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Numa conversa circunstancial com um Director de Marketing de uma multinacional farmacêutica sobre o futuro do medicamento em Portugal e sobre o tema dos dois posts anteriores, “Vamos Meter Água na Saúde” e a “Value Story”, ouvi algo que me deixou outra vez pensativo sobre o tema. Alguém que promovia uma actividade de um certo grupo de USF’s veio solicitar-lhe apoio para um determinado evento. A resposta foi e passo a citar – “Apoiar as USF? Não obrigado. Elas só querem prescrever genéricos e até estão contra a Indústria. Então acham que eu vou investir dinheiro neles? Nem pensar”.

Eu ouvi, aprendi e não me admirei.

“Apoiar as USF, nunca!” Escrever sobre este tema num país pouco tolerante a ideias, digamos diferentes, pode ser perigoso, porque há o risco de quem ler, passar a ostracizar-nos. É uma espécie de deja vu, uma vez que já senti isso no passado, quando escrevi sobre outros temas.

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Acredito que o futuro do SNS e da Saúde em Portugal passa pela IF, pelas boas práticas, reforçando que o contributo não passa somente por baixar à força o preço dos medicamentos, como tem sido comum nos últimos anos.
É necessário recuperar a reputação da Indústria Farmacêutica em Portugal, inovar na forma como pode ajudar na edificação e sustentabilidade de um novo SNS. Acredito, fazendo fé no que ouço e leio nos OCS, (órgãos de comunicação social) e em relatórios sobre o sector, que o nosso actual sistema deve adaptar-se à realidade do país e que as USF’s têm de evoluir, por exemplo no sentido dos resultados clínicos. Sabemos que há margem para melhorar, o que é excelente.
Melhorar significa “meter água na Saúde”, criar uma “value proposition” que possa contribuir com melhorias para o sistema, em particular no acesso do doente a cuidados de saúde e tratamentos bem como na educação para a saúde.
É preciso falar sobre estes temas, fora da elite habitual, discutir formas de antecipar e construir o Futuro, se queremos que isso aconteça. É isso que aqui devemos fazer, para bem de todos.

Empregando um chavão dos CSP, as USF’s e as UCSP´s devem ser a porta de entrada no sistema, razão mais do que suficiente para que este tema seja tão relevante. Apoiar as USF/UCSP’s é fundamental mas a reacção que descrevo atrás é muito comum e vigora entre a grande maioria dos profissionais de marketing e de vendas da IF. Em contrapartida a reacção de alguns médicos das USF’s em quererem apenas investimento da IF sem qualquer compromisso, também é muito comum. Não existe a tão famosa relação win-win.
Para quem está a dar os primeiros passos no Market Access Regional, esta atitude dilacera o cérebro e o coração, uma vez que não encontra apoio, quer na estrutura interna, quer no terreno, quando querem investir de uma forma diferente nas USF’s, nas UCSP (sim nas UCSP’s) ou nos ACES. Quase que mais vale continuar a fazer o mesmo de sempre.
Mas se esta reacção surge é porque reflecte alguma verdade da atitude dos profissionais. O soundbyte existente diz que os médicos das USF não podem prescrever o que querem, uma vez que estão sujeitos à famosa contratualização, ao controlo financeiro e de prescrição. A juntar, ainda há a pressão do governo para aumentar a penetração dos genéricos, reflectida até em indicadores específicos. Ler e analisar os boletins das ARS e do Infarmed, ajuda a perceber o caminho que está a ser construído.
Bom, tudo isto é verdade mas quando olhamos para o mercado farmacêutico nacional, vemos que algumas marcas crescem e decerto não é apenas pela prescrição dos médicos das UCSP, que segundo os mesmos soundbytes, parece que estão menos sujeitos a esta famigerada pressão.

As USF’s são todas iguais?

