Market Access Portugal

Onde começa e onde acaba?

Os tempos mudam, mas há coisas que parecem não mudar. Estou farto da discussão de ter ou não médico de família, de quantos utentes cada médico deve ter e de estar meses à espera de uma consulta da clínica geral ou de outra especialidade.
Que acesso à saúde queremos? Vivemos em que século? Afinal de contas a tecnologia é apenas uma coisa para colocar nos planos que se fazem que nem servem para inglês ver ou podemos efectivamente ajudar as pessoas com o melhor da tecnologia?
Por mim, começava por acabar com as USF’s e com Médicos de Família, de uma vez por todas.

Sim, acabar com algo que todos dizem muito bem, mas que depois dizem à boca pequena que não funciona, que há burnout, listas de espera, …
Dêem-me o benefício da dúvida e leiam até ao fim. Mas sentem-se e não tenham pressa porque se trata da sua Saúde.

Enfiar esse majestoso corpinho XXL num casaco M
Tudo começa e termina com o dinheiro da Saúde. O orçamento de Estado para este sector não vai resolver os problemas actuais e 2018 vai ser um ano ainda mais problemático, com todos a reivindicarem pelo dinheiro que não há. É preciso pensar numa nova via para a saúde e decerto perceber que o modelo actual já não serve. Sim, já não serve.
Hoje, todos falam de um novo ciclo. É mesmo preciso criá-lo, desde que não fique cheio de coisas velhas. Não quero dizer que este esteja todo errado, mas é como se tivéssemos um casaco de número 46, para vestir a alguém de tamanho 54. E claro, não vale a pena enfiar esse majestoso corpinho XXL num casaco M, porque não vai caber e vai mesmo rebentar pelas costuras.
Então como resolver? Dieta rigorosa, com os erros dos ioiós orçamentais?

Quando é necessário, o dinheiro aparece
Ilustres políticos como o Dr. António Arnaut e o Dr. João Semedo, defendem no Expresso de 23 de Setembro, que no SNS, “chegou o momento de voltar à matriz inicial. O Estado deve garantir gratuitamente os cuidados médicos sem exigir taxas ou outros co-pagamentos que criem dificuldades no acesso às unidades”. E afirmam que “Quando é necessário o dinheiro aparece”. “Defendemos o fim das PPP, quer por razões de poupança nas contas do SNS — as PPP um desperdício despesista — quer por razões de coerência na gestão do SNS.
Pois, são ilustres políticos, mas não devemos ficar reféns do que dizem. Será que este e outros governos têm dinheiro escondido, para além das cativações e não o querem pôr na Saúde? Afinal quando é necessário, o dinheiro não aparece e pensar o contrário é um engano para todos.
Defender a extinção das PPP para poupar nas contas do SNS? Acabar com o acesso aos privados da Saúde? Que dirão os funcionários públicos que pagam para a ADSE?
Acabar com o papel dos privados no SNS é muito perigoso, uma vez que são eles que sustentam parte da Saúde em Portugal e eles são sustentados pelo SNS. Acabar com o acesso aos privados, significa que o corpinho XXL não será apenas 54, mas talvez 64 e o casaco do SNS rebenta, com consequências na saúde de todos.
As PPP da saúde não são as das estradas. Acredito em renegociar o modelo das PPP, torná-los mais efectivos e olhar para o pagamento numa lógica de resultados. E não, o dinheiro para a saúde não aparece quando é preciso!
É preciso uma revolução, mas não refundar o original SNS, em pleno século 21. Isso seria um disparate com enormes consequências.
Já chega de conversa. É preciso pensar mais além. Não devemos só exigir dinheiro e tudo querer pagar, mas procurar optimizar o que se gasta e recuperar o que se desperdiça.

O interesse pela Saúde deve ser um desígnio nacional
Porque me interesso pela nossa Saúde, na noite de 14 de Setembro, assisti a um Webinar da APMGF sobre a nova métrica para a lista de utentes dos médicos de família. O evento contou com as intervenções de Rui Nogueira, Tiago Maricoto e José Luís Biscaia. Nele apresentou-se o estudo sob a égide de assegurar a qualidade e adequar a quantidade. Mas fiquei com a sensação que a grande preocupação está centrada nos médicos e na necessidade de justificar o aumento do número de clínicos a trabalhar para o Estado, nos próximos anos.
Poderá ser uma visão redutora minha, mas não vejo uma estratégia centrada no doente, até porque os critérios utilizados não contemplam o estado de saúde do cidadão.

