoluir e a companhia poder contar consigo?

A questão não está em acabar com o F2F e substituí-lo pelo D2F, porque isso não vai acontecer sempre que houver inovação; a questão não está em substituir o DIM por um Call Center de Visitas Médicas Virtuais, porque isso o médico não vai querer. A questão está mesmo como é que consegue transformar o F2F no S2S, side to side? Está preparado para acabar com o DIM que há dentro de si? O homem do espelho diz que sim…

Quer ser DIM ou TIM?

Como pode escolher se não sabe o que é um TIM, um Territory Integration Manager? Não é só mais um nome pomposo para colocar no cartão de visita? Não, não é. Ser TIM é um estado de espírito, alguém cujo o trabalho vai além do horário das 9 às 18 horas; é alguém que deve compreender todo o mercado farmacêutico, ser profundamente culto nas políticas de saúde e na organização do SNS, ter a capacidade de num território catalisar todos os DIM’s numa única visão e num sonho que se pode alcançar.

Não, não é um Area Manager, mas alguém que vai trabalhar com o Area Manager e os colegas DIM’s, porque uns nascem para ser DIM’s, outros não se contentam com o presente, querem construir o futuro, ser TIM.

Como sei que posso ser TIM?

Não sabe e penso que este conceito deve ser assumido por quem o queira desenvolver e pensar que esta pode ser a evolução normal para a carreira de um DIM, face aos desafios do mercado, à confusão gerada pela pandemia, pelo explodir do digital e obviamente pela evolução que a prestação de cuidados de saúde vai ter e por aquilo em que o médico se vai tornar face à IF.

Como saber se pode ser TIM? No quadro abaixo algumas das perguntas que eu faria, para seleccionar que DIM’s poderiam evoluir para TIM. Quantos “sim” tem?

Não há TIM se as companhias e quem as dirige não aceitarem esta evolução e tal como algumas têm MSL’s, acredito que haverá quem vá implementar o conceito, com este ou com outro nome. Essa será uma responsabilidade da companhia e algumas sabem ter uma responsabilidade social importante, sabendo que o Dim clássico já em pouco ou nada contribui para o aumento dessa responsabilidade. Como pode o TIM contribuir?

RSS, Responsabilidade Social em Saúde

Mais uma sigla pomposa? Não, antes uma forma de encarar o papel de uma companhia farmacêutica no Day After, onde para além da mortalidade Covid, houve um claro aumento da mortalidade não Covid.

O contributo da IF para a sociedade já é enorme e só apenas quem está contra pode focar-se nos lucros da empresa e nunca no contributo que vai muito para além da poupança de vidas humanas. O papel de um TIM é integrar esta Responsabilidade Social em Saúde, ao nível de uma região e com a restante equipa de DIM’s e com os médicos mais importantes, criar soluções que se reflictam em propostas de valor que aumentam a vida de todos os cidadãos que sofrem de uma doença.

Ser TIM não é apenas a evolução do Dim, é actuar como consultor, facilitador, comunicador, gestor de projectos de saúde no território, um construtor de pontes que planeia, S2S com o médico, soluções que entregam valor a todos. Uns nascem para DIM’s, outros para TIM. Quer ser DIM ou TIM? O homem do espelho sorri…

(1) O Homem do Espelho, poema de Dale Winbrow

A lógica aplicada ao DIM de MFAM, pode ser aplicada ao Dim especialista

É possível vender MSRM sem o DIM?

A pergunta que anda na cabeça de todos os Delegados de Informação Médica é a mesma – Quando poderão voltar a visitar médicos nas USF, UCSP e nos Hospitais? Junho, Julho, Setembro, Janeiro de 2021? Ou nunca mais? Não há resposta previsível e esta não deve ser a pergunta a fazer; o que importa saber é como me devo preparar para a panDIMia que vem aí?

Uma USF não é a Alameda D. Afonso Henriques no 1º de Maio

É expectável que o mercado não vá abrir tão depressa e quando acontecer, não será igual ao que era dantes. Com tantas dúvidas que ainda existem sobre a Covid-19, não sei qual a forma como as unidades de saúde vão receber o DIM – entrando por uma porta lateral, numa sala dos fundos, com capacidade para o distanciamento aconselhado? Que papel o medo vai ter nestas relações entre a IF e o Médico? Todos vão querer retomar?

Quando penso no amanhã, vejo este governo liderado por uma esquerda anti IF, poder aproveitar a pandemia, para afastar de vez os DIM’s, sem ir contra a lei, aproveitando-a, alegando segurança, que uma USF não tem a possibilidade de distanciamento como teve a Alameda D. Afonso Henriques no 1º de Maio; por isso será aconselhável não haver a entrada de DIM’s. Percepciona-se assim, que a actividade da IF não será vital para a retoma da economia. E aproxima-se uma pandemia.

Em caso de crise

Será demasiada ingenuidade pensar que nada se alterará. É importante ter consciência que voltou a acontecer – um meteorito chocou contra a Terra. Não serão os mais fortes, os que têm mais anos de mercado, que conhecem muitos médicos ou até que têm mais vendas, que vão sobreviver, mas os que de forma mais rápida consigam adaptar-se a uma nova e para já, desconhecida realidade.

É bom que os DIM’s, os Area Managers e os Product Managers, não tenham apenas consciência do meteorito, mas que iniciem a transformação necessária, conscientes que não existe nenhum manual para seguir as instruções “em caso de crise”.

Começamos agora a escrever esse manual, como aqui neste espaço onde lanço a discussão e desafio quem quiser pensar por bem e não apenas para vir dizer que o F2F (Face to Face) é muito importante, que o DIM faz toda a diferença, que os médicos precisam da IF e mais um conjunto de frases que levantam o gáudio de todos, mas que são apenas intenções, desprovidas de soluções. É bom que tenham consciência que algo está a acontecer à frente de todos e que é necessário agir e transformar. Transformar para o D2F (Digital to Face) ouve-se por aí, entre o medo que o F2F acabe. É claro que o F2F vai acabar como o conhecemos, mas o D2F é a solução?

D2F a solução ou uma selva descontrolada?

Não devemos confundir e-commerce ou e-pharmacy, com D2F, a visita médica remota, a solução que se ergueu com a pandemia. Agora vai ser tudo digital. Mas quanto tempo acham que o médico tem disponível?

O D2F era solução quando poucos o faziam e agora é apenas ruído, porque de repente o médico vai receber n convites para remote detail, emails marketing, webinars, digital sem regras, controlo ou marcação. O médico, que antes do Covid-19 recebia 3 DIM’s por dia, muitos emails, poucos webinars, nenhuma visita remota, tem agora, logo às 9.00 da manhã o telefone a tocar, onde decerto mais de 50 DIM’s ligam para agendar ou fazer um D2F; deixando o telefone no bolso e tirando o som, abre o email e o spam está cheio; recebe dezenas ou centenas de emails de DIM’s a quem deu o consentimento de GDPR, aumentam a indisposição e a sensação de viver numa selva digital descontrolada. A paciência vai estourar e o D2F passa a ser o D2F***. Mas então, qual a solução? Um novo paradigma de vendas?

É possível vender medicamentos sem o DIM?

Não há um novo paradigma de vendas, porque o modelo é o mesmo – vender, na lógica de vendedor e cliente, frente a frente, a não ser que queiram que o médico compre, via email ou catálogo digital.

A pergunta que deve ser feita – é possível vender medicamentos sem o DIM? Já sei que vou ser insultado, mas conservem os insultos no frigorífico e pensem um pouco. Vejam as vendas de Março, Abril e Maio e considerem que a partir de 11 de Março, não houve mais visitas médicas. Como ficaram as vendas, em particular dos medicamentos para a doença crónica? Março foi anómalo pelas razões que todos sabemos. Mas Abril? E Maio?

Vejam em valor sell out, em ytd e o mat; já agora espreitem as classes, B01F – Inibidores Factor Xa, A10C – Insulinas humanas e análogos, A10P – Antidiabéticos inibidores SGLT2, R03F – Associações de agonistas-B2 e corticosteróides, C10C – Associações entre reguladores de lípidos e A10S – Agonista do GLP-1, entre outras. Todas estas classes continuam a crescer, no mat e ytd a 2 dígitos e no mês crescem a um dígito; estas 6 classes facturam mais de 430 milhões, somam um market share de 15%, salvam vidas a milhões de portugueses e poupam milhões de euros ao SNS.

Mas o mercado em Maio, semana a semana, começa a cair, o que é obvio, porque desde Março que tem menos consultas, menos urgências, menos médicos, unidades fechadas, medicina privada fechada. Mas então, é possível vender medicamentos sem o DIM?

O Carry Over dói sempre

Claro que é possível vender sem DIM. Todos sabemos isso e não confundamos com ser possível lançar produtos sem o DIM. Conhecemos o efeito Carry Over?

Na verdade, o que o Carry Over reflecte, é o nível de lealdade na prescrição, gerada pela promoção directa ao médico. Óbvio que o Carry Over depende das condições de mercado, das áreas terapêuticas, do ciclo de vida do produto, da diferenciação, da competitividade, entre outros factores. As vendas no ano seguinte são um mix da promoção e um bom pedaço de Carry Over, conforme podemos ver na figura.

O que se define por promoção? Antes ou depois do confinamento? Assistimos a um aumento do canal digital, emails, webinars e outros tantas formas e por último, a visita médica remota, que no geral, o DIM não gosta. Como não gostar da única forma onde em confinamento, o DIM tem intervenção, devendo usar todos as skills que não tem?

Falar no Teams ou no Zoom, não é o mesmo que no F2F. O DIM foi formado para o F2F, para a venda no contacto visual. Agora em casa, fora da zona de conforto, sob pressão e desajustado, tem de fazer o que sempre fez, ou seja, o maior número possível de visitas, para a média ser boa, porque uma boa média vende…

Call center? Não, DIM Center

Foi há dias que me enviaram para o meu WhatsApp este anúncio, não sem uns certos dizeres críticos, que reflecte a realidade, goste-se ou não. Claro que vão dizer que não é a mesma coisa, que a visita médica deve ser presencial, bla, bla, bla, …

Assim feita, a Informação Médica remota é um erro, porque pretende fazer o mesmo que foi feito com a visita médica F2F há dez anos, com equipas em espelho de vidros triplos e 300 DIM’s, onde o que contava era o número de visitas, o Share of Voice.

Share of Voice? Share of Time ou Share of Quality?

Todos dirão, Share of Quality, mas com a visita médica remota isso é possível? E se vos disser que o tempo de visita no Médico de Família, de 3 a 5 minutos, pode passar a uma média 60 minutos? Ou se vos disser que a Visita Médica Remota em tempo de pandemia, não será menos de 30 minutos e muitas vezes ultrapassa os 45 minutos? Consideram impossível?

Não é, e já se faz. Começa-se por não acreditar, derrubam-se barreiras internas, assumem-se novos conhecimentos, deita-se para trás o que sempre se fez e concentra-se todo o trabalho no conhecimento, na preparação e no problema do médico. E de repente o Share of Voice torna-se obsoleto, o Share of Time torna-se um ganho natural, porque exponencia-se o Share of Quality. Há um novo paradigma, não das vendas, mas na forma de trabalhar.

Um novo Paradigma de Job Profile

Esta é a realidade que foi acelerada com a pandemia. Depois do confinamento e do teletrabalho, o Profile do DIM vai ter de mudar, porque a forma de trabalhar do seu cliente, alterou-se profundamente. A distância passou a ser a sala de visita e a comunicação não presencial uma consequência. No confinamento, o horário de trabalho do DIM tornou-se um pesadelo e estar on-line em frente a uma câmara, a nova normalidade. Deixa de precisar do carro, perder tempo no trânsito, preocupação com o estacionamento, …

Com o confinamento e os resultados das vendas sem visita médica, tornou-se mais evidente o efeito do Carry Over, pelo que a pergunta que se coloca, é se é necessário F2F em todos os médicos. Sacrilégio? Não ou então todos os que fazem do marketing a sua forma de vida, renegam a segmentação e o profiling.

O Profile do DIM deve evoluir, para um profissional com o conhecimento amplo e concreto, capaz de alimentar um pensamento analítico, focado na resolução dos problemas do médico e da unidade de saúde, exímio na gestão do F2F com o D2F e com um horário de trabalho adaptável ao cliente, capaz de estar ao seu lado. Estranho?

Deitem fora o F2F e D2F

O confinamento veio provar que os desígnios da comunicação de vendas não se alteraram, mas os canais usados e a atenção necessária sim. Qualquer médico ouve e fala o tempo necessário, com algo emocional, racional e atractivo no campo da ciência o do seu trabalho.

Deitem fora o velho F2F dos textos de visita que poucos falam, atirem para o lixo o D2F medido em quantidade de emails enviados, abertos e lidos; em número de presenças nos webinars ou até dos poucos minutos que demora uma visita virtual. Se quero dizer que não deve haver F2F ou D2F? Não, não é isso que digo.

Há um diálogo atribuído a Hemingway, que parece resumir bem os desafios do futuro que virão depois desta guerra, no day After.

– Quem estará nas trincheiras ao teu lado?

– E isso importa?

– Mais do que a própria guerra.

