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Onde começa e onde acaba?

Ela era uma simples mãe, uma médica de família da província. Estava no parque infantil, a empurrar o baloiço do seu filho de 2 anos. De repente um encapuçado surge do nada e esfaqueia a médica até à morte. Um horror presenciado por outras mães e pelas crianças que brincavam no parque aquela hora. Sem que ninguém o detivesse, o assassino afasta-se, da mesma forma como chegou, célere e incógnito.
Porquê falar de Paranóia, da Indústria Farmacêutica e do Natal, a propósito de um crime tão violento?

Porque os “eventos” estão relacionados, porque são decerto sinais dos tempos em que vivemos e uma antevisão das consequências que podemos ter, se nada for feito em contrário. Não, as consequências que falo não são assassinatos, mas um afastamento gradual e mais acentuado da Indústria Farmacêutica e do seu público.

A Paranóia
A Paranóia é uma série de 2016, original da Netflix. Sim, é nesta série que a médica é assassinada, nos primeiros minutos da temporada, composta por 8 episódios.
Um grupo de detectives de uma pacata cidade britânica, acaba envolvido numa estranha conspiração, enquanto procuram desvendar o crime. A investigação leva-os até uma cidade da Alemanha e começa a descobrir-se que por detrás da morte da médica, está uma indústria bilionária e muitos mais assassinos e mortes de inocentes.
Qual é a indústria referida? Fácil de adivinhar, é a Indústria Farmacêutica e os estudos clínicos que suportam um novo antipsicótico, do tal laboratório alemão. Este novo medicamento, tem um efeito secundário que leva alguns dos doentes que participaram voluntariamente nos estudos clínicos, a sofrer de paranóia. O problema complica-se quando um motorista do autocarro de uma escola da Alemanha, atira deliberadamente com o veículo por uma ravina e mata 12 crianças.

O Cristo Redentor
O ataque desferido na série à Indústria do medicamento, é feroz, directo e até cheio de simbologia. No átrio imaculado da companhia farmacêutica na Alemanha, está uma grande estátua do Cristo Redentor, em vidro transparente, repleta de cápsulas coloridas de vários medicamentos. Um dos detectives que investiga o caso, também ele sob efeito de um tratamento com antipsicóticos, num acto de paranóia momentânea, ataca a estátua e atira-a ao chão derrubando-a, partindo-a em pedaços e espalhando todo o conteúdo pelo chão.
Óbvio que os planos da câmara e a sequência de imagens captadas é sensacionalista e transmite o acto como se de uma libertação se tratasse. Quanto ao detective, depois de ter feito o que fez, volta à realidade e é preso.

Ficção? Argumento sensacionalista?
O referido ataque à Indústria Farmacêutica não se fica por aqui. Assistimos a uma “reunião” da Direcção e Administração do laboratório, onde o assunto dos estudos e dos crimes, bem como a alteração conveniente de alguns dados clínicos e dos resultados toxicológicos do motorista, é discutida de forma fria e tranquila.
O Director responsável pela segurança, ao que parece um ex-agente do FBI, contratou um grupo de ex-militares das Forças Especiais de alguns países do leste da Europa, com o objectivo de eliminar, doentes e investigadores do referido estudo clínico, que pudessem por a nu a verdade sobre o medicamento. É por isto que a referida médica é assassinada, porque estava a expor a falsidade dos dados e os crimes cometidos.
Isto é Ficção, é um argumento sensacionalista. E nem vou discutir.
Discuto antes a necessidade de recuperar a credibilidade, a boa reputação da Indústria Farmacêutica e saber o que a maioria das pessoas pensa sobre a mesma. São cada vez mais estas pessoas, o cidadão comum, que se posicionam como os novos clientes da Indústria, para além do médico e do Estado. Nada é feito em defesa da IF e pode perguntar-se porquê?

