Market Access Portugal

Onde começa e onde acaba?

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Não me admiro se for vilipendiado só pela blasfémia de dizer que o SNS é uma Torre de Babel; ou que haja gente a perguntar-se, “quem é este gajo para estar aqui a escrever isto”. Não pensem no contexto bíblico da referida torre, mas no que quer dizer. Babel significa confusão em hebraico e claramente a alusão a este monumento pressupõe a existência de uma dificuldade de compreensão, onde todos falam, mas ninguém se entende, porque de repente todos falam dialectos diferentes.
Ousar dizer isto do SNS, nesta altura? Mas porquê Babel?

Torre_de_Babel

Quando fazemos referência à cidade bíblica, falamos de comunicação. A construção de uma torre que tocasse o céu, pode ser interpretada como algo grande, nunca antes feito. Mas como todos sabem, nunca foi conseguido porque de repente todos começaram a falar línguas diferentes e não foram capazes de por em prática os planos da Torre, porque não se entendiam.
O SNS em Portugal é algo de grande, nunca antes feito, mas tem problemas mais ou menos conhecidos. E nisso todos estamos de acordo.
Erigir um SNS não é tarefa fácil e para além da gestão dos dinheiros, exige informação de qualidade, um bom plano e uma boa comunicação entre todos os que o constroem, dia após dia. Mas estamos a falar somente dos políticos de saúde e dos profissionais que lidam com os doentes? Não, estamos a falar de todos os portugueses, com responsabilidade na sua saúde. Um cidadão comum pode e deve participar. A Cidadania em Saúde emerge, em 1978, da Declaração de Alma-Ata como “o direito e dever das populações em participar individual e colectivamente no planeamento e prestação dos cuidados de saúde” (Alma-Ata, 1978).
A Saúde é algo de complexo e não é fácil entender o que se passa neste sector. Transparência, palavra muito actual, exige responsabilidade, informação, conhecimento e para além do saber fazer, saber ouvir, ideias de outros e até críticas construtivas.

Portugal tem um Plano Nacional de Saúde, PNS, com extensão até 2020.  Todas as unidades de Saúde em Portugal, ARS’s, ULS’s, ACES’s, USF’s, UCSP’s e UCC, devem reflectir sobre essa orientação e desenhar um plano regional/local que retrate a realidade dos utentes da sua zona e desta forma ter um documento orientador e dinâmico.
É lícito haver um modelo base, igual para todos e que possa ir sendo agregado numa lógica coincidente com o fluxo de informação, do cidadão, doente ou não, que advém das USF/UCSP, passando pelo agregado de todas as unidades no ACES e que culmina com o agregado de todos os ACES, na ARS.

Onde começa tudo?
A experiência de marketing acumulada ao longo de muitos anos e de muitos planos, permite rapidamente perceber que se deve olhar para esta questão com outros olhos, ou melhor ainda, utilizar uma metodologia que permita conhecer muito bem a envolvente.
Tudo começa nos números, o ponto de partida que retrata e caracteriza a saúde dos portugueses. O PNS não apresenta esses números, ou seja, fica-se sem saber o ponto de partida e porque se pretende ir numa determinada direcção. Dirão que o PNS não é o plano para esses números serem apresentados. Talvez.
Então, numa perspectiva de marketing e para poder ficar mais elucidado sobre a Saúde em Portugal, o seu estado actual, os seus pontos fortes e fracos e perspectivas de futuro, onde procurar então? Nas ARS’s? Comecemos então por aí.

Segundo a ARS Norte, o “Plano Regional de Saúde do Norte 2014-216 (PRSN) foi elaborado com a finalidade de constituir um instrumento capaz de traduzir, para um período de tempo determinado, o processo dinâmico, contínuo e participativo que constitui o Planeamento em Saúde.
O PRSN identifica e hierarquiza as necessidades de saúde da população da região Norte; efectua a avaliação prognóstica das mesmas necessidades; propõe estratégias de intervenção dirigidas às necessidades identificadas; define objectivos de saúde da população; faz recomendações quanto à sua implementação pelos diversos actores envolvidos, dentro e fora do sector da saúde.
Acentua-se que, implementar o PRSN, deverá significar que todos e cada um dos diferentes sectores identifiquem e/ou desenvolvam em conjunto com o sector da saúde estratégias com impacto potencial na satisfação das principais necessidades de saúde da população.”

Ler esta introdução faz-me pensar que não podia estar mais de acordo. Sei que existem nas ARS, técnicos e profissionais de elevada competência e que nada do que possa escrever aqui pode por em causa essa competência e dedicação. Apenas reflecte o que, um cidadão com outra experiência profissional pode fazer, ou o que sente falta para compreender as questões da saúde. O meu obrigado por tudo o que fazem com o objectivo de melhorar a prestação de cuidados e a saúde dos seus congéneres.

