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Onde começa e onde acaba?

Lê-se em 5 minutos

 

China. 500 a.C.

Um experiente general, de seu nome Sun Tzu, ao serviço do seu rei, no fim de mais uma batalha ganha, olha para o seu exército, provavelmente muito semelhante ao que podemos observar pelos exemplares de terracota que hoje admiramos e começa a escrever um livro que mudaria a forma como ainda hoje olhamos para a guerra. Não seria fácil a escrita em papiro, mas a sua vontade e resiliência, permitiu que a sua sabedoria e experiência se tornassem no seu maior legado que viria a tornar-se uma fonte de inspiração para militares e imagine-se para milhares de pessoas e empresas que veem nesta obra uma fonte de ensinamentos de estratégia para a guerra, seja ela militar ou comercial.

Por exemplo, a sua leitura tornou-se obrigatória para os militares chineses para passar nos exames necessários para nomeação imperial a posições militares e mais recentemente, nos Estados Unidos, após a guerra Vietnam, todos os oficiais eram obrigados a fazer uma apresentação sobre esta obra (in Wikipédia).

Mas o que tem afinal “A Arte da Guerra”(1) de tão importante e que levou já milhões de pessoas a lê-lo e a seguir os seus ensinamentos?

A resposta está na própria capa do livro: “Mais de 2.000 anos de estratégia aplicados à empresa”.

Estratégia é sem dúvida a palavra-chave.

Sun Tzu, no seu tratado sobre estratégia militar, enumera os 5 factores fundamentais na guerra:

  1. Influência moral – “… aquilo que provoca a harmonia entre o povo e os seus dirigentes, tornando-o capaz de o levar a segui-los…”
  2. Meteorologia
  3. Terreno
  4. Comando – “…atributos do general…”
  5. Doutrina – “organização, controlo, atribuição correcta dos postos de comando…”

Estes 5 factores são fundamentais para qualquer general que quer ganhar uma guerra, isto é, para qualquer líder que quer levar a sua equipa a atingir os seus objectivos.

Adaptando estes conceitos a uma empresa, podemos pensar que um objectivo só se atinge com uma boa liderança (“Comando” e “Influência moral”), com um bom conhecimento do “Terreno” onde actuamos e com uma boa estratégia (“Doutrina”), não esquecendo que há factores externos (“Meteorologia”) que muitas vezes condicionam ou potenciam a performance.

Mas poderão estes conceitos também ser aplicados na saúde?

Certo dia, numa reunião que tive a propósito da implementação de um projecto num ACES (Agrupamento de Centros de Saúde), lancei a seguinte questão ao seu Conselho Clínico (desafio igualmente o leitor a fazer uma pequena pausa e pensar na resposta): imaginem que são uma tropa de elite e querem levar um grupo de pessoas de um local A para um local B. Como o fariam?

Não é afinal o que todos os dias um ACES ou qualquer outra instituição de saúde faz? Transportar os seus utentes de um estado de saúde para outro, prevenindo ou tratando doenças?

Após breves instantes, ouvi várias respostas/ soluções, umas mais complexas do que outras, mas a que gerou mais unanimidade foi o transporte aéreo com recurso a um helicóptero.

Quando já todos acordavam que esta seria sem dúvida a hipótese mais acertada e eficaz, transmiti que o local onde as pessoas estavam não podia ser sobrevoado, pois tratava-se de um desfiladeiro, onde nem um helicóptero conseguia aceder. Por outro lado, o grupo era constituído por 50 pessoas de várias idades, desde crianças a idosos e que apenas tinham de atravessar um pequeno rio…

Naturalmente as soluções tornaram-se diferentes com estes novos dados, mas a questão estava exactamente aí, pois o foco de quem respondeu estava na procura da solução, esquecendo toda a envolvente que a determina. Ninguém procurou em primeiro lugar, conhecer o grupo de pessoas a transportar, nem o caminho a percorrer, não havendo por isso um conhecimento do terreno e uma definição de uma estratégia que posteriormente levaria à implementação de acções específicas.

Esta situação repete-se diariamente com todas as pessoas, em todas as empresas, em todas as unidades de saúde. Todos se concentram na implementação de acções, muitas vezes avulsas, sem primeiro definir um caminho e uma estratégia.

Mais do que a solução (que naturalmente não existe) para este caso, o que interessa reter deste pequeno exercício é que, tal como na situação descrita, na vida real, as pessoas automaticamente pensam em soluções com base no cenário que imaginam e na experiência e vivência que têm.

