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Onde começa e onde acaba?

Sente-se para ler. Não se começa a falar de Política de Saúde apenas em 5 minutos.

Há 43 anos atrás, na noite do 25 de Abril, não sei se o Capitão Salgueiro Maia dormiu. Esta noite não dormi. Escrevi sobre Política de Saúde, em sua homenagem.
A década de 70 estava a terminar e Portugal fervilhava no cadinho da liberdade. No liceu D. Dinis, em Lisboa, célebre pelas reuniões gerais de alunos e cenas de pancadaria entre a direita e esquerda, havia uma disciplina de Introdução à Política. Nela definiu-se “Política, como a arte de enganar os homens”. Nunca mais me esqueci.
Será que a Política de Saúde é a arte de enganar os doentes?

O prometido nunca é devido
Nas campanhas eleitorais tudo se promete. Depois, passada a euforia da vitória, a realidade de um país sem dinheiro, leva a que as promessas se fiquem por afectos, novas promessas e negociações, face à penúria de um ministério que devia ter mais dinheiro. E pela razão financeira, o prometido tem a grande força da razão, para não ser devido.
Mas, quando um dia precisar, já pensou como quer que lhe tratem da Saúde? Se desejar que seja da melhor forma, acredite que, mais do que saber de Política de Saúde, deve ajudar a construí-la. Na verdade, quando escuta as promessas eleitorais ou quando ouve alguém falar de Saúde, a maioria de nós é manipulada pelo “soundbite” criado por especialistas, com o único objectivo de esquecer o prometido e não se lembrar do que é devido.

Pare, escute e olhe pelo o seu futuro, para saber como vai ser tratado
Que idade tem? Está para além dos 65 anos? Mais de 50 e menos de 65? Entre 40 e 50? Menos de 40? Tem emprego? Seja qual for a idade ou situação profissional, deve perceber qual o caminho a seguir e o que encontra, quando a doença se cruzar consigo. Acredite, um dia no futuro, vai ficar doente. A sabedoria popular diz “Depois de casa roubada, trancas à porta”. Não faça isso com a sua Saúde. Mais do que na doença, deve saber o que fazer na prevenção da sua Saúde e perceber as suas razões para estar saudável. Invista nisso. Depois até pode ter um seguro de Saúde, ter ADSE, outro subsistema, ou então o celebérrimo SNS em que a sua Saúde pode esperar numa lista qualquer. A questão principal é que não deve alhear-se do trabalho que os políticos fazem com a Saúde, porque é a sua vida.
Pare o que está a fazer, escute o que dizem, olhe atentamente e leia tudo o que diz respeito à organização da Saúde em Portugal, porque decerto será um indicador de como vai ser tratado no futuro. Não fique ignorante, cuide de si e dos seus.

Pertence ao clube dos ignorantes?
Questione-se qual o seu nível de ignorância no que diz respeito à Saúde. Sim, IGNORÂNCIA.
Não se ofenda, se porventura for um ignorante licenciado ou até mesmo um ignorante doutorado. E não me refiro apenas ao conhecimento sobre medicina e doenças. Preocupa-me não saber e não se interessar pela Política de Saúde que define a forma como o vão tratar no futuro. Isso é uma ignorância mais grave.
Talvez no domínio da Política de Saúde, a maioria dos portugueses sejam verdadeiros ignorantes. É uma opção que começa no dia das eleições, quando votam sem conhecerem um programa partidário ou quando, de uma forma consciente, não votam.
Será que não votar é um direito de Abril ou um sinal de imaturidade democrática? Nas últimas eleições 44,1% dos portugueses não votaram e dessa forma deixaram nas mãos de outros, as decisões sobre a Saúde e a vida no geral. Há sempre uma desculpa e uma delas é que a Política de Saúde é complicada e por isso deve ser deixada para os especialistas, para os profissionais.

