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Onde começa e onde acaba?

«’And so the gentleman’s dead, sir! Ah! The mores’ the pity!’ She didn’t even know his name. ‘But it’s what we must all come to. It’s as certain as being born, except that we can’t make our calculations as exact. Ah! Poor dear!’» (Mrs. Sarah Gamp, Martin Chuzzlewit, Charles Dickens).

A SAÚDE INSTANTÂNEA

Já muitas vezes me perguntaram a razão por ter escolhido a profissão de Enfermagem, com um esgar de empatia, como se eu estivesse arrependido ou em vias de me arrepender. Automaticamente, desembainham uma resposta forjada pela sociedade: “Não conseguiste ir para Medicina? Depois vais tentar ir? Se calhar, estudando um pouco mais, terias ido”. Habitualmente, não me vem à cabeça perguntar a alguém de gestão se não conseguiu ir para economia, ou a alguém de engenharia civil, se não conseguiu ir para arquitectura.

Na saúde, o fenómeno do “instantâneo” parece ser uma preferência da maioria das pessoas. Quando o “poder de curar”, que é imediato e bom, e que parece pertencer à medicina, se encontra ornamentado com o apoio político, o “poder de prevenir” e de “promover”, lento e melhor, mitiga-se sob o império tirânico daquele1.

Atrair as pessoas à “cura fácil” é uma forma estranha de sorver aos poucos o seu dinheiro. A verdade é que há quem se deixe enganar, porque a sociedade onde vivemos é alimentada por “momentos instantâneos”. A junk food permite saciar-me em minutos, sem perceber o quanto custa preparar uma refeição. Além disso, desvalorizo quem, em casa, se esforça para colocar as refeições à mesa. Não é verdade que num restaurante de fast food nem cinco minutos demora a eu ter a comida na mesa? E assim, aos poucos, se vai perdendo a noção de uma boa refeição, preparada com esmero. Veja-se que, as comidas tradicionais portuguesas são o “detesto” de muitos jovens. As redes sociais, outro exemplo, que de uma forma muito veloz, permitem construir uma personalidade qualquer. Numa questão de minutos, eu sou o “mais inteligente”, quando na realidade sou o “mais bronco”. A foto de perfil é por mim escolhida a dedo e representa uma pose e um “estar” que não coincide com aquele que eu apresento diariamente. Tudo isto, sem trabalho nenhum.

Na saúde, passa-se a mesma coisa. Já ninguém sabe o que é “prevenir a doença” ou “promovê-la”. Todo o santo dia se ouve alguém que tinha uma dor de cabeça e engoliu à pressa um ibuprofeno que tinha consigo. É preciso sublinhar que não há uma “saúde de bolso”, embora haja livros de estudo que aí caibam. Talvez aquela dor de cabeça tivesse mais a ver com as horas simultâneas ao computador, ao telemóvel e a ouvir música, mais do que com um processo inflamatório.

Pontos de Reflexão:

  • Talvez os enfermeiros não sejam valorizados, porque são mais mediadores da “prevenção” e da “promoção”, tidas em menos consideração, do que a “cura médica”, a ambrósia da saúde.
  • Além disso, nós, os enfermeiros, podemos estar a viver numa rede social hospitalar, onde procuramos ser o que realmente não somos. De facto, é mais cómodo ser o ajudante do médico.

PROFISSÃO DE HUMANISTA OU DE CIENTISTA?

Entrei para a escola de Enfermagem com pouco conhecimento da profissão e da saúde em Portugal. E, embora continue a saber pouco, reconheço que, como disse atrás, a nossa saúde, actualmente, é desejada como algo instantâneo. Por causa disto, e não somente porque nós aparentemente estudamos menos, o que também não é verdade, é que os enfermeiros são pouco valorizados. A partir do momento em que ninguém pretende prevenir ou promover, mas apenas tratar, tudo o que para aí caminhe, torna-se o mais importante.

Veja-se que tal como o papel da enfermeira como guardiã da instituição tem sido difícil de abandonar, também a função de auxiliar do médico permanece em franca expansão1. Nós, e refiro-me aos enfermeiros, temos o peso do social, que nos esmaga para dentro dos hospitais e aí limita a nossa actuação. Se não servimos para aquilo para o qual fomos concebidos, e relembro o papel de Florence Nightingale, então têm de inventar um papel para nós: o de subordinado da cura médica.

Vamos à história, à nossa, que ficou esquecida algures. Aliás, importa não deixar que sejam outros a contá-la, para que não nos possam manipular.