Natal sem Indústria Farmacêutica
Alguns dirão, entre dentes, que é melhor estar calado e não mexer neste assunto. Mas cada vez mais a reputação da IF entra pela casa das pessoas como se pode verificar com esta série televisiva, ou então com uma acção extraordinária e por mim escusada, do Bastonário da Ordem dos Médicos, que em comunicado do dia 30 de Novembro passado, exorta a “NATAIS SEM INDÚSTRIA FARMACÊUTICA”. (1)
O comunicado como lá está escrito “serve apenas como mera informação”. Então se sim, se é mera informação, havia necessidade? Será que a Ordem dos Médicos não tem canais próprios de comunicação com os seus médicos, sem que precise de vir a público com um assunto deste teor, quando os telhados de vidro abundam por todo o lado? Será que o próximo é “Fim de Ano sem Indústria Farmacêutica?”
Afinal o comunicado é uma mera informação, ou uma mera provocação? Parece que todos se querem afastar da Indústria maldita.

Porque se odeia a Indústria?
A má imagem do sector da Pharma e a razão das pessoas odiarem a indústria, foi alvo de mais um debate, desta feita a quando da 2016 Forbes Healthcare Summit, 30 Nov. e 1 Dec., e referido num artigo na Business Insider, a 1 de Dezembro, intitulado “Pharma CEOs got into a heated debate over why people hate the industry” (2).
O interessante é que mesmo nos EUA a relação entre as diferentes companhias é quente, “heated” parecendo difícil uma posição comum. Citando, “At the Forbes Healthcare Summit on Thursday, a group of big pharma and biotech CEOs were asked to contemplate why the industry isn’t liked — and things got tense”.
No artigo pode ler-se a necessidade de encontrar uma posição comum. “A shouting match erupted onstage until another member of the panel interjected, suggesting that drugmakers needed to have a unified message.
Como é relatado o debate aqueceu e a dada altura foi dito. “But the real reason we’re not liked, in my opinion, is because we as an industry have used price increases to cover up the gaps in innovation. That’s just a fact.”
No fim do debate a conclusão foi interessante, (como se não soubéssemos) mas que ajuda a explicar a vida difícil na Europa. “Toward the end, the two did see eye-to-eye on the idea that pharmaceutical companies don’t get the prices they deserve in Europe. Instead, people in the US end up paying a disproportionate price.”

Defendo a Indústria?
Acredito no Sistema Judicial português e se houver casos de policia com a IF, a justiça agirá, como aliás já aconteceu. No entanto constata-se que a IF leva “porrada” de todo o lado – Governo, Médicos, Farmacêuticos e partidos políticos, sendo a mal-amada, mas que é útil a todos.
Assistimos nos últimos tempos, a um aumento das restrições à actividade dos DIM, a uma maior comparticipação do “imposto” da IF e a manifestações anti-indústria como aquela da USF da Baixa.
A reputação anda pelas ruas da amargura e temo que a fobia à Indústria aumente, porque para determinados sectores, esta indústria bilionária deve ser atacada, a qualquer custo.
Defendo a Indústria? Defendo claramente um novo papel da IF em Portugal, como parceiro de todos os intervenientes do sector, de forma proactiva e interventiva no terreno, junto ao cidadão e aos profissionais de saúde.
A ideia, “Needed to have a unified message”, também não funciona em Portugal. É preciso fazer esta ideia funcionar.
Ok, mas isso é o que todos dizem. Dizem? E fazer? O quê?
Ao longo dos quase 12 meses de existência deste Blog temos falado deste tema e apresentado algumas ideias novas, que visam posicionar as companhias farmacêuticas com um novo papel no sector da Saúde.
Até agora na maioria das vezes, o vento leva as palavras, mas alguém vai ouvindo e querendo fazer diferente.
É preciso discutir, trocar ideias com pessoas fora das paredes do laboratório. Vamos continuar a defender a indústria, positiva e interveniente. O SNS precisa.

 

Referências
(1)
https://www.ordemdosmedicos.pt/?lop=conteudo&op=ed3d2c21991e3bef5e069713af9fa6ca&id=20546457187cf3d52ea86538403e47cc
(2)
http://www.businessinsider.com/pfizer-and-regeneron-ceos-on-drug-pricing-and-reputation-2016-12?pt=385758&ct=Sailthru_BI_Newsletters&mt=8&utm_source=Triggermail&utm_medium=email&utm_campaign=email_article

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