Concentrem-se no S2S

O médico trava diariamente uma guerra contra a doença e nesse combate qual é o papel do DIM? Dizer-lhe que a melhor arma é esta, que deve apontar para aquele alvo, que usa uma arma errada e fraca, que falha constantemente o alvo, …

Isto é o que o médico está habituado, quer seja no F2F ou no D2F. Deitem fora estes velhos conceitos e concentrem-se no Side to Side, S2S; fiquem ao lado do médico, na trincheira onde ele combate a doença; saibam o que ele precisa, antecipem, percebam onde está o inimigo ajudem a derrubar as barreiras que ele enfrenta e ide para além do produto que promovem. É possível?

Claro que é e já alguns, muitos poucos mesmo, o fazem com sucesso. Conseguiram posicionar-se ao lado do médico, sabendo que vai haver uma altura em que a ajuda será para recarregar a arma com que o médico dispara. Se vai haver lugar para todos os DIM’s e para todos os médicos? Não…

Com que mentalidade voltam no Day After?

A maior ameaça para o futuro do DIM, é o próprio, o clássico delegado que fica preso à ideia que sem ele não se vende ou não se podem lançar novos medicamentos, que a relação e o contacto com os médicos é tudo, para além do tempo na zona. Estes conceitos verdade nalguns casos, podem constituir barreiras à evolução profissional e da relação com o médico.

O confinamento trouxe teletrabalho, formação à distância e actividades que tornam o DIM desejoso de voltar ao terreno; essa é a pergunta que todos fazem. Quando voltam? Ninguém sabe e não vale a pena continuarem a fazer a mesma pergunta. O que devem questionar é com que mentalidade voltam, o que aprenderam durante o confinamento e o que vão mudar na forma de trabalhar, porque o local onde trabalhavam, mudou.

A panDIMia vai continuar?

Mudar significa ser possível vender MSRM sem o DIM? Não se iludam, porque é possível. A panDIMia vai continuar e o mais provável é não haver lugar para todos, ao lado do médico, no S2S. Se o foco for apenas o F2F e o D2F, mais cedo ou mais tarde, serão atingidos pela panDIMia.

Não, a responsabilidade não reside na companhia, mas em cada um, na forma como enfrentam as dificuldades, como se preparam para o Day After, como segmentam os vossos clientes, como adquirem uma network, não de amigos mas de médicos que sabem ter-vos ao seu lado, Side to Side, a enfrentar o futuro, num F2F que deve renovar-se.

Escolham, digam mal do que por aqui se falou e vejam outros enquanto falam, ficarem ao lado do médico; ou então pensem como vão mudar a atitude. Jack Sparrow, famoso capitão pirata vaticinou que o problema não é o problema; o problema é a tua atitude em relação ao problema.

Por aqui voltaremos ao tema da segmentação da network e da forma como se faz S2S. Até lá fiquem em casa, seguros, mas activos.

Abriu-se a Caixa de Pandora para as Farmácias e para os Farmacêuticos. A pandemia veio acelerar o futuro deste sector e dos seus profissionais. Os CTT, os Bombêuticos, a Glovo e algumas farmácias, levam os medicamentos a casa do cidadão e desta forma, a ida à farmácia deixa de fazer sentido. Já sei, dir-me-ão, foi por causa do estado de emergência e que agora tudo vai voltar ao normal. Mas será mesmo assim?

Será que ainda quero ir à farmácia?

As farmácias on-line e a experiência retirada do estado de emergência com entregas ao domicílio via parceria CTT e ANF, são a prova que é possível entregar medicamentos ao doente sem a presença do farmacêutico. A maior parte do negócio da farmácia está no medicamento de prescrição, no doente crónico. Com a renovação electrónica da receita, na maioria dos casos pouco há a dizer que acrescente algum valor ao doente. A ANF ao implementar esta solução, decerto pensou no Day After, nas consequências. Com a entrega ao domicílio, será que ainda quero ir à farmácia?

A farmácia é um negócio

A justificação que o Farmacêutico está lá para ajudar o cidadão, esclarecendo dúvidas, porque é o primeiro profissional a quem o cidadão se dirige, inserido numa rede capilar que pode ajudar e contribuir para a Saúde em Portugal, já não serve como resposta.

A farmácia é um negócio e o cidadão paga o que compra, pelo que vai querer o serviço adaptado às suas necessidades, como o fez durante o confinamento. O que o cliente quer não é o mais importante? A farmácia não é um negócio?

João Gregório, farmacêutico, na sua dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Saúde, diz que “…o farmacêutico comunitário vive num dilema entre o negócio e o profissionalismo, entre os cuidados profissionais e informais e é o profissional de saúde cujo vencimento está mais dependente da venda de um produto, o que leva a que os farmacêuticos comunitários sejam vistos de forma ambígua pela população em geral, mantendo simultaneamente uma imagem de comerciante e profissional de saúde”.(1)

A escolha da farmácia é individual

O futuro da farmácia vai reflectir uma parte do futuro do SNS e da nossa saúde. A pandemia e o distanciamento social trouxeram o abrandamento do comércio tradicional e o protagonismo do e-commerce. As farmácias não vão escapar a esta tendência e é preciso não esquecer que a escolha da farmácia é individual, cada um escolhe onde quer ir, influenciado pela satisfação do serviço e pela distância a percorrer. E no e-commerce, na internet, não há longe nem distância, nem papel para o farmacêutico.

A e-pharmacy está atrasada

Gostem ou não a e-pharmacy está atrasada, já é e vai ser o futuro. Até podemos argumentar, em defesa do modelo de farmácia tradicional, que o farmacêutico faz a diferença, o que na verdade não faz tanto assim; segundo um estudo de Cavaco et al. (2), a percepção em 55% dos participantes é de que não existem grandes diferenças entre o atendimento ao balcão de farmacêuticos e técnicos de farmácia; pode haver estudos mais recentes que contradigam este, mas não será por aí que se define o futuro da farmácia e do farmacêutico, versus o e-commerce e a internet.

A partir do conforto de casa ou de outro qualquer lugar, através de aplicações móveis posso ter quase toda a farmacopeia, desde que tenha receita e dinheiro. Isto pode significar que o farmacêutico poderá abandonar definitivamente o trabalho de dispensa de medicamentos, para se dedicar em exclusivo à prestação de serviços farmacêuticos ou outro tipo de actividade. Mas onde?

Temos 24% das farmácias em insolvência

Onde ou até quando, porque há uma situação muito grave neste sector. Em Dezembro de 2019, 702 farmácias, 24% das farmácias do país, encontravam-se em situação de insolvência ou penhora, segundo o estudo a que o jornal Público faz referência. No artigo, a ANF veio apelar à intervenção urgente do Governo, solicitando que a comparticipação dos medicamentos aumente porque em 2017, na União Europeia, a comparticipação pública era de 79,3 % da despesa, enquanto em Portugal apenas em 66,3%. Isto significa que o doente tem de pagar mais do seu bolso. A ANF refere que a situação de crise é anterior à doença covid-19, mas que esta pandemia é uma nova ameaça ao futuro do sector. (3)

Em Abril de 2016, escrevi “quanto queres para fechar a tua farmácia”, (4), numa antevisão da crise, onde falava da concentração de farmácias. Resistir é evoluir?

Ou evoluem ou não resistem

A evolução do sector pode ser mais rápida ou mais lenta, mas vai alterar-se. A e-pharmacy vai acontecer, ainda mais porque os proprietários das farmácias têm um dilema – ou evoluem ou não resistem.

A pressão do cliente, cada vez mais informado e já diferenciado tecnologicamente, vai no sentido de ter o serviço da farmácia, onde quer que esteja e as gerações mais velhas, em virtude da pandemia, perceberam bem a vantagem deste conceito. Claro que vai haver sempre quem acredite que o cliente vai querer voltar à farmácia, quem defenda que a farmácia virtual não pode vender para todo o lado, que, que…

Não digo que não continue a haver farmácias de rua, mas a concentração será inevitável e vai aumentar a intervenção da farmácia on-line, de cobertura nacional e aberta 24 horas, em 365 dias do ano. Se a entrega é feita pelos CTT, Uber, Glovo, Drones ou outro serviço qualquer, isso será sempre secundário, como se veio a provar agora durante a pandemia.

O modelo de negócio vai alterar-se

Este modelo, e-pharmacy, vai por pressão nos armazenistas, talvez privilegiar o DTP, (Direct to Pharmacy) e desta forma, a margem do grossista pode transitar para a farmácia ou para a Indústria Farmacêutica. A questão é que esta não será uma evolução lenta, mas precipitada pelo medo de uma nova pandemia que obrigará os detentores de farmácias a adaptar-se à possibilidade de “aviar as receitas” e entregar na casa do doente, tudo com a porta da farmácia fechada.

O modelo de negócio do proprietário altera-se, haverá menos farmácias e decerto quem vai ter a porta aberta terá também o seu negócio alicerçado na internet e na entrega ao domicílio.  E a ANF no meio disto tudo? Diversificar o seu negócio para além da sua actividade na formação, investigação entre tantas outras?

Tenho de ir à farmácia? Qual é a lógica?

O meu telefone toca e quando atendo, reconheço a voz, é a minha médica de família; baixo o som da televisão e recosto-me no cadeirão e por ali sou consultado, numa vídeo chamada, no consultório da minha casa. Passados uns minutos, o telefone notifica-me que tenho um SMS e confirmo a receita electrónica com a alteração da dosagem do medicamento que a médica referiu. Exacto. Agora só me resta sair de casa, pegar no carro e ir até à farmácia mais próxima…

Como? Então eu posso ser consultado pelo telefone e para comprar os remédios, tenho de ir à farmácia? Qual é a lógica?

Não há nenhum argumento que possa defender a ida à farmácia e nem a doce explicação que o farmacêutico verifica se está tudo ok com o receituário, avalia as interacções medicamentosas não vá haver um engano do médico ou do software que já verifica isso, é uma quimera, mas uma das negras.

As farmácias de rua vão desaparecer já? Acredito que não, como referi antes, mas os farmacêuticos, dos mais de 8.000 que trabalham em farmácia comunitária, têm de repensar o seu futuro. Mais de 8.000 que olham para o dia de amanhã com o cepticismo de viver num país de baixo rendimento, com uma economia em queda e num mundo onde a inteligência artificial e a telemedicina, aponta para a e-pharmacy.

Qual o futuro do farmacêutico?

The million-dollar question. A resposta é talvez um enorme problema da Ordem do Farmacêuticos, da relação com os seus associados e da forma como eles vêem e sentem o trabalho da Ordem na defesa do futuro dos profissionais que representa. Para onde pesa mais o binómio ANF/Ordem, num sector privado que vive dos dinheiros públicos, onde a ANF vai decerto continuar a gerir os pagamentos entre os SNS e as farmácias?

Porque é que ouvimos dizer que faltam psicólogos, nutricionistas, médicos dentistas nos CSP e nunca ouvimos dizer que faltam farmacêuticos? Se há farmácias hospitalares que são do SNS, porque não há farmácias do SNS, nos ACES que são do SNS? Que fazer a cerca de 8.000 profissionais qualificados? Desistir e deixar tudo ao sabor dos políticos e da economia, uns que pouco ou nada sabem de saúde e outros que não a querem pagar? Há solução?

Tentei contribuir para a solução

Nunca desisti de tentar contribuir para a solução, porque sempre considerei ser um desperdício tanto farmacêutico em farmácias comunitárias; acredito que o papel do farmacêutico do século 21 deva ser outro, no serviço ao cidadão e ao sistema nacional de saúde.

Em Novembro de 2009, apresentei na Ordem dos Farmacêuticos, ao então recente bastonário eleito e à sua Direcção, o Projecto Farmacêutico de Família. Ouvi um silêncio profundo naquela sala, silêncio esse que se prolongou nos tempos seguintes. Fiquei incrédulo.

Mais tarde, em Fevereiro de 2017, já em plena crise do sector e das farmácias, apresentei a um alto dirigente da ANF, o projecto que apelidei de Farmácia do Futuro, que ainda tem como objectivo levar o farmacêutico e a farmácia, até junto do cidadão, em estreita relação com os CSP. Outra vez o silêncio, mas desta vez não fiquei incrédulo.

O Day After do Farmacêutico

O Day After do Farmacêutico? Incerteza. Acredito que o sector não vai voltar a ser mais como era, nem que termine o sistema de entregas ao domicílio. Não acredito que a e-pharmacy não aumente a sua penetração no mercado, uma decisão estratégica dos proprietários das farmácias, mas que afecta directamente os farmacêuticos. Como cidadão, preocupo-me por não darem um novo rumo a estes profissionais, que como já referi, estão muito desaproveitados e apertados no abraço amigo da OF, que defende os farmacêuticos e da ANF, que defende os proprietários.

As tricas entre médicos, enfermeiros e farmacêuticos não ajudam a encontrar uma solução, mesmo que nalguns locais e pontualmente, a colaboração possa existir, ainda que não seja fruto de um plano nacional em prol do cidadão, mas sim da iniciativa de alguns farmacêuticos que teimam em sair da farmácia, cansados do seu papel passivo.

Saiam fora da vossa zona de conforto, perdão, desconforto

Não sei se os projectos que apresentei em 2009 e em 2017, teriam tido sucesso, mas sei que nada foi feito de disruptivo pelo futuro de todos os que um dia escolheram ser farmacêuticas ou farmacêuticos. Que falta nos fazem a todos e não é na farmácia.

