Market Access Portugal

Onde começa e onde acaba?

Lê-se em 5 minutos

 

Ao folhear uma revista de comunicação interna de uma prestigiada marca de bebidas, deparei-me com um novo termo – FlexEfficiency.

Achei a expressão curiosa e fui investigar a sua origem…

Interessante verificar que mais uma vez a indústria surge como berço da inovação e de novos conceitos. Neste caso, na General Electric (GE), com a criação de enormes geradores de energia que entram em funcionamento quando o vento não sopra ou quando o Sol não brilha, desligando-se quando as energias renováveis estão disponíveis, permitindo assim potenciar ao máximo o uso dessas energias, só usando o gerador quando estritamente necessário.

Para a GE, “FlexEfficiency é a combinação poderosa da eficiência e da flexibilidade operacional. A GE acredita que os produtores e operadores podem gerar electricidade mais custo-efectiva se incluírem considerações de flexibilidade e eficiência na avaliação dos seus modelos, e denominou este conceito de FlexEfficiency.”

De volta à revista da Coca-Cola, e com o mesmo conceito inerente ao da GE, pode ler-se numa página que ”FlexEfficiency é o conceito que define um novo modelo de gestão que, aplicado em todos os processos de trabalho, deve permitir compatibilizar dois objectivos: actuar com flexibilidade para adaptarmo-nos às necessidades do mercado e manter os melhores indicadores de eficiência”.

Não pude deixar de pensar na transposição deste conceito para a Saúde. Aliás, são vários os conceitos (por exemplo o caso do “Lean”, que começou na Toyota) que começaram nas mais variadas indústrias e depois foram transportados e adaptados para a Saúde.

Mas, será actualmente a gestão da saúde FlexEfficient? E deverá ser? Flexível ao ponto de se adaptar às necessidades do mercado e manter os melhores indicadores de eficiência? E a forma de pensar e actuar de todos os que com a Saúde interagem, também é FlexEfficient?

Para responder a estas questões, analisemos alguns pontos, com exemplos.

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Flexibilidade

O conceito de flexibilidade está normalmente associado à capacidade de um indivíduo se “dobrar sem partir” ou de se esticar sem que daí resultem danos ou lesões.

Em termos profissionais, esta palavra está ligada à capacidade que cada pessoa ou cada instituição tem de se adaptar às diferentes realidades onde está inserida.

E na Saúde, será que os Hospitais e os Cuidados Saúde Primários estão adaptados às necessidades do “mercado”?

Estão os profissionais de saúde preparados para a flexibilidade e para o que isso implica? Para saírem da sua zona de conforto e do seu corporativismo para se adaptarem ao que o “mercado” exige?

Não querendo entrar em discussão ou polémica sobre o poder “dos mercados” que hoje tanto nos impactam no nosso dia-a-dia, a verdade é que o mercado existe; e em última análise o “mercado” de uma USF, de um ACES ou de um Hospital, não é mais do que o conjunto de pessoas a ele “alocadas” e que aí se deslocam para obter os seus cuidados de saúde, sejam eles preventivos, curativos ou outros.

É este “mercado” que traduz a prevalência e a incidência das doenças, que determina a componente epidemiológica da população servida e a que a instituição de Saúde deve responder. Contudo, quantas são as Unidades Funcionais que estão adequadas a responder ao verdadeiro perfil epidemiológico, se não existe um verdadeiro conhecimento da população? Porque é que a maioria das USF insiste em ter consulta de Hipertensão ou de Diabetes? Não fará mais sentido pensar numa consulta de Risco Cardiovascular? É que normalmente o doente diabético, também é hipertenso, muitas vezes fuma e tem maioritariamente dislipidémia. A prevalência destas doenças não é igual em todo o lado… pelo que a oferta (de serviços de saúde) se tem de adequar à procura (mercado), isto é, a unidade tem de ter a flexibilidade para se adaptar à realidade da sua população.

Durante os últimos 5 anos desenvolvemos dezenas de Workshops junto de USFs e ACES que permitiram fazer uma caracterização epidemiológica da população, para em seguida, e de acordo com a capacidade da Unidade traçar as estratégias em saúde a implementar. Propusemos igualmente e ajudamos a implementar uma consulta de risco CV, indo ao encontro da avaliação feita pela Unidade Funcional. A flexibilidade em Saúde deve por isso ser uma função do “mercado”, devendo as Unidades Funcionais adaptar-se às suas necessidades.