Com a influência que estas organizações têm e pelo papel que deviam representar na sociedade, faz-me confusão porque é que ninguém quer mesmo saber da nossa saúde. Como é possível desenhar o que quer que seja, sem haver um ponto de partida, sem se conhecer a realidade do momento e o impacto do passado?

O verdadeiro ponto de partida da Saúde
Não existe, nem nada próximo disso. Deve conhecer-se a população que se serve, o seu estado de saúde e isso não se sabe em Portugal.
Quem faz da gestão a sua filosofia, ou quem usa o pensamento crítico e o marketing como arte do dia-a-dia, sabe que conhecer o mercado e as suas necessidades, é fundamental para poder desenhar e adaptar a oferta, garantindo dessa forma a satisfação do cliente e os requisitos necessários para suprir a célebre relação entre a oferta e a procura. É isso que acontece na Saúde? Claro que não.
Todos dizem que estão centrados no doente, mas tudo não passa de demagogia. Apregoam isso para suprir as necessidades da sua profissão ou da sua corporação, mas na hora da verdade, o doente fica em segundo plano. O exemplo das greves recentes é a prova disso.
Já sei que vão chamar-me nomes, mas não estou só a negar o direito à greve, mas apenas a questionar, se ela faz sentido nos tempos actuais.
Ser profissional de saúde implica algo que está no juramento que fazem, de defender o doente acima de todas as coisas. De uma forma ou de outra, esse juramento diz considerar a saúde do doente como o meu primeiro cuidado. Fazer greve é isso?
No dia 12 de Setembro li no Público (1) um testemunho de alguém de esquerda, que me fez pensar no verdadeiro ponto de partida.

“É eticamente insustentável submeter pessoas terceiras a potenciais danos como forma de luta sindical. A greve está suspensa por respeito aos doentes”
Rosalvo de Almeida, Neurologista, “médico aposentado sem actividade clínica, auto-excluído de intervenções públicas, septuagenário saudável, não resisto a vir a terreiro como subscritor único de um manifesto que julgo pode merecer a concordância de muitos profissionais de saúde no activo.
Não esqueço, ao fazê-lo, que fui co-fundador de um sindicato dependente dos médicos nos anos 80, de que ainda sou o seu associado número 1. Sem filiação partidária há mais de 20 anos, não escondo a minha preferência pelo lado esquerdo da política. Posto isto, dou corpo ao manifesto.
Considerando que os profissionais da saúde têm uma responsabilidade social específica e elevada, a qual implica repercussões na vida das pessoas a que assistem;
Considerando que é eticamente insustentável submeter pessoas terceiras a potenciais danos como forma de luta sindical;
Proponho que os profissionais de saúde, através dos seus representantes sindicais, anunciem uma moratória do recurso à greve; afirmem prescindir desse direito, ao qual não deixarão de recorrer em situação extrema de óbvia e continuada intransigência da contraparte; inventem campanhas expeditas e novas de transmitir aos utilizadores dos serviços de saúde as suas razões (distribuição de folhetos nas consultas, exames e tratamentos, carimbar receitas e relatórios com frases-choque, demonstrar publicamente a viabilidade e a justeza das reivindicações, envergonhar os gestores incompetentes nos meios de comunicação social, usar bandas negras nas batas brancas, reafirmar insistentemente que a greve está suspensa por respeito aos doentes); façam tudo o que é legitimamente possível para que os políticos prefiram ceder negocialmente a perder votos”.
Como acabar com esta situação e não prejudicar os doentes com greves políticas? A greve está suspensa por respeito aos doentes.
Este é o verdadeiro ponto de partida e que pode colocar os cidadãos do lado de quem trabalha nas instituições de saúde, preparando-se o outro ponto de partida.