Fiz o “download” do PRSN e parto para outra. Escrevo ARS Centro e entro no site.  Para meu espanto é uma página totalmente diferente, com organização e uma linguagem comunicacional muito diferente da ARS do Norte.
Homessa! Então não estamos no mesmo serviço público, tutelado pelo mesmo ministério? Os sites das ARS não deveriam ser iguais, ter a mesma estrutura e a mesma informação, para facilitar a consulta, numa lógica de transparência?
Uma visita rápida à ARS Lisboa e Vale do Tejo, LVT, à do Alentejo e à do Algarve, confirma que tudo é diferente, parecendo até que não estamos no mesmo país e no mesmo SNS.
Fico na dúvida. Num dos sites até é necessário, como requisitos mínimos, o Internet Explorer 10, ou o Chrome 35, o FireFox 30 ou o Safari 5.1.7. Será que as USF’s e UCSP’s conseguem aceder?

Diapositivo1

Não, dirão alguns, os portais das ARS’s não têm de ser iguais, porque é preciso dar espaço à criatividade e à iniciativa de cada equipa.
Não estou nada de acordo com isso. É preciso não esquecer que há regras básicas para uma marca, como é o SNS ou uma ARS; é preciso não esquecer que há princípios de comunicação e imagem que devem ser respeitados e que não o são, nos 5 portais visitados.

Foquemo-nos no entanto, no cidadão e na comunicação que cada ARS deve fazer, como organismo público e que está bem patente na introdução ao plano regional, que lemos na ARS Norte.
Ao aceder aos 5 portais, apercebemo-nos que o conteúdo e a forma como se comunica é diferente de ARS para ARS. Verifica-se também que a estrutura não é a mesma, não constam as mesmas informações, nem os mesmos documentos oficiais.  Basta ver que o directório de cada portal, não é igual, o que não se compreende.
Isto poderá ser baseado na “lei” de Harry S. Truman, a que diz “Se você não pode convencê-los, confunda-os”, ou então faça com que andem perdidos, utilizando uma linguagem e códigos que não compreendem, para entre outras coisas, não poder haver comparações entre ARS’s. Mas é esse o objectivo?

Parece que entramos na Torre de Babel do nosso SNS. Parece que as ARS’s não falam todas a mesma língua, que ninguém as percebe e que ninguém está interessado no que dizem.
Na demanda dos planos regionais, encontraram-se verdadeiros labirintos nos sites, diferenças de forma e conteúdo, de andar para andar da Torre, ou seja, de ARS para ARS.
Acedendo aos vários “andares da Torre”, baixei todos os ficheiros dos planos, como se diz em português. Bom, todos não porque no andar da ARS do Alentejo está um aviso onde se lê, numa língua perceptível, que o Plano Regional de Saúde, está em fase de construção, perdão de discussão.
Ainda? Eu sei que a equipa entrou mais tarde e que decerto encontrou muitos problemas mais urgentes para resolver. Mas isto dos planos não é para todos, no mesmo período e ao mesmo tempo?

Mas a esperança que os planos não fossem dignos da Torre de Babel, desfez-se num instante. Bem, na verdade não são 4 planos, mas apenas 3, porque o plano regional do Algarve, não tem sequer um índice e é apenas a transposição dos indicadores dos 3 ACES da região.
Curioso que na ARS Norte temos o período de 2014 a 2016, no Centro, 2015 a 2016, na LVT, 2013 a 2016 e na do Algarve, Novembro de 2015. Como adjectivar isto?
Sabemos que quantidade não é sinónimo de nada, a não ser da própria quantidade, mas o plano do Norte tem 81 páginas, do Centro apresenta 66 páginas, o de LVT, 38 páginas e o do Algarve, 19 páginas. Que nos diz disto?
Vamos começar a ler. Comecemos pelo índice.

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Nada é igual. Verdade que o plano do Norte e do Centro parecem ter um índice semelhante, mas depois o conteúdo é um pouco diferente. O plano da LVT, é uma clara variação e em nada é similar à “linha editorial” dos anteriores. Não há índice no Alentejo e no Algarve.

Quem são os clientes de um Plano Regional destes? Porque não vemos, nestes planos, referências aos Hospitais, aos ACES, USF´s e UCSP’s e outras unidades? Não são estes o seu público principal e os cidadãos que a eles recorrem?
A ideia de um plano de uma ARS, na nossa opinião é que englobe o somatório das suas unidades, em particular os Hospitais e os ACES e nos diga como está a região, Hospital a Hospital e ACES a ACES. Deve haver dados que permitam comparar a prestação de cada Hospital e de cada ACES e, fundamental, comparar a ARS com as outras ARS’s, versus o total de Portugal. Não vale a pena falar de transparência e objectividade sem haver esta possibilidade.
Precisamos de perceber o que caracteriza cada ARS, com dados comparáveis, para entendermos por exemplo, qual a carga de doença de cada uma e o que é necessário para lidar com ela. Elaborar um plano regional sem esta informação é como circular de noite, numa estrada de montanha, sem faróis e em noite de lua nova.

A ideia deste post não é analisar e avaliar cada Plano Regional, nem tecer considerações sobre eles. Apenas queremos olhar para o fluxo da informação, para a forma como ela é trabalhada e comunicada. Afastem a ideia que o objectivo é criticar quem fez estes planos.