 

Eficiência

Eficiência não é mais do que atingir o melhor resultado possível gastando o menor esforço, seja ele traduzido em recursos humanos, financeiros ou outros.

Num medicamento a eficiência traduz-se na medição do atingimento do resultado versus o custo associado, isto é, procuramos que ele produza o seu efeito ao menor custo possível.

No entanto, quando falamos de indicadores de eficiência, em particular em Saúde e nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), o conceito de eficiência é peculiar. Se analisarmos os indicadores de contratualização dos CSP verificamos que os indicadores de eficiência apenas medem o gasto com medicamentos e MCDTs, isto é, apenas avaliam o gasto sem perceber se os resultados (em saúde) estão a ser atingidos, ou se são os melhores possíveis.

Serão então assim estes os indicadores de eficiência os mais indicados e corresponderão à necessidade de avaliação dos ganhos em saúde?

Com este pequeno, mas ilustrativo exemplo, fica claro que a medição de eficiência não está a ser feita da forma mais correcta.

Voltando à pergunta central, será a Saúde em Portugal FlexEfficient?

Na minha opinião, não!

Mas, poderá ou deverá a gestão da saúde ser FlexEfficient?

Na minha opinião, sim!

Como?

Uma nova forma de pensar Saúde

Há cerca de 2 anos iniciamos um projecto na diabetes que visava potenciar ganhos em saúde através do desenho e implementação de um programa assistencial na área da diabetes, em linha com as melhores práticas, que permitisse um maior controlo dos doentes diagnosticados e uma consequente minimização de complicações clínicas futuras.

Para isso desenvolvemos metodologias que permitem “radiografar” as populações locais e descrevê-las epidemiologicamente, isto é termos um ponto de partida. Sem isso, não é possível fazer uma correcta avaliação.

Não é por exemplo, e continuando na diabetes, com os números disponibilizados pelo Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes que conseguimos saber a prevalência de diabetes na USF X ou Y. Os dados do Observatório são insuficientes para esta análise local, necessária para uma verdadeira FlexEfficiency. E a diabetes é a patologia que dispõe de mais dados, outras doenças como a DPOC, não tem a mesma quantidade, nem sequer qualidade de dados. É por isso necessário adoptar novas metodologias que permitam a caracterização local de cada Unidade Funcional.

No entanto, continuamos a ver diariamente muitos projectos todos “XPTO”, muitos deles pensados e/ou patrocinados pela Indústria Farmacêutica, que continuam a fazer o que sempre foi feito.

Está na altura de tanto a Indústria Farmacêutica como os Profissionais de Saúde evoluírem e terem uma nova forma de pensar saúde, mais FlexEfficient.

Nos próximos posts iremos dar mais pistas sobre este novo pensamento, sobre esta “nova inteligência”.

Como disse Fernando Pessoa em 1927 sobre um novo conceito, “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.”

2 thoughts on ““Primeiro estranha-se, depois entranha-se”

  1. biopet diz:

    Não posso deixar de concordar com a importância de, não obstante haver estratégias nacionais, ser essencial termos a capacidade de flexibilidade para cada realidade. Para isso é fundamental que se gere conhecimento a parto dos dados em saúde. Se olharmos para os documentos dos observatórios dos programas de doenças colo a diabetes ou como as doenças respiratórias, questiono – me porque motivo só aparecem dados por ARS Por outro lado convém relembrar um alerta que a WHO tem deixado em algumas áreas da saúde, e que se prende com o risco de , quando queremos replicar modelos organizacionais entre países e mesmo dentro de cada país Não podemos esquecer o impacto que variáveis como a Cultura, recursos humanos e modelos de financiamento podem ter na resposta dos dos servidos de saúde. Por isso em resumo, importa olhar para a realidade local, e a partir daí exercitar a tal flexibilidade em busca de maior eficiência.

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  2. Alexandre diz:

    Flexibilidade e eficiência em saúde têm contornos específicos que devem ser considerandos quando procedemos a “tentativas de avaliação”.
    Em Portugal quando se fala em flexibilidade em saúde, ‘pensamos’ novos medicamentos para velhas doenças, ou diferente formas de organizar as equipas de profissionais.
    Quando se fala em eficiência, ‘pensamos’ em medicamentos menos caros para essas doenças.
    Um destes dias falaremos de literária em saúde, educação e educação para a saúde e estilos de vida saudáveis.

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