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Outra Vez! Um ano novo em que tudo irá Mudar…
Todos queremos uma vida melhor e por tradição, no início do ano, é o nosso maior desejo. Passou já um mês de 2016. Como está a sua vida? Melhor?
Melhorar significa quase sempre querer mudar qualquer coisa. Querendo ou não, a mudança que realmente vai impactar a nossa vida já começou em Novembro passado. Mudou o Mundo e a Europa pela força do terrorismo; mudou Portugal, pela mudança de governo e pela forma como tal aconteceu; mudou o desequilíbrio de forças políticas e mudou a Saúde, porque mudou a equipa ministerial e os seus princípios orientadores.
Mas, depois de assistir à mudança das cadeiras, sabe como pensam os novos ocupantes da Avenida João Crisóstomo?

A Saúde está nas primeiras páginas e é notícia de abertura no horário nobre das televisões. Em pano de fundo surge a vontade e a necessidade de mudar para melhor o sector da Saúde. Não esperamos que tudo fique na mesma ou até pior, porque então, não faz sentido algum a mudança que aconteceu. Mas isso significa que o sector vai viver em abundância financeira, com facilidades para o sector do medicamento e para os profissionais do sector da saúde?
Claro que não. E, a não ser que aumente o orçamento para a Saúde, o que não acredito, vamos ter decerto menos dinheiro neste ministério para fazer face aos problemas do dia-a-dia, seja ele com 35 ou 40 horas.
Então como mudar e satisfazer todos os que na Saúde querem ser satisfeitos, (profissionais, indústria do medicamento, MCDT, corporações, associações, sindicatos, farmácias, utentes e doentes) ou seja, ter mais dinheiro?

Maria José Nogueira Pinto e António Correia de Campos
É preciso encontrar soluções, o que parece óbvio. Mas face à dimensão do problema, ao seu cariz político, social e à constante necessidade financeira é preciso evoluir nas soluções, porque as que foram sendo implementadas nas últimas décadas, trouxeram-nos até aqui.
Encontrar soluções para a Saúde deve ser o objectivo de todos e não somente do ministério. Mas para que isso aconteça é preciso mudar a forma de pensar e estar sempre a aprender acreditando que, “segundo uma investigação do Productivity Institute nos Estados Unidos, metade daquilo que sabemos hoje não irá servir para nada daqui a cinco anos. O que significa que se não evoluirmos, daqui a cinco anos estamos tão obsoletos como um velho telemóvel”. (Lúcio Lampreia in Mude).
É nosso dever, pelo facto de sermos especialistas em saúde e de por cá andarmos há muito tempo, estar sempre actualizados, procurando ler sobre o tema em livros, artigos e até em blogs especializados em saúde, de modo a que seja o também conhecimento e a experiência de outros a guiar-nos na demanda e não apenas a nossa experiência, as nossas percepções e pior que isso, as ideologias. Sim, porque muitas vezes na saúde o pensamento está ancorado a ideologias políticas, o que faz com que as soluções possam ficar logo à partida diminuídas pelas barreiras ideológicas.
Curioso a propósito deste tema o que Maria José Nogueira Pinto escrevia, em 31 de Janeiro de 2008, no Diário de Noticias, a propósito de “A manutenção do SNS é tão consensual quanto a necessidade de o rever”. E continuando, “Em tempos, julgo que antes de ter sido alguma vez ministro, Correia de Campos afirmou que quem quer repensar a saúde tem de deixar a ideologia no bengaleiro. Não a boa ideologia, que, tal como o bom colesterol, faz sempre falta, mas aquela ideologia, ora alucinante ora paralisante, com que ciclicamente se remetem para o caos da brega política as oportunidades de mudança. Uma mudança decisiva para o reforço do próprio SNS.” Sábias palavras, tão pertinentes e tão actuais.

Tom Peters considera “… um milagre a nova inteligência…”
Na Saúde a procura das soluções para os problemas, deve ser feita por todos os que de alguma forma pensam Saúde. Precisamos de unir o que de melhor se pensa e construir soluções que possam resolver os nossos problemas e que definitivamente estejam assentes em objectivos e resultados mensuráveis, que possam fazer bem aos portugueses.
É isso que queremos discutir neste espaço, nesta plataforma digital de troca de ideias onde a gestão da Saúde e a gestão da Doença, possam estar ligadas ao pensamento concreto e não a ideias abstractas. É o esforço de procurar novas soluções através de uma nova inteligência, que edifique uma rede neuronal entre todos os cidadãos, que querem ter uma Saúde melhor no futuro.