O segundo primeiro ponto de partida
Voltamos à gestão, ao marketing ou melhor, ao bom senso. Não façamos política de saúde apenas com base em números da OCDE, dos que uma corporação profissional ou um sindicato mandam fazer, mas sim com os números da realidade do país e da evolução expectável nas próximas décadas. É preciso ir ao encontro das necessidades de quem está doente e ao mesmo tempo começar a prevenir a doença, garantindo a qualidade de vida de todos.
É preciso parar sem deixar de andar, porque a doença não espera para refundar o SNS. Chega de politiquice e de notáveis a dizer coisas banais sem sentido actual, porque pensam que nós gostamos de os ouvir, ou que vão ter muitos likes e partilhas nas redes sociais.
Parem para pensar, sem deixar de andar e meçam, afiram, calculem, façam a porcaria das contas que quiserem, mas que sejam honestas e centradas em nós, no cidadão desconhecido que todos dizem estar no centro do sistema. Concentrem-se no que é fundamental para tratar da nossa saúde. Comecem pelo início e saibam não apenas quantos somos, porque isso está no INE, mas o que temos, do que padecemos e para além dos direitos, as obrigações que devemos ter para ser saudáveis, para que o Estado possa contribuir de forma mais eficaz para a nossa saúde.
Juntem os sindicatos todos, as ordens e as associações do sector, as sociedades cientificas, as universidades, os partidos políticos e todos os que se interessam e dependem do sector da saúde. Juntem-se todos e tenham senso, exigindo o seu contributo para um Censo sobre a saúde da população portuguesa.

Um Censo sobre a nossa Saúde
É o ponto de partida para um futuro com mais saúde. Mais do que saber quantos somos, é saber que saúde temos e que resposta queremos do SNS.
Vamos contruir a Saúde em Portugal, sem ter por base a mera contagem de cabeças ou unidades ponderadas. O que se faz hoje, não leva em consideração que um sénior de 70 anos possa ser mais saudável e com mais esperança de vida, que um jovem de 40 anos. É preciso aferir o risco, antecipar eventos e trabalhar no sentido de tratar e prevenir, sabendo o que se pode esperar da saúde de uma região.
Porque hei-de colocar aqui uma USF com 10 médicos? Apenas porque lá vivem 20.000 pessoas? Quais as suas condições sociais, económicas e de escolaridade? Há informação no INE, na Camara Municipal, mas quais as condições de saúde? Tenho alguma ideia? Sabemos qual o seu nível de risco?
As USF’s actuais sabem apenas o número de hipertensos, o número de diabéticos ou quantos têm colesterol elevado. Pouco sabem das co-morbilidades ou do risco cardiovascular ou de quem está em risco de doença respiratória incapacitante ou de outra condição que agrave a morbilidade e aumente a mortalidade. Esta é uma necessidade fundamental que o cidadão deve garantir às autoridades de saúde, através das plataformas de dados disponíveis.
O Censos sobre a Saúde de Portugal, deve ser obrigatório e ter a ajuda de todos, desde as farmácias, centros de saúde, câmaras municipais, juntas de freguesia e hospitais. Não há mal em ser obrigatório nem isso constitui um atentado à cidadania. Atentado é não ter acesso à saúde, em defesa de uma pretensa liberdade, que pode manter os portugueses presos à doença.
Esta deve ser a preocupação de senadores como António Arnaut e de todos os que fazem estudos ou greves para justificar o que pretendem. Para refundar o SNS, é preciso conhecer a realidade para depois erguer um sistema baseados nas necessidades da população.
Vozes contra o Censos da Saúde? Claro que vai haver, em particular de todos a quem interessa o estado actual das coisas; de todos os que defendem o sindicalismo político; de todos os que se escondem por detrás dos variados corporativismos, porque ninguém se entende na distribuição do pouco dinheiro que existe; e de todos os que contribuem para aumentar os gastos na saúde.

