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A minha é maior que a tua?
A partir de uma determinada idade entra-se na lógica de comparar tudo. Mais tarde ou mais cedo esta pergunta acaba sempre por surgir.
Parece haver uma necessidade enorme, ou mesmo um tipo de fetiche, no acto de comparar coisas. Acredito que, mais do que o mero acto de comparar, por vezes interessa mais saber o que se faz com a comparação ou mesmo se estamos preparados para fazer alguma coisa depois de esclarecidos.
Ouvi a pergunta e deixei-me estar quieto. Sabia que a resposta vinha já aí e não deixei de sorrir quando a ouvi.

“Não sei se a minha USF é maior do que a tua, ou até se tem mais médicos, mas sei que demoro menos tempo a marcar uma consulta do que tu” – respondeu o senhor do casaco castanho.
“Eh pá, isso eu já não sei. Mas olha, o que eu sei é que a Saúde está num estado crítico” – retorquiu com um ar sorumbático, o senhor com menos cabelo, o que aparentava ter mais idade.

Blog MAP P64

Olhei para o relógio e vi que faltavam 10 minutos para a minha reunião com o coordenador da USF. Levantei-me da esplanada, atravessei a estrada e entrei no edifício que albergava pelo menos três USF’s, (unidades de saúde familiar).
Desci duas horas depois e na rua, olhei para o café onde já não estava ninguém. O sol a deitar-se no horizonte, embrulhado pelo frio do Inverno, empurrou todos para casa. Mas as palavras daqueles cidadãos voltaram a ocupar a minha cabeça.

Os números do Estado Crítico da Saúde
A Saúde em Portugal está num estado crítico? Talvez, não sei. Como hei-de saber?
A minha percepção é que numas situações ouvi dizer que está, noutras também e talvez nalgumas esteja assim-assim. Mas na praça pública, entronizada por um écran de televisão, esgrimem-se argumentos, prós e contras, consoante a bancada politica e os números utilizados. Sempre os números!
Os números da saúde não são sempre iguais e nem representam a realidade nacional porque se for honesto, ninguém conhece bem essa realidade. Em abono da verdade, deve dizer-se que os portugueses nunca foram bons para números e a ciência matemática é um calcanhar de Aquiles do nosso povo. Daí que falar de números origina sempre confusão.

Mas no que toca à saúde, sabemos ou conhecemos, os dados estatísticos, os números que traçam a realidade nacional?
Decerto que estes famigerados dados não pertencem ao conjunto dos números Naturais, porque existiriam naturalmente e de forma inteira. Como há pouca racionalidade nesta inexistência, não pertencem aos números Racionais nem sequer aos números Reais, porque os dados em saúde não descrevem a realidade e fazem-nos parecer irracionais. Diria mais, os dados em saúde são mais números muito Complexos, com a sua parte Imaginária bem implementada. A partir daqui valem todas as percepções que legitimamente queiram ter sobre a matéria. Então porque será que a percepção do senhor do casaco castanho é melhor do que a percepção do senhor com menos cabelo? Não sei e não tenho como avaliar.

A transparência da Informação
Há muito que se diz que informação é poder, mesmo que o poder seja o da ignorância. Isto porque neste sector, ter informação não significa que tenhamos o conhecimento sobre as matérias dessa informação, apesar de podermos ter ou ser poder. Parece-vos irreal o poder desinformado?
Não ter informação sobre o SNS é estar no obscurantismo, em pleno século 21. Estamos a falar dos dados anonimizados de um cidadão português que vá ao SNS na procura de cuidados de saúde e que desta forma, com os cuidados que lhe prestam, origina um custo no sistema e uma pegada de informação, que pode ser agregada, segmentada e estudada. Com a ignorância, dificilmente poderemos prever, planear e melhorar. Mas ultrapassando o patamar dos custos e como exemplo simples, queremos e devemos saber qual a verdadeira epidemiologia das doenças crónicas tão dispendiosas para o erário público e qual é o perfil de saúde da nossa população. Queremos uma especialidade de Saúde Pública a funcionar. Mas então, como planear sem dados? Com a arte da percepção?
Na ausência de informação e de conhecimento sobre o desempenho das instituições públicas de saúde, não geramos saber e desta forma, são permitidas quaisquer “mescambilhas”, sustentadas numa contabilidade criativa, expressão que ouvi em 2004, aplicada à saúde e que serve os mais variados interesses. Voltaremos a este tema e em particular aos hospitais públicos, verdadeiras fábricas de produção de GDH’s (grupos de diagnóstico homogéneos).
A cultura das instituições e de alguns profissionais de saúde em não quererem ser comparadas tem de acabar. Afinal que transparência é que defendem? A transparência obnubilada, de visão turva?