Ser profissional não é sinónimo de ser especialista
Outro erro comum é pensar que pelo facto de alguém ser médico ou enfermeiro, percebe de Política de Saúde. Nada mais errado.
Em Portugal, de 1933 até ao presente, houve 20 Ministros da Saúde. É verdade que 2 deles exerceram o cargo durante pouco mais de um mês e Leal da Costa em 2015, menos de 1 mês. Destes 20 Ministros, apenas 7, (35%) foram médicos e de 1983 até ao presente, nos 12 Ministros da Saúde, apenas 4 são médicos, ou seja 33%. Aproveito para esclarecer que de Abril de 1974 até Junho de 1983, a Saúde estava integrada no Ministério dos Assuntos Sociais. Mas atente no quadro seguinte.

Diapositivo1

A história diz-nos que de 1983 até hoje, houve 8 Primeiros Ministros em 15 governos da República e algo comum a Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e António Costa – foram os únicos que escolheram um médico para Ministro da Saúde.
Mas então, como fazer Política de Saúde sem se perceber de Saúde? E ser politico faz com que perceba de Saúde?

E perceber de Saúde faz com que saiba fazer Política de Saúde?
Que confusão, com tantas perguntas em círculo. Mas quem faz a Política de Saúde, percebe de Saúde para poder traçar a sua política? Na sua memória recente, compare o Ministro da Saúde Paulo Macedo, com o Ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes. Quem pensa que, quando começou a exercer o cargo, sabia mais de Política de Saúde?
Mas quem faz a Política de Saúde? A equipa ministerial, os políticos ou os deputados?
“Deputados mudam lei do tabaco, entidades da Saúde lamentam oportunidade perdida. A revisão da lei do tabaco proposta pelo Governo suscitou polémica e sensibilidades e deverá ser esvaziada pelo Parlamento, com entidades ligadas à Saúde a lamentarem que tal aconteça. O Partido Socialista, PS e o Bloco de Esquerda, BE querem eliminar a norma do diploma que proíbe fumar perto de hospitais ou escolas…”(1)
E os deputados percebem de Saúde?

Os nossos deputados e a Saúde
A única forma de poder avaliar a qualidade dos deputados neste domínio, é através das intervenções na Comissão Parlamentar ou na Assembleia da República, nos debates com o Ministro. É preciso assistir para poder, não digo julgar, mas avaliar e perceber o que sabem e como nos tratam da Saúde.
Antes de chamar o Ministro à Comissão Parlamentar de Saúde, ou questioná-lo na Assembleia da República, é bom que se saiba, não apenas o que se vai dizer e perguntar, mas o que podemos ouvir como resposta. Porque às vezes, as respostas fazem perceber que mais valia não terem perguntado.
Percebe-se que de um modo geral, todos os deputados devem estudar mais os dossiers da Saúde e alguns partidos políticos devem começar a ter verdadeiros peritos na sua bancada, demonstrando uma estratégia para a Saúde e não um disparar aleatório e repetitivo de frases e temas, facilmente desmontados pelos números do ministério.
Os números são a prova dos nove de qualquer Política de Saúde. Onde podem ir os deputados perceber esses números? Ao Instituto Nacional de Estatística?

O INE, os deputados e a Saúde. Que trapalhada!
O INE publicou este mês as “Estatísticas da Saúde de 2015”. E decerto como estratégia digital, publicou uma bonita infografia, originando “likes”, “emojis” e partilhas no Facebook e Linkedin, deixando todos contentes.

Infografia_Saude em Portugal 2015

Observe em pormenor a infografia. Consegue adivinhar o que não está lá? Portugal é só cuidados hospitalares? É só isto que interessa? A produção, o número de actos feitos?
Esta infografia reflecte o que se pensa da Saúde. Onde estão os resultados clínicos? Qual o rácio de doentes por médico ou enfermeiro, por hospital? Qual o valor do desperdício?
É interessante saber quantas consultas foram feitas, mas qual é o resultado clínico para o doente? Com papas e bolos se enganam os tolos.
As estatísticas de Saúde apresentada pelo INE são obsoletas e não estão adaptadas à realidade que vivemos e ao futuro que precisamos. É preciso mais. Agora percebo porque dizem que a maioria dos deputados não sabe nada de Saúde. Não têm como aprender.