Então, sobre as mesmas condições PTN (pressão e temperatura normal), porque se prescreve uns produtos e não outros e qual a razão de ter diferentes dinâmicas nos mesmos mercados?
Se não vale a pena “falar” às USF’s, (ou seja aos Coordenadores, Conselhos Técnicos) mas essencialmente às Direcções Executivas e aos Conselhos Clínicos dos ACES e continuamos apenas a apostar no médico prescritor, então porque vemos performances tão variadas nos mercados crónicos, como a Hipertensão, Dislipidemia, DPOC, ou Diabetes, por exemplo? E o que vemos quando olhamos para zonas onde predominam USF’s? Então não deviam vender-se apenas produtos baratos? Será que as USF são todas iguais e a única diferenciação que apresentam é serem tipo A ou B?

Muitos apontam baterias ao Médico esse grande enigma dos tempos modernos. Outrora, na geração que hoje tem entre 50 e 60 anos, o dia-a-dia era muito mais simples.

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O clínico estava enquadrado na sua actividade de ver doentes na consulta, falar com o Delegado de Informação Médica, efectuar o diagnóstico, escolher a terapêutica e ter a possibilidade de complementar a sua formação através da oferta variada de congressos proporcionados pela IF, em Portugal ou no estrangeiro. (Para as mentes mais cáusticas, a ordem dos termos anteriores é puramente arbitrária e não tem segundas intenções).
Prescrevia-se o medicamento comprovadamente mais eficaz, sem olhar ao preço e ao orçamento do Ministério da Saúde. A IF concentrava-se em aumentar a frequência e o nº de visitas, desenvolver a formação clínica levando o médico a eventos científicos e apoiando as sociedades científicas na proliferação de inúmeros congressos anuais.

Todos estamos de acordo que hoje tudo mudou e por isso mesmo não compreendo porque é que a IF e o médico se comportam da mesma maneira, como se nada tivesse acontecido. Por isso pergunto se para o médico, nada mudou?

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Percebemos pela imagem que o universo mental do médico alterou-se de forma significativa. Em parte ele deixou de ser clínico quando tem de lidar com a Gestão da Doença Crónica, enquadrada nas NOC’s, (Normas de Orientação Clínica) ou mesmo nos PAI, (Plano Assistencial Integrado), que podem ainda não ser a sua prática clínica diária. Não bastasse isso, a Contratualização vem enquadrar toda a sua prestação e mais não fosse, o seu rendimento ao fim do mês pode depender dos indicadores contratualizados com a ARS. Nalguns casos, (não interessa agora neste post, se muitos ou poucos), a contratualização e os indicadores não reflectem a necessidade em saúde, caindo no que alguém denominou por Medicina Baseada nos Indicadores.
Por isso perguntamos se a estrutura actual dos CSP funciona de forma eficaz e eficiente? Haverá USF’s que se sobrepõem-se aos ACES e os seus coordenadores não reconhecem nos ACES a capacidade de gerir a saúde da região? E como lidar com um sistema que tem UCSP’s, à partida compostas por médicos e utentes que as USF’s não quiseram, seja por não quererem o modelo de USF’s, seja até por questões geográficas e financeiras?
É este panorama, descrito de forma talvez demasiado simplista, que hoje se coloca à IF, ao Market Access e ao médico. Quando este último, agora transformado em médico gestor volta a fazer de médico e pretende prescrever um medicamento, entra no mundo informático, com sistemas lentos e prontos a dificultar a prescrição de marcas. Prescreve por DCI, de preferência genéricos e a receita tem um forte apelo a comprar o mais barato e nem um apelo para garantir ou aumentar a “compliance/adesão” do doente, que quando não existe é muito mais dispendiosa para todos. E apenas mais um pormenor, o tic-tac, porque o médico tem de fazer tudo isto numa consulta com um tempo limitado.
Então, vale a pena apoiar as USF’S?