Pensem em quem conhecem e nunca vos ajudou e procurem quem não conhecem e que vos pode ajudar. Saiam fora da vossa zona de conforto, perdão, de desconforto e procurem a solução, porque se não forem vocês a liderar o caminho, mais ninguém o fará.

E para terminar, já pensaram se um governo de esquerda, (daqueles que não gostam dos privados na saúde e que se inspiram no hino da CGTP), um dia decidir retirar à ANF a gestão dos pagamentos entre os SNS e as farmácias, baixando assim ainda mais o custo com medicamentos e deixando que uma PHARMAZON qualquer se instale em virtude do crescimento do e-Pharmacy? Pensem, qual vai ser o futuro de 8.000 farmacêuticas e farmacêuticos? Está na hora de pensar e agir diferente. E muito pode ser feito…

(1) O farmacêutico comunitário em Portugal, 2020; dissertação para a obtenção do grau de mestre em saúde e

Desenvolvimento Junho, 2011; João Pedro Bernardo Gregório

(2) Cavaco, A. M. N. & Bates, I. P. 2007. Gauging Portuguese community pharmacy users’ perceptions (Abstract). Primary Health Care Research and Development, 8, 315-325

(3) https://www.publico.pt/2020/04/15/sociedade/noticia/covid19-rede-farmacias-risco-economico-associacao-nacional-farmacias-pede-intervencao-urgente-governo (4) https://marketaccessportugal.com/quanto-queres-para-fechares-a-tua-farmacia/

Hoje 24 de Abril, vamos tratar os médicos e enfermeiros como tratamos Salgueiro Maia?

Salgueiro Maia, Capitão de Cavalaria, foi o herói do 25 de Abril de 1974. Tomou o Terreiro do Paço, travou as forças do regime e foi buscar Marcelo Caetano ao quartel do Carmo. Ele foi o Capitão da Liberdade, que a esquerda totalitária que ele ajudou a libertar, ostracizou apenas porque ele era um verdadeiro defensor da liberdade, daquela onde se é livre. Este é o exemplo da forma como tratamos os nossos soldados.

Como tratamos os nossos soldados em tempo de paz?

Portugal e alguns portugueses convivem mal com as Forças Armadas. Sabemos como tratamos todos os ex-combatentes da guerra colonial. Sabemos bem como os integramos, em particular todos os que ficaram com sequelas físicas e com stress pós-traumático. Infelizmente alguns políticos recorrem ao argumento ideológico, como se isso validasse o abandono, que eles e alguns partidos, condenaram todos os filhos da nação que combateram em nome de Portugal.  A forma como tratamos os nossos soldados em tempo de paz, define os governantes que temos e isso não abona em nosso favor, o povo que permite que isso aconteça. Temos vergonha dos símbolos da nação, a não ser que um treinador brasileiro, em nome de Portugal, peça a todos portugueses para erguer a bandeira das quinas em cada janela. Nessa altura, em nome do futebol, foi a bandeira do nosso orgulho.

Há bem pouco tempo, batemos palmas e alguns deixaram algumas lágrimas rolar pela face, em homenagem aos heróis, médicos e enfermeiros, que ainda hoje, por esta hora, combatem numa guerra para onde não desejaram ir. Mas tal como no passado, os soldados de hoje, não hesitam em ir combater, porque a guerra é justa. Saem de casa, deixando a família e vão cumprir a sua missão, honrando o juramento que fizeram. Recebem os maiores elogios do governo e ouvem o ministério dizer que não faltam equipamentos de protecção individual, quando surgem relatos da linha da frente que dizem o contrário.

Quanto custa um herói?

 O governo quer contratar para este combate, enfermeiros a quase 6,42 euros por hora. Ao jornal PÚBLICO, “o Ministério da Saúde afirmou que o Governo autorizou a contratação dos profissionais de saúde necessários à resposta do sistema para efeitos da prevenção, controlo e tratamento da infecção por novo coronavírus (covid-19). De acordo com a tutela, tais contratos, a termo resolutivo certo, por um período de quatro meses, podem ser eventualmente renovados, se necessário e segundo a Administração Central do Sistema de Saúde, 7,42 euros é o valor base/hora do enfermeiro em início de carreira, a que acresce eventuais suplementos que sejam devidos”. (1)

O nível de risco e perigo de morte é igual para todos?

Há mais algumas perguntas que devemos fazer. Quando as Forças Armadas portuguesas vão para um teatro de operações, recebem um subsídio de risco ou recebem um prémio ou incentivo? Um soldado do exército regular é igual a um Comando, a um Ranger, a um Fuzileiro ou a um Paraquedista? O nível de risco e perigo de morte é igual para todos?

Julgo saber o que está a ser pedido aos médicos e aos enfermeiros deste país e sei que nem todos estão na mesma situação, apesar de todos verem as suas vidas alteradas pelo estado de emergência e pela pandemia; eu sei que os cuidados hospitalares não são iguais aos cuidados de saúde primários e que num hospital há serviços mais na linha da frente que outros; mas sei que este é um tema que alguns não gostam que se fale, o das diferenças que muitos querem que sejam iguais. É preciso que este governo saiba diferenciar, saiba atribuir um subsídio de risco, um incentivo e reconheça que o Ministério da Saúde, tem uma política de recursos humanos errada faz muito tempo.

Como fará o governo para diferenciar estes heróis?

Tenho ideias sobre isso e já as discuti com alguns médicos e enfermeiros. Mas querem homenagear quem combateu esta pandemia? Com muito menos do que o que vão gastar nas comemorações do 25 de Abril? Sem o despudor com que a Ministra da Saúde, foi célere em louvar quem respondia a perguntas ao telefone e que ainda não louvou em despacho, quem está a combater? Convoquem todos os médicos, enfermeiros e outros profissionais que lidaram com os doentes na linha da frente e num local público façam uma homenagem em frente de todas as televisões, atribuindo aí sim, um louvor e um agradecimento público e sentido. Acham que vão fazer isto? Não, e isso vai fazer crescer uma fúria em quem lutou, dias a fio, para proteger os que os irão desprezar. E se essa fúria crescer?

A Fúria do Herói

John Rambo, que todos conhecemos, regressa da guerra e encontra no seu país, um ambiente hostil onde a paz se serve com violência. Condecorado com a Medalha de Honra, aclamado como herói, depressa é esquecido e desenquadrado, não sendo acolhido por aqueles por quem lutou e defendeu, quase perdendo a vida. E os que lhe bateram palmas, que o homenagearam, serão exactamente aqueles que um dia depois o vão esquecer e se possível atirá-lo para um gueto, onde os traumas, a pobreza e a solidão farão de selecção natural ou selecção mortal. Salgueiro Maia disse um dia – “Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir.” E os que lhe bateram palmas, que o homenagearam, que o aclamaram como herói, serão exactamente aqueles que um dia depois o vão esquecer e se possível atirá-lo para um gueto. Apenas a história lhe fará a justa homenagem, a mostrar a verdade dos factos que muitos teimam em enterrar.

Este governo pode destruir o SNS e reforçar o sistema privado, o NHS, o …

Rambo, o herói americano no fim do filme acabou preso, porque se defendeu de quem o maltratou. Salgueiro Maia, na vida real, morreu sem as honras que esta nação lhe devia ter prestado. Esta guerra vai acabar e os heróis de hoje, médicos e enfermeiros, vão ser tratados como sempre a esquerda tratou os heróis e os soldados deste país?

Se no Day After, não se pagar todas as horas extraordinárias feitas, se não se recompensar com um incentivo pelo combate; se no Day After, não se der descanso a quem esteve na linha da frente; se no Day After não se reformular os hospitais e com isso perceber como reorganizar os médicos e enfermeiros numa nova situação de guerra; se no Day After não se reformular profundamente o SNS, levando em consideração, a liderança, a mentalidade de comando controlo, os médicos e enfermeiros, a forma como os podemos diferenciar, as suas carreiras e remunerações, é muito provável que a fúria destes heróis os leve, não à prisão como o Rambo, mas a atirar a toalha ao chão, sair do SNS para o privado, para o NHS… Este governo, provocando a fúria aos seus heróis, pode destruir o SNS e prejudicar todos os portugueses.

Hoje 24 de Abril, pergunto se a esquerda do governo e a oposição no parlamento, vão tratar os médicos e enfermeiros como trataram Salgueiro Maia?

(1) https://www.publico.pt/2020/04/05/sociedade/noticia/covid19-governo-oferece-contratos-quatro-meses-642-euroshora-novos-enfermeiros-1911051

O título parece-vos uma brincadeira? Um dia a dor invadiu-me o braço e não resisti, fui ao Google e “garbage in, garbage out”, um sem número de diagnósticos surgiram em segundos. O Dr. Google é mais rápido, mais barato e evita muitas vezes uma ida ao consultório, quando temos apenas uma exacerbação da hipocondria que há em todos nós. E quando se é médico, com dúvidas, onde é que se vai? Também vão googlar?

Esta pandemia veio relevar um enorme problema dos enfermeiros e farmacêuticos, mas muito em particular de todos os médicos – na dúvida onde eles vão procurar ajuda? Podíamos dizer que a OMS ou a DGS são um farol, mas a verdade é que não o foram e os episódios das máscaras, dos testes, da cloroquina e até do ibuprofeno, são bem a prova disso. Não trago aqui esta questão apenas para criticar, porque não é esse o objectivo, mas por outro mais pertinente – perceber que os médicos, no que toca a adquirir novos conhecimentos, estão sozinhos em qualquer linha de combate onde se encontrem e não podem continuar assim. Na próxima pandemia, na próxima guerra tudo pode ser pior.

É a altura para a entrada em cena do Dr. WhatsApp. Grande parte dos médicos tem smartphones e estão ligados a colegas em grupos de WhatsApp, onde colocam questões aos seus pares, partilham casos clínicos e acima de tudo, nesta pandemia, partilham informação, dúvidas e soluções. Hoje, quase todos os médicos estão em pelo menos um grupo de WhatsApp e o outro, o Dr. Google não entra. Até as autoridades de saúde, usam o WhatsApp para partilhar, pressionar ou cascar nos dirigentes hospitalares e dos CSP.

É como se o Dr. WhatsApp esteja destinado ao incremento do conhecimento dos médicos e o Dr. Google para os doentes. Em conversa com alguns clínicos amigos neste tempo de pandemia, ouvi muitas vezes o comentário que receberam uma partilha num grupo, de um colega que conhece um colega italiano que está num hospital em Milão, que disse que lá usam isto ou aquilo para a Covid-19. Depois o grupo através do líder, o Dr. WhatsApp espalha por todos e desta forma, chega a um jornalista, a um grupo de Facebook e aí “viraliza” para Portugal, como verdade irrefutável, mais ainda assinada por um médico. “Corre “viralmente” nas redes sociais um relato de uma suposta médica a garantir que morreu o primeiro português infectado pelo Covid-19. Segundo a profissional, tratava-se de um homem de 60 anos internado no Curry Cabral. A informação está a ser veiculada através de um áudio de WhatsApp e já chegou a milhares de portugueses”, alerta a DGS, através de um comunicado no site oficial. (1)

Olhemos para o Dr. WhatsApp de uma outra forma. No já longínquo ano de 2017, a BMJ Innovations publicou um estudo, “WhatsApp Doc?” (2) onde se demonstrou uso generalizado do WhatsApp para comunicação entre os médicos. Segundo o WhatsApp Doc, 97% dos médicos do estudo enviam rotineiramente informações confidenciais do doente, sem obter o seu consentimento, apesar de, segundo o mesmo estudo, 68% dos médicos estarem preocupados em partilhar essas informações pelo WhatsApp. Esta dissonância cognitiva, diz o estudo, é preocupante e talvez reflicta as pressões da medicina moderna, que forçam os médicos a comportarem-se dessa maneira, apesar das questões legais.  No estudo pode ler-se que um telefone perdido é, portanto, uma possível violação de segurança de dados, mesmo que o médico em questão nunca tenha enviado informações; o preocupante é saber, através do mesmo estudo, que 30% dos estagiários perderam o telefone no último ano e 5% na última semana.

Acreditem, não vou aqui vender uma solução que destrone o WhatsApp ou até falar do tal regulamento, o GDPR, sobre os dados e a confidencialidade. Isso pode ser tema para o Direito e a Ética. Defendo que os médicos e os enfermeiros acreditam que o Dr. WhatsApp possa ser usado desde que os dados do doente sejam anonimizados. Como se prova pela sua utilização, os benefícios do Dr. WhatsApp vão muito além da mera comunicação; o que ele faz é partilhar conhecimento, conectar equipes, reduzir hierarquias e ajudar os doentes. O que fica aqui a ferver nas mãos de quem lidera o SNS e os médicos, é a forma como o conhecimento científico e clínico é partilhado nos dias de hoje. Pelo Dr. WhatsApp?

Em Novembro de 2018, a propósito de um quase acidente aéreo nos céus de Portugal, perguntava, “Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor? (3)

Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…” (3)

O mais sabedor, o mais treinado, o melhor? Já não se trata da forma como vamos saber se um médico reúne estas características, mas sim, como é que um médico pode ser o mais sabedor, o mais treinado ou o melhor. Onde vai aprender, onde vai buscar o conhecimento de uma nova doença ou mesmo as últimas publicações científicas credíveis? Como o fez durante esta pandemia?

