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Todos conhecemos a história que conta a forma como Newton descobriu a lei da gravidade. Certo dia estando Newton sentado, a pensar debaixo de uma macieira, eis que lhe cai uma maçã na cabeça, tendo ele questionado porque é que a maça caía na vertical em direcção ao solo. Daí à formulação da lei da gravitação universal foi um instante.

Apesar de todos os objectos serem atraídos pela Terra, a verdade é que a maçã terá caído porque o seu pé amadureceu, não conseguindo suster mais o seu peso, sendo este amadurecimento parte do ciclo de reprodução da árvore.

O ciclo da vida depende em grande parte do crescimento do ser vivo e portanto da sua Maturidade.

Ann Landers, escritora e colunista americana do Séc. XX, disse que a “Maturidade não é o envelhecimento, mas sim o resultado de um crescimento mais sábio”.

Será então que com a quantidade de informação de que hoje dispomos (supostamente contribuindo para um crescimento mais sábio) podemos falar de Maturidade em saúde?

Para responder a esta questão, importa relacionar dois conceitos: informação e conhecimento.

informação vs conhecimento

Hoje em dia a informação está em todo o lado: na TV, na imprensa, nos livros, na internet; mas mais importante é a facilidade com que conseguimos aceder à informação instantaneamente, simplesmente usando, por exemplo, um smartphone. No entanto, mais importante do que ter muita informação é conseguir relacioná-la, é estabelecer pontes entre diferentes níveis de informação e sobretudo ser capaz de interpretar os dados (muitas vezes em grande quantidade e complexidade) e conseguir transformá-los em matéria compreensível e aplicável no dia-a-dia; em suma, transformar a informação em conhecimento.

Vejamos o que se passa ao nível dos Cuidados de Saúde Primários.

Apesar de todos os problemas atribuídos aos sistemas de informação vigentes, a verdade é que hoje mais do que nunca, todos temos acesso a GigaBytes de informação sobre indicadores, performance das diferentes unidades funcionais, etc.

No entanto, poucos estão a beneficiar desta informação, pois não está a ser transformada em conhecimento. As USF recebem dos ACES ou consultam no [email protected] dezenas de indicadores e outras informações, os ACES fazem-no no SIARS. Mas, muitas dessas instituições não usa esses dados, não os interpreta, não os relaciona e não os transforma em acções práticas de melhoria contínua.

Um simples exemplo pode ajudar a compreender melhor esta situação.

Determinada USF tem uma taxa de utilização a 1 ano de 75%, isto é, 75% dos utentes inscritos tiveram pelo menos uma consulta no último ano.

Para muitas unidades este é um valor perfeitamente satisfatório, mas a questão não pode ser colocada apenas no cumprimento do indicador, desde logo podemos questionar quem são os 25% de inscritos que não apareceram; porventura poderão ser idosos potencialmente hipertensos ou diabéticos e aí, apesar de este indicador poder estar a ser cumprido, outras questões poderão estar subestimadas, como a prevalência de determinadas patologias (neste caso diabetes e hipertensão).

É preciso, por exemplo, olhar para a pirâmide etária da unidade e perceber de que forma este valor é razoável, verificando se se trata de uma população jovem que à partida não necessita de muitos cuidados de saúde ou, pelo contrário, se a população é maioritariamente idosa e consequentemente a necessitar de muitos cuidados de saúde. Se por exemplo, for necessário pensar em estratégias para “chamar” os doentes que interessam, é preciso equacionar qual a mais adequada. Muitas vezes recorre-se aos rastreios, mas normalmente quem é rastreado é quem já é doente… Por outro lado, é necessário calcular se ao aumentar o valor deste indicador (taxa de utilização), a unidade funcional tem capacidade de o absorver, isto é, se a oferta (de actos médicos/ enfermagem) é capaz de corresponder ao aumento da procura.

Este exemplo apenas pretende ilustrar que a simples análise de informação que nos é dada não é por si só suficiente. É necessário conectá-la com outra existente, criando relações e gerando conhecimento.

Sob este ponto de vista, ou até outros, serão as USF o expoente máximo da Maturidade? O que dizer então das USF modelo B?

Afirmamos no post anterior (“Apoiar as USF? Não, obrigado!”) que as USF têm de evoluir. O que é que isto significa?

Significa que não podem ficar confinadas ao simples cumprimento dos indicadores e preocupadas e focadas na contratualização (que deverá ser encarada como um instrumento de melhoria contínua).

Muitas vezes ouvi, nos inúmeros contactos que estabeleci com Coordenadores de USF que a contratualização é imposta, não havendo espaço para a negociação.

A verdade é que poucos foram os casos em que vi as USF bem preparadas para a discussão desta etapa. Quando se vê que patologias crónicas como a DPOC, que tem uma prevalência estimada na ordem dos 14% (estudo BOLD, Prof. Cristina Bárbara) não está correctamente registada e aparece nas USF com valores na ordem de 1 a 2%, significa que estas USF não têm argumentos para ter uma discussão correcta sobre qualquer indicador à volta desta doença. E este é apenas mais um exemplo, entre muitos outros.

Foi por isso que desenvolvemos e realizamos inúmeros workshops em USFs e ACES que permitiram avaliar o perfil epidemiológico da população local, pensando nas estratégias em saúde que melhor se adequavam à sua área de influência.

Enquanto as USF estiverem presas a processos que levem ao cumprimento dos indicadores e não evoluírem no sentido de pensarem em ganhos em saúde e nas estratégias adequadas à população que servem, não estarão maduras.

A Maturidade das USF não pode nem deve ser avaliada e “premiada” com a passagem de A para B.

São inúmeros os casos de USF A e B que têm resultados semelhantes. “É resultado do esforço colocado para conseguir a passagem”, dizem muitos.

Mas estamos então perante um aluno que apenas estuda para passar no teste e depois esquece?

A Maturidade é estudar não para um teste, mas sim para uma avaliação contínua, reunindo informação todos os dias, transformando-a em conhecimento útil para todos.

A maçã caiu de madura, mas foi a relação dos vários dados que levou Newton a gerar o conhecimento.

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