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Onde começa e onde acaba?

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Claro. Tem mesmo de ser. Um grande Có, Có para os Ganhos em Saúde. E todos devemos estar de acordo porque esta deve ser a bitola que nos deve orientar daqui para a frente.

Decerto que as vossas sinapses estão a iluminar-se com a associação do Có Có, aos Ganhos em Saúde.

Tudo isto aconteceu porque recebi de um dos mais prestigiados Directores Executivos que conheço em Portugal, um convite para ir fazer uma intervenção na reunião do seu ACES. Honrou-me pela simplicidade e deixou-me a responsabilidade de falar para os Coordenadores das USF’s, das UCSP e para os membros dos Conselhos Técnicos das respectivas unidades.

O tema era simples – a visão de um cidadão, consultor de saúde, sobre o ACES em que trabalham mais de 100 profissionais e serve uma população acima dos 150.000 portugueses. Desliguei o telefone e fique a pensar no que me foi pedido.

 

Apesar de ter já algumas horas, acumuladas durante muitos anos a comunicar para pequenas ou grandes plateias, entro sempre em pânico quando tenho de o fazer. Surge sempre aquele medo que falhe alguma coisa ou mesmo que eu não consiga cativar ou enlear a assembleia na mensagem que quero passar.  Tremo com a ideia que no fim nada reste nas cabeças e eu não passe mais de um energúmeno que ali foi debitar uma “ciência”, que eventualmente não pratica.

 

Falar de números e apresentar a realidade do ACES, seria mais do mesmo, pelo que me imbuí de uma coragem específica, para abordar sumariamente os Ganhos em Saúde, sem ser especialista em Bioestatística, mas estando habituado a lidar com a informação disponível sobre o tema.

 

Mas faz algum sentido falar de ganhos em Saúde a um nível tão “pequeno” como um ACES? Lembro-me que esta tem sido uma discussão entre o nosso grupo, em que acreditamos nas diferenças de região para região. A propósito disso, Paula Santana conclui que “Apesar dos ganhos em saúde observados ao longo das ultimas décadas, em 2003-2005 continuam a observar-se diferenças entre as Regiões. Genericamente, verifica-se que as Regiões de Lisboa e Vale do Tejo, Algarve e Alentejo possuem valores significativamente mais elevados quando comparados com os das outras Regiões, sendo “áreas de sinal de alerta” para o conjunto de todas as causas de morte “evitáveis”. *1

 

Óbvio que a coragem estava também escudada e assente no actual Plano Nacional de Saúde, que defende que o objectivo para o Sistema de Saúde é Obter Ganhos em Saúde

“Maximizar os ganhos em saúde através do alinhamento e da integração de esforços sustentados de todos os sectores da sociedade e da utilização de estratégias assentes na cidadania, na equidade e no acesso, na qualidade e nas políticas saudáveis”.

Esta visão é uma direcção em que todos são convidados a reconhecerem-se.

http://pns.dgs.pt/pns-versao-resumo/

 

Bom, sou um cidadão e aceito o convite do PNS.  E decidi começar a minha intervenção com uma pequena história sobre o tema, passada no ano de 1990.

Blog MAP P73

Jerry Sternin, um americano que trabalhava numa organização internacional de ajuda a crianças desfavorecidas, Save the Children é convidado pelo governo para ir até ao Vietnam, ajudar a combater o problema da subnutrição das crianças.

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Pelas razões óbvias, a recepção não foi muito calorosa, podendo mesmo dizer-se que foi muito fria. O Ministro dos negócios Estrangeiros, deu-lhe “6 meses para marcar a diferença”.

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Jerry deve ter pensado – 6 meses para encontrar uma solução para um problema tão difícil de resolver? Com uma pequena equipa local e recurso escassos?

Tinha lido tudo sobre subnutrição e sabia que a mesma resultava de um conjunto de problemas complexos.

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Ele sabia que esta análise e a sabedoria que daí vinha, era VMI, verdadeira, mas inútil. Os milhões de crianças do Vietnam não podiam esperar que cada um dos problemas se resolvesse em 6 meses e sem dinheiro.

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Então teve uma ideia. Vamos lá determinar o nosso ponto de partida, a nossa realidade. Dirigiu-se a algumas aldeias e com a sua equipa mediu e pesou todas as crianças que por lá viviam.

Jerry não era profissional de saúde, mas queria obter Ganhos em Saúde e sentia ser esperança de tantos milhões de crianças.

Blog MAP P78

Em conjunto com a sua equipa vietnamita, analisaram e estudaram os dados cuidadosamente. Então Jerry lembrou-se de formular uma pergunta, que haveria de mudar a subnutrição naquele país – Encontraram alguma criança muito pobre, mas maior e mais saudável que uma criança típica?