Onde vai aprender? Imaginem, um médico com 57 anos, saído da faculdade lá pelos finais dos anos 80, onde a internet era ainda um luxo, os portáteis e os telemóveis daqueles que hoje nos rimos no museu da pré-história da conectividade. Começou a trabalhar no SNS, num Centro de Saúde, antiga Caixa Previdência, numa altura em que era apenas mais um Clínico Geral, num sistema longe da reforma e a começar a cansar-se com os Regimes Remuneratórios Experimentais e outras deambulações reformistas, até à 1ª década do Seculo 21, onde abriu a 1ª USF. Política, luta de classes e acabou hoje como Especialista de Medicina Geral e Familiar. E claro está, a Reforma dos CSP na rua a todo o vapor, reforçando o termo vapor. Podia aqui mimetizar um especialista de outra qualquer especialidade médica ou cirúrgica, que nada seria diferente no final.

Meu Deus, como a ciência médica e farmacológica evoluiu desde o último ano da faculdade nos anos oitenta e da edição do Harrison com que fez o exame. Já se perguntou como chegou a este médico, (marido, pai de filhos, cuidador dos pais e outras coisas que qualquer ser humano tem de fazer para além do trabalho), toda evolução do conhecimento, que permite diagnosticar e tratar melhor os doentes, em que um deles pode ser você que lê estas palavras? Que fez a sua entidade patronal, o SNS, a sua Ordem Profissional, as ditas Sociedades Científicas; ou as associações políticas, como a USF-AN e as associativas como, a APMGF?

A resposta que encontra é sempre a mesma, nada. Se não for por iniciativa própria do medico, que dedicará parte do seu tempo a ler e pesquisar a inovação na sua área; ou de outra forma, aceitando os convites da Indústria Farmacêutica que suporta uma grande parte da dita formação, quer através de eventos próprios ou através dos congressos das sociedades científicas no país e no estrangeiro; se não for por estas vias, o médico terá muita dificuldade em adquirir conhecimento. Hoje com a internet, as redes sociais e o Dr. WhatsApp, tudo parece mais fácil, mas apenas parece, porque é preciso saber se é disponibilizado ao médico, o tempo de qualidade para se actualizar, para além de ter de saber separar o fake do real ou do correcto.

A digitalização e a inteligência artificial permitem aos médicos acederem a sites de outros médicos que partilham o “state of the art”, a cursos de e-learning, webinars e tantas outras formas de à distância, o médico poder optar por aprender. Poder optar…

Esta é a questão, optar ou não pelo aumento e actualização do conhecimento médico e farmacológico, depender de um simples se, se o médico quiser, num exercício ético do livre arbítrio. O que queremos no Day After, para os médicos do SNS, para os clínicos deste país? Actualizações do conhecimento via Dr. WhatsApp? Ou dotar o médico da possibilidade de actualizar os seus conhecimentos em todas as áreas do saber necessários e isso ser-lhe reconhecido na sua carreira? E se a Ordem dos Médicos reconhecesse determinadas formações, com créditos e cada médico necessitasse de todos os anos ter um número de créditos mínimo, actualizando o seu conhecimento em áreas científicas definidas previamente?

O estudo da BMJ Innovations afirma também que “90% dos médicos sentem que não poder fornecer o melhor atendimento clínico possível sem usar mensagens instantâneas”, o Dr. WhatsApp. Ou seja, são os médicos que reconhecem a necessidade de aprender mais, de partilhar conhecimentos, “peer to peer”, de poder serem médicos do século 21.

Se tiver de escolher um médico para o tratar, vai querer o Dr. Google, o Dr. WhatsApp ou um médico actualizado com os créditos da OM? Não é essa a responsabilidade do SNS e da Ordem? Ou vai esperar pela próxima pandemia? Os registos existentes da saúde de um cidadão são como a caixa negra de um avião; se ele sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada e aí não há Dr. Google ou Dr. WhatsApp…

(1) https://sol.sapo.pt/artigo/688882/dgs-desmente-audio-viral-de-alegada-medica-que-confirma-duas-mortes-pelo-covid-19

(2) O’Sullivan DM, et al. BMJ Innov 2017;3:238–239. doi:10.1136/bmjinnov-2017-000239

(3) https://marketaccessportugal.com/wp-content/uploads/2018/11/astana-SNS-plane.jpg

Será que há um conflito de gerações, na Saúde Pública? A pergunta vai muito para além da discussão em torno do uso de máscaras e da necessidade de testar. A dúvida instala-se quando a geração mais nova de médicos de Saúde Pública, SP, na televisão, defende o uso de máscaras e a necessidade de testar, enquanto alguns médicos de SP do antigamente, deixam sérias dúvidas e interrogações sobre o tema.

O que motivará esta diferença? O conceito de SP não deverá ser igual para as duas gerações? Ou o conceito de SP é outro que não a ciência e arte de prevenir doenças, prolongar a vida e promover a saúde através dos esforços organizados da sociedade?

Haverá paz depois do conflito?

Paz é sempre aquela sensação enganadora que fica entre duas guerras. Seja qual for o conflito e o que estamos a viver com a Covid-19 é um bom exemplo disso, terá mais ou menos baixas consoante o nível de preparação de um povo e dos seus governantes.

É verdade que nenhum país estava preparado para esta realidade e o tempo, a par da qualidade da resposta, geram outros conflitos que não devem ser calados ou esquecidos, como desculpa para a unidade nacional, em nome do politicamente correcto. Se assim fosse, provavelmente hoje seriamos todos nazis, porque mesmo em estado de emergência e com o medo do ataque das tropas de Hitler, o parlamento inglês discutiu aos gritos, contra a posição estratégica, mole e errada do governo inglês em relação ao avanço de Hitler, o que levou o primeiro-ministro Chamberlain a demitir-se e com isso, a chegada do líder, Winston Churchill. O que daí resultou está na História do mundo, que todos devíamos saber.

O Day After, a paz entre duas guerras

Acredito que o período pós-Covid-19, o Day After, vai estar repleto de conferências e de especialistas, (talvez até com os que tanto agora falharam), a falar e a filosofar sobre o futuro que queremos para as nossas instituições, para o nosso sistema de saúde e para a nossa sociedade.

Isso até fará sentido se todos os dados, factos e números foram, com toda a transparência, partilhados sem censura, para que possa ser feita uma análise crítica e fundamentada, sem os vieses dos ideólogos do regime.

Isto até fará sentido se de uma vez por todas, colocarmos os especialistas certos a liderar este processo e não os políticos ou os tais ideólogos de serviço, que nos trouxeram até aqui. Falo de dar destaque à geração de ouro dos médicos da Saúde Pública, uma especialidade que esteve até hoje desprezada.

Geração de Ouro da Saúde Pública

O cadinho onde se formaram estes jovens da SP, é repleto de conectividade, inteligência artificial, modelos matemáticos, trabalho em rede e em parceria com outros saberes, o que ajuda a superar de forma objectiva, organizada e participativa os desafios de um mundo em constante mudança, mas muito ameaçador para a saúde das populações.

Hoje é muito fácil ver na televisão um médico de SP e de repente esta especialidade assume um protagonismo que nunca teve.  E o conflito entre as gerações torna-se mais evidente, como nos apercebemos no diálogo sobre as máscaras, os testes e informação inicial sobre o vírus. Começa a ser evidente que as autoridades portuguesas, decidiram sobre modelos inadequados e pouco consentâneos com a realidade que vivemos, não olhando ao princípio base da Saúde Pública que é prevenir.

Não foi só a geração de ouro que levantou a voz contra. A este propósito, um antigo Ministro da Saúde e médico de Saúde Pública, pautou o seu discurso com moderação, mas com uma posição a favor das máscaras, dos testes, da declaração do Estado de Emergência e contra a decisão do Conselho Nacional de Saúde Pública, sobre o encerramento das escolas. Parece que não só a geração de ouro, mas também um dos seus mais proeminentes “treinadores”, não alinham com a tomada de decisão das autoridades de saúde.

Sabemos que no futuro, vamos precisar de autoridade e liderança nas batalhas e nas guerras que hão-de vir. Mas como vai ser o Day After para nós e para esta especialidade médica? A resposta a esta questão, deve interessar-nos a todos.

O meu interesse na Saúde Pública

Não vem só de agora. Há mais de 25 anos que trabalho na área da Saúde e a minha preocupação foi sempre a de perceber os fenómenos da doença e das populações. Com a chegada dos CSP, da governação e dos indicadores, a ausência da especialidade da Saúde Pública neste processo, sempre me complicou o pensamento. Prevenir, significa conhecer o que se quer prevenir e em quem; e para conhecer é preciso estudar e ir para o terreno. Quem poderá fazer isso?

A doença cardiovascular é e vai continuar a ser um flagelo em Portugal. Com o propósito de delinear uma política de conhecimento e prevenção desta doença, reuni em Março de 2014, num hotel em Cascais, mais de 150 médicos de Saúde Pública. Praticamente todos foram convidados e durante um dia, propus um programa e depois, em grupos de trabalho, discutiu-se os esqueletos no armário da SP e a forma de construir o futuro da especialidade.

Lembro-me que nessa altura, era já notório o conflito de gerações e a vontade que os novos médicos tinham de tomar conta dos destinos SP. Ainda lutei, por mais um tempo para não deixar perder o pouco que se tinha avançado, mas a verdade é que a dinâmica tombou no efeito que o tempo tem e nos corredores das unidades de saúde, onde a geração dos mais velhos fazia o que podia e sabia. O ónus da mudança ficava pelo Ministério e pela DGS.

Acreditar no Ministério da Saúde e na DGS?

Torna-se difícil acreditar no Ministério da Saúde, aceitar o que de lá se escuta, em particular com a ideologia desta equipa actual. Vejamos uma situação, (e não vou falar dos números, do boicote à verdade sobre o total de infectados, da lei da rolha…), mas de um caso pertinente para o Day After.

Em Setembro de 2011, foi publicado pela OMS, o documento “Strengthening public health capacities and services in Europe: a framework for action” (1). Neste documento, “ordenava-se que os estados membros, da Europa, formulassem uma proposta para nos respectivos países, haver “a new European policy for health, known as Health 2020”. Irónico, o 2020. Não percebi muito bem o que foi feito durante a Troika, (não encontrei informação sobre o tema), mas eis que em 2016, em plena geringonça, através do Despacho nº 11232/2016, (publicado no Diário da República, 2ª série, n.º 180, de 19 de Setembro), foi criada uma Comissão para a Reforma da Saúde Pública Nacional com vista a promover uma discussão abrangente da Reforma da Saúde Pública, com todos os seus actores.

Boa, disse eu na altura. Este despacho foi antecedido de uma documento “Nova ambição para a Saúde Pública focada em serviços locais” (2), publicado em Junho de 2016, onde mais ou menos, lá estava a ideia explicada. Foi logo feita uma comissão, constituída por 33 membros, para levar a cabo que o despacho pedia. (3)

Há o registo de várias reuniões e em Março de 2017, passados 9 meses, são publicadas 5 páginas com o título de “Comissão para a Reforma da Saúde Pública Nacional, 1º Relatório Intercalar” que basicamente nos diz que é difícil o entendimento na Comissão e por isso “foi decidido por unanimidade segmentar esta em três subcomissões”. (4)

Esperei outros relatórios, procurei, mas nada mais encontrei. Ainda que possa estar a cometer um erro por desconhecimento de outros documentos oriundos desta dita comissão, publicados algures, a verdade é que a dita reforma, reformou-se e ficou por aqui.

A reforma da Saúde Pública, ficou por ali?

Sim ficou, mas voltou em plena pandemia, a meio do mês de Fevereiro de 2020.

O Despacho n.º 2288/2020, (publicado no Diário da República n.º 34/2020, Série II de 2020-02-18), cria a Comissão para a Elaboração da Proposta de Reforma da Saúde Pública e Sua Implementação. (5)

Outra vez? Outra comissão para o mesmo? Esperem, há uma diferença, esta comissão é liderada por outra pessoa, fica activa por um ano, conta com pelo menos 38 pessoas e tem um prazo máximo de 180 dias a contar da sua nomeação, para apresentar ao Secretário de Estado, uma proposta final para uma Lei da Saúde Pública.

Perdeu-se tanto tempo e nada surgiu

O documento da OMS é de 2011, a primeira Comissão empossada em 2016 e agora uma nova ou a segunda, em 2020. Estamos a falar de quase 10 anos, para que os políticos e os responsáveis da saúde fizessem algo que juraram ao tomar posse – proteger os cidadãos, porque o objectivo de quem governa a área é também o da protecção, promoção da saúde e prevenção da doença.

Quase 10 anos onde se perdeu tanto tempo e nada surgiu.

Uma empresa privada, em 10 anos quase que investiga e comercializa um novo medicamento, desenha, desenvolve e implementa dezenas de projectos… uma empresa privada tem de pagar ordenados, prémios, vender mais do que a concorrência, pagar as suas obrigações, dar lucro aos seus accionistas ou donos, inovar, estar na vanguarda e não procrastinar…

O problema das Comissões em Saúde

Ao longo da minha vida profissional já vi isto acontecer inúmeras vezes e a técnica é sempre a mesma. É preciso fazer algo de muito importante, mas na verdade eu não quero que aconteça porque quero continuar a mandar nisto tudo e não deixar que os ventos de mudança, corram comigo daqui.