Aumentar os custos?
Claro, todos os vaticinam isso, não só pelo envelhecimento da população, pela inovação, pelas 40 horas que passam a 35 horas, pela redução da lista de utentes, pela comparação entre a remuneração das diferentes profissões de saúde ou por outras exigências que um grupo ou corporação se lembre de fazer.
A ideia é sempre a mesma, a de ganhar mais, trabalhar menos e o Estado que pague a competência, a incompetência, a qualidade, o desperdício, os erros, a politiquice e todas as deambulações e vantagens de quem se move pelo interesse e poder.
A saúde e o acesso não melhoram apenas porque aumentamos o número de Médicos, diminuindo o número de utentes por médico; ou porque aumentamos o número de USF’s ou de hospitais, ou porque investimos na inovação. Não melhoramos apenas por dizer que vamos refundar o SNS, acabar com as PPP e porque alguns batem palmas a isso.
É preciso optimizar, criar uma nova forma de olhar a saúde e pensar que os custos não estão apenas no lado do SNS, mas também do lado do cidadão, das empresas, no absentismo e no tempo para cuidar dos doentes.
Então se queremos optimizar, comecemos por aí, no momento em que estamos doentes.

Estou doente e eu é que tenho que me deslocar até ao médico?
Isto, cada vez mais me parece despropositado. O conceito do médico fixo deve acabar. Distinga-se consulta de urgência e consulta de rotina. Distinga-se a necessidade de auscultar ou medir algo no doente e nas vezes em que o médico nem toca no doente. Então, porque é que eu vou ao médico e o médico não pode vir até mim?
Todos falam de consulta ou em unidades de proximidade, significando isso a construção de mais betão e de mais custos. Aumentamos os encargos para o Estado e com isso, retiramos investimento de onde ele é mais necessário.
Qual é o ponto de partida? O médico, o doente, ou o local de consulta? O melhor local é onde o doente está; o melhor local é onde o médico puder ver o doente.

Quero mesmo ter um médico de Família?
Pergunte-se a si próprio, independente da sua idade, quantas vezes foi ao seu médico de família e quanto tempo durou a consulta? Durante um ano esteve com ele, mais de uma hora?
Já se perguntou se o modelo actual faz sentido, em organização e acesso, quando alguém necessita de cuidados?
O estudo da APMCG, diz que a média de consultas é de 2,1 vezes por ano e quem mais as utilizou foi lá 4,2 vezes. Será que a melhor forma de organizar os cuidados, é diminuir as listas de utentes, aumentar o número de Médicos e os consequentes encargos, retirando verbas onde são mais precisas? Não me parece.

O que queremos de um Médico?
O que queremos de um Médico de Família? Um distribuidor de especialidades médicas ou um clínico de verdade?
Mas pergunte-se, que condições damos aos Médicos de Família para saberem da medicina que precisamos? Quando estamos doentes, queremos que eles sejam especialistas de Gastro, de Cardiologia, de Neurologia, de Psiquiatria, …
Como é possível eles fazerem consultas e ainda estudarem tudo o que precisam para nos tratar? Não seria isto que deveria preocupar a Ordem dos Médicos e as Associações Profissionais?
Quando falamos de um especialista, como um Cardiologista, ele “apenas” se preocupa com o coração e “descarta” outros órgãos, numa forma simples de dizer.
O Clínico Geral, o tal que agora é Especialista de Medicina Geral e Familiar, tem de saber de tudo, porque é a porta de entrada do SNS. Mas damos-lhe condições para isso? Não me parece.
Que nível de exigência colocamos num Médico que desterramos numa USF ou numa UCSP, atrofiado pela burocracia e na informática anquilosada, com uma lista de utentes de 1900 unidades ponderadas? Acredita mesmo que diminuindo o número de utentes, eles vão saber mais da Medicina, do State of the Art que necessita?
Não quero estar agarrado a um Médico, a uma eventual cristalização do seu saber ou a uma escolha pessoal da sua área de interesse. Não quero um Médico em burnout e desmotivado, que não tem tempo para se actualizar. Como diz Rui Nogueira, “médicos em unidades de saúde disfuncionais dificultam o trabalho, provocam exaustão, desqualificam o acto médico e aumentam o risco e a probabilidade de erro”.
Eu não quero médicos assim, mas um que esteja sempre a confrontar-se com a necessidade de diagnosticar e avaliar, como se de uma primeira vez se tratasse. Eu quero confiar nesse Médico, na equipa e na instituição onde ele está.
E que instituição queremos? Quem somos nós, para querer o que quer que seja?

