Market Access Portugal

Onde começa e onde acaba?

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Não, não sou eu que o digo, apenas ouvi dizer que “Os médicos caíram nas mãos da indústria farmacêutica e isso deve-se em parte ao marketing desenvolvido pelas empresas, a alguma falta de honestidade e ao facto de os médicos aspirarem ter uma casa na praia…”. Mas quem disse isto, em Março de 2016?

E disse mais, referindo que falava sobre a realidade do seu país, onde os médicos aspiram ter uma casa na praia em particular na zona de Santander, a zona mais bonita e apetecível para esse efeito.

Quem o diz é Joaquin Lamela Lopez, Pneumologista espanhol, convidado do 23º Congresso de Pneumologia do Norte, que se realizou no Porto, de 3 a 4 de Março. O tema da conferência de encerramento desde prelector foi, “Relación de los médicos con la industria farmacêutica”.

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Sociedades médicas, se muitas desaparecessem não se perderia nada

Interessante também o que o especialista refere sobre a formação. “Os cursos de formação contínua são apesar de tudo a aposta mais gratificante e a acção que mais privilegiam”. Mas, questiona, o aproveitamento desses cursos. “Não sei se são cursos – fazem-se em hotéis fantásticos com pequenos-almoços fenomenais, falando das doenças em salas com champanhe…, mas isto é culpa das empresas que o permitem”.

Ainda sobre a formação, falou sobre o financiamento de cursos, “os médicos dependem quase exclusivamente da Indústria Farmacêutica”, assim como o financiamento das sociedades médicas, sobre as quais tem uma opinião peculiar – quase todas que existem em Espanha são patrocinadas pela indústria. “Mas se não é a Indústria a financiá-las, quem o fará?  Creio que que há demasiadas sociedades médicas financiadas, no entanto, se muitas desaparecessem não se perderia nada”.

Este líder de opinião tem uma visão própria sobre os “líderes de opinião” convidados pelas empresas farmacêuticas. Na sua ideia, eles são criados pela própria indústria, não porque gostem deles, mas porque lhes interessa, ainda que não seja assim com todos.

Não me querendo estender mais no que foi dito, o orador considerou ainda que, de uma forma geral, há apenas dois tipos de pessoas que não se corrompem, “os que não necessitam e os que não são solicitados para isso”.

Nunca esqueci um célebre pensamento de William Edwards Deming, que nem me atrevo a traduzir para não ter tentações – “Without data you’re just another person with an opinion”.

Quando numa palestra sobre a relação dos médicos com a Industria Farmacêutica, que é suportada pela Industria Farmacêutica e apenas se houve falar de questões que lançam sobre os médicos e a IF um manto de obscurantismo e corrupção, fico a pensar se nada de bom foi feito, na relação da IF com os Médicos, que possa ser apresentado nestas palestras?

Fico a pensar de quantos médicos estamos a falar ou de quantas companhias farmacêuticas? Fico a pensar quantos médicos, por medo ou outro sentimento fecham a porta à IF e a quem quer ter uma boa relação de trabalho. Fico a pensar que, sem dados concretos, respeito a opinião deste orador, mas nada mais do que isso.

 

Ligações Perigosas em Portugal

Este assunto não é totalmente desconhecido em Portugal, a não ser que andemos todos a dormir ou que tenhamos o hábito de não ler, preferindo expressar argumentos baseados nas percepções que adquirimos em conversas por aí ou por ali.

Há quem tenha estudado, mal ou bem e antes da crise de 2008, o tema e que publicou na Acta Medica Port 2005; 18: 61-68, sobre o título de “Ligações Perigosas – Os Médicos e os Delegados de Informação Médica”. A autora, Mónica Granja, trabalhava na altura no Centro de Saúde da Senhora da Hora, ULS de Matosinhos.

(http://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/1002/671)

Apesar de aconselhar a leitura, em jeito de resumo a autora diz que “A maioria dos médicos acredita firmemente que é imune à influência dos delegados de informação médica, mas os estudos realizados apontam precisamente em sentido contrário.

As relações entre os médicos e os Laboratórios Farmacêuticos, mesmo quando legítimas à luz da legislação vigente, levantam questões éticas e científicas.

A frequência com que os médicos portugueses (especialmente os médicos de família) são visitados por delegados, aparentemente muito superior à de países como os Estados Unidos da América ou o Canadá, torna esta questão de primordial importância neste país.”

 

Cautela com os DIM’s

Antes deste estudo ter sido publicado, dois médicos da mesma região, Miguel Melo e Raquel Braga, publicam na Revista Portuguesa do Clinico Geral 2003;19:503-9, o artigo “As visitas dos delegados de informação médica: qual a utilidade da sua informação?