Não tomo uma posição pública de estar contra, mas induzo quem pode a fazer uma comissão para discutir o tema e preparar uma solução. O ideal mesmo é ela representar os mais variados sectores, até os mais inverosímeis e se possível ter muita gente com posições antagónicas, onde até as ideologias se sobreponham ao interesse público. O resultado será sempre o mesmo, nada acontece.

Existe um problema e ele tem de ser resolvido. A solução é mais uma comissão? O Ministério da Saúde e o seu Governo, precisaram de chegar a Fevereiro para perceber que a Saúde Pública estava em “estado de standby”?

O Day After já começou. Mas deve começar sem olhar para a especialidade e para o que deve ser o trabalho dos médicos de Saúde Pública?

Especialidade de SP, o MI-6 ou a CIA da Saúde?

É mais do que óbvio que Portugal precisa de uma entidade de Saúde Pública, sólida, bem estruturada e acima de tudo, independente do governo, com separação de poderes, que seja capaz de dizer a verdade e ter a capacidade de reagir em situações de “conflito”, em estados que ameaçam a saúde e a vida dos portugueses; uma entidade que seja capaz de liderar a resposta numa ameaça como a que hoje vivemos, que possa ter um sistema de informação fidedigno e capaz de informar tantos os decisores como quem combate no terreno.

Mas dirão, isso não é a DGS? Não, como já se provou em todos os aspectos.

Conflitos deste tipo, pandemias e ameaças virais ou bacteriológicas vão ser mais frequentes e por isso faz todo o sentido ter um MI-6, (Military Intelligence interna e externa) ou uma CIA, (Central Intelligence Agency) para a Saúde, ou em português, um Serviço de Inteligência em Saúde, SIS. (vamos ter de lhe dar outro nome)

Sacrilégio, dirá porventura a esquerda e nem sei o que opinará a direita.

Em Portugal há um Tribunal Constitucional que fiscaliza a constitucionalidade das leis e dos decretos-leis. A Justiça é mais importante que a Saúde? Se um dia perdermos uma guerra, para que serviu ter um TC e não ter um SIS para a Saúde?

Faz sentido isto do SIS?

Todo o sentido. Querem combater uma nova ameaça com os erros do passado, com as estruturas do passado, com as armas do passado e com a não informação do passado?

Devemos inovar e fazer uma disrupção no sistema de saúde. Mantemos a DGS melhorando-a; mantemos o INSA, aumentando a sua intervenção e desta forma engrandecemos o seu objectivo.

Uma das missões do SIS, será a de reforçar as unidades de Saúde Pública nos CSP (em breve voltarei a este tema); e implementar de uma vez por todas, a Saúde Pública Hospitalar, (6,7), tema “debatido” na Acta Médica, 2015 e num parecer da Ordem dos Médicos em 2014 – deve-se voltar a discutir este assunto e perceber que o hospital é um local fundamental de Saúde Pública.  

Faz todo o sentido isto do SIS, porque se alguma coisa esta pandemia veio mostrar é que o sistema de Saúde Pública não tem liderança, não tem coordenação entre os diversos níveis de cuidados, a informação não flui de forma útil a que o combate possa ser eficaz e eficiente. Esta liderança deve sair da esfera política e ideológica, local onde hoje se encontra. Coloquem a Saúde dos portugueses acima de todas as coisas.

Como se pode montar este SIS e como o financiar? Deixo essas respostas para outro post para não tornar este muito extenso.

Será que há um conflito de gerações, na Saúde Pública?

Acabo como comecei. Há conflito? Há gerações?

Não conheço os números em 2019, mas citando os autores André Peralta-Santos e Bernardo Gomes (7), há um “envelhecimento da especialidade de Saúde Pública – em 2011, 87% dos especialistas tinha mais de 50 anos – fenómeno alimentado por uma elevada taxa de desistência da especialidade. Este gap geracional torna as mudanças no perfil da especialidade mais difíceis de concretizar, agravado pela falta de especialistas a assegurar funções nas USP, sobretudo se for pretendido alargar a abrangência da especialidade.” 

Sim temos de olhar porque parece-me, como cidadão, que há um conflito de gerações na Saúde Pública, que provavelmente ultrapassa a idade e o conhecimento e aterra nas áreas ideológicas e políticas.

Termino com um desafio em que muito acredito. Aproveito o que foi escrito no artigo anterior, onde acrescento ao grupo, os cidadãos interessados “Instamos todos os especialistas em saúde pública, internos e outros colegas a contribuírem para esta discussão, com a certeza que o futuro Sistema de Saúde em Portugal encerra muitos desafios, em que os MSP podem fazer parte da solução.”

Podem fazer? Não, são mesmo o começo da solução. Ou continuamos com um problema?  

(1)http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/171770/RC62wd12rev1-Eng.pdf?ua=1

(2) https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/nova-ambicao-para-a-saude-publica-focada-em-servicos-locais-pdf.aspx

(3) https://www.dgs.pt/saude-publica1/reforma-da-saude-publica.aspx

(4) https://www.dgs.pt/ficheiros-de-upload-2013/sp-1-relatorio-comissao-para-a-reforma-da-saude-publica-nacional-pdf.aspx

(5)https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/129295741/details/4/maximized?serie=II&parte_filter=31&day=2020-02-18&date=2020-02-01&dreId=129295675

(6) https://ordemdosmedicos.pt/criacao-de-servicos-de-saude-publica-em-estabelecimentos-hospitalares/ (7) http://www.actamedicaportuguesa.com/info/ahead_of_print/5926_AOP.pdf

Há um perigo muito grande que se pode esconder no Day After e que começa a ser explorado por um sector político, cavalgando o efeito desta pandemia.

A excitação é imensa porque descobriram que um médico ou um enfermeiro vale mais do que um futebolista, mesmo quando na legislatura anterior e já nesta, os desvalorizaram tanto. Mas poderá ser demagogia minha, em tempo de guerra um soldado valer mais que um desportista, apesar de não compreender a razão de primeiro ter esgotado o papel higiénico e não os géneros alimentares.

Se é verdade que estes tempos vieram demonstrar  a importância de certas profissões, pouco valorizadas no passado recente, como todos os que trabalham no sector dos transportes e da distribuição, da limpeza, da agricultura, da segurança, entre outros, versus os banqueiros, advogados, gestores e em particular os políticos, também é verdade que este tipo de discurso é falso e ao mesmo tempo muito perigoso, porque é extremista e típico de sociedades totalitaristas, quer da direita, quer da esquerda.

A excitação é imensa porque o discurso do tal sector político, mais audível pelo controlo que têm nos meios de comunicação, aponta na direcção de querer reforçar o papel do Estado e cavalgando a pandemia, reclamar um modelo de sociedade mais comunista, ou seja, com mais intervenção do Estado.

O que todos desejamos nesta hora difícil, é que o Estado ajude as empresas, pague o ordenado a quem está em casa, dê dinheiro a todos. De repente viramos todos anticapitalistas, antiliberais, contra a lei da oferta e da proicura?

Não, pelo menos no que eu penso. Na verdade, perante uma guerra, perante uma crise, o mercado não funciona, a não ser o das armas e neste caso dos equipamentos médicos e de protecção ao vírus. E aí, o papel do Estado tem de vir ao de cima, porque esse é o seu papel durante as crises. Quando tudo voltar ao normal, as pessoas vão voltar a querer ganhar dinheiro, ter iniciativa privada, aumentar os seus rendimentos através do seu trabalho e esforço. E aí, o Estado se for dos bons, deve retirar-se para o seu papel de regulador e de controlador, assegurando algumas funções básicas.

A excitação desse lado político é imensa porque vão aproveitar para reclamar um SNS livre dos privados, das PPP’s e totalmente suportado pelo Estado – as consultas nos CSP, nos hospitais, os MCDT´s, a Imagiologia e os dispositivos médicos. E vão dar como exemplo, quem não é bom exemplo, como sejam os EUA. Quero comparar-me com os melhores e não com os piores.

Num país como Portugal, de baixo rendimento, com muita gente pobre e com idosos sem meios de subsistência, o Estado tem de assumir a protecção dos cidadãos e garantir o acesso à Saúde, de forma gratuita, tendencialmente. Quando olhamos para o passado verificamos que por razões diferentes, todos os partidos com assento na Assembleia da Républica, e reforço o significado de todos, desde o governo da Troika ou durante a gerigonça, delapidaram o SNS e retiraram cada vez mais investimento, num sector que necessita não apenas de mais dinheiro, mas de organização, liderança, combate ao desperdício e às ineficiências.

Como é que a direita explica ter ido mais longe do que a Troika exigia na saúde ou como é que e esquerda explica ter retirado e cativado dinheiro ao SNS? E como é que estes dois lados da questão explicam nunca terem feito uma reforma profunda no sector, começando pelos recursos humanos?

Fomos ao fundo com esta pandemia? Ainda não sei, mas sei que a Covid-19, veio demonstrar o quanto não estamos preparados, demonstrando a ineficiência do sistema político actual, digam lá o que disserem e confirmou que os políticos pensam mais na sua carreira, do que nos cidadãos que juraram servir.

A este propósito sabe-se que a Directora-geral da Saúde escocesa demitiu-se, depois de quebrar o isolamento; por cá, sob esta pandemia, políticos com muita responsabilidade mentiram aos portugueses sobre o material disponível para o combate à Covid-19, dirigentes da saúde que induziram a população com afirmações erradas e um jornalismo (quase todo), ao serviço da classe dirigente, verga-se ao politicamente correcto.

Numa publicação do Facebook no dia 7 de Abril, o antigo ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes, fala sobre “a importância de repensar o reforço global dos sistemas de saúde – que é importante ser feita em Portugal.” E de uma forma elegante diz que “As medidas de saúde pública poderão ter condicionamentos de ordem logística, mas nunca deverão ser desvalorizadas para justificar essas razões”. Uma afirmação tão verdadeira que embate de frente contra a verdade actualmente vigente.

Há uma verdade inequívoca que emerge desta pandemia – é importante num país como o nosso, a existência de um serviço público de saúde. Se não houvesse SNS acredito que a situação estaria muito pior. E convém esclarecer que o SNS não é propriedade ideológica da esquerda e o sistema privado de saúde, propriedade ideológica da direita. Esta temática leva-nos à questão sobre o papel que queremos para o Estado, na Saúde.

O Estado não existe como figura corpórea porque ele é composto por todas as instituições criadas e “dirigidas” através dos políticos que elegemos, num país onde a maioria dos portugueses não vota e os políticos eleitos, nada mais fazem do que lamentar a abstenção de forma muito pesarosa.

Ainda que não fosse preciso, este pandemia veio provar que o Estado falha em muita coisa relacionada com a Saúde; e só por isso temos o preço do álcool e das máscaras a serem comercializados 10, 20 ou 30 vezes o seu preço; o Estado falha e é por isso que temos o sistema privado de saúde e de MCDT’s a cobrar demais ao Estado; o Estado falha e é por isso que nem todos os funcionários desse mesmo Estado têm ADSE.

O Estado falha enquanto regulador, enquanto fiscalizador, enquanto promotor e como garante da Saúde dos cidadãos e dos profissionais que trabalham no sector.

A Covid-19 não prova apenas que o SNS faz falta, mas sim um sistema de saúde grátis para toda a população, que funcione em todas as dimensões e em que o modelo de financiamento não tenha de ser obrigatoriamente Beveridgiano.

A Covid-19 prova que sem iniciativa privada não íamos longe, porque o Estado não tem capacidade nem cérebros suficientes para encontrar soluções e que as parcerias com o sector empresarial são o caminho certo. E não digam que, se injectarmos mais dinheiro na investigação, não precisamos do privado. Não estamos na China. É lícito um cidadão investigador, com a coragem de arriscar, querer ganhar mais com o fruto do seu trabalho e não apenas a bolsa que o Estado lhe paga.

O problema da esquerda e da excitação em que estão agora, exponencia a ideia peregrina de que tudo na Saúde deve ser Estado, numa lógica em que um bom enfermeiro vai ganhar tanto como um mau enfermeiro, um bom médico vai ganhar tanto como um mau médico e por vezes são os maus que sobem à categoria superior e nunca, mas nunca são despedidos (a não ser que estejam numa USF e se oponham ao sistema).

Não há avaliação justa e coerente e a meritocracia é como um crime contra o Estado. Estamos há mais de 15 anos na reforma dos CSP e nunca vi avaliar uma unidade, repito avaliar e comparar com outras, quanto mais um profissional. Não, o IDG, os indicadores e a contratualização não servem para isso.

Depois da pandemia o SNS vai ficar ainda mais pobre e com alguns dos seus profissionais, para não dizer todos, cansados, doentes ou em recuperação, sem querer falar de um número, que hoje espero que seja muito pequeno, partiu para não mais voltar. Temos uma oportunidade para, não reformar, mas para construir um novo Sistema (e não serviço) Nacional de Saúde.

Por aqui, no Day After já começamos esta nossa pequena contribuição. O próximo post será sobre a saúde Pública, o que acreditamos ser o ponto de partida.  