Este conceito de uma nova inteligência está bem defendido no livro de Daniel H. Pink, que Tom Peters considera “… um milagre. Totalmente original e profundo” e que Thomas L. Friedman considera que “É o meu livro de Gestão preferido.” Referimo-nos à obra editada em Portugal com o título “A Nova Inteligência” (1), onde mergulhamos na dança constante entre o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito do cérebro.

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Claro, todos sabemos que é assim que se divide o cérebro – em esquerdo e direito. E cito de novo o autor quando afirma que “O hemisfério esquerdo é sequencial, lógico e analítico. O direito é não linear, intuitivo e holístico.”
Então, quer pensar qual hemisfério predomina no seu cérebro? E quando pensa em Saúde, é com o esquerdo ou com o direito? Descanse, na verdade pode ter mais queda para determinadas capacidades de um dos lados, mas “a verdade é que até as tarefas mais simples implicam a utilização das duas metades do cérebro.”

As rédeas do poder, segundo o mesmo autor, estão a mudar de mãos e o futuro pertence às pessoas com um tipo muito diferente de inteligência. O amanhã será dominado por quem é capaz de criar, “empatizar”, reconhecer padrões ou gerar significados. Por outro lado, o autor refere que “Peter Drucker designa os advogados, médicos, contabilistas, executivos e engenheiros, como trabalhadores do conhecimento, uma vez que são pagos para usarem os conhecimentos que aprenderam na escola, ou seja pensamento de predominância esquerda” (o hemisfério cerebral, sublinhe-se).
Drucker, como sempre, acertou em cheio. Os trabalhadores do conhecimento e o seu estilo de pensamento moldaram o carácter, a liderança e o perfil social dos tempos modernos e desta forma a economia mundial foi impulsionada e os níveis de vida ficaram mais elevados”. (2)
E o sucesso dos trabalhadores do conhecimento foi tal, que o aumento da qualidade de vida em muitos dos países desenvolvidos, gerou abundância e consequentemente, o apelo ao racional, ao lógico, ao funcional e às necessidades básicas, tornou-se insuficiente.
A abundância libertou literalmente milhões de indivíduos da luta pela sobrevivência e, como diz o Prémio Nobel da Economia Robert William Fogel, “tornou possível que a busca de realização pessoal se estendesse de uma franja da população, a praticamente à sua totalidade”. Esta libertação deu asas ao pensamento de predominância direita. Haverá quem julgue que isto da inteligência de esquerda ou de direita é um disparate, mas a verdade é que não penso que Peter Drucker seja tolo quando acredita nesta nova mudança.

A lógica da nova inteligência assenta também no facto de sabermos que no século passado, as máquinas provaram ser capazes de substituir os braços humanos. Neste século, a verdade é que as novas tecnologias estão a mostrar que são capazes de substituir o hemisfério esquerdo do cérebro, ou seja o mais utilizado pelos trabalhadores do conhecimento, nomeadamente advogados e médicos.
Claro que há polémica quanto ao facto de computadores fazerem o diagnóstico através de um conjunto de respostas, fornecidas pelos potenciais doentes. Mas o interessante reside no facto de estes avanços do pensamento estarem aos poucos “a mudar a ênfase da prática médica, que de uma actividade repetitiva, analítica, baseada no conhecimento acumulado, começa a ser uma medicina empática, narrativa, que privilegia uma visão integral do ser humano”. (2)
Na verdade, vivemos um momento em que a necessidade de inteligência, seja ela a nova ou velha, mais do que uma realidade, é o novo desafio da década.
Os problemas que enfrentamos, justificados pela crise económica, não explicam por si só as necessidades cada vez maiores das pessoas. De facto os cidadãos dos países desenvolvidos, onde Portugal se inclui, experimentaram viver numa abundância material, que satisfez todas as necessidades básicas. Por outro lado, a evolução tecnológica das últimas décadas, disponibilizou a cada cidadão a capacidade de se sentir seguro e realizado.
Na Saúde, a tecnologia começou a antecipar a evolução da doença e a conseguir desenvolver MCDT’s, cada vez mais perfeitos e eficientes ao ponto de sossegar e tranquilizar qualquer pessoa que sente um sintoma característico de um cem número de entidades nosológicas, vulgo doenças, mas que desta forma, com o resultado negativo do exame, fica tranquilo até ao próximo achaque.
O efeito da evolução tecnológica, entrosada com as necessidades de segurança das pessoas em relação à doença, fazem com que os custos com a Saúde sejam uma constante enxaqueca para quem gere a Saúde de um país, com um orçamento cada vez mais restritivo.