Florence Nightingale, como já tenho dito em vários outros textos, não deve ser relembrada por acenar a sorrisos nos corredores da Crimeia, mas sim por ter inovado com métodos estatísticos na saúde e por ter implementado medidas importantes de saúde pública.

Se assim é, valia a pena colocar um ponto final na divulgação, a meu ver absurda, de que nós somos muito “humanos”, muito “caridosos”, muito “amigos” e que estamos sempre perto das pessoas para aquilo que precisarem, mesmo que seja durante 24 horas. Mesmo quando os enfermeiros afirmam que passam 24 horas com os doentes, estão a afirmar que ser um ou vários, em sequências, é indiferente1. Nós não somos a ONU, nem usamos capacetes azuis e a vinculação a instituições religiosas deixou de ser uma característica da profissão.

Ponto de Reflexão:

  • Escusam de dizer que a Enfermagem é uma profissão feminina: nem eu a teria escolhido, nem o meu pai me teria deixado escolhê-la, se assim fosse. Além disso, a figura feminina não tem de ser sinónimo de “humanista”, nem antónimo de “cientista”.

A ACADEMIA EM ENFERMAGEM

O plano de estudos de uma escola de Enfermagem não deve privilegiar, pelo menos nos dias que correm, uma visão humanista da profissão, mas calculá-la numa perspectiva científica.

As escolas hão-de incentivar os estudantes a pensar na saúde, isto é, a colocar a enfermagem dentro do serviço nacional de saúde (SNS), mais do que fazê-los compreender somente a profissão de forma isolada. Se, por um lado, a solidão profissional já não existe em nenhum sector, por outro, a enfermagem, por ter “largado a chucha” muito tarde, tem de arranjar sentido no SNS, em relação com os outros profissionais.

Por outro lado, a questão da formação é um problema em aberto. O politécnico versus o universitário, os mestrados e os doutoramentos. Claro, a pergunta é: “Mas, também há mestrados e doutoramentos em enfermagem?! Para quê?!”; “Ah, então e vocês também têm especializações como os médicos?!”. Como os médicos, nós somos cientistas e praticamos uma ciência que, de facto, ainda não está bem definida. E, sim, o que praticamos é uma ciência e não uma religião! Mas, em Enfermagem, o que se presta são cuidados de saúde concretos e não somente “cuidados holísticos para aqui e holísticos para ali”, onde a pessoa é vista como um todo muito belo, e onde temos de cuidar do ser psicológico e social e emotivo e mais uma série de bonitas coisas.

 Pontos de Reflexão:

  • Não queiramos tirar trabalho a outros profissionais, que a taxa de emprego, embora em vias de crescimento, ainda é precária. Se focarmos a nossa profissão no holismo, o que quer que isto signifique, vinculamos a nossa prática a vários sentidos e nunca conseguiremos definir o que fazemos. Porque, vá lá, se tratamos do corpo, da mente, da sociedade, da psicologia, das emoções, dos avós e dos netos, e mais uma data de coisas, passamos a ser filantropistas.

O DESPOTISMO CRÓNICO

Tenho ideia, não por puro palpite, que todos os profissionais de saúde, menos os médicos, são os “broncos da aldeia”, fazendo “o que podem, enquanto podem”.

Felizmente, o paradigma da prestação de cuidados tem caminhado para um modelo multidisciplinar, embora se desvirtue muitas vezes no despotismo médico, que se vem prolongando desde há muito tempo.

Eu não sei, embora desconfie, porque é que isto é assim. Tenho para mim que os médicos, a quem tenho imenso respeito e a quem necessito de forma contínua, tanto para a minha saúde pessoal, como para a minha prática clínica, entendem a necessidade da multidisciplinaridade e até a promovem. Aliás, assisti e participei já em reuniões de equipa em hospitais, em que todos os profissionais tinham uma opinião e tudo era mais ou menos homogéneo, dentro das competências de cada um. Mas, a doença crónica do despotismo na saúde, parece-me ser um desvelo do Governo, que se acomodou a uma forma de gerir as coisas e tem medo de inovar, embora esta palavra (“inovar”), seja uma moda hoje em dia.

Pontos de Reflexão:

  • Não seria interessante colocar em cargos de gestão e de liderança de grandes instituições (por exemplo, hospitais), outros profissionais que não médicos? Porque não um enfermeiro a gerir uma instituição de saúde? Se soube gerir um serviço inteiro (camas, materiais e recursos humanos), se tem formação em gestão da saúde ou em administração hospitalar. O que o separa do que pode fazer um médico nesse campo? O estigma social?