O novo Portal do SNS
A propósito da transparência foi lançado este mês, o novo Portal do SNS. Quero em primeiro lugar, elogiar o logótipo. Finalmente alguém teve a coragem de dar cabo daquela coisa horrível, daquele casal de mão dada, a tremer com uma doença qualquer. Estamos no século 21 e a imagem do SNS também deve ser bonita para além de actual.
Mas vamos ao que importa. Como cidadão ou como profissional de saúde, já foi espreitar o portal? Deve fazê-lo, porque na verdade é um começo muito bom.
Quem leu o post “Vamos meter agua na saúde”, decerto lembra-se da importância dada à Quinta dos Sistemas de Informação e da necessidade de a informação ser independente e cristalina.
Este novo portal é a tal Quinta que falamos? No conteúdo ainda não é, mas é mesmo um bom começo. Tem muita informação para consumo imediato, mas é ainda uma manta feita com retalhos de informação. Digam o que disserem é já uma manta, quando anteriormente tínhamos farrapos, uns maiores que outros.

“O objectivo deste portal é ter uma relação diferente com o cidadão, que tem todo o direito de saber como fazemos saúde, quanto tempo tem de esperar, se os recursos estão a ser bem usados, se a lista de espera está assegurada, o que é uma grande responsabilidade para todos nós», afirmou o Ministro da Saúde na apresentação do portal do Serviço Nacional de Saúde.

Uma das áreas mais importante deste portal é a da Transparência onde basicamente acedemos a quatro grandes, desculpem a expressão, retalhos de informação – Transparência, Benchmarking ACSS, Dashboard DGS e BI USF. Reúne informação proveniente de várias fontes e percebemos que tem muito para explorar, sendo agora uma parte importante da manta que falamos.
Decidimos utilizar estas funcionalidades e exploramos uma ou duas áreas. E de repente, olhando para alguns retalhos, ficamos a saber um pouco mais sobre os 5 maiores hospitais do país.

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Esta é uma das duras realidades enfrentadas pelo ministério, que tem de lidar com mais de 140 milhões de resultados negativos, em 11 meses do ano de 2015, em apenas 5 centros hospitalares.
O que faz a tutela da saúde para poder recuperar estes valores? Que medidas correctivas são implementadas nestes hospitais? Será que os profissionais destas unidades conhecem estes resultados, que em parte é também o fruto do trabalho que executam?
Obviamente que é difícil responder a estas questões de forma tão simples e sem mais informação, para além do facto de que o portal do SNS, não tem como missão dar essas respostas. É importante dizer que ao não ter informação mais detalhada e coerente sobre os temas, facilmente se incorre em leituras deturpadas e conclusões fora do contexto.
Não sabemos como se pode recuperar os resultados negativos de 5 dos hospitais deste país, nem sabemos que medidas os governos implementam com esse objectivo. Pelos vistos, o anterior foi cortar nos custos hospitalares indiferenciadamente e segundo consta, até vai haver uma “Resolução da Assembleia da República n.º 28/2016, que recomenda ao Governo a identificação das consequências dos cortes orçamentais no Serviço Nacional de Saúde”. Decerto que agora com esta objectividade e transparência vamos saber melhor a estratégia de optimização destes valores negativos.
Mas conhecemos muito bem uma das medidas que todos os Governos assumem quando lidam com outro lado da despesa ou como convém dizer, investimento em saúde – o consumo de medicamentos. Significa apenas utilizar a maneira mais simples – das duas uma, ou se exerce uma pressão para que sejam os próprios a baixar os preços dos medicamentos (exemplo genéricos), ou atrasa-se a entrada de novos, impõem-se cap’s ou reduz-se o preço administrativamente.