Em jeito de reflexão, para acalmar a excitação deixo-vos um pequeno e enorme pensamento:

“Muitos olham para o empresário como o lobo a ser caçado; outros olham para ele como uma vaca a ser ordenhada; poucos são os que o vêem como o cavalo que puxa a carroça.” Winston Churchill

Estamos em Guerra e a história irá julgar-nos, como cidadãos, como empresas, instituições e governo por todas as atitudes e medidas tomadas e sobretudo por todas as que não foram, antes, durante e depois desta guerra contra o Corona vírus.

É sobre isto que vamos falar, passando por temas como

 Estamos em guerra? · Corona vírus. Podemos dizer que fomos apanhados de surpresa? · Guerra pressupõe um inimigo, certo? · Se esse inimigo mata, temos rapidamente de o identificar. Mas como? · O inimigo vai matar, mas vai ferir ainda mais portugueses. Que fazer? · Quem e como combatem os que estão na linha da frente? · E os Cuidados de Saúde Primários? · Se estamos em Guerra, onde está a War Room? · Pensou em Winston Churchill? · E os Serviço de Informações? · Comando Controlo? · Estado de Emergência 1? · Estado de Emergência 2? · Como alimentar a máquina de guerra? · Combatentes sem armas nem munições? · E no Hospital? · Na guerra a verdade é a primeira a morrer? · Depois como fica a verdade? · Nesta guerra ninguém mente? · The Day After

Estamos em guerra?

Esta tem sido a frase mais tenho ouvida a todos os comentadores, especialistas de saúde pública e em particular aos governantes, entre os apelos a ficar em casa e as desastrosas comunicações ao país sobre a evolução da doença.

Sou um cidadão, com uma idade mais perto dos sessenta do que dos cinquenta, tendo a meu cuidado permanente, duas pessoas que fazem parte do grupo de alto risco.  Assistem-me todas as razões para me interessar sobre o que dizem os especialistas em saúde pública e os governantes que lideram este processo; interessa-me muito e devia interessar a todos, porque o futuro, a nossa vida e a dos nossos, depende em muito do que dizem, do que dizem que fazem e do que na realidade fazem.

Há uma ideia que não me sai da cabeça e por isso questiono-me.

Corona vírus. Podemos dizer que fomos apanhados de surpresa?

Estamos em guerra contra um inimigo invisível. Mas ele é assim tão invisível?

Para o cidadão comum sim, mas para quem está à frente dos destinos de um país, no ministério da ciência, da economia ou da saúde, deve estar atento aos sinais e saber antecipar; os serviços de informação devem funcionar, tal como em tempo de guerra, mas fundamentalmente em tempo de paz, altura em que se evitam conflitos.

Não devia ser surpresa, porque desde Janeiro que sabíamos da China, depois Itália e da Espanha. E já histórico de outras ameaças no passado, com outros vírus.

Mas pasmem-se com o Polígrafo; “no dia 18 de Outubro de 2019, dezena e meia de tecnocratas de luxo ao serviço das mais altas esferas do regime neoliberal globalista reuniram-se num hotel de Nova Iorque para realizar “um exercício pandémico de alto nível designado como Event 201. O exercício consistiu na simulação de um surto de um novo coronavírus de âmbito mundial no qual, à medida que os casos e mortes se avolumam, as consequências tornam-se cada vez mais graves’ devido ‘ao crescimento exponencial semana a semana.” E a publicação conclui dizendo que “Os dons proféticos dos expoentes do neoliberalismo são, sem dúvida, admiráveis”.

Disseram Liberais? Já percebi porque é que o nosso governo não ligou nada. (1)

Guerra pressupõe um inimigo, certo?

Se temos um inimigo, temos de o conhecer – o Corona Vírus. Correcto, por isso devemos olhar para os países que ele invadiu, perceber o seu método de ocupação e letalidade. Quem devia fazer isto?

O Ministério da Saúde, a DGS, Direcção Geral de Saúde e os seus conselheiros, como o Conselho Nacional de Saúde e tantos outros especialistas em Saúde Pública que por ali gravitam.  E o que fizeram. Nada?

Pior, porque a DGS literalmente disse que o vírus não chegava a Portugal, não era facilmente transmissível de pessoa para pessoa e alguns especialistas em Saúde Publica afirmaram ser apenas uma gripe.

Mas não é a mesma DGS, a mesma Ministra, o mesmo Ministério, os mesmos especialistas, que agora nos vêm falar de guerra e de combate?

Dirão, a coisa evoluiu.

Se esse inimigo mata, temos rapidamente de o identificar. Mas Como?

Com testes, obviamente, muitos testes, testar, testar, testar. Foi isso que as nossas autoridades fizeram?

Não. Então como combater um inimigo que não vemos e não sabemos onde está?

O Comandante Supremo das Forças Armadas de Portugal, indirectamente diz que não interessa procurar o inimigo, ou seja, o Presidente de Portugal, diz que não vale a pena testar todos os portugueses, porque pode haver falsos negativos ou até gerar uma onde de falsa segurança;  o Presidente, o Governo, a Ministra da Saúde, a DGS e certos especialistas, não assumem os testes como arma fundamental. Incrível esta postura das autoridades.

O Governo de Portugal devia ter ido ao mercado, comprar testes e testar o maior nº possível de portugueses; se não há testes que cheguem, comprem, mas não nos mintam, em campanhas de desinformação, afirmando que não vale a pena testar, usar máscaras, luvas e outros equipamentos de protecção pessoal.

É incrível a irresponsabilidade de quem nos dirige nestes tempos de guerra, recusando seguir a sensatez das medidas de protecção, apenas porque não se prepararam e não reconheceram a ameaça atempadamente; mais do que as recomendações da OMS, vejam os factos da ciência e dos países que estão a ganhar esta guerra. O quadro seguinte não precisa de explicações.

https://www.maskssavelives.org/?fbclid=IwAR2NRLxegkZs5mm2t3RhJXeQhUbToahjfUxNteN3Lejv_YIEQhUjEp9je90

E este filme, dum pequeno país europeu é auto-explicativo.

O inimigo vai matar, mas vai ferir ainda mais portugueses. Que fazer?

Numa guerra, muitas vezes o inimigo não quer matar, mas ferir, porque ferir implica a utilização de meios de retaguarda, envolve mais gente para cuidar, obriga a gastos com meios de saúde, salvamento e transporte; e no fim, os feridos desmoralizam os que combatem e quem vê as consequências. E a moral de um povo cai por terra.

Era preciso desde a primeira hora, criar unidades especificas para tratar estes doentes, isolá-los quando identificados e avaliada a sua gravidade por profissionais habilitados.

Era preciso desde a primeira hora, retirar da zona de combate dos hospitais, quem nada lá estava a fazer, terminar com as consultas e não urgências e levar esses doentes que continuam a precisar de cuidados médicos para outros locais, outros hospitais não Covid-19; depois era preciso desde a primeira hora e por região, por ACES ou zona de influência dos centros hospitalares e com o apoio dos municípios, reservar locais e camas para os doentes feridos pelo corona vírus.

Foi isso que se fez? Não e a região norte é bem o espelho dessa situação, inicialmente uma das mais afectadas. Não houve um real plano de emergência e liderança no processo. Quem tomou decisões, não ouviu os médicos e os enfermeiros que estavam na linha da frente, apesar dos apelos insistentes dos Bastonários.

Doente com Covid-19 confirmado e sintomatologia já preocupante (não defino os critérios médicos para isso) deve ser levado para locais específicos e tratado por equipas especializadas, protegidas e com material de combate adequado; quem não tem Covid-19 deve continuar a ser tratado em hospitais e unidades de saúde, onde não circulem doentes confirmados. Por isso testar a população era e continua a ser fundamental para saber, onde se esconde o inimigo e para não o trazer para dentro das nossas linhas defensivas.

Quem e como combatem os que estão na linha da frente?

Sejamos claros. Ninguém estava preparado para esta guerra.

Não vou falar das nossas Forças Armadas, pequenas e mal equipadas, desmanteladas ao longo dos anos de democracia por sucessivos governos e por racionais de esquerda pouco concordantes com organizações de comando controlo.

As Forças Armadas são compostas por três ramos – Exército, Marinha e Força Aérea; façamos a analogia com os Cuidados de Saúde Primários, Hospitais e Cuidados Continuados/Paliativos.

Tomemos como exemplo o ramo do Exército, com diversas Armas – Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Administração Militar, Engenharia e Transmissões; dentro destas Armas, temos o exército regular, os Comandos e os Rangers, estes últimos designados por tropas especiais. Podia continuar a analogia com o sistema de saúde, mas julgo não ser preciso.

Numa guerra, todos têm a sua função e será óbvio que as operações mais importantes onde é necessário um ataque preciso e letal, sejam efectuadas pelas tropas especiais, mais bem equipadas e preparadas.

Actualmente qualquer militar tem na sua farda, joelhos e cotovelos protegidos, capacete, armas de defesa e ataque, óculos protectores, coletes de protecção, munições… no fundo o que equivaleria nos médicos, enfermeiros e outros técnicos que estão na linha da frente, a fatos de protecção, máscaras, viseiras e luvas, substituídas sempre que necessário, ao longo do dia.

Foi isso que aconteceu nesta guerra, nos nossos hospitais? No início são muitos os relatos que nos dizem que as nossas tropas, os médicos e enfermeiros da linha da frente, foram abandonados, sem liderança, sem equipamentos de protecção, ou seja, sem meios de combate em número suficiente. Mas há quem negue isto e faça dos médicos e enfermeiros, mentirosos.

Alguém treinou os nossos médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde para combater nesta guerra? Não e na verdade a liderança do combate e a aquisição do conhecimento científico, foi feita na comunicação social, nos painelistas, nas redes sociais e na desinformação emanada pela DGS e autoridades de Saúde – o exemplo dos testes, do uso das máscaras e luvas, sobre o ibuprofeno, …

E os Cuidados de Saúde Primários?

Total desorientação nos primeiros tempos. Lembram-se de doentes fechados nas casas de banho?

Recordo o do Dia D, o desembarque na Normandia. Foi uma operação que levou meses a preparar, mas que teve em consideração quase todos os pormenores, menos as vicissitudes do mar e do clima.

Nos CSP temos mais de 10.000 profissionais entre médicos, enfermeiros e outros combatentes. E a verdade foi que estes combatentes foram literalmente abandonados ao destino e à sorte do Corona Vírus, com toda a desinformação, uma linha de apoio que não funcionava e sem orientações precisas, deixando-os abandonados e unicamente assistidos pela circulação de informação em grupos de colegas no WhatsApp.  

O Dia D resultou porque tinha três coisas fundamentais – soldados, equipamento e liderança. Nesta guerra que estamos a travar temos apenas uma coisa – soldados empenhados e que juraram um dia, lutar até ao fim para salvar vidas.

Se estamos em Guerra, onde está a War Room, a Sala de Guerra?

Não está. Onde está a liderança? Não está. Onde está a comunicação? Não está.

Combater numa guerra não é para a população civil, mas para militares, profissionais treinados para agir sob pressão, em teatros de guerra e destruição.

Se estamos num cenário de guerra, então é bom que se assuma que liderar o combate numa guerra não é para políticos sem preparação, em que muitos nunca lideraram equipas, nunca trabalharam sem ser nas fileiras do partido e que chegaram a cargos políticos sem formação em liderança e condução de pessoas em situações de crise.

Nessa Sala de Guerra deve haver médicos, enfermeiros, farmacêuticos e tantos outros profissionais, consoante as necessidades do combate.  

Lembram-se dos fogos em Portugal? Lembram-se de Tancos? Lembram-se do que sucedeu às Forças Armadas em Portugal? Devolveram-nos a liberdade e os políticos portugueses, com medo dos militares, quase que extinguiram as Forças Armadas, sujeitando-os a uma humilhação sem precedentes.

Pensou em Winston Churchill?

E bem, porque ele foi político, mas foi um oficial que combateu na 1ª Grande Guerra.

Sem a capacidade de liderança, nem humildade dos políticos em o reconhecer, não temos uma Sala de Guerra, comandada pelo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, líder das tropas no terreno, em conjunto com o 1º Ministro, líder do governo que suporta a guerra e que se deve preocupar com a recuperação da economia e com o combate político na Europa.

E o Serviço de Informações?

Este serviço é fundamental e deve reunir peritos de medicina, estatística e de saúde pública, entre outros. A ideia é reunir aqui, todo o “state of the art” da pandemia, estar em contacto com o mesmo departamento de outros países e garantir que temos a última informação e capacidade analítica para gerar informação fidedigna para que, na Sala de Guerra, se possa traçar o plano mais eficaz para a pandemia e os combates que se travam em cada região.

Dou como exemplo algo de muito simples – será que em todas as frentes de combate, ou seja, em todos os hospitais, o protocolo utilizado com os doentes é o mesmo, incluindo procedimentos médicos e terapêutica medicamentosa?

É certo que precisamos de ventiladores, mas será que todos os que devem saber, sabem utilizar estes aparelhos? E nas unidades de cuidados intensivos, devemos aumentar as camas, mas temos equipas devidamente treinadas para elas?

Não, este serviço não é a linha de apoio ao médico que o ministério montou, que a maioria das vezes, segundo informação de quem para lá ligava, não funcionava. E pergunto, a esse propósito, o que fez com que a ministra atribuísse um louvor em Diário da Républica?

A critica não tem a ver com os médicos que participaram e foram louvados, mas na atitude da ministra de não louvar os médicos e enfermeiros da linha, não telefónica, mas da linha da frente de combate, um por um. Mais uma vez o discernimento e a liderança em questão.