Os portugueses, que não se governam nem se deixam governar. Que doentes somos?
É célebre esta frase. Na verdade, que tipo de doentes somos? Pelo que consta, com baixa literacia de saúde e com níveis de risco assinaláveis, devido aos hábitos de vida que levamos. Vamos pouco ao médico e pelo que consta enchemos as urgências, públicas e privadas, porque é mais prático.
Separemos as necessidades em emergências/trauma, em doença aguda e em doença crónica incapacitante e não incapacitante. Será que somos muitos diferentes da pirâmide de Kaiser?

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Na verdade, 70 a 80% dos doentes necessitam do que se designa por autocuidado apoiado. Ou seja, se olharmos para o número de utentes de um médico (e vá, coloquemos 50% da sua lista de 1900), cerca de 950 utentes, provavelmente não precisam do médico nem de uma consulta com o médico.
Não é assim que se fazem estas contas? Talvez não. Olhemos então para os números de consultas, publicadas no estudo da APMGF.

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Voltemos ao número de consultas. O que se conclui daqui? Pensa que são muitas as vezes em que o utente vai ao médico ou são poucas? E o tempo que fica à espera?
E o tratamento que recebe numa USF tipo A é diferente de uma USF tipo B e estas, diferentes de uma UCSP. Porquê a diferença entre as instituições de saúde?

Mas afinal, que instituição queremos? Não sei, mas acabem com as USF’s.
Alguém nos lançou às sortes. O que lhe calhou? Uma USF tipo A, uma B ou uma UCSP. Acham bem? Os direitos dos portugueses não são iguais?
E depois, os indicadores de contratualização que podem determinar a nossa saúde no geral, dependem se a instituição é A ou B ou UCSP? É tudo obra da sorte e ninguém reclama.
E acreditam que são mais e melhor tratados, numa A, B ou numa UCSP? Acreditam que o são do mesmo modo? Então porque é que o Estado paga mais por umas, do que por outras?
Alguém sabe se uma USF é melhor que outra? Porque raio não se consegue avaliar e comparar, sem ser por percentagens que nada dizem, as USF’s? Não me venham com bolinhas, verdes, amarelas ou vermelhas. Eu quero saber mesmo a sua eficácia e eficiência e conhecer os numeradores e denominadores de cada indicador, por unidade.
Porque toleramos isso? Há um total liberalismo nestas instituições, o tal papão da esquerda, ou melhor, um neoliberalismo autoritário? Ironia…
Acabem lá com as USF´s de uma vez por todas e criem um modelo de saúde nos CSP’s único, porque os portugueses têm todos os mesmos direitos e os mesmos deveres.
Não entro nas guerras idiotas da privatização dos CSP. O modelo C das USF’s nunca saiu da gaveta, porque a tutela não acredita na competência das equipas de gestão das USF’s, por manifesta falta de maturidade das organizações de ACES/USF/UCSP e das más relações entre profissionais, em particular Médicos e Enfermeiros. Ninguém se entende, nem ninguém sabe quem manda em quem.
Um médico a gerir, um gestor a prescrever e um enfermeiro a diagnosticar? Que queremos para o futuro?

A quem pertence o Futuro?
Todos discutem o passado, na ânsia de proteger o futuro da sua quinta, sem pensar no SNS. Diminuir a lista de utentes?
O Saúde Online, de 10 de Outubro, (2), diz que “A redução das listas dos actuais 1900 utentes por médico de família para 1550 agravará a escassez destes médicos, dos actuais 536 para mais de 1700. A ser satisfeita, a reivindicação dos sindicatos médicos de redução das listas de utentes dos Médicos de Família de 1900 para 1550 utentes, poderá deixar sem médico mais de 2,5 milhões de portugueses. Muitos mais do que os 941 mil que actualmente não o têm. Já o número de médicos de família necessários para tapar o “buraco” resultante do emagrecimento das listas de utentes por médico iria disparar dos actuais 536 para mais de 1700.”

Será possível que os sindicatos proponham algo que provoca um aumento de mais de 1,5 milhões de portugueses sem médico de família? É esta a solução que propõem, orquestrada pelo estudo da APMGF? Quanto custa ao Estado, ou seja, a todos nós, esta manigância política, sindical e corporativa?
Claro que o futuro pertence aos políticos que estão nos sindicatos e aos que estão espalhados por aí, com bata branca. Isto é um verdadeiro circo em que o Estado tem de garantir emprego a todos. Isto é que é pensar no doente, utente ou cidadão.