INE, Instituto Nacional do Esquecimento
É inadmissível que o INE, Instituto Nacional de Estatística, perdão, do Esquecimento, se tenha esquecido dos Cuidados de Saúde Primários. Em jeito de desculpa, no editorial da publicação, escrevem “No contexto do aproveitamento de dados administrativos para fins estatísticos, e pese embora os esforços desenvolvidos pelo INE em colaboração com o Ministério da Saúde, a inclusão de resultados sobre cuidados de Saúde primários apenas será́ retomada na edição da publicação relativa a dados de 2016”. O quer dizer esta verborreia ambígua? Brincam com os portugueses?
Em 2015 o INE desculpa-se com “A informação relativa aos centros de Saúde reporta-se a 2012, estando em curso um novo processo de produção estatística oficial neste âmbito, com base em dados administrativos a partir de 2013.”
Há pelo menos 2 anos que tentam e desde de 2012 que o INE, os governos e os políticos, esquecem-se dos CSP’s. Há 5 anos que não há dados oficiais. A quem interessa este esquecimento? Como se faz Política de Saúde e como trabalham os nossos deputados? A verdade é que ninguém reclama e todos estão satisfeitos. Provavelmente utilizam-se dados de outras proveniências, talvez numa lógica de “juiz em causa própria”. Corremos o risco de os dados servirem os interesses de quem os utiliza.
Será que a Política de Saúde é a arte de enganar os doentes e os portugueses? A ignorância começa a tomar proporções catastróficas e potencia decisões erradas.

A ignorância faz mal à Saúde
A ignorância é o inimigo número 1 da Saúde. Não sei quantificar, mas provavelmente a ignorância sobre a forma como funciona o nosso sistema de Saúde, é mais onerosa do que a obesidade ou até as doenças cardiovasculares, colocando em risco o nosso futuro.
A Saúde transforma cada cidadão num especialista. Todos os dias há portugueses nas USF’s, nos hospitais públicos e privados, nas farmácias e consultórios. E diariamente constroem-se opiniões, convicções e experiências únicas, partilhadas no círculo de amigos e família. Como pode então a ignorância ser uma ameaça? Porque temos a sensação que percebemos de Saúde, com base na experiência pessoal, em emoções poderosas e não no conhecimento sobre problemas específicos, sobre a organização do sistema ou sobre as políticas de Saúde. A partir daqui, não queremos saber mais. O conhecimento dá trabalho.

A Ignorância, o Conhecimento e a Agnotologia
Alfred Whitehead, matemático britânico, vaticinou que “não é ignorância, mas ignorância da ignorância, a morte do conhecimento”. O conhecimento que os portugueses e até provavelmente o que os deputados têm sobre Saúde, é empírico, pouco profundo, incompleto e manifestamente insuficiente, o que o torna prejudicial e dispendioso para o SNS. A única forma de a vencer é através do conhecimento.
A ignorância é uma parte inevitável da vida e não constitui um problema, porque nalgumas pessoas, é o início do conhecimento. E isso é fantástico. Não saber, pensar que se sabe tudo e não querer aprender, é que é mau.
Hoje, com tanta informação, temos outro desafio – saber separar a verdadeira ignorância, da ambiguidade fabricada com objectivo de consolidar a ignorância. Até que ponto não se constrói a ignorância ou se fomenta o aumento dos ignorantes?
É o campo da Agnotologia, a ciência que estuda a ignorância (2) e a sua construção nas sociedades modernas. Será que isto acontece na Política de Saúde?

É um Bom ou um Mau Ignorante?
Como construir e alimentar a ignorância? Pensa que é sonegando informação? Está enganado. Liberte toda a informação possível, em particular a que não interessa para nada, fomente o seu excesso e crie as maiores contradições, com factos que desmentem outros factos. Depois divulgue tudo na internet, construa a credibilidade através da repetição de posts no Facebook, Blogues e jornais digitais, que rapidamente chegam a mais portugueses que os jornais de papel. Depois é só deixar actuar em dois tipos de ignorantes.
O bom, que são poucos, é o ignorante que sabe que não sabe, que procura saber. Busca o conhecimento, parte da posição humilde em que reconhece que não sabe, estando por isso de mente aberta para aprender. O mau ignorante, aprende superficialmente através da leitura rápida na internet, na Wikipédia, em blogues e posts de “opinion leaders”. Depois constrói a ignorância divulgando tudo na internet e junto aos seus amigos, dando palco à destruição do saber. É quando a opinião vence a ciência.
A ignorância também floresce em democracia e até surpreende muita gente em eleições legislativas e presidenciais, dentro e fora de Portugal. Mas no que toca à Saúde, considera-se um bom ou um mau ignorante? E como considera os nossos deputados? Saber umas coisas sobre Política de Saúde, criar uns “soundbites” no parlamento, sem ter uma visão estratégica e operacional, não leva necessariamente a ganhos de Saúde.