A tendência das pessoas é automaticamente focar-se nas soluções (o que é positivo), mas esquecendo-se que isso tem de obedecer a uma estratégia definida com base num ponto de partida e num ponto de chegada.

Em qualquer projecto deveremos sempre conhecer onde estamos, definir para onde queremos ir, para que depois se possa desenvolver um caminho a percorrer que conta com a definição de uma estratégia e de acções a implementar.

De uma forma simples, este racional pode traduzir-se no seguinte diagrama:

 imagem1

Neste esquema faltam naturalmente outras etapas como a monitorização e a avaliação, mas o que importa realçar é que qualquer acção pensada e implementada tem de estar alinhada com a estratégia definida, sob pena de ser uma acção avulsa que nada acrescentará.

Fazendo a análise ao desafio lançado ao ACES, verificamos que não houve definição do “Ponto de partida”, desconhecendo-se por isso a dimensão e as características do grupo a transportar. Ora é diferente transportar 5 ou 50 pessoas, activas ou sem mobilidade…

Também não se definiu o “Ponto de Chegada”, pois também não sabíamos de onde partíamos e provavelmente nem todos iriam para o mesmo sítio. Por isso, não se definiu um “Caminho”, isto é, uma estratégia e a acção proposta não serviu o objectivo traçado.

Esta realidade é diária em todo o lado.

Na saúde, quantas acções são implementadas sem se pensar na estratégia que as suportam, sem definir um caminho a percorrer, sem conhecer o ponto de partida e o ponto de chegada?

Um bom exemplo são os inúmeros rastreios que se realizam nas unidades de saúde, nas farmácias, nos centros comerciais ou até na praia. Certamente, já se questionou porque é que existem tantos rastreios? Naturalmente, porque se pretendem identificar novos doentes ou doentes não controlados.

A diabetes, de acordo com o Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes – Edição de 2015(2), apresenta uma prevalência de 13,1%, sendo que apenas 7,4% está diagnosticada, faltando por isso 5,7% por diagnosticar.

Mas será o rastreio a melhor forma de chegar a esses doentes?

Quem são esses doentes? Onde estão?

Quando as USF têm taxas de utilização de consultas médicas a 3 anos superiores a 80% ou 90%, como muitas delas têm, então muito provavelmente os diabéticos em falta não são utilizadores da unidade. Fará então sentido fazer um rastreio na USF?

Mais uma vez, começa-se pelo fim, pelas soluções. Um rastreio pode fazer sentido em determinadas situações, mas no caso relatado, onde os diabéticos da unidade de saúde estão identificados, será que o rastreio na unidade é a melhor solução? Tendencialmente vão ser rastreados os doentes já identificados.

O foco nas acções é normal, mas é como se estivéssemos a olhar para uma árvore em vez de olharmos para a floresta. A tendência natural de quem gere um projecto é procurar soluções imediatas para determinado problema, mas na minha opinião, gerir (um projecto) é muito mais um processo de transformação de informação em conhecimento e de decidir qual o caminho a seguir, do que implementar acções. Por isso, a gestão é muito mais um processo de decisão do que de implementação!

Gerir é mais estratégia do que acção!

Gerir uma equipa, um produto, um projecto, uma empresa, uma população ou uma doença, deve obedecer aos pontos-chave referidos: só depois de definir o ponto de partida e o ponto de chegada podemos então pensar no caminho, isto é, na estratégia a seguir e nas acções a implementar.

Em “A Arte da Guerra”(1), Sun Tzu afirma: “conhece o teu inimigo e conhece-te a ti mesmo e nunca porás a vitória em dúvida. Conhece o terreno, conhece o tempo, e a tua vitória será total.”

Apesar dos mais de 2.000 anos de distância, o ensinamento continua a ser o mesmo: o fundamental é conhecer o ponto de partida, o ponto de chegada e o caminho (terreno).

Imagine-se como Director de uma Unidade de Saúde que tem uma população de 200.000 pessoas. Agora pense como as transporta de um ponto A para um ponto B.

Será que conhece a população que tem?

Que ganhos em saúde quer obter?

Que estratégia vai adoptar?

Que acções vai implementar?

E por favor, não comece pelo fim…

  1. A Arte da Guerra, Sun Tzu – Publicações Europa-América, ISBN 972-1-03728-1
  2. http://www.spd.pt/index.php/observatrio-mainmenu-330

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