Qual Burnout?
Qual é a solução que propõem? Aumentar o número de médicos, construir mais USF’s e diminuir a lista de utentes por médico, que vê em média o seu doente duas vezes por ano? E aumentar de forma suicida, os custos com a saúde? Só podem estar a brincar.
Esta é a estratégia da Fenprof, ou seja, que perante um défice de crianças no país, aumenta o número de professores, reduzindo o número de alunos por sala. Não posso é deixar de garantir trabalho no Estado a todos os professores que estão sindicalizados. E não quero que o Estado pague nada de educação privada. Era o que faltava, gastar dinheiro nos privados.
Reconhecem a lógica na Saúde? Ainda que os sindicatos médicos sejam verdadeiros amadores quando comparados com a Fenprof, vão para a greve de mote regional, para reivindicar a redução das listas de utentes ou o aumento dos custos com a Saúde?
Reclamam burnout? Qual Burnout? Lembram-se do post que escrevi sobre o estudo de Burnout da Ordem dos Médicos?Não há Burnout nos Médicos de Família? Parece que não
Mas será que a redução das listas é a única solução?

Ou fazem parte da solução ou deixam de ser um problema
Alguém acredita que, o conceito de Médico de Família e a consulta presencial, vão manter-se por muito mais tempo?
Será que os doentes das Gerações X, Y, Z e seguintes, vão retroceder na tecnologia e deitar fora a mobilidade, o conforto e o acesso tecnológico, para estarem numa sala desconfortável, cheia de doentes, horas à espera para uma consulta de 10 minutos?
Acreditam que todos os médicos que se vão formar, vão querer trabalhar no Estado? Será que o único empregador estatal vai ser o Ministério da Saúde e das Finanças? E então a municipalidade?
Será que vão querer indicadores de contratualização que nada indicam, ganhar sobre percentagens de indicadores, compostos em dimensões que pouco dimensionam, quando podem receber por performance e por outcomes clínicos, em que assistem e medem o cidadão a ter melhor saúde?
A comissão europeia caiu em cima do Ministro da Educação por estar a gastar mais em professores e a ter piores resultados nos exames de aferição. E aconselha a pagar por performance e a comparar. Será que a Fenprof quer isto? E os sindicatos médicos?
Por isto é que o Censos é a pedra angular da Saúde do futuro.
O mundo está a mudar e a tecnologia não é o “driver” da mudança, mas sim as pessoas que beneficiam com a aplicação da tecnologia, em serviços que os colocam no centro da solução, ao invés do sistema e do profissional. O direito de escolha fará a diferença.
Baixar o número de utentes? Não, tem de ser ao contrário. O médico vai querer aumentar a sua lista.
Então porque não começamos a antecipar o futuro e evoluímos na forma de optimizar nos custos do Estado e dos utentes?