TENDÊNCIAS MODERNAS EM ENFERMAGEM

Em 2006, o decreto-lei n.º 101/2006, cria a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, visando dar resposta ao progressivo envelhecimento da população, ao aumento da esperança média de vida e à crescente prevalência de pessoas com doenças crónicas incapacitantes2.

Nesta nova organização do SNS, teriam os enfermeiros uma oportunidade de se dar a conhecer como tal, e de procurar mais autonomia. A lógica organizacional teria de se virar para as necessidades das pessoas3, único recurso que tem valor e dá valor na saúde, e, assim, a enfermagem teria alguma coisa a dizer.

Mas, há cavalos de tróia na saúde: os hospitais. São mastodontes por fora, e impõem respeito por dentro. São as unidades com maior relevância no sistema de saúde, tanto do ponto de vista financeiro (representam mais de 50% da despesa em saúde), como do ponto de vista organizacional4. E, enquanto os hospitais forem o centro da prestação de cuidados, nada do resto fará sentido; a reforma dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) torna-se um mero capricho de alguns.

Para que alguma coisa mude, é preciso abandonar o modelo tradicional de cuidados de saúde, que assenta na prestação de cuidados episódicos (terapêuticos) na sequência de doenças agudas [que deixaram de ser as mais relevantes no contexto actual], sendo o doente remetido a um papel passivo4. Os doentes constituem o recurso mais desvalorizado do sistema de saúde se atentarmos ao facto de que, no que diz respeito às doenças crónicas, estes são os mais importantes prestadores de cuidados4.

E, portanto, repensar a prestação de cuidados, significa valorizar os doentes5, o que significa que os enfermeiros têm outra oportunidade de se dar a conhecer, e mostrar a autonomia que têm.

Pontos de Reflexão:

  • Os resultados (outcomes) mais interessantes na saúde, são os de um serviço e de um hospital, ou antes os que têm a ver com as pessoas5?

ESTUDAR PARA SER UMA SARAH GAMP?

«She was a fat old woman, this Mrs. Gamp (…) Having little neck (…) The face of Mrs. Gamp – the nose in particular – was somewhat red and swollen, and it was difficult to enjoy her society without becoming conscious of a smell of spirits. Like most persons who have attained to great eminence in their profession, she took to hers very kindly» (Mrs. Sarah Gamp, Martin Chuzzlewit, Charles Dickens).

A minha avó sempre me disse, que não tinha nenhum neto feio e eu fiz por não desconfiar disto. Não é que me tenha valido de alguma coisa no ensino secundário, por exemplo, porque sempre havia algum jovem que, de calças nos joelhos, com asneiras na boca e brincos nas orelhas, me passava à frente a qualquer momento. A verdade é que, agora, posso descartar a hipótese de ser, fisicamente, parecido com a enfermeira de Dickens. Dessa raridade, posso estar safo.

Por outro lado, se não contrariar um pouco o sistema, posso cair na armadilha de ser o tipo de enfermeiro que Dickens protagonizou em Sarah Gamp: bronco, brusco, frio, desleixado, insignificante, pobre, desconsiderado por todos. Sublinho: isto não são nomes que chamo aos enfermeiros, são nomes que o Governo chama aos enfermeiros, e que eu tive a gentileza de reproduzir e exagerar propositadamente.

Referências Bibliográficas

  1. D’Espiney, L (2008). Enfermagem: de velhos percursos a novos caminhos. Revista de Ciências da Educação, nº 6, 7-20.
  2. https://www.sns.gov.pt/sns/servico-nacional-de-saude/ (Último acesso a 16/03/2017).
  3. Branco, A. G; Ramos, V (2001). Cuidados de Saúde Primários em Portugal. Revista Portuguesa de Saúde Pública, Volume Temático “Cuidados de Saúde Primários”, nº 2, 5-12.
  4. Meneses de Almeida, L (2010). Os Serviços de Saúde Pública e o Sistema de Saúde. Revista Portuguesa de Saúde Pública, vol. n.º 28, n.º1, 79-92.
  5. Morais, L (2016). Editorial: Redefinição dos Cuidados de Saúde em Portugal. Revista Portuguesa de Saúde Pública, nº. 34, n.º 3, 197-198.

One thought on “Enfermeiro Tipo – Bronco, Brusco, Frio, Desleixado, …

  1. Jorge Gamito diz:

    Bom. Muito bom!
    Parabéns pela clareza e pela ironia.
    Jorge Gamito

    Gostar

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