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Onde começa e onde acaba?

Lê-se em 6 minutos.

O ensino em Enfermagem, pode não ser uma coisa óbvia e, se calhar, nem sequer necessária. Esse, é o primeiro ponto. Depois, importa frisar que a história da Enfermagem, que muito tem a ver com o seu ensino, não pode ser confundida com a história do “cuidar”.

Provavelmente, mas admito que não tenho a certeza, se um menino a quem, como é costume, se lhe pergunta o que quer ser quando for grande, responder “enfermeiro”, os pais fiquem nervosos. Não tendo que reagir dessa forma, têm alguma razão: ou “o enfermeiro hoje em dia é um escravo”, ou “não ganha nada e trabalha muito”, ou “faz trabalho de voluntário”, ou “faz trabalho de limpezas, ou “para quê enfermeiro, quando há outras coisas?”, ou “mas porque não médico?”, ou “não faças isso, não desgraces a tua vida”, ou “há futuros mais sorridentes”.

O que se ouve por aí, são bocas verdadeiras, mas desencorajadas. Não que não tenham razão, mas também não têm solução. E eu, apontando agora mesmo para mim, estico o indicador contra o peito, descobrindo atrás de mim, uma fila de “quase-escravos”, “quase-limpa-rabos”, ou, o que é o mesmo, “quase-enfermeiros”.

Victor Hugo, quando em 1831, publica um romance, cuja personagem principal é um tal Quasimodo, não sabia que ia descrever uma possível classe profissional, a uma distância de léguas. Um tal corcunda, afastado da sociedade – o enfermeiro – e temido por “habitantes locais” – outros profissionais de saúde. Esse Quasimodo lamuriento – a Enfermagem – tocando a toda a hora os sinos da catedral de Notre Dame, chama a atenção e acaba por ficar surdo, por uma perseverança, que espera fazer frutificar com resultados benéficos – as greves. Mas, é um Quasimodo diferente. Queríamos aquele Quasimodo da Disney, honesto, sincero, carinhoso, enamorado. Aquela que podia ser a personagem principal do cuidado à pessoa, o enfermeiro, é um Quasimodo realmente rabugento.

Queria falar sobre aquele primeiro ponto – o problema da necessidade de formação para se exercer Enfermagem. Quer dizer, nem todos conferem ao enfermeiro a sua real importância, talvez mesmo nem eles próprios. A meu ver, porque deportam o significado da sua acção, para uma dimensão mais esotérica, do que realmente prática. Se é assim, para que é que se há-de tirar uma licenciatura de quatro anos e, para além de tudo, exigente? É preciso assim tantos anos para se ser enfermeiro, “a profissão muito bonita”, “a profissão muito humana”? Não exageremos, correcto?

Não que Florence Nightingale seja a Pedra de Roseta da Enfermagem, a quem recorremos para justificar tudo, mas, de facto, é uma figura que não pode ser ignorada. Para além de não poder ser desfigurada, tem de ser desmistificada; não é uma lenda, muito menos um mito greco-romano. Não é somente a “dama da lâmpada”, que vagueava, qual-fada-madrinha, pelos corredores cheios de moribundos. Isso, é o menos importante. Talvez por termos perpetuado uma visão “lamechas” da nossa profissão, é que agora poucos lhe reconhecem o valor.

A Enfermagem não tem de ser uma profissão bonita; aliás, não o é. Porque, se para se ser enfermeiro, é necessária apenas uma vocação, então, para quê os exames nacionais à entrada e para quê os exames durante o curso? Que venham directores espirituais, que avaliem se esta ou aquela pessoa tem ou não determinada vocação. Não seria mais simples? E, além disso, é preciso gostar-se muito de pessoas. Certo! Mas, isso é uma regra básica da convivência, com a qual seria possível viver-se. É preciso, de uma vez por todas, entender-se que a Enfermagem é uma profissão verdadeiramente científica e que o enfermeiro tem de ser rigoroso, metódico e que a sua prática é totalmente fundada em teoria científica “da boa”. E, repito, uma licenciatura em Enfermagem não é corroborada pela estética da profissão ou pela beleza das pessoas. O curso é um percurso científico, durante o qual o aluno aprende a pensar com rigor, em problemas reais, para os quais arranja soluções que devem ser práticas, de resolução puramente científica e não somente humanista.

Florence (1820-1910) que, já agora, nasce no dia 12 de Maio, no qual se celebra o Dia do Enfermeiro, era a filha de uma família rica que vivia em Florença (de onde lhe veio o nome). No entanto, a família era inglesa e, como boa nobreza britânica, oferecia aos filhos uma boa educação. Se possível, privada e no lar. Ora, Florence não foi excepção e aprendeu línguas, matemática, estatística, entre outras disciplinas.

Bom, essa enfermagem, a primeira Enfermagem profissional (a “propriamente dita”) foi pioneira em aplicar métodos estatísticos na área da saúde. Nasceu não num banho-maria de partos e abraços emocionantes, mas fundou-se na saúde pública. Resolveu, além disso, por ideia de Florence, um problema gravíssimo, que voltou agora mesmo: as infecções. Florence teve a ideia brilhante de procurar a causa das doenças fora do corpo das pessoas. Tudo bem, há o Hipócrates e os seus humores, há os Egípcios e os Romanos e os seus espíritos imundos. Tudo isso foi muito bom e apontava para o exterior que um deus do Olimpo fez. Mas, Florence apontou para o que o homem fazia. Aí, está a enfermagem: ajudar a pessoa a perceber o que faz mal, e o que pode fazer melhor. Mas, não só a pessoa, mas um grupo de pessoas (uma comunidade) e um grupo de comunidades (toda a sociedade). E isto deve aprender-se nas escolas de Enfermagem.