(http://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/9972/9710)

Fica aqui um pouco da conclusão, apesar de aconselhar a leitura, ainda actual, deste artigo. “Os DIM modificam hábitos de prescrição médica. Um bom DIM é especialista nos medicamentos que promove e pode rapidamente fornecer informação útil acerca destes. A mensagem-chave veiculada é «prescreva o meu produto», sendo esta muitas vezes suportada por argumentos racionais e envolvida em apelos emocionais e falácias lógicas.

A principal limitação deste tipo de informação é a isenção, principalmente acerca de quando prescrever. No entanto, quando a informação é analisada/tratada de uma forma activa e crítica, pode constituir uma boa fonte de informação para um médico atarefado. Os médicos devem ser cautelosos acerca da informação transmitida pelos DIM.”

 

O Disease Mongering

Mais recentemente a IF depara-se com um novo síndrome que circula por entre os médicos – o Disease Mongering, o crescente fenómeno de promoção da doença.

Numa dissertação de mestrado de Fevereiro de 2013, Inês Aroso Linhares, diz-nos que “o crescente fenómeno de promoção da doença (Disease Mongering) está a transformar a saúde num bem de consumo, apoiando-se em estratégias, entre as quais as de marketing, geridas por interesses económicos. Tomam parte neste processo, não só a Indústria Farmacêutica, mas também os responsáveis pela política de saúde e a classe médica”.

(https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/29151/1/TESE%20disease%20mongering%20-%20final.pdf)

Não querendo descontextualizar e por isso aconselho a leitura, a autora afirma que “Este marketing do medo faz com que sintomas físicos ou emocionais, anteriormente considerados normais, sejam considerados como problemas a medicar, surgindo assim o conceito de medicalização, e este a exprimir uma tendência crescente. Deste modo, transformam-se indivíduos saudáveis em “doentes”, causando eventuais danos iatrogénicos e levando a um gasto de recursos desnecessário”.

 

Poderia continuar a fazer “copy/past” de afirmações que caracterizam a falta de confiança dos médicos na IF em Portugal, mas é mais importante avançar, porque são cada vez mais os médicos que não querem receber a IF e quando avaliamos as razões, se não forem rebatidas, compreendemos porque não querem sair daquela posição.

O que devemos começar a trabalhar é na forma como aumentamos a Reputação e a Imagem da IF em Portugal, porque é de Reputação junto ao seu público que falamos. É preciso encontrar uma forma de aproximar os novos médicos à IF actual e isso obriga a perceber o que são hoje os médicos e o que precisam, não esquecendo que o médico actual não se encontra isolado, mas inserido numa organização, que por vezes já não quer receber o DIM, como algumas USF e ACES em Portugal.

 

O que pensam os Médicos

Não se estuda o fenómeno em Portugal, mas conseguimos aprender com a experiência dos outros.

Em Outubro de 2015, um Survey efectuado pela Binley’s no Reino Unido a 551 médicos, conclui que 43% têm um sentimento negativo sobre a Indústria acreditando que a agenda das companhias farmacêuticas é demasiado focada nas vendas e no marketing. No mesmo Survey, 23% dos inquiridos dizem que a IF não compreende as necessidades e os desafios dos médicos no seu dia-a-dia. E numa forma mais focada, 17% dos médicos afirma que a IF não percebe as pressões financeiras e do orçamento que determinam as decisões de prescrição. Será diferente em Portugal?

As regras da visita médica e do que pode ser feito com os médicos em termos de formação, começam a ser determinadas nos ACES. Quando a nova geração de médicos, enfermeiros ou gestores, chegar às unidades de saúde dos CSP (e já chegou a algumas), a IF/DIM ou sabe entrar ou sai. O que está em jogo, o que preocupa todos e motiva estes artigos e respostas é em que medida a IF influencia a prescrição e a prática médica.

A controvérsia é grande, mas vamos assistindo ao aumento das limitações de interacção entre a IF e os Médicos, nos hospitais e nas unidades de saúde. Esta questão foi tão exacerbada que um grupo de médicos americanos enviou uma carta para a Casa Branca pedindo a promulgação de uma lei para forçar a divulgação pública dos pagamentos da IF aos médicos. Já cá temos isso na célebre plataforma do Infarmed. E com a divulgação pública, vamos influenciar essa massa amorfa, enorme e imprevisível da opinião pública, onde por vezes a ignorância, a inveja e a necessidade de protagonismo leva a que os assuntos sejam abordados pela superfície e pela notícia fácil. Hoje não são possíveis certas práticas e a IF tem de repensar a sua forma de actuação, desde a investigação até ao apoio que dá ao doente. Já nada escapa num mundo que está interligado com a rapidez de nano-segundos.