As perguntas não ficam sem resposta
Não vou deixar as perguntas sem resposta, mas não nos enganemos. Sem um ponto de partida não é possível mudar. Sem o Censos, vamos continuar ao sabor dos ventos corporativos e políticos.
Podemos usar as variáveis da APMGF, o tal índice de procura e da complexidade. Depois juntamos os custos dos medicamentos, dos MCDT’s, os GDH’s hospitalares, os custos das baixas, transportes e os recursos humanos. Conseguimos contabilizá-los pela freguesia onde residem os utentes. E deste modo, temos grande parte dos custos com a saúde.
É hora de traçar objectivos. Já sabemos quantos cidadãos existem, qual a sua condição de saúde, quanto se gastou; começamos a poder prever a sua evolução no sistema.
Eu sei que simplifiquei, …
Um pequeno pormenor. Um bom sistema de registo, mas isso já falamos em post anteriores.O Ministério da Saúde é uma Software House de Saúde Digital?
Que doentes somos?
Grande parte a necessitar apenas de auto-cuidados, sem necessidade de consultar fisicamente o seu médico, ou seja, em vez da média de 2,7/ano, podia ser apenas 1 vez por ano. Porquê? Porque colocar o doente no centro do sistema, não é levá-lo ao médico.
As equipas de saúde
Reverter totalmente o modelo actual. Criar equipas chefiadas por 1 médico, com 3 enfermeiros, 2 psicólogos, 1 nutricionista e 3 assistentes administrativos. O número de utentes por cada equipa oscilaria entre 4000 a 5000. Porque estes números? Bom sempre posso desenhar e efectivar um estudo que demonstre e justifique desta opção.
A ideia base assenta numa verdadeira equipa de saúde e nela reservar o médico para os utentes que estão doentes; o enfermeiro vai para a linha da frente, como célebre gestor de saúde, em que o utente é por ele orientado para o médico, para os autocuidados, para o nutricionista ou para psicólogo. A ideia é haver uma triagem de Manchester para os CSP, um bom sistema de registo e uma plataforma operacional como a PDS. E isso não é difícil, basta querer.
Estou doente e eu é que tenho de ir até ao Médico?
É óbvio que não e claro que sim. É algo de agudo? Linha 24 e reencaminhamento para a solução que está ao dispor. Rotina ou agravamento de uma situação crónica ou um novo sintoma? Então, porque devo ir à USF, marcar, esperar pelo dia de consulta e depois ir doente ou até já sem sintomas e estar à espera junto a outros doentes?
Se tenho médico, porque não ligo para o enfermeiro da unidade que me está atribuída e não falo com ele, para uma triagem e um melhor encaminhamento?
Ou então, porque não a telemedicina, que a região ou a unidade pode contratualizar? É o médico que vem até mim na hora em que estou doente e preocupado. Difícil? Claro que não.
Obviamente os CSP do futuro, não passam por reduzir a lista de utentes e aumentar o número de Médicos, praticando medicina da forma mais clássica, fazendo de conta que não existe tecnologia. A tecnologia é uma forma de baixar os custos com a saúde e dar mais e melhor acesso a todos.
Que Unidade de Saúde queremos? ULS, USF e UCSP não.
Não quero ser discriminado pela sorte de estar na região de uma USF A, B ou calhar-me uma UCSP; ou estar abrangido numa ULS e dizer que o hospital suga todos os recursos e os CSP são o parente pobre. Isto não é correcto.
Quero uma Unidade Integrada de Saúde, gerida numa lógica de resultados clínicos e que integre os Municípios, as Escolas, as Universidades e o tecido empresarial, porque uma região saudável é uma região mais produtiva.
Quero uma Unidade Integrada de Saúde, UDIS, que englobe os serviços hospitalares de emergência, de trauma e cirúrgicos, organizados por grandes patologias em serviços multidisciplinares, baseados em doenças e doentes e não em especialidades médicas.
Quero uma UDIS, com centros de excelência, totalmente virada para as necessidades da população, constantemente actualizadas, bem apetrechadas e com as equipas bem remuneradas, numa lógica de resultados, onde todos os doentes têm lugar, para além daqueles que têm critérios de sucesso.
Quero uma UDIS, onde possa haver consultas presenciais, mas onde a consulta virtual seja uma tendência que protege o doente, poupa nos transportes e acelera o acesso ao especialista.
Quero uma UDIS, onde os especialistas médicos possam circular até onde estão os doentes, usando toda a tecnologia que hoje existe. O conceito de hospital deve evoluir para unidades mais diferenciadas e acabar com a central de consultórios de especialidades.
Quero uma UDIS, onde os doentes possam ser tratados em casa, com equipas de enfermeiros preparados para o “Home care”, segundo uma estratégia que retire o doente mais cedo do hospital e que evite a eventual deslocação penosa ao local de consulta.
Quero uma nova forma de fazer saúde, sabendo que sem produção não há resultados, mas sabendo que pode haver muita produção sem resultados clínicos. E não tenho de pagar por isso.
Quero refundar o SNS? Claro que não.
São outros tempos, com outras necessidades e de uma vez por todas é preciso perceber que o dinheiro do Estado e dos contribuintes não dá para tudo.
Quero um novo e não refazer os cacos deste SNS. Quero que os médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde recebam do Estado numa base fixa e depois, recebam por objectivos da região onde trabalham; e no interior do país, o valor variável e por performance, seja até superior.
Quero que façam um acordo base com o Estado, mas depois assinem individualmente, consoante o seu valor para o SNS, a sua avaliação e tempo de experiência, um acordo financeiro por objectivos concretos, variável entre regiões, que pode ser até muito maior do que o fixo que Estado paga.
Quero saber o verdadeiro resultado de cada USF e não simpáticas percentagens de dimensões pomposas. Quero indicadores claros e quero avaliação 360 graus de todos os profissionais, a quem o Estado paga. Quero que o sistema tenha a possibilidade de excluir rapidamente quem não trabalha ou quem não aporte valor ao SNS.
Não quero reduzir o número de utentes, como reduzo os números de alunos das turmas, só porque sim e porque quero aumentar o número de médicos, como se aumentou o número de professores. Não quero aumentar os custos para o Estado e engrossar o poder dos Sindicatos.
Mas assim vai haver desemprego nos médicos, nos enfermeiros e nos farmacêuticos ou noutras profissões de saúde? Claro que pode haver, como há em tantas outras profissões. E então? Será que o Estado tem de garantir emprego para todos numa lógica de custos cada vez mais elevados, até à morte do sistema?
Mas para quê falar de turismo de Saúde, se podemos falar de exportação de Medicina sem os médicos saírem do país? Refundam as ideias e olhem para a tecnologia.