Política de Saúde. O que é?
A OMS define Política de Saúde como as decisões, planos e acções que são empreendidas para atingir objectivos específicos de Saúde na sociedade. A Política de Saúde define uma visão para o futuro, ajuda a estabelecer metas e pontos de referência no curto e médio prazo. Descreve prioridades e os papéis esperados dos diferentes actores, procura consensos, comunica e informa todos os cidadãos da visão e do caminho a seguir.
Analisemos um pouco mais ao pormenor, alguns temas da Política de Saúde.

politica saude

É fundamental visualizar as consequências da ignorância, na Política de Saúde. Acredita que um deputado possa dominar todos estes temas? Se a politica por si só já é um tema complicado, a de Saúde assume contornos de elevada complexidade. É importante que os deputados, os dirigentes, profissionais de Saúde e até doentes e cuidadores, não sejam adeptos da agnotologia e possam aprender a construir um serviço de Saúde, com base numa política que tenha uma visão adequada às necessidades das próximas décadas. Precisamos de pessoas com um pensamento crítico, criativo e corajoso, sem medo da politiquice, dos sindicatos, das corporações e dos lóbis.

A Geringonça e a Saúde
O actual governo marca a agenda da Saúde como nunca aconteceu em Portugal. Com a dita geringonça, a oposição actual, CDS e o PSD, não conseguem fazer o papel que a sempre oposição clássica, que nunca foi governo, PCP e BE, faziam quando eram oposição. Isto porque o CDS e o PSD, não conseguem ser tão populistas, repetir as mesmas coisas “ad nauseam”, desrespeitar os compromissos europeus que o PCP e o BE nunca tiveram que assumir e ter controlo na CGTP e nos sindicatos. E isto é novo em Portugal.
Os deputados do PSD, CDS e PS tentam diferenciar-se na Saúde, mas a verdade é que as posições são muito semelhantes, no conteúdo e na forma, diferindo no estilo de gestão e nas prioridades de acção, a maior parte das vezes ditadas pelo ministério das finanças, pela Europa e pelo FMI. É da parte do BE e do PCP que vemos as grandes diferenças nas opções políticas para a Saúde. Mas com a metodologia da geringonça, a oposição destes partidos torna-se apenas numa posição suave e as escolhas políticas estratégicas, feitas em todas as comissões do Ministério da Saúde, garantem uma paz social no sector, fundamental para que haja Saúde sem dinheiro. Sem a oposição a opor-se, o PS governa a Saúde sozinho, como pode ou como o dinheiro que tem o permite. Mas então, quem faz oposição?

A oposição é feita de ideias
Ideias não é falar constantemente das PPP, do crescimento da dívida hospitalar, dos ordenados dos médicos e enfermeiros, de greves, … Na política, hoje defende-se o que se criticava ontem; na política, a amnésia selectiva é uma doença que afecta todos os partidos, menos o PCP e o BE, que nunca foram governo e que por essa razão, quase não têm nada para esquecer.
Ideias é o que se espera do Health Parliament Portugal, ideias exequíveis e que possam contribuir para solucionar problemas, apesar de tudo o que se ouve sobre este parlamento.
O SNS precisa de ideias e soluções porque corre o risco de colapsar. Como sabemos pelo INE, temos um sistema de Saúde muito hospitalocêntrico, preparado para tratar a doença aguda e pouco preparado para o tratamento e gestão da doença crónica, demonstrando dificuldades crescentes em lidar com o aumento do número de idosos com co-morbilidades e cada vez mais a necessitar de cuidados continuados. Este é um problema que necessita de uma solução, de uma ideia.