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Cada vez mais a tecnologia e o conhecimento permitem ver para além do que a vista alcança e expor à dita opinião publica todas as “leaks” da IF. E quando chega ao público, ao doente, a reputação da IF também não está melhor.

 

O que pensam os Doentes

Os estudos repetem-se e são unânimes nas conclusões – é preciso recuperar o que todos pensam da IF, ou seja tratar a reputação do sector. Os resultados de um artigo publicado na PatientView Quarterly, em Janeiro de 2013, “The Corporate Reputation of Pharma – The Patient Perspective”, não devem constituir uma surpresa. Avaliou-se a opinião de 600 doentes, sobre a reputação corporativa da indústria farmacêutica em geral e de 29 das principais companhias farmacêuticas, em particular. (72% das respostas da Europa e 19% dos EUA).

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Melhor que as minhas palavras, deixo-vos algumas imagens, onde a IF em termos de reputação, foi sétima em 8 dos sectores de saúde avaliados. Apenas 34% dos entrevistados deram uma “boa” ou “excelente” classificação no domínio da reputação.

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O que é que provoca esta visão negativa dos doentes sobre a IF? Listaram um conjunto de áreas onde a IF foi avaliada com um registo de “pobre”.

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E em Portugal, como estamos a este nível? Na verdade, não conheço muitos estudos sobre esta matéria e o que tenho para exemplificar remonta a 2011 e é apelidado de “Relatório Estudo Barómetro, B.O.P. Health: os Portugueses e a Saúde, 3ª Vaga (Setembro 2011)”, efectuado pela Spirituc, Investigação Aplicada. Os resultados são expressivos e deixo-vos até, sem comentários.

 

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Ainda mais recente

A Patient View voltou a publicar no dia 10 de Março de 2016, “The corporate reputation of the pharmaceutical industry in 2015—the patient perspective (5th edition)”. https://alexwyke.wordpress.com/2016/03/10/the-corporate-reputation-of-the-pharmaceutical-industry-the-patient-perspective-5th-edition-report-published-by-patientview-2/

Transcrevo apenas o que considero fundamental ter na memória. Para efeitos do presente relatório, a frase “a reputação corporativa” é definida como a medida em que os laboratórios farmacêuticos estão indo ao encontro das expectativas dos doentes e suas associações. Os seis indicadores de reputação corporativa:

 

  1. Patient-Centricity
  2. Informação para o Doente
  3. Segurança do Doente
  4. Produtos eficazes/úteis
  5. Transparência
  6. Integridade

 

A IF desempenha um papel único na área da saúde. A descoberta e o desenvolvimento de novos fármacos é em grande parte impulsionado pelo investimento da IF. Todos esperamos que surjam tratamentos para o Cancro, para o Alzheimer e para tantas outras doenças. Será decerto este sector, a IF a estar por detrás desses avanços. Mas o ataque à credibilidade da indústria e ao seu relacionamento com o médico e o doente, minimiza e destrói o que de bom se faz. É preciso mudar e aplicar medidas inovadoras, necessárias para alterar esta percepção negativa.

 

Começar a andar em direcção ao Futuro

Todos vamos olhar para o Patient Centricity e colocar este assunto na ordem do dia e dos planos dos produtos. Haverá dezenas de produtos e soluções à venda para a IF comprar, que vão reclamar e garantir esta coisa da Centricity.

Sei que os experts me vão cair em cima, mas não nos enganemos, não há esta coisa do Patient Centricity se não houver médicos. São eles os drivers desta tendência e sem uma reputação impecável junto a esta classe, nada feito. Esta reputação conquista-se junto dos dirigentes, no topo dos ACES, nas coordenações das USF e das UCSP, Administrações e Direcções de Serviços Hospitalares, Sociedades Cientificas e farmácias, ou seja, junto a quem todos os dias tenta liderar pelo trabalho e pela qualidade do serviço prestado, os CSP e CH em Portugal. Depois, médico a médico, enfermeiro a enfermeiro, farmacêutico a farmacêutico, a IF deve complementar o trabalho através da construção da confiança e depois de propostas que atribuam valor ao trabalho dos profissionais e contribuam para o objectivo, que é uma melhor saúde.

Esse é o nosso trabalho todos os dias e a razão de ser deste blog. Esperamos um dia, no fim de um qualquer congresso, a palestra sobre a relação dos Médios com a Industria, tenha outro fim que não o título deste post.  É preciso começar a andar em direcção ao Futuro.

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