Quando acaba a palhaçada?
Quando se está no governo, as opiniões que tínhamos na oposição, mudam. Quando deixamos de ser governo, usamos os argumentos que a oposição usou antes.
O Secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, reconheceu que o Governo “não tem condições para responder a todas as reivindicações” e que é um “tormento” governar nas actuais circunstâncias. É difícil defender os trabalhadores e aos mesmo tempo defender os doentes.
Claro que de repente somos confrontados com a realidade e percebemos que não é fácil. Quem reivindica só vê um lado da moeda. O PCP e o Bloco de Esquerda estiveram anos a poder dizer o que queriam, sem consequências. Quando levam um banho de realidade na dita geringonça, as coisas mudam e têm de se calar. Mas depois, não podemos ter quem antes foi governo, passar para a oposição, usar os mesmos argumentos e recorrer às greves, como se nada os responsabilizasse. Façam política com tudo, menos com a nossa saúde.
É preciso um acordo de Estado para a Saúde, um bloco central e presidencial na Saúde, que desenvolva um plano a vários anos, talvez mais do que numa legislatura. Há muito para mudar e em particular a mentalidade de quem trabalha no sector e de quem o utiliza.
Há tanto para fazer que Portugal não pode esperar pelos tempos em que haja mais dinheiro. É preciso não desperdiçar mais.
O nosso contributo começa aqui, nas palavras que escrevemos para si. E o seu?

(1)https://www.publico.pt/2017/09/12/sociedade/opiniao/a-greve-entre-parenteses-manifesto-da-luva-branca-1784997

(2)http://saudeonline.pt/2017/10/10/reivindicacoes-dos-sindicatos-deixam-sem-medico-de-familia-25-milhoes-de-utentes/#.WdyuGfnI91Y.facebook

6 thoughts on “Acabem de vez com as USF’s e com os Médicos de Família

  1. Dâmaso R diz:

    “A ideia base assenta numa verdadeira equipa de saúde e nela reservar o médico para os utentes que estão doentes; o enfermeiro vai para a linha da frente, como célebre gestor de saúde, em que o utente é por ele orientado para o médico, para os autocuidados, para o nutricionista ou para psicólogo”

    A ideia base é boa, mas só quem não conhece os nossos enfermeiros acha que pode algum dia entrar em prática. Não têm formação para tal tarefa, nem algum dia se responsabilizarão por não orientar todos os doentes para o médico designado…

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    1. Meu Caro, obrigado pela leitura e pela sua participação. O que diz é pertinente, mas temos de conseguir a mudança. Provavelmente vai demorar mas é algo que deve ser feito, até mais pelas novas gerações.
      Agradeço a sua participação.

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  2. MM diz:

    Desvario…totalmente desfasado da realidade.

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    1. Muito obrigado pela leitura e pelo seu comentário.

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  3. Carlos diz:

    O que não faz falta nenhuma são senhores que não percebem patavina do que é a medicina, do que é ser médico, se intitulam de thinkers e no fundo são uns frustrados que tentam puxar para si algum protagonismo que nunca mereceram.

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    1. Meu Caro.
      Muito obrigado pela leitura e pelo seu valioso contributo.

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