Mude, senão acredite mesmo que alguém o muda daí para fora
Por tudo isto, a procura de soluções para o financiamento (como exemplo) é uma das tarefas mais importantes no futuro da Saúde em Portugal, porque entre outras coisas, o dinheiro controla ao acesso aos cuidados de saúde, ao mercado dos novos medicamentos, dos existentes, das novas e actuais tecnologias e até ao que de melhor se faz em Portugal no domínio da saúde.
Albert Einstein disse uma vez: “I never made one of my discoveries through the process of rational thinking”. Acreditamos que a procura de soluções deve ser baseada, por todas as razões, numa nova forma de pensar, na inovação de processos e no desenvolvimento de novas ideias e métodos de gestão e não apenas na restrição de direitos, na opacidade dos resultados ou no corte dos investimentos em saúde.

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Acredite que o futuro não pode ser construído, pensando e agindo da mesma forma que fizemos até aqui, porque “The Same Old Thinking” vai conduzir-nos a “The Same Old Results” (autor desconhecido, internet).
Não vire as costas e deixe o trabalho para os outros, porque tem de fazer parte da solução e construir a Saúde que todos necessitamos. Se hoje é jovem, saudável e aufere um bom rendimento, pense que um dia, quando a idade lhe chegar, nem todo o seu dinheiro lhe irá trazer a saúde que ambiciona, num sistema que poderá estar transformado nos interesses económicos, políticos e corporativos de poucos.
A nova inteligência a que Tom Peters se refere, está presente em quem quer pensar e ter conhecimento sobre a saúde. Partilhar esse conhecimento é outro dos nossos objectivos.

Dou como exemplo a forma como podemos abordar alguns problemas no contexto da Saúde ou da Doença, utilizando o que aprendemos com esta nova inteligência. Fizemo-lo com médicos e enfermeiros bem como em grupos pequenos que envolvem profissionais de saúde e profissionais da IF.
A fase de pesquisa é um verdadeiro emaranhado onde procuramos em grupo e através de uma metodologia, identificar insights, problemas e incertezas, adquirir o saber necessário para que todos possam identificar os padrões na área e desta forma clarificar uma solução, um conceito que depois com o foco necessário, conduz ao desenho de solução que pode ser aplicada.

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Hoje fala-se muito no “empowerment” do cidadão no que toca à Saúde. Mas se não debatermos, longe dos ideais políticos, se não tivermos a informação e o conhecimento sobre o sector da Saúde, nada vai mudar, nada vai melhorar e ficamos sem o dito “power”.
Esqueça por momentos o apelo de ser português e não critique, não resmungue, não diga mal. Não deixe que o seu ideal político encubra a realidade; não deixe que os seus interesses se sobreponham ao correcto. Não deixe que sejam os outros a fazer o que quer e sobretudo não deixe que a minoria ruidosa contrarie a vontade da maioria silenciosa. Faça o futuro acontecer porque senão vai ter de gramar com o futuro que vier.
Queremos que este espaço digital seja um blog onde as novas ideias para melhorar o acesso à Saúde, possam ser debatidas por todos os que saibam pensar e não apenas pelos especialistas ou académicos. Este é um privilégio que a nova inteligência confere, porque todos devemos pensar.

Algo vai ter mesmo de mudar e a mudança tem de começar dentro de todas as pessoas com responsabilidades políticas na Saúde e estender-se aos profissionais que diariamente exercem a sua função como trabalhadores do conhecimento. Mas a maior mudança que deve acontecer, está na forma como cada português encara a Saúde. Vamos ter de mudar, sob pena se não mudarmos, mudam-nos.
Mude, senão acredite que alguém o muda daí para fora.

(1) Daniel H. Pink, A Nova Inteligência, Texto Editora, Março 2013
(2) Adaptado de Daniel H. Pink, A Nova Inteligência, Texto Editora, Março 2013

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