A ideia de um novo Ministério da Saúde
Este governo, continuando a política do anterior, tem feito um esforço para aumentar a oferta dos cuidados continuados, numa clara assunção que é um sector que necessita de investimento. Através do Decreto-Lei n.º 101de 2006-06-06, foi criada a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, numa colaboração estreita entre o Ministérios da Saúde e o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social. Nesta rede, temos unidades de internamento, de ambulatório e equipas hospitalares e domiciliárias. No internamento, unidades de convalescença, de média duração e reabilitação, de longa duração e de cuidados paliativos. Ou seja, consoante a duração da cama, o pagamento pode ser feito pelo Ministério da Saúde ou pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, para além de uma parte a ser paga pelo utente, calculada de acordo com a capacidade económica de cada utente e família.
O aumento da esperança de vida e o envelhecimento da população obrigam o SNS a ter capacidade de resposta, incluindo recursos humanos devidamente preparados para tal desafio. É decerto uma estratégia a longo termo que tem de ser desenhada e implementada. Mas porque não colocamos todo este trabalho sob o mesmo Ministério? Porque não criamos o Ministério da Saúde e da Segurança Social, mantendo o Ministério do Trabalho? De Maio de 1974 até Junho de 1983 a Saúde e os Assuntos Sociais estavam juntos. É tudo uma questão de projecção, planeamento e optimização no futuro. Tudo começa com o financiamento.

Ideias sobre o Financiamento
O SNS é financiado por impostos e “tendencialmente” gratuito no momento prestação de cuidados. Precisamos de mais dinheiro para a Saúde e obviamente ele tem de vir dos impostos directos ou indirectos. A questão está em escolher o modelo de financiamento que queremos para o futuro. E não vale a pena dizer que não a propostas fora da caixa e que vão buscar mais dinheiro. Se não existirem, deixa de haver capacidade para tratar os portugueses de forma “gratuita”. Sem Saúde, a economia sofre. Aqui deixo 3 ideias que até podem nem ser originais.

1. Quem mais precisa poderá ser mais sensível a alterar a forma de pagamento da sua Saúde. Quem mais precisa também já descontou mais tempo para a Segurança Social. É um facto, mas também é um facto que, se não houver dinheiro no SNS, serão elas as primeiras pessoas a sofrer com isso, uma vez que estão mais perto da doença. A ideia passa por, dos 45 anos até à idade da reforma, 67 anos, fazer um desconto “ADSE Like” e beneficiar das mesmas regalias que este subsistema tem. Depois dos 67 anos, todos descontariam para uma “ADSE Like”, mas reduzindo a sua contribuição noutros impostos directos.
2. A opção já muito ventilada de um seguro público de Saúde a todos os portugueses através de uma percentagem sobre o vencimento, como acontece com a ADSE, pode ser uma alternativa, permitindo desta forma o acesso de todos à medicina pública e privada, mas garantindo que paga pela sua Saúde. Ora se a “ADSE” é rentável, será que com este seguro, estaríamos a construir uma empresa de seguros no Estado, lucrativa, gerida por privados e desta forma, tornar o SNS mais sustentável e com melhor acesso para todos os portugueses?
3. A famosa taxa sobre o açúcar, faz sentido. Mas porquê só o açúcar? Porque não se avança com uma taxa sobre produtos nocivos e poluentes, como sejam, álcool, combustíveis e tabaco, entre outros? A ideia é aplicar uma pequena percentagem a estas indústrias e essa verba ir directamente para campanhas de prevenção e cuidados continuados, numa lógica de responsabilidade social. Se o estado cobra a quem faz bem à Saúde porque não esta taxa? Para além da dívida aos laboratórios e ao ajuste imposto por sucessivas medidas legislativas de redução de preços dos medicamentos, a IF tem sido contribuinte líquida do SNS por via dos protolocos assinados com o Ministério da Saúde. São milhões todos os anos.

Estas 3 ideias preconizam uma fonte de rendimento directo para o Ministério da Saúde, para além do financiamento que vem do Orçamento Geral do Estado. A ideia não é baixar este último, mas acrescentar ao existente, que já é insuficiente para as necessidades actuais da Saúde em Portugal. Óbvio que muita coisa tem de mudar e nomeadamente ser exigente com os profissionais e com os cidadãos, porque o sistema de Saúde desperdiça muito dinheiro.