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Aqui percebemos que as medidas correctivas do MS são mais fáceis de aplicar, não criam conflitos corporativos nem políticos e soam bem a todos. Em resumo, baixa-se o preço e restringe-se o acesso ao medicamento das formas mais variadas.
Quando olhamos para os dados referentes à evolução destas classes terapêuticas, percebemos, por exemplo, que os medicamentos para as doenças endócrinas vão ser provavelmente, alvo de algumas medidas que possam ajudar a reduzir o défice dos 146 milhões que 5 hospitais criam no sistema. Se tomar um destes medicamentos ou mesmo se for responsável por ele, o que vai fazer?

Uma certa opacidade na transparência
Onde está a informação dos Cuidados de Saúde Primários, das USF’s e das UCSP’s? Fomos até à Transparência, encontramos o portal do BI USF, (diga-se uma ideia fantástica) e deparamo-nos com uma informação cuja classificação da nitidez, deixamos ao critério de quem a analisar. Escolhemos a diabetes, uma doença tão na moda e tão nos objectivos de todos.

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Afinal como é que esta doença está a ser controlada nesta ARS, ou noutra? O que é que ficamos a saber com esta informação? Percentagens de que valores absolutos? Mas afinal a quantos utentes correspondem estas percentagens? As USF tipo B são muitos mais eficientes que as USF tipo A? Concluímos isso com os números que por aqui estão? E as UCSP? (Hoje não vamos falar delas, nem da sua razão de existir e da actividade que realizam, mas em breve abordaremos este assunto).
Parece haver ainda uma certa opacidade na transparência no que toca aos CSP, às USF’s e UCSP’s.
É preciso continuar a limpar e a fazer evoluir algumas mentalidades, que cresceram num período onde nada havia disponível em termos de informação. É preciso que quem trabalha na Saúde compreenda as palavras do Ministro quando diz que «há um clima diferente no SNS, onde a opacidade não tem de existir. Não podemos confundir a falta de recursos com a falta de organização dos mesmos e temos falta de capacidade de organizar bem os recursos». E disse mais. O portal do SNS é uma forma de tornar os serviços públicos mais competitivos e mais transparentes: «O cidadão tem todo o direito de interpelar e nós de fazer prova do que realizamos todos os dias», disse o Ministro, acrescentando que se trata de «estabelecer uma relação diferente com os cidadãos, os dirigentes e os responsáveis».
A ideia do portal é excelente e fundamental, mas ainda há muito a fazer, na disponibilização e na coerência da informação. As perguntas que fazemos não têm na maioria das vezes uma resposta, porque a informação ou não está registada ou não existe forma de a cruzar e de a utilizar. E quando existe é pertença de alguns e não é partilhada. Por isso os objectivos deste portal são tão importantes, porque necessitamos de respostas para poder melhorar.

Pergunte ao Polvo da Saúde
Lembra-se do polvo que dava os resultados da selecção alemã no mundial de 2010?
Precisamos de um polvo destes para a saúde.

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Para quando o “Instituto Nacional de Conhecimento em Saúde”, independente de todas as estruturas que produzem informação e que congregue todos os dados em Saúde? Deve ter uma actualização permanente, que não permita perdas de tempo e garanta a exactidão necessária aos dados de saúde.
Este é um caminho para acabar com as lutas nos bastidores do poder da saúde, entre as suas imensas estruturas organizativas, pejadas de carreiristas cristalizados que utilizam como arma, as estatísticas e os números, forjados para dizer o que cada um quer defender.
E quando alguém perguntar se a minha USF é maior que a tua, a resposta será fácil. Vamos ao BI-USF. E então, tudo será diferente…

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