Comando Controlo?

Todos devem agir sob lógica de comando controlo, um plano traçado para vencer o inimigo. O Comandante das forças, deve estar rodeado da informação correcta que vem do terreno, numa cadeia de comando vertical e silenciosa, onde a imprensa serve o combate que se trava e não faz parte dos que atrapalham o combate, com reportagens idiotas e informação não confirmada, comentada por quem de saúde nada sabe.

Deve conhecer-se as forças no terreno, as necessidades das populações e de forma ímpar, graduar como oficiais que juram obediência ao Comando de Portugal, médicos e enfermeiros civis, os profissionais que trabalham na linha da frente de uma dada região, auxiliados por um oficial militar que responde à cadeia de comando, partilhando a informação correcta e actualizada e não a bagunçada que todos os dias vemos com os números da DGS e do Ministério da Saúde.

Depois, libertem os médicos de família dos CSP para tratar doentes e para isso coloquem-nos a atender doentes e retirem-lhes toda a burocracia e os telefonemas que não sejam de utentes; juntamente aos administrativos de cada unidade e do ACES, juntem militares no apoio a essas funções burocráticas, mas fundamentais.

Isto é impossível, isto atropela a Constituição poderão dizer. Vamos precisar de chegar ao Estado de Sítio para chamar os militares e colocar a hierarquia militar a comandar os destinos do país?

Se perdermos tempo com estas discussões, vamos deixar morrer médicos, enfermeiros e muitos portugueses. Mas depois, não nos venham dizer como se fossemos idiotas, que estamos em guerra, em estado de emergência, mas que não querem agir como tal.

Estado de emergência 1?

É importante continuar em Estado de Emergência, mas é ainda mais importante que ele sirva não apenas para manter as pessoas em casa, mas para conseguir proteger as que mais precisam e os que precisam de trabalhar.

A este propósito da protecção dos mais necessitados, fiquei incrédulo, quando ouvi a ministra dizer sobre os idosos em lares privados ” Estas instituições têm de ter um plano de contingência, que implica que tinham de ter pensado, porque essa informação foi disseminada há dias ou até semanas, como deviam preparar-se para uma situação deste tipo”.

Preparar-se para uma situação deste tipo? A arrogância como foi dito faz-me perguntar se o governo, o ministério e a DGS, não se deviam ter preparado melhor, ter um plano de contingência, que implica que tinham de ter pensado antecipadamente, porque a informação sobre o Corona Vírus foi disseminada desde Janeiro? Incrível a desfaçatez política e ideológica.

Num país idoso, as autoridades acordarem só agora para os lares? Quando se vão lembrar dos Cuidados Continuados e dos Paliativos?

O Estado de Emergência implementa-se para nos proteger da pandemia, mas será que nos protege de quem diz proteger-nos, será que nos protege das políticas erráticas e incoerentes? Recordo apenas que o 1º Ministro e muitos outros, não queriam ir para Estado de Emergência e na votação na Assembleia da República, houve até quem se abstivesse.

Estado de emergência 2?

Continuando na lógica dos políticos coerentes, houve partidos que continuaram a abster-se e outros que mudaram o sentido de voto, da concordância para a abstenção e pasme-se da abstenção para contra. Como é possível, colocar argumentos perante a vida das pessoas, a vida de um país?

Neste Estado de Emergência 2, o 1º Ministro já está a favor e até agravou as medidas. O que o fez mudar? A saúde ou a economia?

Agravar as medidas é a única hipótese de não fazer colapsar o SNS que está muito perto disso e do burnout de quem está na linha da frente. O Presidente no seu discurso mostrou o quadro negro que se avizinha; o discurso do 1º Ministro, do Ministério da Saúde e da DGS, com a conversa da curva em planalto, transmitem uma sensação de que está tudo controlado passando uma sensação de segurança, a meu ver falsa.

Como alimentar a máquina de guerra?

São muitos os exemplos da resistência francesa na 2ª guerra mundial, que dinamitava as linhas de comboio que transportavam munições, gasolina e mantimentos para os soldados alemães que combatiam na Bélgica, no Inverno duro e fatal.

Que fazemos para proteger quem deve assegurar o abastecimento de todas as cadeias de distribuição, os supermercados, as forças de segurança, recolha do lixo…?

Que fazemos para assegurar que as fábricas, os agricultores e todos os que contribuem para a a nossa vida em quarentena, possam trabalhar e saber que as suas famílias estão em segurança?

Já falei dos materiais de protecção e de ventiladores, algo muito falado em toda a comunicação e redes sociais. E os medicamentos?

A grande parte dos medicamentos e dos seus princípios activos, têm origem na produção da China e da India. Com o fecho de fronteiras, com as consequências da pandemia, o transporte via terrestre sofreu uma procura sem precedentes.

Será que o governo e o Infarmed já reuniram com a Apifarma e com a Apogen, para garantir stock suficiente de medicamentos? Falo de antihipertensores, estatinas, anticoagulantes, antidiabéticos e outros medicamentos para a doença crónica?

Já pensarem em abrir uma para garantir que os medicamentos possam chegar a Portugal atempadamente? Acreditamos se nos disserem que sim?

O apelo à via verde foi formulado pela Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao verificarem-se constrangimentos nas fronteiras europeias. Não façam nada e depois queiram continuar a combater.

Combatentes sem armas nem munições?

Este é um assunto sério. Provavelmente o governo já pediu à Apifarma e à Apogen, através do Infarmed, para as companhias farmacêuticas reforçarem o stock de medicamentos, de forma a que nada falte. E provavelmente assume-se como um Pilatos, lavando as mãos se alguma coisa falhar, para depois apontar o dedo à IF.

Pensem comigo – as fábricas recebem dois pedidos, um para Portugal e outro para a Alemanha; ainda que haja solidariedade europeia, o lote alemão é muito maior do que o português, logo vai primeiro; depois, não têm que fazer embalagens pequenas, de 10 ou 16 comprimidos que nunca se vendem e são destruídas sendo a IF taxada com isso; depois, sim depois, não têm que por uma etiqueta com o preço, coisa única na Europa, só feita em Portugal; depois nos quarteis generais das companhias fazem-se contas para não se despedir pessoas, neste período de crise mundial, o esforço que o governo português pede aos laboratórios ainda será taxado com um imposto especial, para além dos impostos normais que as empresas têm. Então, de novo a pergunta – as fábricas recebem dois pedidos, um para Portugal e outro para a Alemanha. Para onde fabricam primeiro?

Reúnam de verdade com a Apifarma e a Apogen, aproveitem este momento para extinguir alguns dos disparates existentes com a política do medicamento em Portugal e depois exijam à IF o esforço de guerra.

Uma coisa vos digo – se faltarem medicamentos, o governo e a esquerda vão apontar o dedo aos laboratórios e nada será tão falso.

E no hospital?

Pior, se não houver a dita via verde. Na verdade, pelas lei da contratação pública, o hospital adjudica a uma companhia e essa, logisticamente prepara o stock para o fornecimento de um ano; todos os outros concorrentes saem do jogo, porque não vão ter produto, uma vez que perderam o concurso.

Com a dependência da Índia (já em lock out) e da China, se a Europa não tiver esta via verde, arriscamos um colapso a um outro nível, o da falta de medicamentos hospitalares.

Em tempo de guerra, este fornecimento tem de ser assegurado e o governo devia já ter reunido com os representantes das companhias farmacêuticas, não por email, mas na Sala de Guerra e nós, os cidadãos devíamos estar informados dos esforços conjuntos, de forma a ficarmos descansados e acreditar que tudo está a ser feito. Mas se alguma coisa correr mal a este nível, eu sei qual vai ser a verdade que abrirá os telejornais – Indústria Farmacêutica não cumpre com os contratos e é responsável pela falta de medicação hospitalar, ao que a esquerda vai apontar o dedo e clamar castigos.    

Na guerra, a verdade é a primeira a morrer?

Li há poucos dias no DN e cito “no filme Uma Questão de Honra, o personagem interpretado pelo Jack Nicholson grita “tu não sabes lidar com a verdade”. Lembrei-me disso ao ouvir alguns apelos para que se diga sempre a verdade sobre a real situação da pandemia. Isto tem uma razão de ser: quem os faz sabe que há uma enorme probabilidade de isso não acontecer. O crescimento do problema trará também acrescidas dificuldades de comunicação e de julgamento sobre o que será melhor ou não dizer às pessoas. Não poucas vezes as autoridades vão confrontar-se com o dilema de dizer a verdade, omitir ou, pura e simplesmente, mentir.

Por muito que custe, dizer sempre a verdade, nestas circunstâncias, pode não ser o melhor para a comunidade. Convém lembrar que até as mais avançadas democracias liberais prevêem a possibilidade de censura em situações-limite.

A questão é: será que os portugueses vão continuar a conseguir lidar com a verdade de uma forma serena?”

Uma coisa é não dizer tudo, outra é omitir, outra é mentir, outra é dizer disparates. Quando tudo isto se liga à falta de liderança e à politiquice de políticos maus, a pandemia será muito complicada de debelar.

Omitam, mintam, disparatem e um dia destes, os confrontos na rua, de quem viu os seus morrer, de quem não tem trabalho, dinheiro e futuro próximo, vão acontecer.

Depois como fica a verdade?

Será aí que vamos para Estado de Sítio e chamamos a tropa?

Escuto o Presidente da Republica, o 1º Ministro, a Directora da DGS, a  Ministra da Saúde e comentadores arregimentados que, que apesar das mortes e do número de infectados aumentar, não falta material onde é preciso, não faltam testes e os testes não devem ser feitos a todos, as máscaras de protecção não são para usar por todos e o malabarismo dos números são apenas confusões momentâneas ou esquecimentos de última hora.

No último domingo assisti a um célebre comentador da noite televisiva, que tem sempre informação privilegiada, dizer com enfase que está tudo a correr bem e que vão já ser feitos 10.000 testes nos lares de idosos, uma excelente medida. Não é mentira, mas o que diz não contribui para a verdade, porque o que ele devia dizer-nos com a sua informação privilegiada, é porque não se fazem a todos os portugueses e porque só agora os lares de idosos.

Não me pergunto de quem vem a informação privilegiada que tem, mas antes porque vem?

E questiono-me se no fim, quando a pandemia acabar e fizermos as contas às consequências, que vão pensar todos os que julgaram importante não dizer a verdade e contribuir para um estado de obnubilação da realidade?

Nesta guerra, ninguém mente?

Nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém. A frase não é minha, mas do PR, a figura mais elevada da nação e o Comandante Supremo das nossas Forças Armadas. Mas recordo uma promessa que ele fez nos incêndios a um velhote que acabou por falecer sem ver a promessa…

Os números do Covid-19 entre mortos, infectados e em teste são verdadeiros? Não, não são porque não há teste para todos, os testes que são pedidos demoram, os números são desconexos de um dia para o outro, os doentes são dados como curados sem fazerem teste de negatividade; e não digo mais sobre os números e a verdade deles.

O Secretario de Estado da Saúde, afirma que “neste momento não haverá ninguém sem médico de família, garantidamente. Mesmo as faixas mais vulneráveis da população, como migrantes ou refugiados, vão ficar abrangidos por esta situação e todos eles terão direito à sua assistência e ao seu médico de família”.

A sério? Andamos anos para resolver este problema e agora fica resolvido? E querem que se acredite? Ou aumentamos a lista de inscritos por médico e os doentes têm médico, mas não têm consulta?

The Day After

A lógica que muitos utilizam para que primeiro devemos combater o vírus e que sobre as eventuais falhas teremos tempo para falar, no tempo certo, é errada e perigosa. Isto significa que podíamos corrigir a tempo, mas que insistimos em deixar estar pessoas a dirigir os destinos da nossa vida.

Quantas mais pessoas precisam de morrer para que a ideia idiota do politicamente correcto caia de vez? Quando a morte bater na porta de um amigo ou familiar, como vai pensar? E se fosse consigo?

Há quem diga agora que a primeira regra é não embirrarmos uns com os outros. A sério? Então devemos aceitar como carneiros acéfalos, todos os disparates que nos dizem?

Havemos de ouvir os ideólogos do regime actual dizer que Portugal fez um excelente trabalho, dar vivas ao SNS, afirmar que as duas senhoras são heroínas, o que já acontece como ouvi na Sic Notícias, que conseguimos números diferentes do resto da Europa e que afinal a estratégia portuguesa foi um sucesso, admirada por todos na Europa. Mas Portugal também é diferente, está longe de tudo, só tem uma fronteira, estamos em época baixa de turismo, …

A verdade que não morre mesmo, é que estamos longe, muito longe do fim da pandemia e nada abona em nosso favor.

Aprendi que este vírus enganou as autoridades de saúde portuguesas, que se regeram por opiniões de quem menosprezou a evidência, a mesma evidência que depois utilizaram para justificar a desconsideração inicial pelo vírus. Perante a declaração de pandemia, continuaram a assobiar para o lado, na doce esperança de que o vírus não nos contagiasse, nem às pessoas nem à economia. Todos ouvimos as recomendações iniciais do Conselho Nacional de Saúde.  Um desastre completo.

A arrogância política de afirmar que “a meio da batalha, não se mudam os generais”, é a mesma arrogância que leva a despedir por telefone na véspera, um comandante com provas dadas, no meio de uma batalha sem precedentes na história da humanidade.  