Ideias sobre o Desperdício e de Governance
Por mais dinheiro que se coloque na Saúde, a verdade é que não podemos continuar a assistir ao seu desperdício, em não conformidades e gastos desnecessários. Não basta querer mais dinheiro, é preciso saber como o investir e rentabilizar.
Há processos e metodologias nos hospitais que geram desperdício e custos elevados; há processos e metodologias nos CSP que geram desperdício e custos elevados. Medicamentos e meios complementares de diagnóstico, recursos humanos, transportes e outros itens que constituem dinheiro “perdido”. Basta falar com os administradores hospitalares ou mesmo com médicos e enfermeiros, para saber que isso acontece e ninguém se importa.
A “Governance Clínica” é um conceito extraordinário, mas em Portugal é apenas isso. Não há Governance nos CSP, nem em lado algum a não no sector privado. Faça este exercício. Imagine que é o responsável de uma empresa que tem várias sucursais na Europa. Investe dinheiro, tecnologia e recursos humanos qualificados em cada uma delas. E quando quer saber os resultados, as pessoas que trabalham para si, apenas lhe dão uma contagem incompleta das visitas a clientes, não lhe fornecendo os resultados das vendas e não lhe permitindo fazer comparação entre sucursais, para saber qual a que mais vende, a mais rentável e a que tem melhores processos. Como forma de avaliação resta-lhe apenas a opinião dos clientes sobre o tamanho dos sorrisos que os vendedores fazem. E os resultados são maravilhosos. Chama a isto Governance?
Ignorância. Não vamos falar mais sobre ela a não ser para perguntar, porque ignoramos estas coisas do desperdício e da Governance? É preciso mudar este “paradigma”.

O paradigma do PIB e da Saúde
Em Portugal e com base no PORDATA, a percentagem prevista do PIB correspondente à Saúde é de 8,9% em 2015. Dito assim nada significa. Mas se lhe disser que no este valor vai aumentar substancialmente?
Num estudo da consultora McKinsey, (3), em que foram analisados os gastos em Saúde nos países da OCDE nos últimos 50 anos, encontrou-se uma relação surpreendente entre o PIB e as despesas com a Saúde. O aumento médio da despesa em Saúde, foi dois pontos percentuais acima do PIB durante os últimos 50 anos, em todos os países da OCDE. A tendência é notável pela sua consistência.

Diapositivo2
O estudo foi à procura do que aconteceria se essa tendência continuasse nos próximos 100 anos. Analisaram o histórico nos 30 países da OCDE e para cada um criaram dois cenários – o caso base, PIB mais dois pontos percentuais e um hipotético, PIB mais um ponto percentual.

Diapositivo3
Nenhum país da OCDE conseguiu conter de forma sustentável os custos com a Saúde. As conclusões são inquietantes e na taxa de crescimento histórica, os cuidados de Saúde consumirão uma proporção cada vez maior da riqueza destes países, atingindo 30% do PIB nos EUA em 2040 e 30% do PIB na OCDE, até 2070. Apesar nos EUA se gastar tanto, não significa que se tenha mais ganhos em Saúde. Se estes custos forem deixados sem controle, em 2100, podem atingir até 97% do PIB nos EUA e mais da metade do PIB na maioria dos países da OCDE. Futurologia? Bom, sempre pode ir até à OCDE e espreitar outros dados (4).