O plano da ARS do Norte é o que disponibiliza mais informação e de forma mais organizada. No entanto, não querendo dar uma explicação ou perceber qual o erro cometido, observem a informação disponibilizada na página 30 e na página 33, como exemplo de uma linguagem que pode ser melhorada para todos poderem descodificar.

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Estes quadros dizem-nos quais a patologias mais frequentes, mas têm exactamente a mesma legenda e a mesma fonte de informação, mostrando, no entanto, “escalas de valores” diferentes e informação distinta, apesar da legenda. Conseguimos perceber que um diz respeito a Morbilidade e outro a Determinantes de Saúde, mas quanto à diferença dos números, não está explícito.

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Na ARS Centro, encontramos os mesmos quadros, mas com uma linguagem diferente, uma legenda diferente e numa ordem diferente. Pode ler-se o que se escreveu acerca dos mesmos. Fomos procurar nas outras ARS’s, mas a procura foi em vão. Não constam quadros destes ou análises destas.

Como curiosidade, mostra-se duas tabelas sobre a metodologia de contratualização de 2015, semelhante à usada para 2016. Nestas tabelas, percebemos o número absoluto, (em vez das percentagens que surgem nos Planos Regionais), dos problemas de saúde mais frequentes, bem como a sua evolução ao longo dos últimos anos. Percebemos melhor os quadros anteriores dos planos das ARS e obviamente conseguimos destapar um pouco o véu sobre a realidade nacional, mas continuamos a não ter a da ARS.

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Mas isto dos Planos Regionais importa ou interessa para alguma coisa? Alguém os lê? Interessa mesmo ter Planos que sejam o resultado de uma evolução dos Planos dos ACES’s e por sua vez, derivam do planeamento das USF e UCSP’s?
Haverá quem não queira planear, comparar e auditar a prestação das unidades, corrigir desvios através de boas práticas, transparentes e mensuráveis?
Para quando uma cultura real de ganhos em saúde, ao nível dos ACES’s e das USF´s?

A verdade é que não existe uma cultura de planeamento nos CSP e em particular nos ACES. As ARS´s, os ACES´s, as USF´s e as UCSP’s, não falam a mesma linguagem, nem estão orientados para o mesmo objectivo, apesar de tudo o que se diz sobre isso. Basta ouvir os comentários à contratualização, externa e interna, muito sob o desígnio da imposição.
Há planos nacionais, regionais e locais, mas não são a bíblia de actuação, porque essa cultura de planeamento, execução e controlo, parece não existir no SNS. Não há autonomia nem responsabilização, logo os planos são meramente um exercício teórico, parecendo que não servem para nada, nem para inglês ver.
Precisamos de planos reais, actualizados e capazes de reflectir toda a realidade do SNS e em particular dos CSP, por onde a maioria dos portugueses começa a sua condição de doente. Mas é preciso saber que nunca teremos nada de novo e útil se continuarmos a fazer as mesmas coisas que fizemos até aqui.

Falta Marketing à Saúde e ao SNS. Subjacente à filosofia de Marketing está exactamente, o fazer o melhor, o mais rentável, de uma forma transparente e perfeitamente controlável. Acima de tudo, faze-lo numa só linguagem para que todos percebam, num primado da boa comunicação, nos dois sentidos.
Uma pequena nota sobre esta questão da comunicação. No dia 1 de Fevereiro foi lançado o Portal do SNS o primeiro passo para que todos possam compreender, de forma clara e objectiva, a linguagem da saúde em Portugal. É um começo muito importante, mas ainda há muito para fazer.

Aqui no marketaccessportugal.com, queremos ajudar. Prometemos continuar a fazer a nossa parte, avaliando e sugerindo mudanças, para construir uma saúde melhor em Portugal.

 

para consulta

Alentejo

http://www.arsalentejo.min-saude.pt/arsalentejo/novidades/Paginas/PlanoRegionalSaude.aspx

LVT

http://www.arslvt.min-saude.pt/pages/431

http://www.arslvt.min-saude.pt/uploads/writer_file/document/287/ARSLVT_-_PLANO_REGIONAL_DE_SA_DE_2013-2016__rev._09_junho_.pdf

Algarve

http://www.arsalgarve.min-saude.pt/portal/?q=node/4748

http://www.arsalgarve.min-saude.pt/portal/sites/default/files//images/centrodocs/Observatorio_regional_Saude/Resenha_PRS-PLS_PeRS-PeLS_Algarve_2015_DGS.pdf

Norte

http://portal.arsnorte.min-saude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Sa%C3%BAde%20P%C3%BAblica/Planeamento%20em%20Sa%C3%BAde/PRSN%202014-2016

http://portal.arsnorte.min-saude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Conte%C3%BAdos/Sa%C3%BAde%20P%C3%BAblica%20Conteudos/PlanoRegionalSaudeNorte_2014_2016.pdf

Centro

http://www.arscentro.min-saude.pt/Institucional/Documents/monitoriza%C3%A7%C3%A3o%20e%20avalia%C3%A7%C3%A3o/Plano%20Regional%20Saude%20ARS%20Centro%202015-2016.pdf

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