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Onde começa e onde acaba?

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Aqui vos deixo um novo post da Enfermeira Ana Maria Sousa.

A propósito de um determinado perfil de enfermeiras competentes, que os doentes reconhecem e lhes/nos dizem:

Srª Enfermeira, faz isto tão bem! se tivesse estudado mais um bocadinho até podia ser doutora!

2016-03-15 11_35_29

 O Sistema de Saúde, é porventura uma das áreas sócio económicas de maior complexidade, desde logo pela elevada heterogeneidade de profissionais que nela se ‘digladiam’. Para além dessa diversidade de movimentos corporativos, as unidades de saúde, mais concretamente os hospitais, são organizações altamente complexas para a Gestão. São também os hospitais e todas as actividades a eles associadas, que consomem a maior parte dos recursos financeiros do Orçamento do Ministério da Saúde. O ‘Hospital’ tem sido analisado em termos sociológicos por Graça Carapinheiro ou Noémia Lopes como um espaço de exercício de poder (falsos poderes), como um contexto profissional que traduz a visão social das profissões, como microcosmo da realidade pública bem como laboratório experimental do desenvolvimento conflituante dos profissionais de saúde.

O ‘Hospital’, este verdadeiro elefante do Sistema de Saúde, é de facto onde as profissões mais crescem e se afirmam. Decorrente deste legado histórico-cultural sentimos como enfermeiras que o nosso lugar é nos hospitais. Generalizando, e com isso assumir que provavelmente serei injusta, tipicamente o nosso percurso profissional tinha a seguinte configuração: terminávamos o curso, íamos trabalhar para um hospital, de preferência em serviços ‘de ponta’ (urgência ou cuidados intensivos). Os serviços de internamento seriam uma segunda escolha, sendo as ‘medicinas’ tradicionalmente a derradeira opção/punição. Ainda sem a rede nacional de cuidados continuados integrados, os lares surgiam como local para ‘ir fazer umas horas’, e os centros de saúde a alternativa para trabalhar mais perto de casa ou em horário fixo, tipicamente em fase final de carreira. Podemos caracterizar as últimas 3 décadas em 3 fases: nos anos 80 os ‘duplos’ faziam-se sobretudo em clínicas cirúrgicas de pequena dimensão, centros de enfermagem ou postos de colheitas de análises; nos anos 90 os ‘duplos’ ocorriam em unidades cirúrgicas de maior dimensão e em hospitais privados, sendo que no final da década de 90 os duplos eram tão frequentes que alguns hospitais ajustavam os horários de início dos turnos para haver tempo de ‘ir de um lado para o outro’. Com a viragem do milénio a possibilidade de ter um ‘bom duplo’ reduziu drasticamente, quer em termos remuneratórios quer em termos de oportunidades. Se a decisão individual de fazer duplo é seguramente legítima e em muitos casos financeiramente compreensível, esse movimento da nossa profissão de ‘ir de um lado para o outro’ tornou-nos de alguma forma «descartáveis». Focadas numa visão de curso prazo, abdicamos (in)conscientemente ou não, de consolidar o que é domínio exclusivo das enfermeiras. Fomos fazendo um pouco de tudo. De médicos e de auxiliares. Sempre na estrita dependência da organização do trabalho médico (apesar dos discursos do modelo holísticos em vez do modelo biomédico, ou do método de trabalho individual em vez da organização por tarefas). Desta forma o desenvolvimento da nossa profissão foi (des)norteado de forma paradoxal. Pretendemos cuidar de forma personalizada, próximo dos doentes, atendendo às suas especificidades, recorrendo ao toque e relação de/que ajuda. O Hospital quer tratar as doenças de forma massificada, em função dos GDH (Grupo de diagnóstico homogéneo) e respectivo quadro clínico, com cada vez mais híper-tecnologia impessoal.

Acresce a este paradoxo a recorrente carência de enfermeiras para cuidar/tratar dos doentes (há que excluir para esta contagem as enfermeiras chefes de serviço, responsáveis de ‘sectores’, coordenadoras disto e daquilo, chefes de equipa, as famosas enfermeiras de ‘gabinete’).

Nesta absoluta confusão de referencial profissional, verifico que como enfermeiras dividimo-nos em três subgrupos (uma vez mais posso ser injusta com esta estratificação).

1) as enfermeiras que gostam muito dos doentinhos, são muito simpáticas, pedem desculpa porque a injecção ‘vai doer um bocadinho’, cumprem as rotinas dos seus turnos, tratam os doentes por diminutivos (avozinho ou doentinho ou queridinho) e frequentemente são tratadas por ‘meninas’, tratam as assistentes operacionais por ‘tu cá tu lá’, sempre prestáveis para parar o que estão a fazer e (s)ocorrer aos pedidos dos srs doutores com uma simpatia subserviente de quem vê nessa sua disponibilidade o reconhecimento do seu valor; já não usam quepe mas algumas andam de avental de plástico. Arriscam-se a não sair da ‘cepa torta’!

2) as enfermeiras que gostam muito das mini tarefas médicas, adoram saber os resultados das análises… potássio a menos ou PCR (Proteína C reactiva) elevada, contam os dias da última revisão terapêutica e são capazes de desafiar qualquer interno para identificar erros de prescrição de medicamentos, dão mais valor aos iões do soro do que ao olhar de quem o recebe, fazem grandes divagações sobre fisiopatologia mas desconhecem modelos de enfermagem, exímias nas técnicas dissonantes na relação terapêutica, rejubilam com Harrison desconhecem Meleis. Estas arriscam-se a serem chefes!

3) as enfermeiras que gostam muito de planos de cuidados, privilegiam as actividades autónomas de enfermagem, procuram fundamentar as diversas acções que desenvolvem, incorporam na sua prática a vivência que a pessoa tem da situação de doente, envolvem os familiares partilhando informação relevante e adequada, centram as suas acções mais na promoção da autonomia e menos do cumprimento das prescrições, incorporam nas discussões das equipas os processos de adaptação da pessoa/doente às circunstancias da vida. Frequentemente rotuladas de ‘trabalharem pouco’ estas arriscam–se a serem progressivamente excluídas.

Esta heterogeneidade de comportamento no nosso grupo profissional com inevitáveis diferentes intérpretes, traduz-se também em distintas representações sociais da nossa profissão. O legado histórico que carregamos da híper subserviência feminina religiosa, não tem sido compensado pela afirmação consistente de autonomia. Para o cidadão comum a estratificação social depende em grande parte da formação académica de cada profissão, consubstanciando a tradicional (apesar de cada vez menos verificável) relação entre mais formação académica, melhor emprego e mais estável, e melhor remuneração.

E por isso a frase: «se tivesse estudado mais um bocadinho até podia ser doutora» faz todo o sentido, assim como fazem todo o sentido as reacções, por vezes, diametralmente opostas de quem as ouve/deglute.

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