De alguma forma, o que Florence fez foi profissionalizar a prática de cuidados informais e torná-los claramente formais; assumidos como necessários e importantes para uma sociedade.

Quem olha para os planos curriculares das escolas, compreende que têm de abranger uma vasta gama de áreas distintas: desde as disciplinas médicas de anatomia, fisiologia, patologia e microbiologia, também a farmacologia. Ainda, as disciplinas sociais e humanas de antropologia e sociologia e psicologia. Depois, saúde pública e investigação, métodos estatísticos e desenvolvimento de projectos. Por fim, mais claramente na área da ciência de Enfermagem propriamente dita, há a relação e comunicação, as técnicas e procedimentos de Enfermagem, e cuidados de enfermagem gerais e a grupos vulneráveis. Esta abrangência é reconhecida pela flexibilidade da actuação do enfermeiro: não que saiba pouco de muito, mas sabe o suficiente de muitas coisas, para enriquecer uma só actuação. Além disso, a licenciatura tem de permitir o aluno “abrir o leque” e fazê-lo reflectir que o enfermeiro não actua só numa enfermaria, com um carro de medicação na mão, nem que actua apenas no centro de saúde, atrás de uma secretária ou numa sala de tratamentos. É precioso que, na licenciatura, se estimule o aluno a ver o enfermeiro como um profissional capaz de influenciar políticas públicas de saúde, levando-o a arranjar soluções não só para a profissão, mas para a saúde do País.

Agora, sobre a história, é sabido que a Enfermagem se profissionalizou na mesma altura em que a medicina se especializou – por volta da década de 30/40. Este dado não pode ser desprezado. Claro, porque com isto, pode perceber-se de que forma a Enfermagem é uma ciência tão recente. Repare-se que, até 1991-92, não havia investigação em história de Enfermagem, quando é precisamente na sua história, que encontramos o seu valor. Ouvi, numa conferência, uma enfermeira e professora dizer: “a história precisa do factor «impacto» e, por isso, precisa do tempo”.

De facto, a Enfermagem é muito recente, e ainda mais o seu ensino. Por exemplo, através de uma pesquisa simples em bases de dados, concluímos que até 2015 só existiam 10 teses de doutoramento, sendo que 8 foram feitas por enfermeiros. E o doutoramento só foi criado por volta do ano de 2004.

A razão de um mestrado ou de um doutoramento, vamos adiá-la para outro artigo. Mas, já que relembrámos o escritor Victor Hugo, podemos ir buscar outra obra sua – Os Miseráveis, de 1862 – e tentar perceber que, se calhar, também estava a descrever, com este título, uma classe profissional em risco. Se a Enfermagem não tivesse um mestrado e um doutoramento, então seria realmente miserável.

De facto, aquele menino, que responde que quer ser enfermeiro, parece tornar-se um Quasimodo; alguém que falhou no seu percurso, corcunda, pobre, coitadinho. E, já agora, porquê?

Por tudo aquilo que já dissemos, mas também porque a licenciatura em Enfermagem, uma das principais na área da saúde, tem sido estrangulada por duas mãos diferentes: a esquerda, que dá tudo (o que há de pior) a todos e que, quando já não pode dar mais (do pior que tem), decide tirar o que deu e dizer que não era bom. No fundo, é distribuir todas as “moedas pretas” pelo SNS, não discriminando as classes, mas, depois, quando já não pode mais, tira essas muitas moedas e dá-as à classe mais rentável. Depois, a direita, que, demasiado precavida e hesitante, mói algum trigo e dá só do que moeu, guardando celeiros enormes nos seus quintais. Medo de um futuro que não conhece, receosa de tempos que podem vir a ser maus, destrói o presente em detrimento desse futuro. Ou seja, parece ser melhor apostar na classe que todos gostam, e dar-lhe os nossos celeiros, conservando a nossa popularidade, do que tentar apostar noutras que podiam ser úteis, mas que não sabemos se realmente o vão ser.

Então, que responder a esse rapaz que ainda assim, quer ser enfermeiro? Que, aos olhos de muitos, prevê cair na desgraça “quasimódica”? A resposta que eu daria, antes de mais, seria uma salva de palmas: queres ser parte da solução! Se queres realmente ser um dos que poderá mudar o SNS para melhor (porque, parece que, actualmente, para alguns, mudá-lo para pior é bom), então a Enfermagem pode ser um caminho para ti. Podes não receber grandes salários, mas até podias receber em géneros!, e podes não receber uma vénia cada vez que entres numa sala, mas, enquanto enfermeiro, podes resgatar o SNS, a Esmeralda que todos desejamos. Talvez esse Quasimodo que salvou a cigana no filme da Disney, ainda esteja entre nós. Mas, é preciso compreender que é ele uma parte da solução.

Então, caro futuro enfermeiro, não podemos ser um Jean Valjean de Victor Hugo, que morreu à procura da liberdade. Vamos usufruir da liberdade que o curso nos dá, e valorizar a profissão perante o SNS, os outros profissionais e as pessoas.

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