Quando observo esta realidade pergunto-me para que quer o médico ouvir o DIM, (Delegado de Informação Médica. Mas de seguida, começo a pensar o que o DIM e a IF podem fazer para ajudar o médico nesta realidade e lá volta a vontade de “meter água na saúde”.
É verdade que o médico não nasceu gestor, mas é uma valência que lhe deve ser dada, porque citando Professor Abel Salazar, “O Médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe.”
Existe a necessidade de aprender a construir parcerias para trabalhar no terreno, porque a prática clínica vai muito para além das paredes da USF ou da UCSP. A nova geração de médicos tem aqui uma oportunidade de diferenciação ao mesmo tempo que pode fazer melhor pelos doentes.
É pela diferenciação e focado no doente que o apoio às USF/UCSP pode ser feito pela IF, demonstrando a todos os clínicos e profissionais de saúde que o futuro ergue-se em parceria.
É verdade que muitos médicos dizem não querer ter a ingerência da IF na sua actividade prescritora, reclamando a liberdade da sua “caneta”. Mas também é verdade que só existe ingerência se o médico quiser.
O dizer não à IF em Portugal é um muitas vezes um preconceito político, corporativo, de pequenos grupos de médicos nas redes sociais, ou apenas um comportamento revelador de um desconhecimento sobre o tema, que faz com que o médico não saiba dizer sim, a quem deve dizer sim e não, a quem deve dizer não. Se, como todos sabemos, os médicos não são todos iguais, a verdade é que os laboratórios farmacêuticos também não são todos iguais. Os investimentos devem ser feitos nas unidades de saúde e as contrapartidas dadas a quem investiu, serem transparentes e do conhecimento de todos. A Plataforma Transparência e Publicidade do Infarmed, não serve o propósito.

Saber o que é uma USF

Na era da gestão da doença, a necessidade de construção de um novo SNS passa pela capacidade de sentar à mesma mesa todos os que podem contribuir para essa edificação. Os médicos e a IF são parte nuclear do sistema e podem fazer a diferença. Primeiro têm de querer, para depois saber como o fazer, no respeito pelo papel de cada um.
Para apoiar é indispensável saber o que é uma USF. Parece que todos sabemos, mas na verdade conseguimos diferenciá-las? São todas iguais? Qual a sua performance nos indicadores contratualizados e nos que não estão contratualizados, mas que também reflectem o seu trabalho com os utentes?
E agora uma pergunta que alguns sectores dos CSP nem querem ouvir falar – há um ranking de USF’s, uma ferramenta de verdadeiro benchmarking onde possa ver percentagens mas também valores absolutos, dos resultados de todos os indicadores, numa lógica de transparência e não de opacidade conveniente?
Ao longo destes últimos anos, fomos pioneiros na segmentação de USF’s verificando que nas mais variadas patologias crónicas e com critérios diferenciados, as USF’s não são mesmo todas iguais. E esta segmentação de unidades funcionais permite olhar para o investimento nas USF’s de uma forma mais correcta, evitando o desperdício e apoiando quem merece e necessita e não apenas porque sim.

É claro que se pode optar por continuar a dizer e a fazer as mesmas coisas. Ou então questionar-se que tipo de apoio e que USF’s devem ser apoiadas?
Vamos voltar ao tema em breve e tentar perceber o que é uma USF ou a forma como, na nossa opinião, deverá ser uma USF, partido do pressuposto que ainda o não é…

José Ribeiro

2 Comentários

  1. Albino Sousa Reply

    Obrigado por este resumo. Conheço muito muito bem o sector da I.F. Pois tenho 40 anos de serviço ao mais alto nível. Concordo em absoluto, que a I.F. Não colabore com quem não aceita as regras do jogo. Se o Estado desgraçou a I.F. e fechou cerca de 600 Empresas e Farmácias e desempregou cerca de 5.000 profissionais da I.F. O estado que pague tudo tudo. Formação, Aparelhos, Congressos etc etc etc. O Estado que faça uma legislação, para passar a haver mais respeito pela classe Médica. Se o Médico tem a autoridade para passar óbitos,Atestados para cartas de condução, Atestar nos tribunais, depois é reduzido a zero, quando as Farmácias trocam a maioria das receitas assinadas pelos Médicos??? Que falta de autoridade é esta??? Algo se passa??

  2. As USF servem para atingir os objectivos, para se poder ganhar mais, então as de modelo B é uma tristeza, não são feitas para doentes, ou se enquadram nos parâmetros dos indicadores estabelecidos, ou bem podem esperar, 2 ou 3 meses, estou a falar das que conheço e conheço algumas. Uma USF não é para doentes é para prevenir a doença. os doentes que vão a outro lado.

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