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Caríssimo bastonário da Ordem dos Médicos,

         Prof. Dr. José Manuel Silva,

            Obrigado pelo seu texto de opinião acerca da Linha de Saúde24.

            Sou um estudante da Licenciatura em Enfermagem e tenho muito a aprender consigo. Mas, pelo que referiu no seu texto, tenho algo a dizer, dado que usei já, pelo menos uma vez, a Saúde24. Vi-me, assim, intimidado com o seu texto, ao sugerir o “fim tranquilo” deste recurso.

            Passo a explicar a minha indignação.

            Vamos pôr, por agora, a matemática simples e as contas orçamentais numa prateleira alta, por uma questão de simplicidade e lá chegaremos depois.

            Recorde-se, antes disto, que caracterizou a Saúde24 como um serviço fútil (latim futilis, frívolo, sem autoridade; que não tem interesse ou valor; (…) inútil ou apenas material1).

            No parágrafo em que usa esse termo, prevê que, para o ano, todo o português terá o seu Médico de Família (MF) e a sua EqF (improvável). Está, claramente, a falar das pessoas nas grandes áreas urbanas e a esquecer os idosos do interior. Para além disso, mesmo que todos os portugueses tenham o seu MF e a sua Equipa de Família (EqF) atribuída, muitos são os que não o saberão, ou não sabem para que servem ou não irão recorrer a eles. Estou a falar dos jovens e adultos e aquelas pessoas que vão aos privados e mantêm um MF para nada. Qual é a percentagem, já que foi buscar muitos dados sem, além disso, mencionar a fonte, de jovens adultos que vão ao seu MF? E sabe porque é que são tão poucos ou nenhuns? Porque não estão doentes e, para as pessoas, só se deve ir ao médico quando se está doente. As pessoas não sabem usar os recursos do Serviço Nacional de Saúde (SNS)! Recorrem às urgências por uma questão prática e por “casmurriçe”.

            Qual é a faixa etária que mais usa os Cuidados de Saúde Primários (CSP)? A matemática simples contempla esta pergunta? Parecem-me ser os idosos, e depois as grávidas, e as mães que trazem os filhos para as vacinas e depois as adolescentes que vão buscar preservativos e outros contraceptivos para elas e para as amigas.

            As políticas de saúde devem estar interessadas em ensinar o cidadão a usar dos recursos que a sociedade oferece para manter e melhorar a sua saúde. Nós, os profissionais de saúde, e quem governa nesta área deve querer ambicionar dar poder às pessoas para decidir e facilitar o seu caminho dentro do SNS, que já é tão difícil de se percorrer. Quão absurdo é o medo de capacitar o outro! E este medo, de estar desprendido do poder, é tão característico da classe médica, que quer, por tudo, agregar em si todo o poder da área da saúde! Vivemos, senhor bastonário, num século moderno e onde o conhecimento já está muito desenvolvido. Não é possível ignorar a partilha de poder decisivo.

            A Saúde24 é um recurso extraordinário e não fútil, para facilitar o acesso das pessoas a um SNS “fechado”. Não surgiu apenas para “(…) fazer face essencialmente aos portugueses que não tinham MF”. Esse era e é um problema logístico: qual foi o critério para se distribuir os MF? Havia e há tanta gente que tem MF, mas que não o utiliza. E quantos não o têm e, realmente, o precisam?

            A Saúde24, leia, por favor, no site da Direcção Geral de Saúde (DGS), por exemplo, veio por uma questão de acessibilidade. Neste momento, a pessoa que quer entrar no SNS tem três formas: as urgências, os CSP e a Saúde24. A primeira é completamente errada. A segunda é a verdadeira porta de entrada para o SNS e está a ser mal usada, por falta de ensino e incentivo. Sabe o que é? O hospital dá muito mais dinheiro que o centro de saúde. A Saúde24 é um tempero. Nem que eu telefone só para perguntar para onde ir! Mesmo, senhor bastonário, se tiver uma “ranhoca” ou uma “febrícula”. Veja quão simples é uma “ranhoca”. E, veja essa “ranhoca” no nariz de uma criança. Queira assistir à estadia demorada dos pais e daquela criança, num hospital público, atulhado de gente com “ranhoca”. Não era mais fácil ir ao CS? É que não sabem que podem ir lá. E, se vão, também podem ter de esperar algum tempo. Então e telefonar para a Saúde24 e ouvir a opinião de profissionais inteiramente capazes e com formação superior extraordinária? Talvez poupe essas 6 horas com a criança a chorar no hospital.