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E a resposta foi surpreendente – Có, Có, que na língua vietnamita quer dizer, Sim, Sim.

Jerry pôs os pés ao caminho e foi observar de perto o que se fazia nessas aldeias onde havia crianças pobres, maiores e mais saudáveis.

Blog MAP P80

A equipa eliminou “outliers” e foi para o terreno perceber o que faziam as mães para terem crianças maiores e mais saudáveis. Na realidade foram na demanda das boas práticas que provaram originar ganhos.

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Curiosamente descobriram que as crianças maiores e mais saudáveis comiam exactamente a mesma porção de comida, mas em quatro refeições, em vez de apenas duas, porque os estômagos subnutridos não conseguem processar tanta comida de uma só vez.

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Jerry percebeu ainda outra coisa. Os pais das crianças maiores e mais saudáveis, obrigavam os seus filhos a comer e até lhes davam a comida à boca se fosse preciso; percebeu também que esses pais juntavam ao arroz, camarões e caranguejos que apanhavam nos arrozais, alimentos não recomendados para crianças; e pasme-se, folhas de batata-doce, alimento considerado inferior.

Estes improvisos maternais, inferiores ou não, estavam a fazer a diferença porque acrescentavam à dieta, as proteínas e as vitaminas necessárias.

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Jerry tinha encontrado a solução, com o apoio dos locais, do seu saber e experiência. Sabia que não devia anunciar aos quatro ventos o que tinha conseguido porque o seu objectivo era resolver o problema e não produzir um dossier com a solução e ser o centro das atenções pela descoberta.

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Sabia que esse não era o caminho, porque acreditava que falar com as mães sobre a subnutrição não fazia com que mudassem o que faziam. Jerry defendia que “o conhecimento por si só, não muda comportamentos”. Ele sabia que todos nós já tínhamos encontrado médicos com factores de risco ou mesmo conselheiros matrimoniais divorciados.

Ele sabia que tinha de passar à prática.

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Então “pegaram” num número de famílias e reuniam-se todos os dias numa choupana diferente, para cozinharem. Pediam às mães para trazerem camarão, caranguejos e folhas de batata-doce. O importante é que as mães sentiam que se comportavam à sua maneira, mas com uma nova forma de pensar. Jerry estava ali apenas para ajudá-las a perceber que eram capazes de fazer a diferença, de combater sozinhas o problema da subnutrição.

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O calendário cumpriu-se e seis meses depois Jerry teve de partir. Deixou cerca de 65% das crianças mais bem nutridas. O sucesso espalhou-se e o programa que Jerry desenvolveu atingiu cerca de 2,5 milhões de crianças em cerca de 265 aldeias.

Blog MAP P87

Ganhos em Saúde. Claro, Jerry conseguiu com uma pequena equipa e recursos financeiros muito limitados. Além do mais não eram peritos e não chegaram com as respostas, mas apenas com a vontade de mudar.

 

Resisti, ao longo da história, a fazer um paralelismo com a realidade nacional, por que penso que a simplicidade do que aconteceu é por si só explicativa.

O que torna interessante esta abordagem é o facto de não serem os peritos numa matéria a resolver sozinhos os problemas, mas terem a atitude de trazerem outros profissionais, muito focados em olhar para os problemas de uma perspectiva diferente.

Todos podemos ajudar e é isso que temos feito junto às equipas, quer na diabetes, quer na DPOC, como exemplo.

Claramente todos devemos ter esse papel e os profissionais das equipas que estão nos ACES, nas USF e nas UCSP, devem estabelecer parcerias com outros saberes, para em conjunto atingirem Ganhos em Saúde.

Há muitas barreiras e grande parte delas são internas, existem nas unidades de saúde dos CSP, nos hospitais e na própria IF, que pode ter um papel fundamental neste processo. Ganhos em saúde não choca com o papel da Indústria Farmacêutica.

Antes de Jerry chegar ao Vietnam, ninguém acreditava ser possível resolver o problema, quanto mais em tão pouco tempo. Não estaremos na mesma aqui em Portugal, não acreditando que podemos contribuir e trabalhar com as equipas das unidades, para obter ganhos em Saúde?

Conhecimento não muda comportamentos, mas esta nossa metodologia, pode ajudar. E há muito para fazer. Não deixe que a sua resposta seja a indiferença e a frieza à ideia…

 

(História baseada no livro, Switch – Como Mudar Quando a Mudança é Difícil de Dan Heath, Chip Heath, 2011 da Arcádia)

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