A geringonça e a moda de mudar os paradigmas
A questão está na forma de travar este crescimento e não fazer colapsar o sistema. O Ministro da Saúde, defendeu no dia 4 de Março, em Lisboa, “a realização de orçamentos plurianuais” para o sector, que apontou como uma medida “útil”. Estou de acordo. E disse ainda que, “o mais importante é a continuidade nas políticas. Os governos têm de se habituar a aproveitar o que nos governos anteriores fizeram e deixaram de boas políticas para os governos seguintes”. Muito bem.
Orçamentos plurianuais, anuência com políticas anteriores e defesa da continuidade na Saúde, perfeita sintonia com Belém, … Esta política irrita os partidos tradicionais e todos os que se escudam no dogmatismo partidário – não pretendem o melhor para o país, mas para o partido, apesar de apregoarem o contrário.
Se posso concluir alguma coisa das eleições francesas do passado domingo é que os candidatos que não são dos partidos habituais podem ganhar, sem que os partidos ou líderes populistas, antidemocratas e xenófobos, do tipo Podemos, Syriza ou até da Frente Nacional, tomem conta do poder. Já se percebeu que a democracia vacila com o estertor dos partidos tradicionais, avessos à mudança e reformas.
As pessoas querem mudança, porque estão fartas da política e dos políticos que as enganam. Querem melhorar a sua vida, para melhorar a sua Saúde.
A Saúde dos portugueses é um desígnio nacional de todos os políticos? Então coloquemos de lado toda a politiquice e façamos na Saúde, um pacto de regime, com os partidos que nos governaram até agora. Não é possível, dirão. Após as últimas eleições, ninguém acreditava ser possível outra espécie de pactos. Quanto ao PCP e ao BE apenas têm de decidir se querem estar ao lado dos portugueses e estar neste pacto ou criar instabilidade social. Uma nova geringonça para mudar o paradigma?
Se a Saúde é um desígnio nacional então sabemos que a única forma de controlar a despesa da Saúde e tratar bem os portugueses, é deixar que a Politica de Saúde demonstre que não é a arte de enganar os doentes e o cidadão.

A Saúde deve ser um dever obrigatório do cidadão
Barack Obama, depois de três meses de férias, iniciou uma nova fase da sua vida, em que pretende incentivar os jovens a envolverem-se na política. “A coisa mais importante que posso fazer é ajudar a preparar a próxima geração de líderes a assumir o controlo para tentar mudar o mundo”, declarou, numa conversa com jovens em Chicago. (5)
Não sou político, mas converso amiúde com um amigo que o é. E converso porque sei da sua honestidade e porque sei que tem uma visão para Portugal. E digo-lhe que é nos jovens de hoje que deve nascer o Portugal de amanhã.
Hoje é o dia 26 de Abril de 2017. Há 43 anos atrás, conquistou-se a liberdade, a liberdade de dizer hoje, basta, a quem quer controlar o país através da instabilidade politica, da instabilidade social e que se repete com argumentos que pretendem isolar Portugal da Europa e do mundo.
A Saúde deve ser um dever obrigatório do cidadão, porque é o que se tem de mais valioso.
Mas para isso, para termos Cuidados de Saúde Primários e Hospitais de qualidade, precisamos de políticos de qualidade que saibam de Saúde. E isso só se consegue com cidadãos eleitores com elevada consciência cívica, conhecedores dos programas e das políticas de Saúde partidárias, para poderem escolher o que melhor querem para si e para os seus. Precisamos de um cidadão capaz de exigir aos seus representantes, o cumprimento das promessas eleitorais. Obama percebeu que precisa de eleitores esclarecidos. E nós? Eu e o Luís, faremos a nossa parte neste blog.
Vá, continue a não se interessar pela Política de Saúde e vai ver que a Saúde não se vai interessar por si.

 


(1) http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/deputados-mudam-lei-do-tabaco-entidades-da-saude-lamentam-oportunidade-perdida
(2) Mike Smithson FASSA, PhD, Australian National University, College of Medicine, Biology and Environment. “Ignorance and uncertainty: Emerging paradigms”. New York, NY: Springer. (1989)
(3) Health care costs: A market-based view. 2008 McKinsey & Company. All rights reserved
(4) https://www.oecd.org/economy/public-spending-on-health-and-long-term-care.htm
(5) http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/barack-obama-esteve-de-ferias-tres-meses-agora-voltou-para-incentivar-jovens-a-se-envolverem-na-politica

One thought on “Política de Saúde, a arte de enganar os doentes

  1. Ana Marques da Silva diz:

    Valeu a noite em claro!
    Obrigada pela inquietude de tantas perguntas. Fica o desafio de querer encontrar as respostas, se não for por mais nada, pelo menos, pelo dever civico que a todos assiste!
    Obrigada pela reflexão, dá muito que pensar!
    Abraço

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