            É que, o texto que redigiu, foca-se nos CSP, e bem! Mas, não é para lá que as pessoas vão. Lamento. As contas simples que fez, fogem à realidade. Porque, as 2300 chamadas por dia, não podem corresponder a 1 chamada por equipa (0,46 na verdade, o que é ridículo). Dividir o número de chamadas pelo número de equipas é de uma imaginação estupenda. Está a imaginar, senhor bastonário, um SNS que queria que existisse (e eu também) mas, infelizmente, não existe. Está à espera que cada pessoa telefone para a sua equipa? Está a pensar a um nível local? Está a imaginar um telefone por equipa? Os números que apresenta, espelham uma proporção matemática, que o SNS não tem, porque as pessoas que recorrem ao SNS, não representam grupos etários proporcionais. Para além disso, não ouviu falar dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS)? Quer terminar com isso também?

A eficiência que menciona nos CSP, espero que seja a matemática simples da relação entre os resultados obtidos e os recursos empregados. E, aqui, a Saúde24 ultrapassa o MF, lamento. Não porque utiliza um “protocolo para situações clínicas mais simples”. Mais uma vez, não compreende para que serve a Saúde24: acessibilidade. Para as situações clínicas mais complexas a Saúde24 tem uma resposta de acessibilidade imediata que o MF daria da mesma forma. Vamos à criança com “ranhoca”. Os pais levam-na ao CS. Tiram senha. Ficam 30 minutos à espera. Entram para a enfermagem que avalia a febre e outros sintomas. Mais 30 minutos para o médico ver. Depois de a ver o MF dá as suas sugestões e envia os pais para as urgências. Quantos recursos usou aqui? A EqF: o secretário que atendeu, o enfermeiro que atendeu e o médico que atendeu! Mesmo sabendo a história toda e o nome da criança, em situações de urgência isso não importa. Vê a utilidade e eficiência da Saúde24? Quantos recursos utilizaria o SNS se estes pais tivessem usado a Saúde24? E o resultado não seria, eventualmente, o mesmo? Portanto, em qual das situações a eficiência é maior? Questão de pensar.

            Convém, além disso, compreender que de todas as chamadas que referiu, cerca de 159 mil chamadas (mais ou menos 23%)2 foram resolvidas no momento, com orientações de autocuidado. As restantes foram referenciações para os SU (que em todos os meses de 2015 foram menores do que as resoluções imediatas), referenciações para o INEM e outras para o CIAV. Além disso, seria interessante realizar um estudo estatístico sobre, novamente, quantas dessas 159 mil chamadas representam idosos. Por outro lado, é bom reparar que, numa segunda vez, esses 23% devem diminuir ou não representar chamadas das mesmas pessoas. Porque, houve ensino por parte dos profissionais de enfermagem que deram meios para a pessoa, numa próxima vez, poder decidir sozinha. O que significa que dessas pessoas, não haverá um novo telefonema num curto espaço de tempo ou não encherão as urgências (“as falsas urgências”) e os CSP por razões sem causa.

            Termino, caríssimo bastonário, com umas considerações sobre o último parágrafo – equipar melhor e alargar o horário de abertura dos CSP? Sabia que, só na região de Lisboa, em Agosto de 2016, se gastou mais de 40 milhões de euros em encargos hospitalares com medicamentos? Estamos a falar em despesa pública! E sabe quanto custa uma pessoa que utiliza as urgências hospitalares? E um internamento?

Eficiência, senhor bastonário? É atingir o mesmo, ou mais, com menos recursos. Está a tirar um recurso barato (muito barato, comparado com o resto), que as pessoas usam e agradecem a sua existência, para investir em mais recursos. Prioridades! O sector da saúde precisa de priorização! Os CSP não precisam de ser melhor equipados (e a que tipo de equipamento se refere?). Precisam, sim, de ser melhor geridos: as equipas precisam de funcionar! E, para que quer alargar o horário de abertura dos CSP, se, mais uma vez, as pessoas pouco recorrem a eles, quando precisam? Vai gastar mais dinheiro, para manter uma estrutura a funcionar e os devidos recursos humanos que a mantêm, para depois não ser utilizada devidamente?

            Senhor bastonário, se tem um serviço como a Saúde24 que, por ora, contrai as sugestões que fez e outras que por aí aparecem, para quê criar um problema desnecessário?

[1]http://www.priberam.pt/dlpo/f%C3%BAtil (Acedido a 17 de Outubro de 2016).

[2]https://transparencia.sns.gov.pt/explore/dataset/centro-de-atendimento-do-servico-nacional-de-saude-saude-24 (Acedido a 18 de Outubro de 2016).

Rafael Bernardes

1 Comentário

  1. Rufino Alves Reply

    Muito bem. Tocou nas feridas todas, que o bastonário dos médicos bem conhece, mas que por interesse próprio ignora. Ele, com as suas intervenções constantes e a desproposito, é que tem prejudicado muito o SNS.

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