E não se despede quem devia, quem não preparou o país. É bom que essas pessoas não precisem de receber um telefonema para sair, mas que saiam pelo seu pé, quanto antes.

É bom que todos nos lembremos disso no Day After, na hora de decidirmos o rumo do país.

O Day After vai definir de que matéria somos feitos. É disso que iremos falar.

 (1)

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/em-outubro-de-2019-realizou-se-um-exercicio-de-simulacao-de-um-surto-de-coronavirus-em-nova-iorque?fbclid=IwAR2NRLxegkZs5mm2t3RhJXeQhUbToahjfUxNteN3Lejv_YIEQhUjEp9je90

Ao fim de pouco mais de um ano, volto aqui, a este blog num período em que todos, ou a maioria de nós, estamos em casa.

Estamos em guerra e por isso o nosso contributo para ajudar a vencer esta batalha sem precedentes, é ajudar a pensar e a construir o dia seguinte, The Day After, olhando para tudo o que nos está a acontecer.

É fundamental ter espírito crítico, mas será importante, diria até vital, erguer soluções, construir pontes e ajudar a erguer o futuro neste país que tanto precisa da nossa ajuda.

Muito do que irei escrever, e espero fazê-lo amiúde, reflecte não só o que penso e observo, mas o que converso com amigos do sector, com médicos e enfermeiros, farmacêuticos e profissionais da IF, que se preocupam com o dia de amanhã, com o dia seguinte, com um Portugal que querem melhor para todos.

Escrever sobre saúde é ter opinião rigorosa e fundamentada, baseada no que é a evidência, mas com uma visão diferente, em que tentarei sempre juntar diferentes pontos e informação variada, construindo uma forma que acrescente valor a quem lê.

Irá agradar a todos? Talvez não, mas o objectivo é o de partilhar ideias, que não sejam apenas as da televisão, mas também o pensar daqueles que não têm voz pública, mas têm muito saber. Isso significa que este blog está aberto a todos os contributos que sejam coerentes, construtivos, críticos e que abordem o sector da saúde. Obviamente existe um crivo, que será feito por pessoas racionais e educadas.

O próximo post será publicado durante o dia 3 de Abril de 2020. Volte a registar-se no blog www.marketaccessportugal.com para receber um sinal sempre que houver uma nova publicação. Obrigado e até já.

José Ribeiro

A propósito do incidente com o avião da Air Astana nos céus de Lisboa, olhando para a acção dos meios de socorro e em particular dos pilotos dos F-16 de Portugal, fiquei a pensar no que esperamos, dos aviões e dos pilotos – todos nas melhores condições, as aeronaves mais modernas e os pilotos, mais bem preparados e melhor treinados.
A propósito do tema, ouvi alguém dizer que não voa em companhias Low Cost e que prefere as companhias aéreas de bandeira…

Mayday, Mayday, Mayday
O que se passou foi muito grave, um avião desgovernado, uma aeronave cujo os pilotos não tinham forma de a controlar, porque os comandos não obedeciam. O perigo espreitou sobre Lisboa e podia ter acontecido uma enorme catástrofe, sem que ninguém a pudesse evitar. Perante o perigo e o Mayday, repetido três vezes, entraram em acção profissionais experientes e treinados, controladores aéreos, militares da Marinha e da Força Aérea e todos os meios de socorro em terra. Num ápice dois F-16 levantaram de Leiria e em 7 minutos estavam sobre Lisboa, tendo como missão ajudar o avião em perigo. Pode-se consultar as notícias, mas de facto os dois caças foram os olhos e o radar de um avião fora de controlo.
Desta vez, não aconteceu nenhuma catástrofe e ao que parece, é de enaltecer a preparação e o profissionalismo de todos, em particular dos pilotos.

Principal elemento de controlo da aeronave – o piloto
A formação de profissionais ligados à aeronáutica, envolve programas certificados e reconhecidos pelas autoridades competentes, tanto nacionais como internacionais, para melhorar de forma contínua, os níveis de segurança. Como exemplo, a norte-americana FAA, Federal Aviation Administration, exige uma certificação que obedece aos mais altos critérios, estabelecidos com a indústria de aviação e com o público.
Os rigorosos programas de formação já prevêem o uso de simuladores e outras novas tecnologias, às quais os pilotos são submetidos regularmente e só podem voar mediante níveis mínimos de aprovação nessas formações.
À medida que aumenta o número de voos, o número de falhas também tende a aumentar e sendo o erro humano actualmente a principal causa de acidentes ou incidentes, os simuladores e legislação associada na formação de pilotos, contribuem para elevar os padrões de segurança na aeronáutica, já por si muito rigorosos.
A ética de trabalho de algumas companhias, aponta para que não basta ter-se o treino apropriado, mas é também necessário estar psicologicamente apto.
Esta problemática leva-nos ao principal elemento de controlo da aeronave – o piloto. Mesmo com os equipamentos mais modernos e com a tecnologia mais avançada, nada substitui a interpretação e a decisão do homem, sobretudo em cenários imprevistos. O erro do piloto tem de facto um impacto maior e mais mediático, do que o de qualquer outro elemento ligado à aviação.

Como se sentiria ao entrar dentro da aeronave?
Imagine que tem de fazer uma viagem urgente e no embarque, fica a saber que o comandante e o seu co-piloto, ambos com mais de 50 anos, têm alcançado os valores mínimos indispensáveis nos simuladores de voo, para além de que o avião, estacionado na placa tem aspecto sujo e descuidado. Será que tem a manutenção em dia?
A tripulação chegou e reparou que cada tripulante caminhava sozinho e cabisbaixo, com um ar triste e preocupado, parecendo-lhes que estavam em Burnout, tal o cansaço expresso nas caras cerradas. Além do mais, chove e troveja no aeroporto de partida e no de chegada.
Ironicamente, lembra-se que leu num artigo, que o erro piloto/meteorologia representa a terceira causa maior na classe de acidentes aéreos.
Como se sente ao entrar dentro do avião? Já não entrava? Teme pela sua vida?

Enfarte: risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país
Já dentro do avião, (afinal entrou), recebeu das mãos de uma hospedeira, agora sorridente, o jornal Público. Nervoso, desfolhou sem ler e na página 10, o título chamou-o à atenção – Enfarte, risco de morte é 30% superior em doentes tratados no Sul do país. (1)

O texto do jornal afirma que, “Os doentes com enfarte agudo do miocárdio que são tratados em hospitais públicos das regiões de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo ou do Algarve têm um maior risco de mortalidade do que os que são assistidos em unidades do Norte do país. Um risco que chega a ser 30% superior quando se comparam os resultados de milhares de pacientes tratados em hospitais do Sul com os que foram assistidos em unidades do Norte, concluiu a investigadora Mariana Lobo num estudo desenvolvido no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis) e que integra a sua tese de doutoramento. São resultados que sugerem que os cuidados de saúde prestados a pacientes que sofreram enfartes agudos de miocárdio não são semelhantes em todo o território nacional e que devem agora ser investigados para se perceber o que está na base desta heterogeneidade”.

Como somos tratados nos Cuidados de Saúde Primários?
Pousou o jornal e ficou a pensar que os cuidados secundários em Portugal não são todos iguais, o que constitui um problema grave e complexo. Se o azar lhe batesse à porta e tivesse de embarcar na doença cardiovascular, o que sentia se fosse levado para um hospital da ARS LVT? Que lhe iria acontecer? Faria parte desses 30%?
Decerto que o enfarte, um enorme expoente da doença cardiovascular, está muito relacionado com os hábitos de vida das pessoas e claro, com a forma como são tratados nos Cuidados de Saúde Primários, ex-libris do SNS, tão famosos por serem a porta de entrada no sistema.
Enquanto o seu pensamento deambulava, o pássaro de ferro aterrou com alguns solavancos, por meio de uma chuva copiosa. Finalmente respirou aliviado quando sentiu que o avião se imobilizou na placa, junto à manga.
A caminho do hotel ligou a um amigo Cardiologista de Coimbra, que em resposta às suas questões sobre a notícia do Jornal e a forma como os portugueses estavam a ser tratados nos CSP, lhe disse que enviava um estudo para poder ler.

Um anexo chamado Dysis
O sonar do smartphone indicou-lhe a recepção de um email que trazia um anexo chamado Dysis, (2), nome de um estudo epidemiológico, realizado em 12 países da Europa, incluindo Portugal.
No nosso país foram recrutados 916 doentes, a maioria, 82,4%, provenientes dos Cuidados de Saúde Primários; 66,7%, apresentava risco elevado de desenvolver complicações cardiovasculares e 30% tinha doença cardiovascular pré-existente. Independentemente do risco, verificou-se que a maioria dos doentes, 73,1%, usava uma dose de estatinas de baixa potência.
Nas conclusões pode ler-se num português cauteloso, que mais de metade dos doentes tinham um elevado risco cardiovascular, mas que, apesar desse risco, os médicos prescreveram-lhes estatinas de baixa potência! Referiu ainda que, será fundamental avaliar as verdadeiras razões para a reduzida eficiência do tratamento com estatinas, “no mundo real” da prática clínica diária, sobretudo tendo em consideração que se trata de uma classe de fármacos com elevada eficácia. E em jeito de conselho, outra vez de forma cuidada, concluem que é importante reavaliar as doses dos medicamentos utilizados, reconsiderando a utilização de uma terapêutica mais intensiva e até combinada.
Quem fez o estudo aconselha os médicos a rever a prática clínica, que parece desajustada, considerando fundamental a reavaliação das estratégias terapêuticas que permitem reduzir a morbilidade e a mortalidade da doença cardiovascular.

Como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros
Se há um conselho para os médicos reverem o que sabem sobre a forma como tratam a doença cardiovascular, surge a pergunta óbvia. Na próxima consulta na USF, questiona-se se aquele ou aquela médica, está por dentro do state of the art? Será que periodicamente faz reciclagem de conhecimentos? É avaliado em simuladores? E quem se responsabiliza por isso? O Ministério? A Ordem dos Médicos?
O que é mais importante para si, o piloto do avião ou o seu médico? Dirão alguns que não se pode comparar. Claro que não…
O incidente da Air Astana sobre Lisboa fez-me pensar em segurança e como as diferentes profissões ou corporações, aprendem com seus erros.
As companhias aéreas, trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todos os funcionários sabem disso antes de se candidatarem e não ficam surpresos quando são chamados para trabalhar nos fins de semana ou nos feriados. Já os hospitais, as USF’s ou UCSP, trabalham de forma diferente nos fins de semana. Muitos médicos e outros profissionais trabalham apenas durante a semana. E isto, não é um erro do nosso sistema de saúde?

A comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros?
A Federal Aviation Administration, FAA exige que todas as companhias aéreas dos EUA estudem os incidentes ou acidentes de aviação – não importando qual companhia aérea esteja envolvida, para que todos possam aprender com os aspectos positivos e negativos de cada acidente aéreo. As companhias aéreas devem estar no caminho certo, porque os acidentes aéreos são extremamente raros.
E a comunidade médica em Portugal, como aprende com os erros? Ou não há erros? Como aprende com os estudos, como o Dysis? E como se põe em prática, os novos conhecimentos? Já se questionou sobre isso?
Só há erro médico nos hospitais e nas cirurgias? E nos CSP? Como é abordada a Doença Crónica, a Doença Cardiovascular? Será que os indicadores de contratualização reflectem o viver dos portugueses?

A ciência do incerto e a arte da probabilidade
O Professor José Fragata em 2014, escreve com o Dr. Luís Martins, o Erro Médico em Medicina, editado pela Almedina. Diz o autor que “O exercício da Medicina, outrora baseado na tradicional relação hipocrática médico-doente, evoluiu para a prestação de cuidados de Saúde exercida por seres humanos, naturalmente falíveis, mas operando hoje no seio de organizações complexas e com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Esta mudança associada à natureza marcadamente incerta da biologia do Homem doente, cria um enorme potencial para a ocorrência de erros. A Medicina Clínica é hoje, mais do que nunca, a “ciência do incerto e a arte da probabilidade” Osler.
O autor afirma que os Erros da Medicina, são a ponte de um enorme iceberg oculto, referindo ainda os conflitos éticos em torno do Erro e ainda, o tratamento jurídico que deverá ser dado ao Erro Médico, na sua distinção fundamental com a negligência.
E tal como as companhias aéreas, “a fiabilidade e a qualidade de uma organização médica residem fundamentalmente no modo como sabe lidar com os seus erros, minimizando as suas consequências e aprendendo a preveni-los.”

Quem queria para piloto?
Se a sua saúde fosse um avião, quem queria para piloto? O mais conceituado, o mais sabedor, o mais treinado, o que tem mais doentes, ou simplesmente o melhor?
Mas como é que sabe isso? Como sabe que o médico não está em Burnout, ou que, como os pilotos, tem a vocação certa e está psicologicamente apto?
Hoje, com todos os registos, a caixa negra da sua saúde existe. E se sofrer um acidente cardiovascular, ela pode ser consultada…

José Ribeiro

(1) – https://www.publico.pt/2018/10/08/sociedade/noticia/doentes-com-enfarte-tem-maior-risco-de-morte-se-forem-tratadas-em-hospitais-do-sul-1846497
(2) – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21425743

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